INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

N de Nada

Nasceu e cresceu a ouvir o o mar, aprendendo com ele. Ainda muito criança, ainda sem saber nadar, seguia pela água adentro, com um flutuador em volta da cintura e os bracitos a chapinhar na água; aos poucos foi-se familiarizando com as ondas, e aprendeu a nadar como um peixe, sem medo do mar ou das ondas que batiam com fragor nas rochas. Do areal da Nazaré, ou das alturas do Suberco, conseguia-se divisar aquele adolescente de cabelos castanhos que flutuava junto às rochas, colhendo moluscos para um saco preso à cintura, por vezes, a sua cabeça parecia perder-se num torvelinho de espuma para inquietação de quem o observava, mas logo emergia triunfante, as mãos fixando o seu corpo a algum rochedo, mas sempre atento ao fluxo e refluxo das vagas. A mãe temia por ele, e todos os anos oferecia uma vela com o seu tamanho à igreja do Sítio, e dizia-se que prometera à Virgem da Nazaré que a iria ver à Ermida da Memória todos os dias da sua vida, conquanto ela o mantivesse vivo e são. Promessa mantida ou quebrada, não se sabe, porque todos tinham a sua sentença ao respeito, ou até podia não ter nada a ver com isso, que o mar não liga a promessas, o certo é que um dia chegou, que o jovem desapareceu mesmo nas ondas. Andava nadando naquele namoro perigoso com as ondas e as rochas, e vencera dois terços da distância que separa a praia, da Pedra do Guilhim, na ponta do promontório, e então viram-no ser engolido por uma onda violenta. Quem o viu foi o João Sarrazino, que estava a menos de cem metros e rumava o seu bote de pesca para a boca do porto de abrigo, e nisso o Sarrazino deu o alerta e andou por ali para trás e para a frente a ver se o via, mas não voltou à tona. Devia ter batido com a cabeça numa pedra, e ter ido ao fundo ou ter ficado preso numa daquelas covas que o mar vai cariando na rocha. A mãe desesperou quando soube, as horas foram passando, e a mãe aos gritos na areia e na calçada da marginal; e no porto de abrigo a interrogar os pescadores que voltavam. Chegou-se a noite e o corpo sem aparecer. Aos primeiros alvores da manhã seguinte, uns miúdos viram o corpo a boiar na quebrada das ondas e chamaram por gente. Os primeiros adultos que acorreram puxaram o corpo uns metros mais para cima, mas ninguém teve coragem para ir avisar a mãe, porque já nada restava daquele rapaz cheio de energia e exibindo um ar intimidante de confiança e força, tinha o corpo inchado, os pés e as mãos haviam começado a ser devorados, as partes mais macias dos dedos, e das palmas dos pés e mãos, mas o que chocava mais no seu aspecto era a ausência dos olhos, dos olhos sumarentos, polpudos, que os gulosos caranguejos haviam elegido como primeira iguaria, alguns ainda foram arrancados da sua cara, quando se banqueteavam já com as maçãs do rosto. Duas nazarenas afastaram dali os homens e limparam o corpo do jovem com panos molhados e com o seu coração de mãe, vestiram-lhe uma roupa lavada e esconderam as misérias sob umas luvas e um par de sapatos. Nada fizeram pelos olhos, a mãe dele era cega e talvez não notasse. Andavam nesses preparos, quando ela apareceu, chamando pelo nome do filho e encaminhando-se na sua direcção, e passou a apenas uns três metros deles, sempre a chamar pelo nome do filho, enquanto eles sustinham a respiração. Era quase meio-dia do segundo dia, e o corpo sem aparecer.

Depois de andar muito por muitos lados, atingiu o País da Cocanha. Não adquiriu nenhum halo luminoso na cabeça, não passou a levitar como os ioguis lendários, ou adquiriu o toque de Midas, na verdade, fartura até nem havia muita nesse país, nem leitões assados à discrição, rios de leite ou pães pendurados das árvores; e Cocanha, a Cocanha do nome, só via aquela que obtinha com o dinheiro que ganhava a arrumar carros.

Humanista e enciclopedista durante os tempos agitados da Revolução Francesa, Émile Girondin dedicou-se a difundir os ideais de Babeuf em panfletos incendiários, e foi guilhotinado por isso. Ele foi a prova acabada, de que o papel corta.

"Espere, não me leve ainda, tenho muitos quadros na cabeça por pintar, alegorias, paisagens, nus, naturezas-mortas. Volte outro dia, por favor!".
O escaveirado beleguim olhou o relógio, como se os poucos segundos do acto momentâneo de olhar o relógio fossem a única prorrogação que podia conceder.
"Você disse o mesmo há dez anos, mais ainda não pintou nada e não tem como pagar a renda do estúdio!".
E fez cair sobre ele a ordem judicial, afiada como uma foice.

regresso

Obteve ouro e prata em troca de bugigangas e colares de contas, e regressou cheio de riquezas, ansioso por comprar um título e dourar uma genealogia forjada.
No tédio tumular e húmido do seu palácio europeu,
no seu cadeirão diante da lareira, e rodeado de galgos anémicos e filhos enfezados,
foi visitado pela cálida fantasia de uma belíssima feiticeira índia que dança em volta de uma fogueira, vestida apenas com os desprezíveis colares de contas que atirara aos seus pés.

Epifânio apaixonou-se.
Uma paixão em remédio. Logo ele, homúnculo desprezado pelos deuses, todo bambo, torto, desfigurado e disforme. A sua paixão era maior do que ele. À vista dela, a coluna esticava-se como um fio de prumo e um sangue novo corria pelas suas veias. Sentia o coração bater forte, era um morto chamado à vida, erguendo-se do seu ninho de mendigo como Lázaro entre os vivos.
Os efeitos que o ser amado causavam em si, eram a sua epifania, e duravam mais do que o eco dos seus latidos.

Baudelaire:

«É preciso estar sempre embriagado. É isso mesmo: é a única questão. Para não sentir o fardo horrivel do tempo que nos verga os ombros e nos inclina para a terra, é preciso que nos embriaguemos sem cessar. Mas com quê? Com vinho, poesia ou virtude, como vos aprouver. Mas embriagai-vos. E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de um valado, na solidão triste do vosso quarto, acordardes, com a embriaguês já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, responder-vos-ão: "É hora de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, como vos aprouver!"».

