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Um ambiente simples, alguns objectos e móveis sumários, uma mesa de jantar com dois bancos, um bengaleiro, e uma cama de viés a um canto, onde alguém dorme sob os lençóis (ouve-se o seu ressonar, ritmado e persistente).
Um homem escreve a uma mesa, tem várias folhas á frente e dedilha numa calculadora. Entra uma mulher, baixa e obesa, com um espanador na mão e um avental.
- Estou preocupado consigo, o senhor não parece bem.
O homem faz um estalido com a língua, pega nas folhas e agita-as no ar.
- É de matar a cabeça, contas e mais contas, são as mesmas de sempre, mas agora puseram-me em lay-off, trabalho menos e recebo menos, eles dizem que são sessenta e cinco por cento do ordenado, mas, para mim, vai ficar pela metade. Vou ter de fazer alguns cortes, e se calhar vou ter de passar sem si durante uns meses, eu mesmo farei as limpezas e tratarei da roupa.
- Não pense nisso, você é a única pessoa do mundo em regime de lay-off, e farei uma excepção por si. Continuarei a limpar-lhe a casa e a engomar a roupa, e não quero um único cêntimo pelo trabalho.
- Não sei como agradecer, eu...
Ouve-se bater à porta, a mulher-a-dias sai da divisão, ouve-se umas vozes e ela regressa, seguida por seis pessoas, entre elas, uma mulher de mini-saia e óculos de aros redondos.
- A que devo a honra?
- Eu primeiro - adianta-se um deles, estendendo-lhe a mão - represento o Banco onde o senhor tem a hipoteca da casa...
- Mas eu não falhei nenhuma mensalidade!
- Claro que não, acontece que nós soubemos que o senhor acaba de entrar em regime de lay-off, e em virtude disso o Banco decidiu reduzir em trinta e cinco por cento o valor que o senhor nos paga todos os meses, e isto por tempo indeterminado e sem custos adicionais
- Agora eu - exclama a mulher, pendurando-se no seu pescoço e pespegando um beijo húmido na face - eu sou PR da Companhia da Electricidade e venho anunciar que faremos o mesmo quanto à sua conta de luz, do total de electricidade que o senhor consumir, só nos terá pagar a mesma percentagem que receberá pelo seu trabalho. E posso adiantar, porque já conversamos de antemão, que essa oferta é extensiva, pela palavra destas pessoas, ao que o senhor gasta em água, gás e televisão. Para nós, cada pessoa conta, e existimos para nos apoiarmos uns aos outros.
- Permita que lhe diga - adiantou um dos visados pela PR - que o seu caso foi discutido nas mais altas esferas. O nosso Ministro da Indústria e Energia estava numa conferência em Bruxelas, e houve um seu par que lhe disse, na sua própria língua, claro - "Não sei se o informaram, mas há um caso premente a ser solucionado no seu país, o de um homem chamado António Manuel Souto Brandão, morador no Casal da Rochinha, Alenquer, que se viu de súbito privado de meios para suprir as suas despesas e encargos mensais. É urgente que se faça alguma coisa". É claro que o ministro ficou muito indignado por não o terem posto ao corrente, e iniciou os contactos que nos trouxeram aqui.
- Finalmente eu - adiantou-se um dos elementos do grupo - eu represento a cadeia de supermercados Arquipélago, e decidimos oferecer-lhe, durante todo o tempo que o senhor precisar, vales de compras que cobrirão metade das suas necessidades mensais em mercearias e bens de primeira necessidade. É uma oferta desinteressada, e o senhor não se deve preocupar em retribuir ou compensar de nenhuma forma.
- Isto é incrível, não sei o que dizer, quase me vem lágrimas aos olhos...
- Quase me vem lágrimas aos olhos!! São essas as palavras do texto, não é suposto estares já a chorar. O que é que se passa contigo, estás com alguma síndroma pré-menstrual?
- Não, mister - respondeu o actor que fazia de António Brandão, tentado olhar o seu interlocutor, com a luz dos projectores a baterem-lhe na cara.
- Então modera esta parte. Só quero que pareças ligeiramente surpreendido e emocionado. Guarda o teu virtuosismo dramático para a cena seguinte, quando acordares do sonho e vires, diante de ti, estas pessoas todas na tua casa para te arrancarem a pele. Aí podes gritar, chorar e correr à vontade enquanto elas te perseguem.
«E tu, Ana, condescendi que usasses mini-saia, porque tens umas pernas bonitas, mas não estás a fazer de Betty-Boop, não te quero a rebolar as ancas e a humedecer os lábios com a língua, és uma relações públicas, e não estou a falar das mulheres que andam no engate.
«E agora, por favor, alguém me acorde o figurante que faz o Brandão adormecido. Pagaram-lhe para fingir que dormia e sonhava, e o traste ressona como uma hiena asmática!!».

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