Arvorados

Finalmente o calor, pensou, mas podia vir quando eu não precisasse de trabalhar na rua, e enxugando o suor, continuou a escavar um rego circular em redor de cada uma das árvores do pomar ao lado da casa.
- Então amigo, a praticar geometria? - meteu-se com ele o carteiro enquanto procurava uma carta na pasta sobrelotada - e você sabe como fazer uns círculos perfeitos. Quem diria, um homem da terra, a imitar Euclides.
- Venha cá! - exortou, abrindo o portão ao carteiro - não é geometria, ainda que tudo seja geometria, do cubo de Rubik às notas de música. O que eu estou a fazer são regos para a água, e estão tanto mais afastados do tronco quando maior é a árvore.
- Pensei que bastava fazer uma cova em volta do tronco...
- Asneira! A árvore bebe pelas raízes, se você vir alguma árvore desenraizada, há-de notar que se dividir a altura do tronco em dois, das raízes superiores aos ramos inferiores, obtém uma imagem proporcional, quase simétrica, da árvore. Você, por água junto ao tronco, é o mesmo que ter uma ferida numa unha do pé, e querer curá-la fazendo um curativo no calcanhar.
- Ah, mas isso não é assim tão absurdo. Veja?
O carteiro, descalçando os sapatos, pôs-se em bicos dos pés, e arqueando-os, consegui alcançar o calcanhar de cada pé com as pontas dos dedos.
- Se me fizessem um curativo ao calcanhar, talvez as unhas dos dedos tivessem alguma sorte.
- Mas isso é um dispêndio de energia, que pode ser necessária para as coisas essenciais, como dar fruto.
- Não percebi...
- Ora então, veja você!
E agarrando a enxada com dedos de ferro, desferiu enxadadas vigorosas na terra até abrir uma cova de meio metro de fundo.
- Está a ver ali no fundo? As raízes da árvore flectiram para dentro, para receber a água que eu deitava junto ao tronco. Só depois de ter umas quantas árvores desenraizadas com o vento, é que percebi que as raízes enroladas em forma de tubérculo eram causadas por mim. Um homem tem de aprender com os erros!
- Incrível! E por falar em geometria, você falou em proporção...imagine agora, se você conseguisse encerrar as raízes da árvore dentro de uma caixa quadrada de cimento, será que a copa da árvore não iria também adquirir um formato cúbico?
- Você está-me a dar umas ideias incríveis, mas aí, preferiria a copa triangular. Assim, podia sentar-me junto ao tronco, olhar para as folhas agitadas pelo vento e imaginar que estava a andar de asa delta.

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