O médico regressou a casa um pouco antes do tempo, e encontrou-a já á porta, com as malas feitas, e uma expressão de desconforto.
- Pensei que estávamos bem - disse ele, sem animosidade.
- Não estávamos, isto é pior do que não viver. Se gostas de mim, se me tens alguma amizade, deixa-me viver.
Ele achou justo e despediu-se dela com um beijo. Deixou de a ver durante anos, e só a reencontrou no Hospital onde trabalhava. Aquela que fora sua mulher, agonizava em dor depois de um terrível desaste de viação. Estava em desespero, nem a medicação afastava a dor
Fora ela quem pedira para o chamar.
- Se gostas...de...mim...deixa-me...morrer...
Ele achou justo, e despediu-se dela com um beijo.

dejà vu

No final da adolescência, o primeiro teste vocacional que fez, e o único, deu como resultado que a profissão que melhor corresponderia ao seu perfil era a de piloto de helicópteros. Foi uma surpresa completa, e um disparate. Nunca se fiou naquele resultado, e nunca esteve a menos de cem metros de um helicóptero.
Às vezes, detinha-se a pensar nisso. Talvez tivesse um outro eu a existir numa dimensão paralela, e partilhando consigo alguns momentos e sensações - coisas que eram do outro tomava emprestadas sem se aperceber, e concedia ao outro alguns fragmentos da sua memória e experiência. Só isso poderia explicar, a noção autobiográfica de que já se despenhara umas quantas vezes desde esse teste.

Resposta de um rato-de-biblioteca num questionário do Centro de Emprego:

«Eu até não me importava de trabalhar como guarda-livros, desde que os pudesse ler...»
Romancista: Estou cansado do meu novo romance, já não sei mais o que inventar ou o que poderei fazer a partir daqui. Não me queres acabar o romance?
Amigo do romancista: Decerto que sim, dá-me algum tempo.

O tempo foi-lhe concedido. Estudou os personagens do romance, os seus trejeitos e falas, os lugares e os tempos do romance, de modo a entrar na pele do amigo. Retomou o romance onde ele o tinha interrompido, acabou-o, e depois de o acabar, tão identificado estava com a pele do amigo que o retomou novamente.

Romancista: Conseguiste acabar o meu romance?
Amigo do romancista: A coisa está um pouco complicada. Deixa-me por as coisas desta forma - é pouco provável que a tua namorada volte a sentir a tua falta...

dança espontânea

Em tempos idos, aspirara tornar-se um bom dançarino, com os piores métodos possíveis - cursos de pacotilha que compreendiam, cada um deles, algumas cassetes de vídeo, instruções escritas num livrinho com boas fotografias de dançarinos sorrisentes, e o tapete acessório com o desenho colorido e numerado das pegadas que deveria seguir em ordem crescente. Mau-grado as tardes de Sábado empregues nisso, e a sua incursão em muitos géneros de dança, nunca se tornou um bom dançarino, nem mesmo, sofrível. A companheira ria-se das suas pretensões e filmava-o para a posteridade, mas em pouco tempo, o seu estado de graça dissipou-se e foi ela quem lhe sabotou o hobby, já que não gostava de dançar e não via justificação naquela teimosia. Depois de conseguir que ele arrumasse aquela tralha toda, a companheira esforçou-se por compensar a sua frustração, da única maneira que sabia, com muito carinho e muito sexo, sem coreografias nem tapetes debaixo dos pés.

"Para onde vais?"

- Como dizia o meu primo gaulês, estes romanos são doidos!
- Também acho, onde é que se viu, arrancarem-nos de casa para nos por aqui a jogar à cabra-cega?!
- Não gosto de ter as sandálias cheias de areia, e agora pareceu-me ouvir um rugido...
- Se calhar foi a minha barriga, este coliseu de Roma é tão grande que não consegui descobrir onde é que me poderia aliviar.
- E também não quiseste perguntar, não é? Para não parecer provinciano. Por Ógmion! A tua barriga ruge como um leão. Se eu estivesse numa rua escura, juro que me borrava de medo!
- Não consegui ouvir o que disseste, mas no que me diz respeito, eu já estou mais aliviado.

Um bem volúvel

O trintão sentado nos degraus das traseiras, emburrado, a olhar sem expressão as nuvens no alto, na esquadria dos topos dos prédios.
- Pai! Queres brincar comigo?
- Desculpa, filha, mas não tenho pachorra!
Uma pausa, a filha sentou-se ao seu lado no degrau, e olhou para o alto. Não percebia como é que o pai conseguia passar horas, tardes inteiras, como uma estátua, a olhar o céu.
- Podias ler-me uma história, ou jogávamos aqueles jogos do cê-dê que me ofereceram...
- Depois, filha, agora não tenho mesmo pachorra nenhuma.
- Diz-me uma coisa pai, gostaste mesmo daquele prenda do Dia do Pai que fizemos na escola?
- Gostei, claro que gostei! Nesse dia, ainda tinha alguma pachorra comigo!

palermice trigonométrica

Seno:
- Vais-te pôr a tergiversar comigo?
Cosseno:
- Porque dizes isso? Sabes que eu nunca tive jeito para a poesia!
Nos corredores e desvãos das lojas de velharias, há escarradores lindos em porcelana sobre tripés metálicos. São quase todos de fabrico estrangeiro, francês, alguns até ostentam imitações de gravuras estilo império, e elaboradas fantasias nos estilos cocó e rococó.
Já não se importam artigos lindos como estes escarradores. Os nacionalistas intervieram, e substituíram os escarradores por pessoas amáveis e bem educadas, nascidas e criadas em solo pátrio, porque a saliva dos portugueses não devia ser desperdiçada.

