INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página
(na arquitectura das palavras, são poucas as pessoas que conseguem definir a volumetria do silêncio).

Com as malas feitas e arrumadas na mala do carro, meteu-se à estrada de regresso a casa. Partiu às primeiras horas da madrugada, preferia assim, viajar pela orla da noite por uma auto-estrada quase deserta com o seu pequeno carrito a pôr na linha os camiões grandes como dinossauros, quatro horas de viagem, e de música no seu leitor de MP3, fumou uma dúzia de cigarros, que sacudia na fresta da janela e concedeu-se parar numa estação de serviço para comprar mais um maço e beber um café duplo. Com uma sensação de pecado, bebeu também uma aguardente São Domingos, para conseguir enfrentar o frio do exterior. Quando finalmente chegou a casa, às primeiras horas da manhã, o bairro esperava-o em ânsias, rufaram tambores e uma orquestra de Jazz Band tocou com estridência no passeio, choveram palmadas nas costas e abraços efusivos, uma mulher nova e completamente desconhecida deu-lhe um beijo na face e exibiu o bebé de meses que segurava nos braços, enfaixado num cobertor com ursinhos como uma pequena múmia, desconfortável com aquela reacção, não conseguia deixar de pensar nas malas que tinha para abrir e na volta que tinha de dar àquela casa antes de conseguir dormir nela, mas não o deixaram, e acedeu a pisar a passadeira vermelha que cruzava o jardim ematado até à porta de entrada, com os confetis a cair em volta e Vivas a elevarem-se nos ares como chapéus de coco a esvoaçar, deu um passo á frente do outro quase ao compasso do jazz da orquestra, abriu a porta, agradeceu em volta e refugiou-se no interior.
A porta ficou só encostada, pareceria indelicado se a fechasse na cara das pessoas, seria como cuspir sobre a simpatia dos amigos, puxou de um cigarro e encostou-se à janela da frente a fumar, em frente o jardim ematado e o carro de porta aberta na rua deserta, um miúdo passou de bicicleta e, ao vê-lo, levantou o braço para o cumprimentar, tinha sido seu aluno durante dois anos seguidos, era bom ser reconhecido por alguém.
numa impressão fugaz, mas profunda como se o alanceasse, sentiu que era apenas uma excrescência do mundo, um artigo excedentário, uma peúga solitária esquecida na voracidade dos saldos, e achou que seria oportuno desaparecer da vista de todos, eclipsar-se das suas rotinas na esperança que sentissem a sua falta e o procurassem, justificando a sua existência, mas os seus piores receios confirmaram-se, não havia amigos, parentes, conhecidos, a engrenagem persistiu no seu labor de todos os dias sem um lamento ou um espectro de dúvida, apenas reviu um amigo, acidentalmente, e ele nem olhou verdadeiramente para si, parou a uns dois metros de onde estava, no passeio cimentado entre as campas, apertou o atacador solto do sapato e compôs a gravata no fato escuro, contemplando a sua figura espelhada na porta envidraçada do jazigo de família onde passara a morar.

O pêndulo à direita

Engravidou, sem querer, quase por acaso, de um estranho com quem se enrolou nas traseiras de um bar.
Contou-o á melhor amiga, só a ela, e o conselho foi firme: não estragues a tua vida, desfaz-te disso, olha, basta beberes vinho branco com canela, que esse feijãozito sai de ti como se fosse a gramínea de uma uva.
Recusou o conselho, teria o filho, e iria criá-lo, nem que fosse sozinha, e o filho, porque pensava nele como um rapaz, iria crescer e ser um homem famoso e admirado, e viver até aos cem anos, pelo menos.

O pêndulo à esquerda

O filho de mãe solteira cresceu saudável e inteligente. Formado, doutorado, laureado com prémios científicos, acreditava-se que ainda chegaria ao nobel da Física.
Numa noite, juntou-se num jantar com os colegas, um jantar arrastado, com conversas e projectos pelo meio. E ele bebia vinho branco enquanto comia a sobremesa - arroz branco com canela. E caiu de borco sobre o tampo da mesa, morto, ceifado por algum ataque cardíaco ou apoplexia. Os colegas ficaram pasmados, olhando perplexos os seus olhos vidrados e a sua boca aberta onde o vinho branco que regurgitava para a toalha adquiria os laivos terrosos da canela.

