Argumento

- Não é preciso conhecer uma pessoa para se sentir amizade por ela - teorizou -uma pessoa perfeitamente estranha num bom momento, pode ser mais valiosa do que os alegados amigos que nos aturam há anos com condescendência.
- Achas mesmo isso?
- É evidente. Hoje, no dia de hoje, os meus maiores amigos são a empregadita de pastelaria que me sorriu ao servir o pequeno-almoço, e me pediu desculpa por ter pingado o pires do galão, e o revisor que me desejou as maiores venturas quando saí do autocarro, o mendigo cego que adormeceu sobre o cesto das esmolas com o seu cão a vigiar-lhe o tesouro, e a jovem de óculos escuros na escada rolante do centro comercial, porque meneava a cabeça ao som alti-cantante dum velho êxito dos Smiths. Não os conheço e não sei se os voltarei a ver, mas pareciam ter luz própria, e anularam durante alguns momentos o meu tédio e o cansaço de andar entediado.
- Boring! Não quero chatear-me contigo. E eu? Não sou teu amigo? Ou tenho de estar fardado de revisor?
- Não percebeste a coisa, não falo de relações duradouras nem de amizades para toda a vida, até porque já não acredito nisso. Sempre que precisei dum amigo, só tive como resposta o eco da minha voz. Não, não é isso. Os amigos com A maiúsculo, existem desde sempre ou para sempre, mas no momento presente, que é quando precisamos deles, não existem, ou não estão para isso,cobram quando não nos vêem ou não telefonamos, mas o efeito inverso é apagado por uma espécie de amnésia, e não sofrem mais rebates de consciência do que a formiga que sai do açucareiro recoberta de comida.
- E as tuas maiores amizades do dia de hoje, estão a postos para o que der e vier, estão ou estiveram todas de prevenção para o caso de teres uma dor de dentes ou precisares de conversar.
- Não, porque também não esperaria isso deles, como espero de quem se diz meu amigo e está-se a borrifar para mim. Se um perfeito estranho é simpático para mim, é mais meu amigo do que o amigo que me ignora. E vê isto, numa situação ou noutra, ocupamos o tempo em diálogos inconsequentes e acções absurdas - quando a empregada da pastelaria me pediu desculpa, eu disse-lhe que ela era muito bonita, ela agradeceu e afirmou que o dia tinha começado da melhor maneira, e foi logo cochichar qualquer coisa à colega, do género de eu estar a assediá-la. Ao revisor do autocarro, avisei-o com um sorriso que me ia atirar de um prédio, e ele desejou-me as maiores venturas, acreditando que eu ia usar um parapente ou coisa parecida. Ao cego, roubei-lhe uma esmola, porque iludi o seu cão-guia com o gesto de depositar uma moeda no cesto, e à jovem no Centro Comercial, quando ela olhou para trás, eu disse-lhe Somos todos, mortos!, e ela sorriu, e levantou os braços, sacudindo as notas dos Smiths, subentendendo a afirmação que não ouvira.
- E agora, estás aqui numa cama de hospital com um amigo que não é teu amigo.
- Não te chamei! Por isso, não te sintas obrigado a ficar, se pudesse, se soubesse como, chamava antes a empregada da pastelaria, porque tem um sorriso fantástico. Eu não me quis matar, se fosse essa a minha intenção, tinha saltado dum vigésimo andar, andei todo o dia às voltas para fazer isto, e fiz. Parecia o remate mais coerente para um dia estúpido.
- ...
- Deves ter montes de coisas para fazer, não é?
- Sentes dores?
- Não, estou meio anestesiada, foram só alguns ossos.
- Tenho mesmo de ir. Eu depois ligo-te para saber como estás, tá?
- Tá, e obrigado! Desculpa se fui desagradável ou injusta contigo, conhecemo-nos desde sempre.
- Okey, beijocas, tchau!
O amigo saiu, discreto como a formiga, evitando mexer os ombros para o açúcar não cair.

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