Não vem sempre que o chamamos, o amor, vem quando o convencemos a ficar connosco, temos de o atrair com gestos, murmúrios, canções, e quando chega à nossa beira, mimá-lo e alimentá-lo como se alimenta a cria de um corvo que se quer entre os galináceos, é bom que o amor não sinta que está preso num cercado de redes ou numa cabana de madeira porque logo tentará fugir, mas é difícil que ele perceba isso porque vive sozinho e escondido, sabendo que nos envergonhamos dele e que a sua nudez nos assusta, os dias passam e ele continua lá, escondido, levamos-lhe alimento quando nos lembramos, mas a distância do amor faz com que a nossa memória se dilua, e num dia que custa mais a passar do que os outros, vamos à sua procura, confiantes na alegria que sentiremos ao revê-lo, e o amor já não está lá, pelo menos vivo. É definitivo, e não adianta chamá-lo, ao amor - temos de continuar a fingir que ele ainda está vivo e que mora connosco, e que a ele pertence o brilho que os outros vislumbram no nosso olhar.
O casario da cidade cresceu em volta de dois cruzeiros, como dois tumores em volta de um punhado de células mortas, a cidade dos vivos cresceu em círculos concêntricos em volta de um cruzeiro esculpido em granito cravado na mesa de um dólmen pagão que por ali ficara esquecido; e a cidade dos mortos, essa preferiu ordenar-se em áleas e avenidas de lápides a partir de um cruzeiro quebrado pelos vândalos napoleónicos, tendo na base a escultura, também truncada, de um anjo em pranto com sardinheiras florindo nos socos de terra dos ombros que haviam tomado o lugar das antigas asas de pomba. Uma cidade e outra viviam de costas voltadas, com uma estrada de terra a uni-las, quase tapada pelos caniços como uma veia quase entupida. Quando calhava, um cortejo triste e enlutado viajava de uma cidade à outra, transportando os seus mortos entre lamentações e rezas, o que a segunda cidade retribuía, amiúde, com um cortejo festivo e dionisíaco que entregava os seus habitantes à cidade dos vivos.
A primeira palavra que ouviu ao filho foi:
ÁGUA
O pequeno ao colo, do lado de dentro de uma vidraça batida pela chuva, o cabelo encostado à sua face. E a palavra, nítida, no ar:
Água!
Nada de pai, mãe, té-té, mu-mu:
Água!
A primeira palavra e o primeiro dos elementos.
Pensou nas milhentas palavras que alimentariam a existência do filho, como gotículas de um caudal a crescer,
e sentiu-se humilde e grato por tê-la ouvido.

Micro-corrente

José Alexandre Ramos, atribuiu-me um prémio alusivo a "Talento de escrita - 21 de Março Dia Mundial da Poesia", que se destina segundo o próprio, a apontar autores que merecem ser destacados pela sua produção de textos de poesia e prosa.
Agradeço a escolha.
No espírito da iniciativa, transmito o prémio a três outros blogues, transcrevendo um dos seus posts como exemplo. Se os visados desejarem continuar a corrente, podem copiar no link acima o respectivo código html.



Sinais [excerto]

«(...) O nosso segredo é vertiginoso em sensação porque embelezamos cada história ao dar vida. Imagino: enquanto cresço, cresço, o mundo não muda muito, sempre este olhar desfocado no metro, no ruído ensurdecedor e fatalista de que alguém se vai atirar, as pessoas que passam sem se passarem, o rodopio geográfico das vidas simultâneas. Saiam dos buracos, escancarem as vossas carnes amarelecidas a este sol vibrante, evitem a solidão. Grito isto, e já está gritado!

Ana procura as imagens.
A solidão em Lisboa é o hall de um prédio antigo às escuras, uma luz que se acende num ruído seco e um velho de chapéu que desce vagarosamente o degrau da porta lá fora e lá fora, ah lá fora as escadinhas desertas e intermináveis não lhe trazem nenhuma ligação ao mundo. O velho sobe as escadinhas como se caminhasse lento para demorar a morte.
Lisboa é uma caixa vigorosa de histórias. Os passeantes nunca se cansam, há sempre um velho do restelo bêbado a gritar filhos da puta, anda cá cabrão, entre muitas frases desconexas. Há sempre um trauma de guerra na cabeça do bancário que atravessa a passadeira, há sempre uma menina de belas-artes a descer o chiado, com olhos grandes e claros presos às cores da rua, há nem sempre uma velha a espreitar, um arrumador de carros que não desejamos, e uma mulher nas ruas da amargura.
Ouve no metro as pessoas a comunicarem.
Quantas vezes é preciso afirmar “é assim” para que alguém nos ouça, e depois nada é definitivo, axiomático, mas apenas uma opinião.
O sol arde cada vez mais, queima-lhe a pele e a cabeça. Torna-se difícil pensar para além do pensar calor. Ana observa para dentro, e deita-se no verde. As miúdas vêm em bandos para a relva, falam alto e de cantigas da moda. Comem batatas fritas alternando com pastilhas. E o lago deixa de existir, o lago que fixavam os olhos dos pensadores solitários é agora um pântano de lama pegajosa que já não concede paz ao olhar e os senhores do anfiteatro viram-lhe as costas desiludidos.
Às vezes páras o que estás a fazer, olhas a atravessar o calor e o ar pesado do tempo e ficas nesse ritmo que é teu, a implorar novas forças. Como obra do desejo, a ira desajeitada contra tudo e todos menos contra a comoção das coisas».

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Distinção Blogue Talento de Escrita Dia Mundial da Poesia - 21 de Março de 2009


«Imagino. Um rumorejar de páginas entre os teus dedos, o estalar da cadeira quando te inclinas, as pestanas descansadas umas nas outras e logo levantas o olhar para a parede em frente. Imagino a ligeira impaciência, alguns respirares fora do compasso e, depois, rugas pequeninas no meio da testa. Sei a tua pele quente, aquela curva breve atrás do joelho por onde entro em contramão, o pulso pousado na cama e a mão firme no fundo das costas. Descansa agora, enquanto te entrego estes braços onde podes adormecer. Sentes-me e já ouço um sorriso nesses olhos brilhantes».

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Distinção Blogue Talento de Escrita Dia Mundial da Poesia - 21 de Março de 2009


"Arquivo Fantasma", de Sérgio Lavos

História de Amor

«O amor,
prolongar a morte,
comprimidos atravessando em vão o poema,
evitam a árvore que se ergueu na noite,
o amor

bater a porta com a potência calculada de um remate,
sair de casa.