Perder a cabeça

No penúltimo dia da festa de Santo Amaro, o prior viu-se a braços com um pequeno problema. O santo tinha de regressar á capela no final do dia, porque era ali que se iniciaria a procissão de Domingo, e um dos que carregava o andor, o Agostinho, acabara de partir o braço numa queda nas escadas lá de casa. Precisava de um substituto, e àquela hora da tarde não havia muitas opções, as famílias andavam pelo recinto da festa, nas rifas ou a aglomerarem-se como pequenos enxames nas mesas do frango assado. Justamente quando pedia ao sacristão para ver se arranjava algum voluntário, entra o Manuel Grande a perguntar se era preciso de alguma coisa. Parecia um sinal da Providência. É mesmo de si que precisamos, disse o padre, você vem mesmo na hora em que precisava de uma alma cristã para carregar o andor. O Manuel Grande pôs-se ao dispor. Ficou num dos bancos da frente da igreja durante a missa vespertina, e no final, foi ter com o prior. A procissão era sumária, a função mesmo, era levar o santo para a casa dele, o prior ia à frente mais os acólitos, não havia banda, e não se esperava nenhum cortejo de vulto. O Manuel Grande paramentou-se e colocou-se sob uma das travessas traseiras do andor, foi só quando os quatro levantaram o andor que a coisa se notou. O Manuel era Grande, de alcunha, dois metros de altura, parecia um pau-de-sebo ao lado dos outros três, todos rodas baixas com a câmara-de-ar inchada - como resultado, o andor ficava terrivelmente desnivelado.
O prior encolheu os ombros, o santo não deveria ter vertigens, e também não havia tempo para mais. A pequena procissão lá saiu, com uma dúzia de velhas na peugada do andor, os rosários nas mãos, a cantar muito desafinadas. Percorreram um troço da rua direita sob um céu de nuvens escuras e carregadas, e quando começaram a entrar no largo de Santo Amaro, caiu uma bátega de água impressionante, as velhas correram a abrigar-se no beiral de uma casa e o mesmo fez o prior, gritando aos carregadores que continuassem sozinhos os vinte metros que faltavam até á capela, e eles lá fizeram o percurso, em passo de corrida, entram no alpendre da capela e continuam a correr. Ouvem um ruído seco e, quando dão por isso, estão parados no meio da capela, e a cabeça barbuda do Santo Amaro rola de lado aos seus pés, como uma bola de futebol.
Ficam estarrecidos, ninguém se lembrara que o Manuel era grande, nem o próprio, e na corrida, não compensaram o desnível do andor. E agora? O que fazemos? Perguntam-se, inquietos. Quem é que vai contar ao padre?
O Manuel toma a palavra, sente-se responsável e tem a solução. Ninguém precisa de saber, ele tem em casa cola de contacto, e só precisam de colar a fractura no pescoço do santo e a coisa fica resolvida. Os outros concordam, aliviados. Um monta guarda no alpendre, enquanto o Manuel vai buscar a cola. O padre voltou para a igreja e, por isso, estão descansados. Quando o Manuel regressa, conseguem colar a cabeça sob a luz fraca da capela, e depois da cola estar seca, ajustam a casula que o santo trazia vestido, para disfarçar o lugar da fractura, e por fim, enfiam-lhe o capelo na cabeça. Satisfeitos com o trabalho, recuperam todos a boa-disposição e vão juntos beber um copo.
No dia seguinte, já sob um sol radioso, desenrola-se a última procissão, os quatro carregadores fazem o seu trabalho com um sorriso nos lábios, intimamente orgulhosos da sua obra-prima. Quando a procissão termina e os fiéis se dispersam, o prior despede-se deles e fica um pouco mais na capela para arrumar as coisas. Quando estava nesse labor, entra uma paroquiana, arrastando pela orelha uma criança em pranto.
- Desculpe, senhor prior, mas o meu filho disse uma coisa que eu quero que repita à sua frente - e voltando-se para o rapaz, ordena - Vá! Repete, meu pequeno diabo!
O rapaz não conseguia falar, com os soluços e o pranto.
- Este meu filho, que não sei o que lhe fazer, disse que não valia a pena rezarmos ao santo porque ele é meio-surdo.
Dito isto, torceu-lhe novamente o lóbulo da orelha, arrancando-lhe um grito de dor. O prior interrompeu a tortura e ajoelhou-se aos pés do miúdo, fazendo-lhe festas no cocuruto para o acalmar. Quando o viu retomar o fôlego perguntou-lhe, brandamente.
- Diz-me, meu pequeno, porque é que dizes que o Santo Amaro é meio-surdo?
E o rapaz, sem pinga de voz, meteu a mão ao bolso do casaco e abriu-a diante de si, exibindo na palma da mão uma orelha de louça.

Eleições...

Um slogan para o Manuel Alegre:

"Podem confiar em mim, porque eu sou um homem de Palavras!".

Uma citação e um destino


Groucho Marx: "Treze homens sentados a uma mesa é sinónimo de azar, sobretudo, quando a dona de casa só dispõe de doze costeletas".

*

Numa Sexta-feira, 13, saiu o número 13 da revista Minguante, dedicada á...superstição.
O habitual, pelo melhor, textos, entrevistas, destinos - realçe para o novo e-book da estante, "Histórias Sem Tom nem Som" de João Pereira de Matos, saído há pouco.
Supersticiosamente, não quis deixar de estar presente, com a minha "superstição besta" (superstições...).

