Micro-corrente

José Alexandre Ramos, atribuiu-me um prémio alusivo a "Talento de escrita - 21 de Março Dia Mundial da Poesia", que se destina segundo o próprio, a apontar autores que merecem ser destacados pela sua produção de textos de poesia e prosa.
Agradeço a escolha.
No espírito da iniciativa, transmito o prémio a três outros blogues, transcrevendo um dos seus posts como exemplo. Se os visados desejarem continuar a corrente, podem copiar no link acima o respectivo código html.



Sinais [excerto]

«(...) O nosso segredo é vertiginoso em sensação porque embelezamos cada história ao dar vida. Imagino: enquanto cresço, cresço, o mundo não muda muito, sempre este olhar desfocado no metro, no ruído ensurdecedor e fatalista de que alguém se vai atirar, as pessoas que passam sem se passarem, o rodopio geográfico das vidas simultâneas. Saiam dos buracos, escancarem as vossas carnes amarelecidas a este sol vibrante, evitem a solidão. Grito isto, e já está gritado!

Ana procura as imagens.
A solidão em Lisboa é o hall de um prédio antigo às escuras, uma luz que se acende num ruído seco e um velho de chapéu que desce vagarosamente o degrau da porta lá fora e lá fora, ah lá fora as escadinhas desertas e intermináveis não lhe trazem nenhuma ligação ao mundo. O velho sobe as escadinhas como se caminhasse lento para demorar a morte.
Lisboa é uma caixa vigorosa de histórias. Os passeantes nunca se cansam, há sempre um velho do restelo bêbado a gritar filhos da puta, anda cá cabrão, entre muitas frases desconexas. Há sempre um trauma de guerra na cabeça do bancário que atravessa a passadeira, há sempre uma menina de belas-artes a descer o chiado, com olhos grandes e claros presos às cores da rua, há nem sempre uma velha a espreitar, um arrumador de carros que não desejamos, e uma mulher nas ruas da amargura.
Ouve no metro as pessoas a comunicarem.
Quantas vezes é preciso afirmar “é assim” para que alguém nos ouça, e depois nada é definitivo, axiomático, mas apenas uma opinião.
O sol arde cada vez mais, queima-lhe a pele e a cabeça. Torna-se difícil pensar para além do pensar calor. Ana observa para dentro, e deita-se no verde. As miúdas vêm em bandos para a relva, falam alto e de cantigas da moda. Comem batatas fritas alternando com pastilhas. E o lago deixa de existir, o lago que fixavam os olhos dos pensadores solitários é agora um pântano de lama pegajosa que já não concede paz ao olhar e os senhores do anfiteatro viram-lhe as costas desiludidos.
Às vezes páras o que estás a fazer, olhas a atravessar o calor e o ar pesado do tempo e ficas nesse ritmo que é teu, a implorar novas forças. Como obra do desejo, a ira desajeitada contra tudo e todos menos contra a comoção das coisas».

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Distinção Blogue Talento de Escrita Dia Mundial da Poesia - 21 de Março de 2009


«Imagino. Um rumorejar de páginas entre os teus dedos, o estalar da cadeira quando te inclinas, as pestanas descansadas umas nas outras e logo levantas o olhar para a parede em frente. Imagino a ligeira impaciência, alguns respirares fora do compasso e, depois, rugas pequeninas no meio da testa. Sei a tua pele quente, aquela curva breve atrás do joelho por onde entro em contramão, o pulso pousado na cama e a mão firme no fundo das costas. Descansa agora, enquanto te entrego estes braços onde podes adormecer. Sentes-me e já ouço um sorriso nesses olhos brilhantes».

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Distinção Blogue Talento de Escrita Dia Mundial da Poesia - 21 de Março de 2009


"Arquivo Fantasma", de Sérgio Lavos

História de Amor

«O amor,
prolongar a morte,
comprimidos atravessando em vão o poema,
evitam a árvore que se ergueu na noite,
o amor

bater a porta com a potência calculada de um remate,
sair de casa.

Sair da casa, e a casa,
suspensa por cordas, declina a sua sombra na memória;
está tudo ali, colado ao frigorífico: a lista do supermercado,
a lua e dois sóis roxos, o número de telefone para as emergências,
o amor.

Na recusa de um prolongado sofrimento,
aceita a renúncia, o abandono;
O amor é uma sala de espera,vazia de gente, lugar frio;

a espera do silêncio que virá».

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