Sair da casa, e a casa,
suspensa por cordas, declina a sua sombra na memória;
está tudo ali, colado ao frigorífico: a lista do supermercado,
a lua e dois sóis roxos, o número de telefone para as emergências,
o amor.

Na recusa de um prolongado sofrimento,
aceita a renúncia, o abandono;
O amor é uma sala de espera,vazia de gente, lugar frio;

a espera do silêncio que virá».
O homem velho não queria desfazer-se do velho carro.
Era como uma segunda pele, lembrava-se dele nos passeios de quarenta anos atrás, com a mulher suando sob o sol de Agosto e a filhita enfezada no banco traseiro, lembrava-se de todas as vezes que o lavara e polira para festas e casamentos, dos muitos rádios que tivera de instalar porque era artigo que o carro digeria sempre mal, das vezes que a mulher e ele se escapuliam para o carro para ter uns momentos de intimidade fora da casa com cortinados a fazer as vezes de paredes.
Agora, o velho carro apodrecia diante da sua casa, daquela que fora a casa do seu dono, e este não abdicava dele, porque era a sua morada e o seu refúgio, dormia nele, e mendigava no passeio, encostado às suas rodas, dentro e fora perdeu a noção de onde devia estar, e os outros acabaram por perder a noção de onde ele poderia estar.
Os anos passaram, mas manteve-se o respeito que a comunidade mantinha para com aquele carro velho, ninguém o destinou à sucata, nem se descobriam nele sinais de vandalismo, pinturas selváticas ou roubos fortuitos.
A sua velhice era tão distinta e glamorosa que acabou numa galeria de arte, exibido como uma escultura conceptual.
O carro velho fazia pensar, se não o carro com a sua pintura quase intacta e o brilho das jantes, então, o ninho de ossos humanos que assomava do banco traseiro, com um fémur saindo da janela, a apontar o tecto da galeria ou o céu acima dele.

Como se manejasse castanholas, as mãos dela bailaram no ar com salero ao som de uma distante música sevilhana, riram-se os dois, o riso era luminoso, carregado, como o pólen das bétulas que descia das alturas, tocaram-se as mãos, mitigando a saudade, as palavras resgatavam outros dias e noites, de músicas e risos, havia sol, muito sol para uma Primavera pueril, ela sacudiu a cabeleira castanha e expôs ao sol os olhos semicerrados, ele amou aquele momento e aquela mulher, com a sombra e a luz na curva dos seios e um pérola de saliva no vê dos lábios perfeitos. Quero-te! Pensou ele, e ela sentiu-o, na pressão dos seus dedos, na mão, na coxa. Ela levantou-se e ele seguiu-o. Entraram à socapa na casa-de-banho da esplanada do parque, e foderam como puderam naquele espaço exíguo fedendo a mijo, aliviaram o desejo e a distância, a angústia de um momento sem volta. Quando voltaram à luz do dia, deram-se as mãos por um momento - os olhares comungando expressivos silêncios - e tomaram caminhos opostos, vogando pelo Parque como o pólen das bétulas.

Lucro pulcro

A cadeia de joalharias descobriu que podia obter mais lucros nas jóias, se estas fossem lapidadas e montadas num pequeno país das antípodas onde os operários trabalhavam em turnos de catorze horas e ao preço da chuva. A descoberta levou-os a dispensar cento e quarenta empregados, acompanhando a tendência geral da região - trezentos e trinta pessoas despedidas na indústria de calçado e têxteis, duzentas na fábrica de brinquedos electrónicos, oitenta e duas numa empresa de tubos de polietileno. Na região onde a cadeia de joalharias fora a primeira a descobrir a pólvora, muitas famílias viram-se, de repente, manietadas pelo desemprego, e só por necessidade imperiosa, se permitiam comprar roupa ou calçado novo, fazer obras, ou comprar artigos de luxo. As jóias, estavam completamente fora de questão. Ali, já não as poderiam comprar, nem eles, nem os operários das antípodas que trabalhavam em turnos de catorze horas ao preço da chuva.

"A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do próximo" - Repetiu, de cor, para o vizinho de cima.
O piolho, arrependido, interrompeu o vampirismo e abandonou o couro cabeludo.

Num país em que não havia mar, um homem velho de pele curtida sonhava com um mar que nunca vira, e que vinha até à orla da sua tenda como uma serpente marinha; na noite as dunas convertiam-se em ondas, e os peixes-voadores alçavam o seu salto sobre a espuma das vagas. Quando o dia nascia, o deserto era deserto outra vez, e não havia peixes, apenas sol e cristais de areia, e o homem velho de pele curtida sentava-se à porta da sua tenda, como um náufrago, procurando lembrar-se da onda que o tinha largado ali, com as suas marcas de nascença nos ombros e braços, semelhantes a tatuagens de marujo.

As outras pessoas, as suas vidas, gestos e sombras, desinquietavam-na, nunca tinha tirado nenhum prazer da vida e o simples trato social encordoara no seu íntimo uma inveja e mesquinhez que nada poderia desincrustar, sorvia as conversas dos outros e tecia anátemas sobre vagas suspeitas, a uma amiga reprovava velada ou claramente as roupas boas que trazia vestida ou as atenções do namorado, a outra pessoa qualquer o simples facto de ser mais magra, de ter um carro melhor, um telemóvel mais bonito ou assoar-se com alguma elegância.
Um dia normal para ela, tinha por força de comportar a libertação de uma quantidade mínima de veneno. Era uma necessidade física e mental. Poderia ser um acto silencioso como torcer o nariz ao passar por algum estranho na rua, ou a uma cliente do supermercado, ou uma manobra mais elaborada, como cerzir na figura de uma amiga uma casaca de desaprovação, porque gastava mais do que devia, e tinha a mania de contratar uma palhacinho para a festa de anos da filha, além de, há cinco anos seguidos, ir sempre uma quinzena de férias para fora, quando ela própria nunca soubera o que era ir de férias e nunca dormira num quarto de hotel, ou sequer de uma pensão decrépita. Fora sempre viver e trabalhar, e invejar o que os outros podiam ter ou viver.
Malfadado o dia quando regressava a casa sem dar uma ferroada em alguém, o que só muito raramente acontecia e só por não se lembrar disso. Ficava possessa, angustiada, exaltando-se com qualquer coisa, e não conseguia dormir sem riscar com bâton a cara daquela pretensiosa que a olhava do espelho com desprezo, ou largar o seu ferrão numa almofada de esponja que comprara para o efeito.
Ainda que o som das palavras confunda, é muito diferente ter a generosidade e a afeição íntima para procurar ver através das pessoas; e passar a vida a olhar os outros de través.

