INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Mani-festa

Esse prodígio chamado 
pensar, pensar naturalmente sem escondermos o que pensamos, 
dizer e escrever isto ou aquilo agora ou depois, quando e sempre que nos apetecer,
ter a liberdade de sermos nós e pensar dentro da nossa cabeça, e transmiti-lo aos outros como se soltássemos um suspiro ou um vendaval
e não ser as fôrmas de aço onde nos querem verter para sermos todos iguais e obedientes, cópias monótonas de uma matriz apodrecida

sermos livres e termos memória, e sabermos que há liberdade por ter havido Abril,

mas sobretudo,

ter a clarividência e a coragem de pensar que Abril não acabou 

e a Primavera não ficou no passado
 
Recusar as tesourinhas que podam a nossa liberdade, e tentam silenciar as vozes e opiniões da Web, em nome de normas inócuas e interesses atrofiantes,

e florir de novo em cada Abril


O que havia antes

- O que havia antes? Perguntou-lhe ele na modorra dos corpos transpirados sobre os lençóis da cama.
Ela sabia ao que ele aludia, não era a primeira vez. O antes deles se encontrarem, antes daquele choque casual na confeitaria, o Faça-se Luz das primeiras palavras e do nascer de uma cúmplice intimidade.
- Antes houve uma manhã agitada de trabalho e as coisas da rotina, três autocarros para chegar ao emprego, o fulano que me cuspiu nos pés, o trabalho acumulado de Quarta-Feira.
- E antes?
- Uma semana de loucos, as provas no curso de escriturária, estudar até adormecer nesta mesma cama.
- E nesta mesma cama, em semanas anteriores, houve outros? Quantos houve e o que sentiste por eles?
- Não muitos, nada de importante nem para durar. Passaram por aqui, como alguém que bate à porta de uma Pousada onde não entra ou, se entra, não chega a pernoitar.
- E antes? Algum ficou para a manhã seguinte, para os dias e anos que se seguiram?
- Não para tantos anos como nós. Cinquenta! Teria de ter cento e vinte anos para isso ter acontecido...
- E antes?
- Não houve antes, começas a ficar sem tino. Tira-me este edredon de cima de nós, parece que estamos numa sauna, e guarda a dentadura que já te escorre baba da boca com tanta pergunta!



Concordância

O médico avisou o viúvo de que ele só tinha um mês de vida, no próprio dia em que a quiromante anunciou que estava prestes a encontrar o amor eterno. (Estranhamente, sentiu uma espécie de alegria íntima).

Determinado: Colocou a cabeça no cepo do carrasco, e murmurou: estou calmo, estou muito calmo, não me fazem perder a cabeça.

Irrealista: Colocou a cabeça no cepo do carrasco e praguejou: hei-de dançar na vossa tumba, nem que seja a última coisa que faça.

Snob: Colocou a cabeça no cepo do carrasco, e logo se queixou das lascas de madeira que lhe arranhavam o pescoço.

«Apesar de todas as amizades, sempre na vida estamos sozinhos; o que é mais grave, mais doloroso, exactamente como o que é mais belo, passa-se apenas connosco. Entre um homem e outro homem há barreiras que nunca se transpõem. Só sabemos, seguramente, de uma amizade ou de um amor: o que temos pelos outros.

«De que os outros nos amem nunca poderemos estar certos».


(Agostinho da Silva, “Sete Cartas a um Jovem Filósofo – Seguidas de Outros Documentos para o Estudo de José Kertchy Navarro”, I, VII, edição da Ulmeiro, 1990)

 