o amor não tem medida

A jovem magra que alugara o quarto acanhado do terceiro esquerdo tinha um ar sofrido e triste, escondendo as linhas do seu corpo dentro de roupas largas e espaventosas, o olhar fugidio fintando a luz por dentro de óculos de aros largos Há anos que vivia naquele quarto, e a senhoria ainda não conseguira saber nada dela, respondia com murmúrios e palavras breves, resguardando o seu mundo por trás da porta do seu quarto. E o atento exame do conteúdo do quarto também não produzira frutos, não havia cartas, fotos de família, algo que se parecesse com um presente afectuoso que alguém lhe pudesse ter oferecido. Nada, excepto algumas notas que ela guardava no vão por detrás da gaveta da mesinha-de-cabeceira, ficavam ali alguns dias até ela ir depositá-las, ou gastá-las, não sabia. Tudo o que sabia dela, é que saía do prédio todos os dias á mesma hora, não saía apressada, sempre com tempo, o que dava a ideia de ser uma pessoa maníaca por rotinas, às vezes, até aceitava uma caneca de leite com café, onde mergulhava o pão fresco e comia deliciada com uma colher de sopa. Ainda lhe perguntara onde trabalhava, mas não ouvira nenhuma resposta concreta - um lugar aqui perto, com outras pessoas, o trabalho era agradável, gostava, as pessoas eram simpáticas. Na certa, tinha algum trabalho chato e entediante, fechada nalgum cubículo ou gabinete mofento, a limar as unhas durante os longos períodos de ócio. Era isso, decerto, um trabalho chato numa vida chata, para uma mulher pouco ou nada amada. Uma tristeza. Uma mulher tão nova.
A jovem acanhada que alugara o quarto acanhado do terceiro esquerdo, morreu, tão ao de leve como tinha vivido. Morreu na cama, à noite ou na manhã de Sábado em que a senhoria a encontrou, já perto do meio-dia. Foi para lhe mudar os lençóis e viu-a enrolada neles, no chão, sem vida, como se se tivesse contorcido de dor. Confirmou a ausência de respiração, esvaziou-lhe a carteira, e o esconderijo de notas, que estava cheio. Chamou um médico, e como a jovem não parecia ter ninguém, ela própria tomou para si o nobre encargo de lhe providenciar um funeral digno e cristão. A agência funerária tratou do resto, o anúncio no jornal, o caixão, o talhão do cemitério, tudo pelo mais barato. Uma vez enterrada, também não precisaria de luxos em pedras e mármores.
A senhoria esperava um serviço solitário numa tarde de chuva, mas, contrariando todas as suas expectativas, o cemitério encheu-se de homens à hora do funeral, rapazes novos e homens maduros, lacrimosos, desesperados, com dálias negras nas mãos trémulas. Na rua em volta do cemitério, muitos carros em segunda e terceira fila, com homens lá dentro, observando o serviço através do gradeamento do cemitério, sofrendo e despedindo-se dela na sua recatada viuvez de homens casados.

Lembrete





Lançamento do romance premiado "A Casa do Esquecimento", de Fernando M. Dinis:

-Lisboa – Dia 19 de Fevereiro – Fnac Chiado – 17 horas

-Porto – Dia 27 de Fevereiro – Fnac NorteShopping – 21:30 horas

Mais detalhes nesta página.


Ofício de amor

Lançamento do novo livro do poeta Torquato da Luz, na Livraria Barata (Avenida de Roma), no dia 28 de Fevereiro pelas 17.30. Chama-se "Por Amor e Outros Poemas". Imagem e detalhes infra (ampliar imagem).
Tentaremos estar presentes, o que não é relevante, e desejamos os maiores sucessos para o evento.

Anúncio:

«Soldado de chumbo, na reserva, oferece-se para trabalhar em qualquer cenário de guerra, mesmo radioactivo».

«Eu já sabia que tudo isto ia acontecer, a crise, o desemprego, a recessão... - filosofou com propriedade o indigente - descobri-o logo quando notei que as beatas que apanhava do chão não tinham tabaco, e que as pessoas as fumavam até se apagarem sozinhas».


Comercial

O esquimó guloso sonhava construir iglus com blocos do Baskin-Robbins.

"Isto não me chega! Isto não me chega".
Repetia, como se falasse com alguém.
"Viver, dormir, acordar outra vez como se isso fosse algo de novo, pedir emprestado sentimentos, ideias, sombras, para dormir outra vez, mas mais acompanhado, também não importa, o meu sono alonga-se por caminhos áridos".
Calou-se, e escutou o eco das suas palavras, palavras que traziam, embrulhada, a humidade que escorria nas paredes, e vozes próprias, como murmúrios, escárnios malignos. Abriu as janelas para arejar o ambiente, mas o ar estava contaminado, viciado, as suas palavras anichadas nos cantos sombrios, como ratazanas de vigia. Agarrou numa vassoura e afugentou-as, rodava-a no ar num movimento helicoidal e elas adejavam à sua volta em agonia, ele conseguia vê-las à luz como moléculas de poeira, largou a vassoura e segurou umas quantas nas mãos fechadas e esmagou-as esmurrando a pedra do mosaico. Sofria, sofria com as suas palavras, ainda que as odiasse.
Deitou-se na tarimba, extenuado, e dormiu um sono sem sonhos. Quando lhe trouxeram a comida, exibiu em triunfo as mãos feridas e em sangue. Vencera-as. Não falou, não queria mais palavras, a roubar a sua comida e o seu ar, e não queria ter de as matar de novo.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...