INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

aviso aos navegadores

No mês de Fevereiro que agora entra, e beneficiando do facto de ter um mês completo de férias involuntárias, este que vos escreve andará um pouco arredado deste caminho.
O blogue será actualizado pontualmente, entre pontos e reticências, e aqui o je tentará meter ombros a um projecto de escrita (não-ficcional) que já se impunha há algum tempo. A man’s got to do what a man’s got to do!
Um abraço!

À guarda

Quando entrou na prisão, teve de entregar no depósito os seus pertences. Dois punhais, um par de algemas, um maxilar descarnado de mulher, e uma corda de violino que usara para estrangular. Foram empacotados numa caixa com o seu nome e número de presidiário.
- Não se preocupe com isto - declarou o polícia - quando você sair, eles ainda estarão aqui, e poderá continuar com a sua vida.

Sem adornos de fitas nem arrebiques petulantes, é a crua natureza que nos faz gente, que sente e sofre e deseja, e mastiga em largas garfadas a terra que se pisa e os frutos do desespero, chagas de esforço e trabalho escravo, coroa de espinhos de ideias e mentiras que nos tiranizam (e no fundo do coração ou da bílis, solta-se como um grito de louco, as notas do riso e a maré do pranto humano).

descenso

A primeira vez que a tríade familiar acorreu ao Hospital, o acidentado era o filho pequeno, que tinha o corpo cheio de equimoses, a mãe chorava e o pai, comprometido, explicou-se na triagem - o filho descera as escadas a correr e rolara pelos degraus. Na vez seguinte, ainda o filho, mas com um braço partido. Desgosto da mãe e uma explicação paterna idêntica, o endiabrado do filho andava sempre a correr, e rolara novamente pelos degraus, partindo o braço no patamar das escadas. À terceira vez, o filho era apenas testemunha. O pai tinha o nariz partido e o corpo cheio de equimoses, e coube á mulher explicar, sem lágrimas. O filho corria escada abaixo e o pai, para o segurar, tropeçou num degrau e ficou naquele estado. E o filho confirmou.

Seis coisas sobre mim

A Maria lançou-me este desafio, falar de seis coisas pessoais. Sem rascunhos, aqui vai:

Quase nunca me recordo daquilo que sonho durante a noite. Acordo e o que sonhei esfuma-se. Com algumas raras excepções, que se prendem com o modo como acordo, ou, suponho, com a inusitada intensidade da matéria do sonho - sonhos eróticos, pesadelos, sonhos premonitórios (já tive uma boa mão-cheia deles).

Sou sportinguista desde os cinco anos de idade. Até essa idade perfilhava as cores do FCP, por influência da minha mãe, que era portista de nascimento e coração. Pedi-lhe licença e mudei-me para o clube dos sofredores, alistando-me na torcida lá de casa composta pelo meu pai e irmãos mais velhos, ouvindo nas tardes quentes de Domingo, os jogos do Sporting num rádio castanho, enorme e gritante.

Tenho dois livros residentes, que estão há uns sete anos numa das gavetas da mesa-de-cabeceira, ambos a puxar para o "espiritual", o Deus das Moscas de Golding e o A um Deus Desconhecido de Steinbeck, e são o mais próximo que estive de ter uma Bíblia ao meu lado. Às vezes, entre leituras novas, pego neles e folheio-os como se pusesse a conversa em dia com um velho amigo.

Adquiri o estranho hábito de ler os jornais de trás para a frente, e de os arrumar dobrados sobre a primeira página.

Há uma série de anos morei numa casa alugada que tinha a fama de assombrada. E parecia ser. Ouviam-se ruídos estranhos nas águas-furtadas, tinha um anexo fechado a corrente e cadeado que só a senhoria podia abrir, à porta da qual estavam empilhadas lajes de granito velho que haviam pertencido a uma campa. Um irmão meu dizia que se ouviam vozes a sair de dentro do anexo fechado, embora eu estivesse seguro de que resultavam dalgum tipo de ressonância. As pessoas da aldeia diziam que aquela casa fazia parar a vida dos que lá moravam, e se nunca vi nenhum fantasma coberto por um lençol branco, o certo, é que a minha vida só decolou quando saí dela.

Em puto, na praia da Figueira da Foz, ia-me afogando. Um banhista tirou-me do meio das ondas, salvando-me a vida. Quando os meus pais foram agradecer-lhe, ele respondeu: "Não me agradeçam, porque o mar é paciente!" (fizeram-me usar bóias nos braços, nos restantes dias de praia).