Argumento

- Não é preciso conhecer uma pessoa para se sentir amizade por ela - teorizou -uma pessoa perfeitamente estranha num bom momento, pode ser mais valiosa do que os alegados amigos que nos aturam há anos com condescendência.
- Achas mesmo isso?
- É evidente. Hoje, no dia de hoje, os meus maiores amigos são a empregadita de pastelaria que me sorriu ao servir o pequeno-almoço, e me pediu desculpa por ter pingado o pires do galão, e o revisor que me desejou as maiores venturas quando saí do autocarro, o mendigo cego que adormeceu sobre o cesto das esmolas com o seu cão a vigiar-lhe o tesouro, e a jovem de óculos escuros na escada rolante do centro comercial, porque meneava a cabeça ao som alti-cantante dum velho êxito dos Smiths. Não os conheço e não sei se os voltarei a ver, mas pareciam ter luz própria, e anularam durante alguns momentos o meu tédio e o cansaço de andar entediado.
- Boring! Não quero chatear-me contigo. E eu? Não sou teu amigo? Ou tenho de estar fardado de revisor?
- Não percebeste a coisa, não falo de relações duradouras nem de amizades para toda a vida, até porque já não acredito nisso. Sempre que precisei dum amigo, só tive como resposta o eco da minha voz. Não, não é isso. Os amigos com A maiúsculo, existem desde sempre ou para sempre, mas no momento presente, que é quando precisamos deles, não existem, ou não estão para isso,cobram quando não nos vêem ou não telefonamos, mas o efeito inverso é apagado por uma espécie de amnésia, e não sofrem mais rebates de consciência do que a formiga que sai do açucareiro recoberta de comida.
- E as tuas maiores amizades do dia de hoje, estão a postos para o que der e vier, estão ou estiveram todas de prevenção para o caso de teres uma dor de dentes ou precisares de conversar.
- Não, porque também não esperaria isso deles, como espero de quem se diz meu amigo e está-se a borrifar para mim. Se um perfeito estranho é simpático para mim, é mais meu amigo do que o amigo que me ignora. E vê isto, numa situação ou noutra, ocupamos o tempo em diálogos inconsequentes e acções absurdas - quando a empregada da pastelaria me pediu desculpa, eu disse-lhe que ela era muito bonita, ela agradeceu e afirmou que o dia tinha começado da melhor maneira, e foi logo cochichar qualquer coisa à colega, do género de eu estar a assediá-la. Ao revisor do autocarro, avisei-o com um sorriso que me ia atirar de um prédio, e ele desejou-me as maiores venturas, acreditando que eu ia usar um parapente ou coisa parecida. Ao cego, roubei-lhe uma esmola, porque iludi o seu cão-guia com o gesto de depositar uma moeda no cesto, e à jovem no Centro Comercial, quando ela olhou para trás, eu disse-lhe Somos todos, mortos!, e ela sorriu, e levantou os braços, sacudindo as notas dos Smiths, subentendendo a afirmação que não ouvira.
- E agora, estás aqui numa cama de hospital com um amigo que não é teu amigo.
- Não te chamei! Por isso, não te sintas obrigado a ficar, se pudesse, se soubesse como, chamava antes a empregada da pastelaria, porque tem um sorriso fantástico. Eu não me quis matar, se fosse essa a minha intenção, tinha saltado dum vigésimo andar, andei todo o dia às voltas para fazer isto, e fiz. Parecia o remate mais coerente para um dia estúpido.
- ...
- Deves ter montes de coisas para fazer, não é?
- Sentes dores?
- Não, estou meio anestesiada, foram só alguns ossos.
- Tenho mesmo de ir. Eu depois ligo-te para saber como estás, tá?
- Tá, e obrigado! Desculpa se fui desagradável ou injusta contigo, conhecemo-nos desde sempre.
- Okey, beijocas, tchau!
O amigo saiu, discreto como a formiga, evitando mexer os ombros para o açúcar não cair.