Quando se viram nus na cama, a princesa hesitou:
- Disseram-me que a pele de sapo faz verrugas!
- Então, beija-me primeiro - respondeu o sapo.
O mail parecia urgente, desesperado mesmo.
- Deus meu! Estou às portas da morte, preciso da sua ajuda!
Resposta automática do servidor de mail:
- Em férias, tente outro dia ou venha falar comigo pessoalmente.
Ela vestia sempre roupas uns dois números acima, convencida de que a faziam parecer mais magra. Mas a fita métrica do agente da funerária, não dava a mínima para aparências.
Na avenida citadina, mascarado, via-se e desejava-se para conseguir um táxi. Esperou e esperou, suportando a troça dos que passavam. Por fim, parou um táxi, e ele entrou de imediato.
- Eu sou o Pierrot - começou por avisar, antes de qualquer piada - e já estava farto de esperar!
- E eu cheguei por fim, e sou o Godot.

Giano

Mais uma tradução de Stefano Valente, de um arremedo de prosa.

Obrigado!

(O texto original é
este, e refiro-o, porque mo perguntaram das outras vezes ;).

Provérbio místico:

Quem faz a Karma, nela se deita.

t(v)irano

A luz foi abaixo, logo a seguir ao jantar, um jogo de futebol numa televisão, o noticiário das oito noutra. Ficaram todos desconsolados. Acendeu-se uma vela, enquanto o patriarca ligava para os serviços técnicos. Era uma avaria, eles já sabiam, ardera um daqueles postes de luz em madeira. Ia demorar. Acenderam-se mais velas. O patriarca não encontrava o rádio de pilhas para ouvir o relato, e impacientava-se. A mulher lembrou-se que podiam jogar ás cartas, como quando faziam campismo no Verão. Dominó! Pediu o filho a gritar da sala, enrolando os fios da PlayStation. Juntaram-se todos em volta da mesa da cozinha, o casal, o filho, os avós maternos, alumiados por um candelabro de aspecto vitoriano que quase nunca era usado. A pontos! Interviu novamente o rapaz, enquanto se constituíam as equipas. Foram distribuídas as peças, sete para cada equipa, e iniciou-se o jogo. O primeiro jogo acabou num instante, seguiu-se o segundo e o terceiro jogo, a meio do qual a luz voltou, fazendo a casa explodir de luz e ruído. Virando para baixo as suas peças, para ninguém espreitar o seu jogo, o rapaz foi até ao quadro da luz, e desligou a energia no Geral.

Casas

A sua casa estava vazia, não tinha nada lá dentro a não ser a solidão, mas a solidão não é uma coisa, é uma ausência, e ela estava vazia mesmo. Só voltava a casa para lá dormir, pousava a cabeça na almofada, e na solidão, e o sono vinha devagar, deslizando, como um corpúsculo de poeira a dançar na luz, de manhã nunca se lembrava do que sonhara, talvez nem sonhasse, e a sua cabeça durante o sono fosse como aquela casa, vazia e sem ninguém. A solidão começou a pesar, como se vivesse e dormisse com o tecto apoiado na sua cabeça, e começou a procurar sonhos na rua para trazer para casa, cada dia trazia um sonho novo e a casa foi enchendo, vibrando com vozes e presenças ténues, mas reais. Mas continuava a ir a casa só para dormir, porque os seus sonhos não o queriam lá antes da hora de deitar, essa hora avassaladora em que os sonhos pulavam para dentro dele, guinchando e degladiando-se na casa diminuta que era a sua cabeça.

The day(s) after

Seis da manhã, acordou sobressaltado. O despertador não tocara. Porque é que o despertador não tocara? Vestiu-se num ápice, roeu um pouco de pão sem nada e bebeu uma caneca de leite com café, tudo morno, mal-aquecido no micro-ondas, e isto enquanto calçava as botas de trabalho. Estava com tempo, mas ainda assim saiu a correr, prego a fundo no carro, acelera na estrada em hora de repouso ainda merecido. Quando chegou à fábrica, ainda faltavam cinco minutos para as seis e meia. Não havia ninguém junto ao relógio de ponto, procurou o seu cartão, mas não o viu, também não encontrou o seu nome junto à ranhura de onde costumava retirar o cartão. Sentiu uma palmada gentil no ombro. Era o segurança, o senhor Marcos, gente boa.
- Foram muitos anos a fazer o mesmo, não é? Ás vezes, a gente até se esquece...

Ordem

O criminoso infame a quem baptizaram de "Lenhador", assassino-em-série das Montanhas Rochosas, costumava arrumar as suas vítimas na secção de Perdidos & Machados.

Declínio

Spirou 1

Spirou 2

semântica e tragédia

Estava convencido que os dormentes da linha férrea serviam para as pessoas dormirem.

ident. vs. alter.


Madrugada do dia 9, no Fórum da Comunidade:

"Eu procuro e colho os frutos da Mãe Ísis, a geradora de mundos, nas minhas mãos rodo o seu fuso de prata que atrai e semeia as energias do Akhet. Como a deusa-hipopótamo, transporto as águas do Nilo celeste na ânfora de Sekhet-Ianru, como ela, eu sou a Dadora de Vida - quando desce as mãos do semeador sobre os campos inundados, eu sou os seus dedos, e as sementes na palma da sua mão, e o seu gesto descreve o círculo luminoso da cruz Ankh no renovo da vida; a estrela Sothis resplandece na minha fronte como na cúpula dos céus, e o falcão Hórus está comigo.
"Para atrair as graças de Ísis sobre a nossa vida, entoar três vezes o hino de Ísis sobre uma bacia com água ou um saco de sementes de lótus, e fazer deslizar o dedo humedecido nessa água ou uma semente de lótus, na testa dos entes amados, traçando as linhas sagradas da cruz de Ankh. Depois, deitar-se no chão em terra, e afundar na terra o pé esquerdo, erguendo aos céus o braço direito, para que as energias dos dois pólos a (o) atravessem, e restabeleçam o equilíbrio essencial que atrairá sobre todos a fortuna e a saúde".