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(Não endereço o desafio a ninguém em particular, mas sintam-se livres de o acolher)

Tratava por tu, todos os seus amigos e conhecidos, e eles respondiam-lhe na mesma moeda. A estranheza pode ser uma coisa assaz familiar.

na vastidão do mundo

Fugiu de casa, pela janela. A mochila cheia, onde não faltavam os seus pertences sagrados de adolescente, e os cartões de crédito dos pais. A polícia interpelou-o quando tentava erguer a tenda no átrio do Centro Comercial.

Andava pelas ruas à procura de um verso. Prostituía-se, mas não como autora.

Não pisar

Humor negro: um campo de minas coberto de relva.

Com o filho já grande e o sogro mais brando, divorciaram-se de comum acordo. Mas não foi assim que se tinham casado.

insegurança

Os dois naufragaram numa ilhota deserta, um tê zero de terra com uma coroa de rochedos e um pouco de selva. Uniram esforços para conseguir sobreviver, ele caçava iguanas e serpentes, ela recolhia cocos e moluscos, e os dois rapinavam os ovos dos albatrozes. Ao fim de dois anos de vida em comum, ela confidenciou-lhe: Vai chegar gente...eu estou grávida!
Ele olhou em volta, para as pedras brutas e coqueiros anémicos.
- E tens a certeza de que é meu?

eleições - the big sleep

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Todos se queixam da apatia e sonolência dos governantes, mas é sobre os eleitores que recaem as culpas.
A contagem de votos nas urnas, parece uma contagem de carneirinhos.

do contra

Roubou o dinheiro ao homem-estátua só para o ver correr.

Vida plena

Era um desleixado incondicional, quase um mês depois do Natal e ainda não tinha desmontado os enfeites, mas não passariam daquela noite. Despiu a árvore de Natal de bolas e fitas e desmontou-a, desfez também o pequeno presépio em frente à porta do apartamento e as guirlandas coloridas suspensas de pregos nas paredes com pequenos nós em fio de pesca. Encaixotou tudo e acondicionou os volumes ao lado da televisão da pequena saleta. No dia seguinte iria devolvê-los ao espaço de arrumos que lhe coubera no último piso. Fazia-se tarde e não iria esperar pela meia-noite. Meteu no micro ondas um resto de pizza que tinha no frio, e desarrolhou uma garrafa de vinho maduro, para respirar. Tinha tudo a jeito. Comeria a pizza, e depois, ao som de músicas de Natal cantadas por Bing Crosby's e Sinatras, enfiaria na cabeça um barrete vermelho com borla branca e beberia a espaços o seu vinho, enquanto desembrulhava os presentes que comprara para si mesmo.

A amiga aproximou-se da cama do hospital, pousou a sua mão no antebraço da mulher deitada. Reprimiu um soluço. O que se diz a uma pessoa que sabe que perdeu a visão? Parecia dormir, a respiração pausada como a de um bebé pequeno e aconchegado. Mas não. Moveu a cabeça na sua direcção, a sua mão magra e pálida subiu-lhe pela manga áspera do casaco, afagou os seus cabelos com as costas da mão, a curva do queixo, a flor húmida dos lábios e as faces listadas pelas lágrimas.
-Minha querida, meu coração de manteiga! - murmurou a convalescente com um sorriso doce - tens de fazer como eu, e ver as coisas pelo lado bom. Já pensaste que eu não vou voltar a precisar de sombra para os olhos?

Apurar a escrita

Depois de meses e anos a batalhar com o teclado, deu como concluído o seu primeiro romance, e sentia-se satisfeito com o resultado. Iria fazer publicar o romance, não acreditava que editora alguma recusasse essa oportunidade de ouro. Imprimiu apenas dois exemplares, encadernou-os e enviou um exemplar para a primeira editora que lhe veio à cabeça, guardando o outro na sala de estar, em lugar proeminente, para mostrar a visitas e convidados.
Uma semana depois, a companheira trouxe da caixa de correio um envelope com a resposta. Que não era a mais desejada. "O seu romance - dizia a carta - tem alguns motivos de interesse, mas não podemos considerar a sua publicação, por se revelar muito rudimentar e algo cru". Foi devastador, cataclísmico. Durante horas, permaneceu sentado na sala, com a carta na mão, a olhar sem interesse para documentários na televisão sobre vida selvagem. A companheira trouxe-lhe um drinque para o animar, mas nem lhe tocou, por fim, ela saturou-se, segurou-o pelos ombros e sacudiu-o com força, com gestos e palavras.
«Não fiques assim, reage, faz qualquer coisa! Se foste capaz de o escrever, também és capaz de o melhorar!».
Ele anuiu, um brilho iluminou-lhe as pupilas. Levantou-se e levou o segundo exemplar para a cozinha. Ligou o forno no máximo, colocou o romance num tabuleiro rectangular, guarneceu-o com batatas e tiras de bacon, especiarias e pedaços generosos de manteiga por cima, e meteu-o ao forno, sentando-se à beira para aguardar o resultado.
Ao funeral do pai compareceram os cento e dezoito filhos, entre homens e mulheres, ainda que falar em homens e mulheres seja um exagero, porque havia meninos e meninas de poucos anos, e até, poucos meses de vida.
Não houve grande pranto, discursos, ou conversas paralelas sobre bens e partilhas. Na verdade, ninguém nutria sentimentos especiais por ele ou esperava heranças fabulosas daquele homem pobre e apagado que, no fundo, era apenas um tipo sem família que toda a vida contribuiu para o Banco de Esperma em troca de uma refeição frugal.