Arvorados

Finalmente o calor, pensou, mas podia vir quando eu não precisasse de trabalhar na rua, e enxugando o suor, continuou a escavar um rego circular em redor de cada uma das árvores do pomar ao lado da casa.
- Então amigo, a praticar geometria? - meteu-se com ele o carteiro enquanto procurava uma carta na pasta sobrelotada - e você sabe como fazer uns círculos perfeitos. Quem diria, um homem da terra, a imitar Euclides.
- Venha cá! - exortou, abrindo o portão ao carteiro - não é geometria, ainda que tudo seja geometria, do cubo de Rubik às notas de música. O que eu estou a fazer são regos para a água, e estão tanto mais afastados do tronco quando maior é a árvore.
- Pensei que bastava fazer uma cova em volta do tronco...
- Asneira! A árvore bebe pelas raízes, se você vir alguma árvore desenraizada, há-de notar que se dividir a altura do tronco em dois, das raízes superiores aos ramos inferiores, obtém uma imagem proporcional, quase simétrica, da árvore. Você, por água junto ao tronco, é o mesmo que ter uma ferida numa unha do pé, e querer curá-la fazendo um curativo no calcanhar.
- Ah, mas isso não é assim tão absurdo. Veja?
O carteiro, descalçando os sapatos, pôs-se em bicos dos pés, e arqueando-os, consegui alcançar o calcanhar de cada pé com as pontas dos dedos.
- Se me fizessem um curativo ao calcanhar, talvez as unhas dos dedos tivessem alguma sorte.
- Mas isso é um dispêndio de energia, que pode ser necessária para as coisas essenciais, como dar fruto.
- Não percebi...
- Ora então, veja você!
E agarrando a enxada com dedos de ferro, desferiu enxadadas vigorosas na terra até abrir uma cova de meio metro de fundo.
- Está a ver ali no fundo? As raízes da árvore flectiram para dentro, para receber a água que eu deitava junto ao tronco. Só depois de ter umas quantas árvores desenraizadas com o vento, é que percebi que as raízes enroladas em forma de tubérculo eram causadas por mim. Um homem tem de aprender com os erros!
- Incrível! E por falar em geometria, você falou em proporção...imagine agora, se você conseguisse encerrar as raízes da árvore dentro de uma caixa quadrada de cimento, será que a copa da árvore não iria também adquirir um formato cúbico?
- Você está-me a dar umas ideias incríveis, mas aí, preferiria a copa triangular. Assim, podia sentar-me junto ao tronco, olhar para as folhas agitadas pelo vento e imaginar que estava a andar de asa delta.

A Prisão do Ético

Paulo Rodrigues Ferreira, um autor com quem me tenho cruzado em algumas páginas da Web (Minguante, Blogue das Artes, Veredas), e que possui um estilo de narrativa muito peculiar, corrosivo e raiado de humor negro, tem agora alguma da sua produção reunida num livro, A Prisão do Ético, publicado pela Livrododia Editores, de Torres Vedras.
A apresentação foi no dia 4 deste mês na livraria da editora, mas no dia 22, na Faculdade de Letras de Lisboa (detalhes infra), pode assistir a um novo lançamento da obra.
Endereço ao Paulo, os melhores votos de êxito.


Só violas, eram catorze,
tambores e pandeiretas mais de cinquenta, e não havia cordas que chegassem para tantos dedos, nem baquetas, ou superfícies a percurtir.
Mas o silêncio imperava no instante inicial da procissão dos mortos, no lugarejo mexicano de esqueletos nas portas, adornados de flores, cactos e fotos velhas e espinhosas, como no instante anterior à criação do mundo, com o universo suspenso, antes de explodir em luz e música.

Equívoco

Nunca se está seguro do quanto se ama e se é amado - o amor fê-la subir, julgava, ao sétimo céu, mas, por ironia, logo que lá chegou, esse sétimo céu revelou ser o mais fundo dos nove infernos.

Vinho e rosas

"Toma uma taça de vinho
e vai bebê-la ao luar
- a lua, no seu regresso
pode já não te encontrar."

"Ergue um cantico festivo
e consagra, em voz sonora
o vinho da tua taça
aos rubros clarões da aurora."

("Robaiyat")

Não tenho qualquer relutância ou repugnância em comprar ou manusear livros antigos, não sou um coleccionador nem especulador, e apenas me interessam os livros pelo seu conteúdo literário ou gráfico. Nas lojas e feiras de velharias, acaba-se sempre por encontrar algo de interesse, desde que se esteja disposto a despender algum (por vezes, muito) tempo à procura. Na última vez que fui á feira de velharias que se realiza no parque das Caldas da Rainha, entre várias aquisições por atacado de livros semi-novos, comprei por dois euros um pequeno livrinho que considerei um achado: O "Robaiyat - Quadras de Omar Khayyam, Poeta Persa do Século XI".
Já tenho na estante uma edição, moderna, do Rubayat, mas esta edição de 1927 (da Empresa Diário de Notícias), reservava algumas surpresas. Começa por ser uma tradução (suponho que do francês, e não do persa) realizada por Gomes Monteiro, o poeta e romancista de Boticas, depois, cada capítulo em que a obra está dividida abre com uma pequena e preciosa ilustração em estilo Arte Nova. Quando tudo isto eram motivos de sobra para justificar a aquisição, encontro um novo elemento adicional. A servir de marcador de livro, estão dois recortes de jornal deixados pelo dono anterior, o primeiro, um pequeno quadrado a negro com letras brancas, assinala uma fatalidade: "Morreu o poeta Ary dos Santos", a pequena nótula jornalística exprimia o essencial e no verso, escrito a caneta, a data: "19-1-84", e uma mensagem pessoal: "um dia negro"
No segundo recorte, também com a data escrita no verso, 20-1-84, pode ler-se um artigo mais extenso sobre a vida e a carreira do poeta. Algumas palavras do artigo emergem diante dos olhos: "Morreu o poeta. Calou-se a voz do sonho (...) Ary dos Santos, que já há algum tempo se mantinha afastado das suas actividades devido a uma doença prolongada, foi agora surpreendido pela morte, apenas com 47 anos de idade. O escritor preparava-se para editar um romance autobiográfico em dois volumes, intitulado "Estrada da Luz - Rua da Saudade", evocativo da rua onde nasceu, em 7 de Dezembro de 1936 e, também, da sua última residência (...) Ary dos Santos - o homem - morreu. Ary dos Santos, o poeta, declamador e irreverente, esse conseguiu, como muitos poucos, abrir as portas da eternidade".
Os dois recortes e o Rubayat, achei adequado e coerente, o Rubayat fala, como muitas poucas obras, da vida e da dissipação, do desejo de glória e de eternidade, e da fatuidade desse desejo e das vidas que se consomem na sua busca. A poesia, como a vida, resolve-se em nada e possui a importância, que nós lhe concedemos. Se vive através de nós, como soi dizer-se, morre de formas diversas com a nossa ignorância e desleixo.
Bebamos um copo de vinho, mais que não seja, pelo vinho que se bebe! E ouçamos Khayyam:

"Os homens, feras e flores
são sombras de aspecto baço,
e todo este mundo enorme,
um grão de areia no espaço."

"A vida é um jogo enfadonho,
e, seja qual fôr a sorte,
nele podemos ganhar
apenas a dôr e a morte."

"Renascerás tu numa flôr
toda cercada de espinhos?
ou brotarás na herva humilde
das valetas dos caminhos?"


("Robaiyat")

Mer

Um respeito religioso, um espanto místico, é o que o mar pode suscitar num ser sensível - a primeira vez que se chegou ao pé do mar tinha cinco anos, era desconhecida e assustadora aquela imensidão de água, nunca vira nada de semelhante, era uma hipérbole louca da banheira grande dos pais onde gostava de brincar,
Com a água salgada a lamber-lhe os tornozelos, e tremendo de frio e medo, ajoelhou-se na água, e as suas mãos tactearam a areia, à procura da tampa de borracha para a puxar.

Redundância

Um rito de ablução, o duche no final do dia, ela fecha a cortina do duche, deixa correr a água quente sobre si, deliciada, e passa o sabonete no corpo.
Rivalizando com o som da água e a cantilena da jovem loura, soa muito ao fundo, numa intensidade crescente, a música de Psico, ela esfrega-se e não presta atenção, à música e ao vulto arrepiante que se forma no outro lado da cortina.
O assassino aproxima-se pé-ante-pé da sua vítima, com o punhal em riste. Antes de prepertar o acto, sente-se a transpirar com os vapores do banho, desenrola o cachecol do pescoço e pendura-o num bengaleiro que possui a forma inconfundível de um Hitchcock obeso com o braço estendido.
Recuperando a concentração, abre de rompante a cortina e recebe na cara o grito da beldade no duche, que possui a forma inconfundível de um Hitchcock obeso com cabeleira loura.
É então que atira o punhal ao chão, e desiste.