Entardecer do dia 9, no Mundo Inferior:

- Não podes ficar mais tempo, o meu filho está quase a chegar.
O homem velho e gordo ao seu lado não lhe soltava o pulso. Estava nu, e suava em bica.
- Não me vou embora! Paguei, não paguei? Posso pagar mais algum, mas não me vou embora sem que me faças vir.
Ela quis protestar, mas a mão dele fechara-se sobre os seus cabelos, e empurrava a sua cabeça para baixo, para o seu pénis murcho entre coxas conspurcadas por uma camada de fezes ressequidas.

hidra 2

(o bicho-papão está rondando a minha porta)

hidra


A hidra de Lerna enfastiava-se depressa.
(ela tinha mais olhos que barriga)

missiva

Sentou-se à sua mesa de trabalho, e começou a escrever uma carta. Parece sempre estranho escrever uma carta, é como dar um passo sem saber onde o pé irá pousar, mas reuniu coragem e começou a escrever - "Amiga", primeira palavra, primeira hesitação (ela podia ser encarada como uma ironia, um palavra com um segundo sentido, uma vez que não se falavam nem se escreviam há algum tempo) mas não rasurou, nem puxou de uma nova folha, e a persistência da primeira palavra levou-o a avançar para o primeiro parágrafo.
"Sei que estou há muito tempo para te escrever, mas não te escrevi antes porque não sabia o que dizer. Também não me sentia em falta, porque a tua última carta pareceu-me definitiva, como o correr do pano no final duma peça. Consegui ler mais nessa carta do que aquilo que as palavras encerravam, havia outros sinais, a caligrafia carregada no final das palavras, a pontuação que quase furava o papel, o texto a correr desenfreado como um barco desgovernado na correnteza. Soube, senti, que aquilo que escrevias e o modo como o fizeste, não era só dirigido a mim, era um ajuste de contas com a imunda corja de seres humanos onde me calhou em sorte fundir-me. Não podia ser apenas para mim, porque não somos mais do que dois estranhos que entabularam conversa numa sala de espera ou na enfermaria de um hospital, e decerto que também não podia ser por algo que eu tivesse feito ou deixado de fazer. Nós, pessoas patéticas e medrosas, mantemos relações e amizades que não são mais do que solenes superficialidades, acidentes sem importância que cessam logo que começam a existir como um pirilampo esmagado pela patorra dum elefante. Atrever-me-ia a dizer que o negrume que vês em volta está dentro de ti, e que o nojo que sentes, no fundo, não tem causa alguma fora de ti. Não fui eu que te roubei os sonhos, a infância, a esperança, ou o que quer que seja que te faz sentir revoltada...".
Interrompeu a carta, e releu o que escrevera. Parecia paternalista, condescendente, superior. Não podia enviar-lhe aquilo assim, tinha de ponderar mais as palavras, aligeirar o texto, como aqueles comprimidos que se misturam com açúcar para dar às crianças. Remexeu nas gavetas, precisava reler a última carta dela, de há dois meses atrás, para estar certo do que estava a escrever. Encontrou-a, escrita à mão em letra miudinha e escorreita, e leu-a:
"Vemo-nos forçados a suspender as relações comerciais com a firma de V. Exa. devido ao mau estado e falta de qualidade do vosso produto. A última encomenda que os senhores entregaram, e atrasada, provocou intoxicações alimentares em diversos fregueses nossos, do que resultou um inquérito oficial e diversas despesas médicas que tivemos, por ora, de suportar. Mandamos os nossos advogados instaurar-vos um processo, no qual nos alegamos merecedores duma justa indemnização. A vossa conduta foi irresponsável e criminosa, e será feita justiça!".
Ali estava, uma carta seca e injustamente amarga, nem o chamou de Senhor, como em missivas anteriores. Havia ali coisa, animosidades estranhas, talvez produto de intrigas económicas. Sentia-se uma vítima. Retomou a carta onde a deixara:
"...também não fui eu que te tirei a certeza de que o Pai Natal existia ou de que era viável a sociedade sem classes. Não percebo pois, tanta revolta, e logo contra mim, que vos fazia descontos no preço final, muito para além do conveniente...".

Um poema de Daniel Faria, e uma gravura de Claudia Patti:

