N de Nada

Nasceu e cresceu a ouvir o o mar, aprendendo com ele. Ainda muito criança, ainda sem saber nadar, seguia pela água adentro, com um flutuador em volta da cintura e os bracitos a chapinhar na água; aos poucos foi-se familiarizando com as ondas, e aprendeu a nadar como um peixe, sem medo do mar ou das ondas que batiam com fragor nas rochas. Do areal da Nazaré, ou das alturas do Suberco, conseguia-se divisar aquele adolescente de cabelos castanhos que flutuava junto às rochas, colhendo moluscos para um saco preso à cintura, por vezes, a sua cabeça parecia perder-se num torvelinho de espuma para inquietação de quem o observava, mas logo emergia triunfante, as mãos fixando o seu corpo a algum rochedo, mas sempre atento ao fluxo e refluxo das vagas. A mãe temia por ele, e todos os anos oferecia uma vela com o seu tamanho à igreja do Sítio, e dizia-se que prometera à Virgem da Nazaré que a iria ver à Ermida da Memória todos os dias da sua vida, conquanto ela o mantivesse vivo e são. Promessa mantida ou quebrada, não se sabe, porque todos tinham a sua sentença ao respeito, ou até podia não ter nada a ver com isso, que o mar não liga a promessas, o certo é que um dia chegou, que o jovem desapareceu mesmo nas ondas. Andava nadando naquele namoro perigoso com as ondas e as rochas, e vencera dois terços da distância que separa a praia, da Pedra do Guilhim, na ponta do promontório, e então viram-no ser engolido por uma onda violenta. Quem o viu foi o João Sarrazino, que estava a menos de cem metros e rumava o seu bote de pesca para a boca do porto de abrigo, e nisso o Sarrazino deu o alerta e andou por ali para trás e para a frente a ver se o via, mas não voltou à tona. Devia ter batido com a cabeça numa pedra, e ter ido ao fundo ou ter ficado preso numa daquelas covas que o mar vai cariando na rocha. A mãe desesperou quando soube, as horas foram passando, e a mãe aos gritos na areia e na calçada da marginal; e no porto de abrigo a interrogar os pescadores que voltavam. Chegou-se a noite e o corpo sem aparecer. Aos primeiros alvores da manhã seguinte, uns miúdos viram o corpo a boiar na quebrada das ondas e chamaram por gente. Os primeiros adultos que acorreram puxaram o corpo uns metros mais para cima, mas ninguém teve coragem para ir avisar a mãe, porque já nada restava daquele rapaz cheio de energia e exibindo um ar intimidante de confiança e força, tinha o corpo inchado, os pés e as mãos haviam começado a ser devorados, as partes mais macias dos dedos, e das palmas dos pés e mãos, mas o que chocava mais no seu aspecto era a ausência dos olhos, dos olhos sumarentos, polpudos, que os gulosos caranguejos haviam elegido como primeira iguaria, alguns ainda foram arrancados da sua cara, quando se banqueteavam já com as maçãs do rosto. Duas nazarenas afastaram dali os homens e limparam o corpo do jovem com panos molhados e com o seu coração de mãe, vestiram-lhe uma roupa lavada e esconderam as misérias sob umas luvas e um par de sapatos. Nada fizeram pelos olhos, a mãe dele era cega e talvez não notasse. Andavam nesses preparos, quando ela apareceu, chamando pelo nome do filho e encaminhando-se na sua direcção, e passou a apenas uns três metros deles, sempre a chamar pelo nome do filho, enquanto eles sustinham a respiração. Era quase meio-dia do segundo dia, e o corpo sem aparecer.

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