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A mostrar mensagens de Fevereiro, 2009
(na arquitectura das palavras, são poucas as pessoas que conseguem definir a volumetria do silêncio).

Com as malas feitas e arrumadas na mala do carro, meteu-se à estrada de regresso a casa. Partiu às primeiras horas da madrugada, preferia assim, viajar pela orla da noite por uma auto-estrada quase deserta com o seu pequeno carrito a pôr na linha os camiões grandes como dinossauros, quatro horas de viagem, e de música no seu leitor de MP3, fumou uma dúzia de cigarros, que sacudia na fresta da janela e concedeu-se parar numa estação de serviço para comprar mais um maço e beber um café duplo. Com uma sensação de pecado, bebeu também uma aguardente São Domingos, para conseguir enfrentar o frio do exterior. Quando finalmente chegou a casa, às primeiras horas da manhã, o bairro esperava-o em ânsias, rufaram tambores e uma orquestra de Jazz Band tocou com estridência no passeio, choveram palmadas nas costas e abraços efusivos, uma mulher nova e completamente desconhecida deu-lhe um beijo na face e exibiu o bebé de meses que segurava nos braços, enfaixado num cobertor com ursinhos como uma p…
numa impressão fugaz, mas profunda como se o alanceasse, sentiu que era apenas uma excrescência do mundo, um artigo excedentário, uma peúga solitária esquecida na voracidade dos saldos, e achou que seria oportuno desaparecer da vista de todos, eclipsar-se das suas rotinas na esperança que sentissem a sua falta e o procurassem, justificando a sua existência, mas os seus piores receios confirmaram-se, não havia amigos, parentes, conhecidos, a engrenagem persistiu no seu labor de todos os dias sem um lamento ou um espectro de dúvida, apenas reviu um amigo, acidentalmente, e ele nem olhou verdadeiramente para si, parou a uns dois metros de onde estava, no passeio cimentado entre as campas, apertou o atacador solto do sapato e compôs a gravata no fato escuro, contemplando a sua figura espelhada na porta envidraçada do jazigo de família onde passara a morar.

O pêndulo à direita

Engravidou, sem querer, quase por acaso, de um estranho com quem se enrolou nas traseiras de um bar. Contou-o á melhor amiga, só a ela, e o conselho foi firme: não estragues a tua vida, desfaz-te disso, olha, basta beberes vinho branco com canela, que esse feijãozito sai de ti como se fosse a gramínea de uma uva. Recusou o conselho, teria o filho, e iria criá-lo, nem que fosse sozinha, e o filho, porque pensava nele como um rapaz, iria crescer e ser um homem famoso e admirado, e viver até aos cem anos, pelo menos.

O pêndulo à esquerda

O filho de mãe solteira cresceu saudável e inteligente. Formado, doutorado, laureado com prémios científicos, acreditava-se que ainda chegaria ao nobel da Física. Numa noite, juntou-se num jantar com os colegas, um jantar arrastado, com conversas e projectos pelo meio. E ele bebia vinho branco enquanto comia a sobremesa - arroz branco com canela. E caiu de borco sobre o tampo da mesa, morto, ceifado por algum ataque cardíaco ou apoplexia. Os colegas ficaram pasmados, olhando perplexos os seus olhos vidrados e a sua boca aberta onde o vinho branco que regurgitava para a toalha adquiria os laivos terrosos da canela.

Perder a cabeça

No penúltimo dia da festa de Santo Amaro, o prior viu-se a braços com um pequeno problema. O santo tinha de regressar á capela no final do dia, porque era ali que se iniciaria a procissão de Domingo, e um dos que carregava o andor, o Agostinho, acabara de partir o braço numa queda nas escadas lá de casa. Precisava de um substituto, e àquela hora da tarde não havia muitas opções, as famílias andavam pelo recinto da festa, nas rifas ou a aglomerarem-se como pequenos enxames nas mesas do frango assado. Justamente quando pedia ao sacristão para ver se arranjava algum voluntário, entra o Manuel Grande a perguntar se era preciso de alguma coisa. Parecia um sinal da Providência. É mesmo de si que precisamos, disse o padre, você vem mesmo na hora em que precisava de uma alma cristã para carregar o andor. O Manuel Grande pôs-se ao dispor. Ficou num dos bancos da frente da igreja durante a missa vespertina, e no final, foi ter com o prior. A procissão era sumária, a função mesmo, era levar o sa…

Eleições...

Um slogan para o Manuel Alegre:

"Podem confiar em mim, porque eu sou um homem de Palavras!".

Uma citação e um destino

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Groucho Marx: "Treze homens sentados a uma mesa é sinónimo de azar, sobretudo, quando a dona de casa só dispõe de doze costeletas".

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Numa Sexta-feira, 13, saiu o número 13 da revista Minguante, dedicada á...superstição.
O habitual, pelo melhor, textos, entrevistas, destinos - realçe para o novo e-book da estante, "Histórias Sem Tom nem Som" de João Pereira de Matos, saído há pouco.
Supersticiosamente, não quis deixar de estar presente, com a minha "superstição besta" (superstições...).

o amor não tem medida

A jovem magra que alugara o quarto acanhado do terceiro esquerdo tinha um ar sofrido e triste, escondendo as linhas do seu corpo dentro de roupas largas e espaventosas, o olhar fugidio fintando a luz por dentro de óculos de aros largos Há anos que vivia naquele quarto, e a senhoria ainda não conseguira saber nada dela, respondia com murmúrios e palavras breves, resguardando o seu mundo por trás da porta do seu quarto. E o atento exame do conteúdo do quarto também não produzira frutos, não havia cartas, fotos de família, algo que se parecesse com um presente afectuoso que alguém lhe pudesse ter oferecido. Nada, excepto algumas notas que ela guardava no vão por detrás da gaveta da mesinha-de-cabeceira, ficavam ali alguns dias até ela ir depositá-las, ou gastá-las, não sabia. Tudo o que sabia dela, é que saía do prédio todos os dias á mesma hora, não saía apressada, sempre com tempo, o que dava a ideia de ser uma pessoa maníaca por rotinas, às vezes, até aceitava uma caneca de leite com …

Lembrete

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Lançamento do romance premiado "A Casa do Esquecimento", de Fernando M. Dinis:
-Lisboa – Dia 19 de Fevereiro – Fnac Chiado – 17 horas
-Porto – Dia 27 de Fevereiro – Fnac NorteShopping – 21:30 horas
Mais detalhes nesta página.

Ofício de amor

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Lançamento do novo livro do poeta Torquato da Luz, na Livraria Barata (Avenida de Roma), no dia 28 de Fevereiro pelas 17.30. Chama-se "Por Amor e Outros Poemas". Imagem e detalhes infra (ampliar imagem). Tentaremos estar presentes, o que não é relevante, e desejamos os maiores sucessos para o evento.

Anúncio:

«Soldado de chumbo, na reserva, oferece-se para trabalhar em qualquer cenário de guerra, mesmo radioactivo».

«Eu já sabia que tudo isto ia acontecer, a crise, o desemprego, a recessão... - filosofou com propriedade o indigente - descobri-o logo quando notei que as beatas que apanhava do chão não tinham tabaco, e que as pessoas as fumavam até se apagarem sozinhas».


Comercial

O esquimó guloso sonhava construir iglus com blocos do Baskin-Robbins.

"Isto não me chega! Isto não me chega". Repetia, como se falasse com alguém. "Viver, dormir, acordar outra vez como se isso fosse algo de novo, pedir emprestado sentimentos, ideias, sombras, para dormir outra vez, mas mais acompanhado, também não importa, o meu sono alonga-se por caminhos áridos". Calou-se, e escutou o eco das suas palavras, palavras que traziam, embrulhada, a humidade que escorria nas paredes, e vozes próprias, como murmúrios, escárnios malignos. Abriu as janelas para arejar o ambiente, mas o ar estava contaminado, viciado, as suas palavras anichadas nos cantos sombrios, como ratazanas de vigia. Agarrou numa vassoura e afugentou-as, rodava-a no ar num movimento helicoidal e elas adejavam à sua volta em agonia, ele conseguia vê-las à luz como moléculas de poeira, largou a vassoura e segurou umas quantas nas mãos fechadas e esmagou-as esmurrando a pedra do mosaico. Sofria, sofria com as suas palavras, ainda que as odiasse. Deitou-se na tarimba, extenuad…