Não vem sempre que o chamamos, o amor, vem quando o convencemos a ficar connosco, temos de o atrair com gestos, murmúrios, canções, e quando chega à nossa beira, mimá-lo e alimentá-lo como se alimenta a cria de um corvo que se quer entre os galináceos, é bom que o amor não sinta que está preso num cercado de redes ou numa cabana de madeira porque logo tentará fugir, mas é difícil que ele perceba isso porque vive sozinho e escondido, sabendo que nos envergonhamos dele e que a sua nudez nos assusta, os dias passam e ele continua lá, escondido, levamos-lhe alimento quando nos lembramos, mas a distância do amor faz com que a nossa memória se dilua, e num dia que custa mais a passar do que os outros, vamos à sua procura, confiantes na alegria que sentiremos ao revê-lo, e o amor já não está lá, pelo menos vivo. É definitivo, e não adianta chamá-lo, ao amor - temos de continuar a fingir que ele ainda está vivo e que mora connosco, e que a ele pertence o brilho que os outros vislumbram no nosso olhar.

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