Há uma Mulher a Morrer Sentada


Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens

Alquiminfância

Acabara de sentar-se no seu trono diante do computador, quando o filho de cinco anos lhe puxou pela manga do pijama.
- Pai, conta-me esta história! - pediu, segurando com dificuldade um livro pesado com ilustrações.
Rebobinou, tinha de acabar aquela escrita, para ser apresentada nas Finanças na Segunda-Feira, procurou uma safa.
- Porque não pedes à mãe, o pai tem muito que fazer...
- A mãe tá deitada, dói a cabeça. Este livro é mágico, pai, conta-me a história.
- Tens a certeza de que o livro é mágico? Onde o pai comprou o livro, não avisaram que vendiam livros mágicos.
A expressão tristonha do filho demoveu-o de mais dialécticas. Pegou no filho e no livro mágico e sentou-se no divã. Quase esqueceu a escrita quando o filho se anichou junto ao seu peito, muito atento.
- Ora bem, a capa, tem este peixe grande às riscas...
- É um peixe-palhaço, como o Nemo, mas não é o Nemo!
- ...e o título é o "O Sonho do Peixe-Balão". Agora, vamos começar a história, Epa! Esta história tem palavras que nunca mais acaba, fazemos assim - o pai lê em silêncio cada página e, depois, conta a história pelas gravuras. Está bem assim?
- Está bem, pai, obrigado pai!
- Ora...o Simeão, o teu peixe-palhaço, vivia neste recife que tinha muitos peixes, e medusas...
- ...e estrelas-do-mar e caranguejos e cavalos-marinhos.
- O melhor amigo do Simeão é o Bolas, o peixe-balão, aqui estão os dois a brincar, nesta página os dois estão a fazer uma corrida, e nesta página a seguir estão a conversar com este peixe grande. Sabes como é que se chama este peixe grande?
- É uma baleia, mas a baleia não é um peixe, pai, é um mamífero.
- Ai sim?
- Foi a professora que disse, naquele passeio a Lisboa. O que é essa nuvem ao pé do Bolas?
- Não é uma nuvem, é ele que está a sonhar. Deixa ver, o Bolas sonhava que queria ser como os peixes-voadores e dar grandes saltos fora da água, mas não sabia como.
- Ele podia ficar em cima da baleia e quando saísse o chuveiro da baleia, ele saltava!
- Acho que eles não pensaram nisso, o Simeão e o Bolas procuraram desenvolver uma metodologia para o salto fora de água. Aqui experimentam com algas a servirem de elástico, com a asa de uma jamanta a fazer de trampolim, depois experimentam com o Bolas arrastado por um golfinho, e mais uma, duas, três páginas, e nenhum destes processos se revelou adequado.
- Ele está triste...
- Pois, o Bolas ficou triste e disse ao Simeão que queria ficar sozinho, e foi dar um passeio. Como se sentisse muito cansado, deitou-se em cima desta pedra em forma de cone para dormir um pouco. Quando estava quase a adormecer, ouviu a pedra tremer e saiu um jacto de água da pedra que o empurrou com força para cima, fazendo-o dar um grande salto fora de água. Todo contente, o Bolas foi chamar o Simeão e os dois passaram o resto do dia a brincar ali. Ele tinha realizado o seu sonho...Hum!...isto só mesmo no reino da fantasia, porque acho que eles ficavam cozidos naquela água quente.
- E acabou o livro?
- Sim, o teu livro mágico acabou, aqui na última página estão os dois a brincar, e os amigos do recife juntaram-se para os ver, e estão todos a rir-se.
Fechou o livro. Ouviu a voz da mulher a chamar pelo garoto na outra ala da casa.
- É a mãe, está na cozinha, vou comer!
- O que é que se diz?
- Obrigado pai! Arrumas o livro?
- Tá, vai lá, que eu arrumo o teu livro mágico!
O filho saiu a correr do escritório, e ele voltou á secretária. Pousou o livro no tampo, e premiu o Enter para desfazer as fotografias que corriam no ecrã. Quando começou a trabalhar no teclado, sentiu que os nós dos dedos estavam ásperos. Olhou-os bem à luz da janela, estavam de facto ásperos, e farinhentos, parecia que os tivera mergulhados em sal. Só se fosse do mar do livro mágico...

Literal

- Amanhã estou de banco no Hospital.
- Outra vez ?!!
- O que é que queres? É o meu trabalho...
- Sim, mas depois não te venhas queixar que te doem as costas!

A Melancolia de Grey

Um excerto d'A Natureza das Coisas, de Lucrécio (s. I a.C.):


"Mas Prometeu está para nós na terra: é aquele que os pássaros do amor rasgam, que uma ansiosa angústia devora, aquele a quem as preocupações de todas as paixões quebram.
"E Sísifo é também desta vida: é aquele que vemos mendigar junto do povo os feixes e os terríveis machados e que se afasta sempre, vencido e amargo. Mendigar o poder em vão, que nunca é dado, esgotar-se continuamente nessa tarefa, é de facto o mesmo que empurrar pela encosta de um monte, um qualquer rochedo que, apenas chegado ao cimo, rola e salta em direcção às extensões da planície.
"Alimentar sempre a natureza ingrata da nossa alma, enchê-la de bens sem nunca a satisfazer completamente - como o fazem as estações do ano quando regressam com a sua carga de frutos e de seduções sem nunca satisfazerem a nossa fome de frutos da vida - é o que simboliza a história das Danaides, dessas raparigas em flor, que deitavam água num vaso sem fundo que nenhum esforço encherá jamais.
"Se os homens, quando parecem sentir no seu coração um peso cuja violência o esmaga, pudessem saber as causas desse mal, pudessem saber porque permanece no seu peito um tão pesado fardo de infelicidade, não viveriam como nós vemos viver quase todos, ignorando o que querem, procurando sempre mudar de lugar, como que para se libertarem de um fardo. Eis um homem que continuamente abandona o limiar da sua grande casa porque, de repente, se desgosta dela, mas a ela regressa bruscamente porque não se sente melhor no exterior. Precipita-se, impelindo os seus cavalos, em direcção à sua casa de campo, como se corresse em socorro do seu tecto incendiado; mas logo que alcança a porta, já se aborrece, e cai pesadamente num sono em que busca esquecimento, ou regressa apressadamente à cidade.
"É assim que cada um de nós foge a si próprio; mas, como é impossível fugir, permanecemos ligados a este eu que detestamos. O doente ignora a causa da sua doença. Se a víssemos bem, abandonaríamos todo o resto e procuraríamos conhecer a natureza das coisas, e nisso empenharíamos toda a vida, porque não é de uma hora que se trata, mas do tempo eterno, desse tempo eterno em que os mortais passarão toda a duração que falta percorrer depois da morte.
"Será pois necessário tremer de tal maneira diante da incerteza do perigo? Que grande desejo miserável da vida é esse que nos constrange a um tal terror? O fim da vida existe, está fixado para os mortais, ninguém deixará de comparecer diante da morte. Andamos às voltas no mesmo sítio, e não sairemos dele: nenhum prazer novo nascerá do prolongamento da vida. Mas quando o que desejamos está longe, parece-nos ultrapassar tudo o mais e , quando o atingimos, a mesma sede da vida nos mantém sempre ofegantes (...) nada poderemos roubar da morte para diminuir a duração do nosso vazio. Poderás enterrar todas as gerações que quiseres, porque a morte eterna esperar-te-á sempre".

A noite dos faustos olímpicos dos prémios cinematográficos da Academia, fora na véspera. Naquele fim de tarde, a companheira de Óscar Dias regressou a casa e constatou que ele, uma vez mais, quebrara a promessa. Não! Não vou voltar à droga! Não vais voltar a ter problemas comigo! O Óscar não estava em casa, e com ele desaparecera metade do recheio da casa. A sua preocupação maior, não foi saber quem tinha levado os óscares na véspera, mas avaliar aquilo que o Óscar tinha levado nesse dia.

