O homem velho não queria desfazer-se do velho carro.
Era como uma segunda pele, lembrava-se dele nos passeios de quarenta anos atrás, com a mulher suando sob o sol de Agosto e a filhita enfezada no banco traseiro, lembrava-se de todas as vezes que o lavara e polira para festas e casamentos, dos muitos rádios que tivera de instalar porque era artigo que o carro digeria sempre mal, das vezes que a mulher e ele se escapuliam para o carro para ter uns momentos de intimidade fora da casa com cortinados a fazer as vezes de paredes.
Agora, o velho carro apodrecia diante da sua casa, daquela que fora a casa do seu dono, e este não abdicava dele, porque era a sua morada e o seu refúgio, dormia nele, e mendigava no passeio, encostado às suas rodas, dentro e fora perdeu a noção de onde devia estar, e os outros acabaram por perder a noção de onde ele poderia estar.
Os anos passaram, mas manteve-se o respeito que a comunidade mantinha para com aquele carro velho, ninguém o destinou à sucata, nem se descobriam nele sinais de vandalismo, pinturas selváticas ou roubos fortuitos.
A sua velhice era tão distinta e glamorosa que acabou numa galeria de arte, exibido como uma escultura conceptual.
O carro velho fazia pensar, se não o carro com a sua pintura quase intacta e o brilho das jantes, então, o ninho de ossos humanos que assomava do banco traseiro, com um fémur saindo da janela, a apontar o tecto da galeria ou o céu acima dele.

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