Arte final

Rezou as suas orações, encomendou a alma ao Criador, e contemplou o abismo da amurada do terraço. Os carros na rua pareciam do tamanho de formigas, as pessoas quase nem se viam, segurou-se com força ao pequeno muro onde estava sentada e começou a contagem decrescente a partir do duzentos. Quando tinha alcançado a metade da contagem, entrou um homem em corrida no terraço, assustando-a. Ergueu a palma da mão direita para a tranquilizar, respirou fundo para recobrar o ritmo da respiração, e perguntou a seco:
«Está a pensar saltar?»
«Claro, mas quem é você? Um psicólogo da polícia?»
«Nem por isso, moro dois andares mais abaixo, e quando a vi, vim a correr para a impedir de cometer um erro, entenda-me bem, eu não pretendo impedi-la de saltar, apenas quero que o faça com a arte que um gesto definitivo merece, eu sou treinador e coreógrafo e posso ajudá-la!».
Pegou-lhe pela mão, ajudou-a a levantar-se, segura pelo antebraço, e afastou-a uns metros da amurada.
«É assim, quando um suicida se lança, regra geral, está sentado e projecta-se para a frente, é uma estupidez, quem olhar parece que ele está sentado numa sanita invisível, e depois o corpo fica sem dinâmica própria e cai aos trambolhões enrolado pelo vento e pelos movimentos desconexos dos membros, e quando a pessoa se arrepende a meio do percurso, então a execução do salto passa do sofrível ao deplorável. Vamos treinar primeiro os movimentos, e depois o início do salto. Deite-se no chão, por favor, de lado».
Ela obedeceu, sem forças para discutir.
«Para um salto destas dimensões eu gostaria de dispor de mais tempo para a treinar, mas vamos optar por uma coreografia básica. Acha que consegue dar uma pirueta no ar e depois ficar de cabeça para baixo? Assim - e exemplificava, mexendo os seus membros como os de um manequim - um salto em grupada, as coxas encostadas ao peito, os tornozelos junto às nádegas, depois, faz a rotação para a frente e fica em posição longitudinal com os braços e as pernas bem esticadas. Este seria o movimento ideal porque é muito belo e também a afasta das vidraças do prédio».
«Acho muito complicado...».
«Já desconfiava, isso ofende o meu sentido estético mas é compreensível. Vamos para uma coreografia básica, salta para diante, de cabeça para baixo, e tenta fazer parafusos enquanto cai. Assim, role o corpo no chão como se estivesse a mergulhar, parafuso, parafuso, parafuso! Assim mesmo, pode levantar-se, por favor, vamos ensaiar a descolagem».
Levou-a pela mão até ao fim do terraço, e num salto ágil, colocou-se ele mesmo sobre o muro da borda.
«O mais prudente para si, talvez fosse uma saída simples para a frente, mas dada a pobreza da nossa coreografia, vou explicar-lhe duas ou três opções. Mesmo tendo em conta que estamos a saltar de cima de um tijolo, duma superfície rígida, há coisas simples que se pode tentar fazer.
«Este de costas para a água, ou, neste caso, para a rua, salta, gira e começa a rodar o corpo assim - e exemplificou, saltando para o terraço - também há esta, a que chamamos o salto do giro - e exemplificou novamente, mas desta vez escorrega-lhe um pé e cai para o lado de fora, a gritar.
A formanda correu para a borda e viu o corpo do treinador sacudir-se no ar como um saco enfunado pelo vento, mas, quando ainda o conseguia ver com nitidez, observou o seu corpo a inteiriçar-se no eixo longitudinal, para iniciar um movimento em carpada. Desviou os olhos e sentou-se de novo no pequeno muro, com os pés bem assentes no chão do terraço.
Recolheu a aliança e o bilhete preso por uma pedra e meteu-os ao bolso com gestos lentos. Não tinha jeito para aquilo. Levantou-se, desanimada, e os seus pés tomaram o caminho da porta do terraço. Sentia-se mesmo uma falhada!