A cidade é benevolente pela manhã, possui uma inocência própria, um ar novo e lavado, expiou as culpas e encarcerou as dúvidas, quem não dormiu, dormisse, quem não fodeu, fodesse, os homens e as criaturas saem para as ruas como um preparado vertido do cadinho de um alquimista, entram e saem de carros, e descem e sobem degraus como uma noiva que saísse da igreja para entrar num novo mundo com os sucos orgânicos a humedecer as suas calcinhas rendilhadas, mesmo a sujidade e a imundície tem uma aura de pureza e inocência, e os carteiristas e drogados pelas ruas tomaram sobre si a missão de salvar as almas e descobrir a cura para o cancro, o gato morto na sarjeta foi trazido em mãos por uma sacerdotisa de Delfos para o consagrar a uma divindade apolínea, e as vivas cores irisadas das manchas de óleo no alcatrão foram deixadas durante a negra noite pelo luar que atravessava as gotas de chuva, não consigo deixar de admirar a corrida que o senhor Morais faz ao atravessar a rua aos primeiros pingos de um aguaceiro iminente, carregando o seu jornal do quiosque ao café maternal onde passará o resto da manhã em conversa com os outros reformados ou as olheiras de sono da mãe que arrasta o filho em birras para o infantário de todos os dias, a búdica beatitude do mangas que ajuda a velhinha a carregar os sacos com o pão e as mercearias, para logo ser perdido de vista enquanto corre para longe dela. São todos meus irmãos, entes queridos, personagens e seres nascidos de mim numa cidade que viceja e frutifica como uma árvore do meu jardim. A cidade é benevolente pela manhã, mesmo pela manhãzinha...
(a coisa está feia, venho já, tenho de ir tomar a minha medicação!).

Victor Hugo: "A poesia é tudo o que há de íntimo em tudo"

Um poeta, Torquato da Luz, teve a gentileza de me enviar um exemplar do seu último livro editado (o oitavo), "Por Amor e Outros Poemas", um gesto inesperado que me honra. Obrigado!
Para o assinalar, tomo de empréstimo do Ofício Diário, um dos seus poemas, que versa esse cansaço que é implícito à vida de tanta gente, como um atributo comum, íntimo.


Cansaço

Uma chama, um fogo lento
que nos devora por dentro.
Grito preso na garganta
que de súbito se solta.
A permanente revolta
contra tanta coisa, tanta
que só traz dor e desgraça.
Um desejo de partida
para outro lado, outra vida.
Um cansaço que não passa.


Palavras

1
Era um homem de meias-palavras, o que perturbava as pessoas porque ficavam sem saber qual a meia-palavra dele que prevalecia - a dita ou a calada.
2
Antes de ser passado ao papel, a vida e as obras de Jesus Cristo estavam reunidas nas Sagradas Faladuras.
3
"Fala, devias falar mais, porque, uma vez mais, fiquei sem saber o que querias dizer. Podes trocar-me isso por miúdos?".
Sem falar mais, o seu interlocutor foi à arca frigorífica, e trouxe-lhe uma embalagem de miúdos de galinha.

Breve desassossego

Um homem da estirpe do cá estamos..., viu-se confrontado por outro homem de uma estirpe distinta, a do assim não vamos lá!, só que, por uma disposição caprichosa da roda da fortuna, o segundo era subordinado do primeiro, e logo que este compreendeu que assim não podia estar, fez com que o assim não vamos lá! deixasse de o contestar e fosse despedido. E assim, os dois sempre foram para algum lugar...

A toupeira

Escapar da prisão não é uma empresa para qualquer um, mas tornou-se a obsessão de Icário, logo no primeiro dia em que o alojaram naquela cela. Sozinho, com muito tempo para planear e executar, estudou as condições e variáveis que teria de enfrentar. A cela era ao nível do chão, e não havia subterrâneos nem caves, e a opção por um túnel de fuga pareceu-lhe a mais exequível. O edifício onde estava era antigo, de um só piso, pelo que podia contar que também não tivesse por baixo fundações impenetráveis em cimento armado. No pátio interior da prisão, tirou medidas, quarenta e cinco metros da sua cela ao muro do presídio, o muro tinha quatro metros de alto, pelo que devia contar que as suas fundações ao nível das torres descessem a uns dois metros de profundidade, embora ao longo das muralhas pudesse esperar menos, talvez um metro de fundo. Bastaria fazer descer o túnel a um metro de profundidade, e orientá-lo no sentido nordeste-sudeste durante cinquenta metros. Passaria entre as duas torres e iria desembocar no terreno devoluto no exterior daquela ala de muralhas.
Furtou uma colher no refeitório e passou à acção. Com a ponta do cabo, desincrustou o cimento que fixava duas lajes do chão, elegendo a sua porta de saída. Desfez a golpes uma camada fina de cimento, e em menos de três dias tinha chegado ao estrato geológico subjacente. O primeiro entulho conseguiu dispersar no pátio e junto a uma conduta nova que estavam a instalar no complexo de celas, daí para a frente, o seu método adquiriu contornos novos. Escavava e comia a terra extraída, em pequenas porções, embebida em água com longos sorvos sedentos. Ia escavando e comendo todas as noites, e o túnel foi arrepiando caminho, alguns centímetros apenas na primeira semana, mas a distância alcançada foi aumentando progressivamente de semana para semana, e, três anos e oito meses depois de iniciar o túnel, este já atingira, pelos seus cálculos, a base da muralha do presídio. Apesar de não confiar o seu plano a ninguém, todos notavam que ele estava estranho, inchado e combalido, com problemas gástricos e intestinais. Diversas vezes tivera de recorrer aos serviços médicos da prisão para obter medicamentos para os desarranjos digestivos, e cremes para untar o ânus lacerado pela areia das fezes - e o seu estado lastimoso não deixou indiferentes os responsáveis pela instituição. Depois de três consultas no psicólogo, accionaram-se os mecanismos legais para a comutação da sua pena, e esta chegou efectivamente, no próprio dia em que Icário iniciara a sua fuga épica, arrastando-se pelo chão entre as pedras como um saco de areia.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...