Autor: Já não me preocupo com aquilo que escrevo, a minha editora trata de tudo - dei-lhes carta-branca para me editarem.
Amigo do Autor: E estás satisfeito com isso?
Autor: Humm! Médio...gostei do trabalho que eles fizeram no meu rosto, mas fico sempre um pouco atrofiado no meio desta capa dura, e nem posso sair á rua em dias de vento por causa das badanas...

religar

(Para a Maria)
Um poema de Miguel Torga:

Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha
("Diário", I)

Frantumi

Uma pequena narrativa editada aqui há menos de uma semana, reaparece em italiano pela mão de Stefano Valente, um autor e artista de uma modéstia surpreendente, com quem tenho tido o gosto de trocar impressões.

(Obrigado uma vez mais, Stefano!).

(da Galeria Gráfica do site de Stefano Valente)

Sentia aquela necessidade premente de regressar de vez em quando às coisas essenciais da existência, e aproveitando as mini-férias da Páscoa, levou as mulheres e os filhos até á casa de pedra que herdara nas faldas da serra da Estrela. Ao entardecer do primeiro dia, acenderam a lareira, a mulher fez café, e ele, com se cumprisse um ritual sagrado, amassou o folar da Páscoa, como o vira fazer de pequeno, o que requeria tempo e dedicação. A coroa de farinha na tendeira de madeira, o pedaço de fermento de padeiro no centro, que amassava com um pouco de leite e um mínimo de farinha, até formar uma bola de crescente, que deixava a repousar depois de lhe traçar uma cruz em cima com o gume de uma faca. Quase uma hora depois, amassou finalmente o folar, quando o pequeno forno já estava escuro com a lenha a arder - negro antes de ficar branco, como o nigredo e o albedo dos alquimistas - e armou o folar com os ovos cozidos e dois rolinhos de massa, e deixou-o a repousar novamente, enquanto vigiava a massa de pão que levedava ao lado. Tudo crescido e no ponto, cozeu o folar e os pães caseiros, que comeram de seguida com bacon e chouriça. Depois do repasto, as coisas começaram a ficar compostas. A mulher foi assistir ao Bloomberg, por causa da Bolsa, e ele juntou-se aos filhos para jogar PlayStation até chegar a hora do João Pestana.
Um camião de carga desgovernado virou-se numa bifurcação, sem danos humanos mas estropiando a sua carga - um lote de esculturas de seres humanos em tamanho natural, que se expedia para uma exposição na capital. Mas não era só o tamanho das esculturas que era natural, o acidente revelou pelas peças quebradas, que por dentro das esculturas havia gente morta, de carne e osso, com as suas formas e relevos recobertas por uma camada de gesso com quatro dedos de espessura. A polícia foi a casa do escultor para o prender, mas este declarou-se logo um injustiçado - o escultor das peças, alegava, não era ele, mas Deus.

Dois gumes

Articulista de um jornal de escândalos, agia como um franco-atirador, camuflado e implacável. As suas vítimas nem chegavam a saber o que lhes caíra em cima, um pequeno rumor, a mecha de uma mentira, era o suficiente para os ver soçobrar diante do seu óculo de mira, a esbracejar para tentarem libertar-se do lodo viscoso.
Mas a sua sórdida carreira sofreu um colapso súbito quando um outro franco-atirador, igualmente anónimo e impiedoso, o fez alvo dos seus disparos, fazendo correr no meio, que ele se preocupava com a verdade.

ocaso

Um conhecimento momentâneo, vago e superficial como todos os conhecimentos travados de passagem e abandonados ao acaso.
o olhar dela à janela, suspenso do seu rosto cansado, observando o ângulo do candeeiro de luz à luz mortiça do entardecer,
e o corpo em queda da vizinha do terceiro, que descia de mais acima, sem que ela conseguisse ver pela sua cara, como tinha sido o seu dia.

lei-in

Um ambiente simples, alguns objectos e móveis sumários, uma mesa de jantar com dois bancos, um bengaleiro, e uma cama de viés a um canto, onde alguém dorme sob os lençóis (ouve-se o seu ressonar, ritmado e persistente).
Um homem escreve a uma mesa, tem várias folhas á frente e dedilha numa calculadora. Entra uma mulher, baixa e obesa, com um espanador na mão e um avental.
- Estou preocupado consigo, o senhor não parece bem.
O homem faz um estalido com a língua, pega nas folhas e agita-as no ar.
- É de matar a cabeça, contas e mais contas, são as mesmas de sempre, mas agora puseram-me em lay-off, trabalho menos e recebo menos, eles dizem que são sessenta e cinco por cento do ordenado, mas, para mim, vai ficar pela metade. Vou ter de fazer alguns cortes, e se calhar vou ter de passar sem si durante uns meses, eu mesmo farei as limpezas e tratarei da roupa.
- Não pense nisso, você é a única pessoa do mundo em regime de lay-off, e farei uma excepção por si. Continuarei a limpar-lhe a casa e a engomar a roupa, e não quero um único cêntimo pelo trabalho.
- Não sei como agradecer, eu...
Ouve-se bater à porta, a mulher-a-dias sai da divisão, ouve-se umas vozes e ela regressa, seguida por seis pessoas, entre elas, uma mulher de mini-saia e óculos de aros redondos.
- A que devo a honra?
- Eu primeiro - adianta-se um deles, estendendo-lhe a mão - represento o Banco onde o senhor tem a hipoteca da casa...
- Mas eu não falhei nenhuma mensalidade!
- Claro que não, acontece que nós soubemos que o senhor acaba de entrar em regime de lay-off, e em virtude disso o Banco decidiu reduzir em trinta e cinco por cento o valor que o senhor nos paga todos os meses, e isto por tempo indeterminado e sem custos adicionais
- Agora eu - exclama a mulher, pendurando-se no seu pescoço e pespegando um beijo húmido na face - eu sou PR da Companhia da Electricidade e venho anunciar que faremos o mesmo quanto à sua conta de luz, do total de electricidade que o senhor consumir, só nos terá pagar a mesma percentagem que receberá pelo seu trabalho. E posso adiantar, porque já conversamos de antemão, que essa oferta é extensiva, pela palavra destas pessoas, ao que o senhor gasta em água, gás e televisão. Para nós, cada pessoa conta, e existimos para nos apoiarmos uns aos outros.
- Permita que lhe diga - adiantou um dos visados pela PR - que o seu caso foi discutido nas mais altas esferas. O nosso Ministro da Indústria e Energia estava numa conferência em Bruxelas, e houve um seu par que lhe disse, na sua própria língua, claro - "Não sei se o informaram, mas há um caso premente a ser solucionado no seu país, o de um homem chamado António Manuel Souto Brandão, morador no Casal da Rochinha, Alenquer, que se viu de súbito privado de meios para suprir as suas despesas e encargos mensais. É urgente que se faça alguma coisa". É claro que o ministro ficou muito indignado por não o terem posto ao corrente, e iniciou os contactos que nos trouxeram aqui.
- Finalmente eu - adiantou-se um dos elementos do grupo - eu represento a cadeia de supermercados Arquipélago, e decidimos oferecer-lhe, durante todo o tempo que o senhor precisar, vales de compras que cobrirão metade das suas necessidades mensais em mercearias e bens de primeira necessidade. É uma oferta desinteressada, e o senhor não se deve preocupar em retribuir ou compensar de nenhuma forma.
- Isto é incrível, não sei o que dizer, quase me vem lágrimas aos olhos...
- Quase me vem lágrimas aos olhos!! São essas as palavras do texto, não é suposto estares já a chorar. O que é que se passa contigo, estás com alguma síndroma pré-menstrual?
- Não, mister - respondeu o actor que fazia de António Brandão, tentado olhar o seu interlocutor, com a luz dos projectores a baterem-lhe na cara.
- Então modera esta parte. Só quero que pareças ligeiramente surpreendido e emocionado. Guarda o teu virtuosismo dramático para a cena seguinte, quando acordares do sonho e vires, diante de ti, estas pessoas todas na tua casa para te arrancarem a pele. Aí podes gritar, chorar e correr à vontade enquanto elas te perseguem.
«E tu, Ana, condescendi que usasses mini-saia, porque tens umas pernas bonitas, mas não estás a fazer de Betty-Boop, não te quero a rebolar as ancas e a humedecer os lábios com a língua, és uma relações públicas, e não estou a falar das mulheres que andam no engate.
«E agora, por favor, alguém me acorde o figurante que faz o Brandão adormecido. Pagaram-lhe para fingir que dormia e sonhava, e o traste ressona como uma hiena asmática!!».

Esta cidade que eu não amo


Esta cidade que eu não amo, vive comigo há tanto tempo que a afeição se tornou secundária, conheço-lhe as belezas e os podres, afeiçoei-me a pequenos recantos no seu íntimo donde não consigo dissociar memórias inertes e quase ficcionadas, as andanças de rapaz-estudante com as tardes de matraquilhos e as primeiras bebidas misturadas com os primeiros cigarros, um café, hoje fechado, onde me diverti com os amigos em volta de um mesa marcada com as auréolas líquidas dos copos de cerveja, num outro lugar, uma parede no topo da praça, alimentei as esperas e as quimeras de uma longa paixão platónica, insípida e estúpida, noutro ainda, um parque de estacionamento escuro entre dois prédios em construção, construí um refúgio precário no interior de um carro para uma relação sórdida e tórrida com uma mulher adúltera que me marcou mais do que se tivesse sido a mim que ela fora infiel, e outro e outro lugar, mais umas quantas dezenas de pessoas assimiladas pelo reboco das paredes, ou empurradas daqui por algum vento que não me soube eleger.

Esta cidade que eu não amo, deu-me tudo o que uma cidade pode dar, abrigo, violência, doçura e veneno, ergue-se e deita-se ao meu lado com as suas varizes e queixumes, e ora se abre diante de mim como se precisasse agradar-me e fazer-me feliz, ora escorraça-me das suas ruas como se as suas coxas soldadas pertencessem a uma estátua em bronze dalguma praça.

Esta cidade que eu não amo, guarda em alguns lugares as franjas de pele de serpente que as minhas vidas nela deixaram, mas viverá muito depois e muito melhor depois de eu partir. Não guardará despedidas, rancores, lembranças. Esta cidade que eu não amo, como todas as cidades, nutrir-se-á de mim como a terra inocente dos cemitérios.

sem princípio nem fim

Cruzou-se com um smile num cartaz publicitário, redondo, muito smile e muito solar, e não sentiu vontade de sorrir.Tristeza, alegria, o branco dos dentes, a trincheira das olheiras em volta dos olhos, o resíduo na nossa retina da expressão de alguém que deixamos para trás.
talvez, pensou ele, talvez as pessoas devessem usar máscaras para sair à rua, onde a maquilhagem fosse acessória e indiferentes os trejeitos, como as máscaras mortuárias que algumas culturas fixam no rosto dos seus mortos para lhes emprestarem alguma arte e sacralidade,
(mas ainda o fumo desse pensamento não se tinha dissolvido, e já se tinha apercebido que as pessoas já usam as suas máscaras para sair à rua, as mortuárias).

anti-corporação

No primeiro trabalho que tive, as coisas eram muito simples, não havia escritório, relógio-de-ponto, registos de presença, cinco sócios detinham o negócio, mas eram dois deles, um casal, que dava a cara e se encarregava de o gerir, eles sabiam de cor se algum dia havíamos faltado, se num no outro, por acaso, havíamos chegado atrasados e se esse atraso já havia sido compensado, tudo se processava num ritmo muito familiar e pessoal, ofereciam uma garrafa de Porto ou champanhe na quadra natalícia, um folar pela Páscoa, e uma notinha no dia de aniversário, que nunca era esquecida, também nunca faltou um desejo de melhoras por uma gripe mais persistente, ou endereçada a um familiar que se soubesse doente. Corolário deste estado de coisas, era o dia de pagamento. Era sempre o gerente que pagava, em dinheiro e sempre no final do último dia útil do mês. O dinheiro ia sendo posto de parte das contas da caixa durante a quarta semana e quando chegava o dia, éramos chamados à vez ao pequeno gabinete junto ao balcão da loja. O gerente aguardava, sentado na sua secretária empoeirada, muito pálido. Mirava a nossa folha e pagava com as mãos a tremer. Era só nesse dia que lhe tremiam as mãos, enquanto contava as notas e rematava o valor em moedas, tão branco e com tremuras que metia dó. Um dia, em que até o tampo da secretária pareciam tomado desse nervoso miudinho, disse-lhe em tom de simpatia.
- Devia ter mais calma consigo, é só dinheiro, dentro de dois dias a caixa do balcão já o reaveu.
- Julgas que é só dinheiro - retorquiu ele com o suor a escorrer pela testa - para mim é como se me tivessem aberto uma veia e me estivesse a esvair em sangue...

Charles Bukowski: "Bluebird"

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.


there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?

diálogo com d mudo

- O primeiro e o último nome, por favor!
Repetiu, o primeiro e o último, achava estranho aquele ênfase no primeiro e no último nome, como se tivesse pelo meio uma comprida corda de varal com nomes pendurados.
- O seu nome não consta da nossa lista, mas isso até pode ter uma explicação muito simples. Ás tantas, o senhor esqueceu-se de fazer a prova de vida no ano passado, e deixou de receber o subsídio por se presumir que estava morto e enterrado.
- Não, eu fiz a prova de vida, tenho a certeza disso!
- Não terá sido no ano anterior a esse, e o senhor estar a confundir?
- Não foi! Tenho a certeza porque, nesse ano, vocês levaram as coisas ao extremo. Nos outros anos, bastava uma declaração da Junta de Freguesia, mas desta vez pediram tantas coisas, que nem sei como a passaram.
- Se calhar o senhor é daqueles que pensam que estar vivo é só respirar, não? Pois fique a saber que concordo com as alterações introduzidas, a prova de vida deve focar ou abranger muitos mais itens, como os valores afectivos e morais, a participação activa na vida da comunidade, ou a sensibilidade para a música ou a poesia.
- Eu respondi a todas, quase todas, as perguntas do questionário, mas como é que podia provar isso? Como é que podia colocar em apenso a demonstração do amor, seja de que tipo for, um ideal político, ou um projecto pessoal?
- Má-vontade, é que o senhor demonstra com a sua atitude. Não vê mais ninguém assim em volta, e todos estão satisfeitos e recebem o seu subsídio a tempo e horas. O senhor tem de ver as coisas num ângulo criativo. A existência que lhe foi dada é uma terra plana, e por cima dela o senhor constrói a sua vida como uma torre, assim com umas arcadas, ou uns varandins, de preferência, também, com algo artístico e agradável à vista como uma cariátide ou um jogo de luz.
- Não respondeu à minha pergunta, como é que faço prova de vida do que não é possível ser provado? Isso é de loucos!
- Aí está o senhor outra vez, moendo e remoendo as suas frustrações. Todos conseguiram o que queriam, menos você. Quando lhe disseram que estava tudo bem com a sua prova de vida, deve ter sido porque receavam alguma reacção colérica, atitude que é muito frequente entre os não-vivos e os pouco-vivos. Acredito até, que o senhor já está na lista das pessoas mortas, até mesmo na lista dos que já receberam um enterro digno e cristão. Diga-me de novo o seu nome, para confirmar essa minha suspeita...
- O primeiro e o último?

fragmentos de retórica

«E se eu te disser a verdade, tu perdoas-me?».


«podes crer que éramos mais felizes quando namorávamos...».


«Não estou triste, amor, estou apenas cansado de tudo e de todos».


«Vieste mais cedo para casa. Sempre foste despedida?».


«Eles disseram que publicavam o meu estudo, mas pedem-me que escreva uma série de artigos sobre os autores que eles têm em carteira».


«o médico disse que não é um mioma. Antes fosse! Disse-me ele».


«Quando vim do lixo é que reparei - o velhote do segundo esquerdo tem a caixa a abarrotar de correio. Há vários dias que ele não passa por ali».


«Chegaste a ligar á tua mãe para saber como é que ela anda?».


«Onde é que você estava na noite do atentado?».


«Vim despedir-me! E escusas de conter o teu entusiasmo...»

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...