INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Vinho e rosas

"Toma uma taça de vinho
e vai bebê-la ao luar
- a lua, no seu regresso
pode já não te encontrar."

"Ergue um cantico festivo
e consagra, em voz sonora
o vinho da tua taça
aos rubros clarões da aurora."

("Robaiyat")

Não tenho qualquer relutância ou repugnância em comprar ou manusear livros antigos, não sou um coleccionador nem especulador, e apenas me interessam os livros pelo seu conteúdo literário ou gráfico. Nas lojas e feiras de velharias, acaba-se sempre por encontrar algo de interesse, desde que se esteja disposto a despender algum (por vezes, muito) tempo à procura. Na última vez que fui á feira de velharias que se realiza no parque das Caldas da Rainha, entre várias aquisições por atacado de livros semi-novos, comprei por dois euros um pequeno livrinho que considerei um achado: O "Robaiyat - Quadras de Omar Khayyam, Poeta Persa do Século XI".
Já tenho na estante uma edição, moderna, do Rubayat, mas esta edição de 1927 (da Empresa Diário de Notícias), reservava algumas surpresas. Começa por ser uma tradução (suponho que do francês, e não do persa) realizada por Gomes Monteiro, o poeta e romancista de Boticas, depois, cada capítulo em que a obra está dividida abre com uma pequena e preciosa ilustração em estilo Arte Nova. Quando tudo isto eram motivos de sobra para justificar a aquisição, encontro um novo elemento adicional. A servir de marcador de livro, estão dois recortes de jornal deixados pelo dono anterior, o primeiro, um pequeno quadrado a negro com letras brancas, assinala uma fatalidade: "Morreu o poeta Ary dos Santos", a pequena nótula jornalística exprimia o essencial e no verso, escrito a caneta, a data: "19-1-84", e uma mensagem pessoal: "um dia negro"
No segundo recorte, também com a data escrita no verso, 20-1-84, pode ler-se um artigo mais extenso sobre a vida e a carreira do poeta. Algumas palavras do artigo emergem diante dos olhos: "Morreu o poeta. Calou-se a voz do sonho (...) Ary dos Santos, que já há algum tempo se mantinha afastado das suas actividades devido a uma doença prolongada, foi agora surpreendido pela morte, apenas com 47 anos de idade. O escritor preparava-se para editar um romance autobiográfico em dois volumes, intitulado "Estrada da Luz - Rua da Saudade", evocativo da rua onde nasceu, em 7 de Dezembro de 1936 e, também, da sua última residência (...) Ary dos Santos - o homem - morreu. Ary dos Santos, o poeta, declamador e irreverente, esse conseguiu, como muitos poucos, abrir as portas da eternidade".
Os dois recortes e o Rubayat, achei adequado e coerente, o Rubayat fala, como muitas poucas obras, da vida e da dissipação, do desejo de glória e de eternidade, e da fatuidade desse desejo e das vidas que se consomem na sua busca. A poesia, como a vida, resolve-se em nada e possui a importância, que nós lhe concedemos. Se vive através de nós, como soi dizer-se, morre de formas diversas com a nossa ignorância e desleixo.
Bebamos um copo de vinho, mais que não seja, pelo vinho que se bebe! E ouçamos Khayyam:

"Os homens, feras e flores
são sombras de aspecto baço,
e todo este mundo enorme,
um grão de areia no espaço."

"A vida é um jogo enfadonho,
e, seja qual fôr a sorte,
nele podemos ganhar
apenas a dôr e a morte."

"Renascerás tu numa flôr
toda cercada de espinhos?
ou brotarás na herva humilde
das valetas dos caminhos?"


("Robaiyat")

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...