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Esta cidade que eu não amo


Esta cidade que eu não amo, vive comigo há tanto tempo que a afeição se tornou secundária, conheço-lhe as belezas e os podres, afeiçoei-me a pequenos recantos no seu íntimo donde não consigo dissociar memórias inertes e quase ficcionadas, as andanças de rapaz-estudante com as tardes de matraquilhos e as primeiras bebidas misturadas com os primeiros cigarros, um café, hoje fechado, onde me diverti com os amigos em volta de um mesa marcada com as auréolas líquidas dos copos de cerveja, num outro lugar, uma parede no topo da praça, alimentei as esperas e as quimeras de uma longa paixão platónica, insípida e estúpida, noutro ainda, um parque de estacionamento escuro entre dois prédios em construção, construí um refúgio precário no interior de um carro para uma relação sórdida e tórrida com uma mulher adúltera que me marcou mais do que se tivesse sido a mim que ela fora infiel, e outro e outro lugar, mais umas quantas dezenas de pessoas assimiladas pelo reboco das paredes, ou empurradas daqui por algum vento que não me soube eleger.

Esta cidade que eu não amo, deu-me tudo o que uma cidade pode dar, abrigo, violência, doçura e veneno, ergue-se e deita-se ao meu lado com as suas varizes e queixumes, e ora se abre diante de mim como se precisasse agradar-me e fazer-me feliz, ora escorraça-me das suas ruas como se as suas coxas soldadas pertencessem a uma estátua em bronze dalguma praça.

Esta cidade que eu não amo, guarda em alguns lugares as franjas de pele de serpente que as minhas vidas nela deixaram, mas viverá muito depois e muito melhor depois de eu partir. Não guardará despedidas, rancores, lembranças. Esta cidade que eu não amo, como todas as cidades, nutrir-se-á de mim como a terra inocente dos cemitérios.

2 comentários:

  1. José, obrigada pelo vídeo. Gostei mas, não chie, ouça minhas letras sem som: a sua prosa bem mais merece permanecer além dos tempos! Eu juro que assim penso e sinto.
    Esta não ode à sua cidade parece com o que sinto pela minha. Será que todas as cidades do mundo tornaram-se pérfidas? Ou somos nós que desencantamos?
    Sim, é um prazer ler-te. Se o mundo fosse mais pequeno, seria mais justo na valorização das pessoas e de suas obras. um abraço forte;

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  2. Angela, considero desmerecido, mas agradeço e não chio ;).
    Sobre as cidades, penso que a culpa seja mesmo do desencanto, de termos perdido a capacidade de nos deslumbrarmos, o que se torna ainda mais penoso numa relação longa feita de hábitos.
    Abraço

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