anti-corporação

No primeiro trabalho que tive, as coisas eram muito simples, não havia escritório, relógio-de-ponto, registos de presença, cinco sócios detinham o negócio, mas eram dois deles, um casal, que dava a cara e se encarregava de o gerir, eles sabiam de cor se algum dia havíamos faltado, se num no outro, por acaso, havíamos chegado atrasados e se esse atraso já havia sido compensado, tudo se processava num ritmo muito familiar e pessoal, ofereciam uma garrafa de Porto ou champanhe na quadra natalícia, um folar pela Páscoa, e uma notinha no dia de aniversário, que nunca era esquecida, também nunca faltou um desejo de melhoras por uma gripe mais persistente, ou endereçada a um familiar que se soubesse doente. Corolário deste estado de coisas, era o dia de pagamento. Era sempre o gerente que pagava, em dinheiro e sempre no final do último dia útil do mês. O dinheiro ia sendo posto de parte das contas da caixa durante a quarta semana e quando chegava o dia, éramos chamados à vez ao pequeno gabinete junto ao balcão da loja. O gerente aguardava, sentado na sua secretária empoeirada, muito pálido. Mirava a nossa folha e pagava com as mãos a tremer. Era só nesse dia que lhe tremiam as mãos, enquanto contava as notas e rematava o valor em moedas, tão branco e com tremuras que metia dó. Um dia, em que até o tampo da secretária pareciam tomado desse nervoso miudinho, disse-lhe em tom de simpatia.
- Devia ter mais calma consigo, é só dinheiro, dentro de dois dias a caixa do balcão já o reaveu.
- Julgas que é só dinheiro - retorquiu ele com o suor a escorrer pela testa - para mim é como se me tivessem aberto uma veia e me estivesse a esvair em sangue...

Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue