O casario da cidade cresceu em volta de dois cruzeiros, como dois tumores em volta de um punhado de células mortas, a cidade dos vivos cresceu em círculos concêntricos em volta de um cruzeiro esculpido em granito cravado na mesa de um dólmen pagão que por ali ficara esquecido; e a cidade dos mortos, essa preferiu ordenar-se em áleas e avenidas de lápides a partir de um cruzeiro quebrado pelos vândalos napoleónicos, tendo na base a escultura, também truncada, de um anjo em pranto com sardinheiras florindo nos socos de terra dos ombros que haviam tomado o lugar das antigas asas de pomba. Uma cidade e outra viviam de costas voltadas, com uma estrada de terra a uni-las, quase tapada pelos caniços como uma veia quase entupida. Quando calhava, um cortejo triste e enlutado viajava de uma cidade à outra, transportando os seus mortos entre lamentações e rezas, o que a segunda cidade retribuía, amiúde, com um cortejo festivo e dionisíaco que entregava os seus habitantes à cidade dos vivos.

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