O provérbio aplicado ao teatro

«Na melhor nódoa, cai o pano».

Enquanto esteve casada nunca teve direito ao seu nome próprio, era apenas a senhora Nose, o Nose e esposa e amantíssimos filhos, a cara-metade do senhor Nose, o marido podia passear com um holograma dela que ninguém daria por isso.
Com o divórcio, passou a exibir em letras maiúsculas o seu nome e o apelido de solteira, e tornou-se senhora do seu próprio nariz.
O problema de não se ter nada para dizer, é que o silêncio faz-nos sentir culpados como se omitíssemos uma falta ou escondêssemos um esqueleto no armário, o silêncio olha de frente a nossa memória e a memória do que dissemos ou pensamos dizer, e espera, aguarda com a maior das tranquilidades que essa culpa nos desestabilize e nos faça subir pelas paredes, é uma estupidez, um tipo pode estar a caminhar numa estrada e ver na valeta um cadáver com um machado enterrado na cabeça, e nem por isso sentir qualquer motivação para sair correndo aos gritos ou chamar alguém, o morto estava ali à sua beira e por lá continuará, desinquietar-se vai valer tanto como afiar as unhas num rochedo de granito, a mim, isso nunca me aconteceu mas uma vez, no trabalho, vi um jovem, novato na empresa, a chamar por mim no meio de duas máquinas, chamava com cordialidade e simpatia: "Olhe, faz favor" dizia "podia chegar aqui?". E eu, absorto no que estava a fazer, respondia com a mesma cordialidade. "É só um momento, por favor, já aí vou!". Finalmente, lá fui, e quando cheguei ao pé dele, fiquei pasmado, o tipo tinha a mão presa numa prensa, o veio metálico descera fora de tempo e esmagara dois dedos da mão, mão que mal se via tanto era o sangue que a submergia; o tipo era como eu, achou que não valia a pena gritar porque o mal já estava feito, e deixou-se estar calado, e também não teve medo do silêncio, abraçou-o como se abraça uma amante depois de nos virmos. Amante. É engraçado pensar nisso porque tudo começou com uma amante, ou melhor, alguém que se ama. Nós dois éramos como dois bons amigos, ela contava-me tudo e eu retribuía, havia uma flâmula de desejo e afecto entre nós, algo de surdo e intenso como um campo magnético, antecipávamos palavras e pensamentos um do outro mas nunca dissemos claramente o que sentíamos, achava que não era preciso, a esfinge de silêncio sempre estivera junto a nós, mas parecia - parecia-me - que não havia enigmas, que os dois estávamos seguros do nosso afecto. Uma manhã, bem de madrugada, ia para a fábrica para pegar no turno das seis e vejo um homem sair da casa dela e dirigir-se para a estrada. Peguei instintivamente numa machadinha de lenha que estava cravado num cepo nas traseiras da casa e segui-o com passadas largas, não o chamei nem lhe disse nada, contei até dez e enterrei a lâmina na cabeça do cabrão, ficou espojado no fundo lamacento da valeta a agonizar e eu segui o meu caminho, ainda a tempo de pegar no turno da fábrica, depois, a polícia foi lá buscar-me e agora espera uma confissão completa da minha parte, que não conseguirão, porque não tenho nada a dizer, não agora, estou-me a borrifar, e o silêncio aguarda, olha-me com os seus olhos esfíngicos e aguarda, se sinto culpa, foi de não ter falado antes, àquela que eu amava para remover equívocos, e àquele cabrão na estrada, para me inteirar que ele era seu irmão. Maldito seja!

História antiga (sem métricas)

Antes da recessão, era a recessão,
Ou a precessão da recessão
O mar já batia na rocha,
E quem se fodia era o mexilhão.

Definição de banqueiro

«Um banqueiro é um homem que te empresta um guarda-chuva quando faz sol, e que to tira no preciso momento em que começa a chover» (Mark Twain).


ficções

Na berma da estrada, os dois carros haviam estacionado um atrás do outro, um homem enfatiado saiu do carro da frente e debruçou-se na janela do outro.
- É aqui que nos separamos - murmurou, sem nenhuma entoação específica na voz.
- Quando é que nos voltamos a encontrar?
Encolheu os ombros.
- Talvez quando a minha volta me trouxer outra vez para estes lados. Não me telefones, porque a minha mulher tem sempre o radar ligado, eu mando-te um mail ou telefono-te lá da empresa.
Debruçou-se para o interior, beijou-a nos lábios, e a sua mão insinuou-se por dentro da gola e alcançou-lhe um dos seios, que acariciou levemente até sentir o mamilo enrijecer na maciez da palma da mão.
- Não vejo a hora de estarmos juntos outra vez - confessou ela.
- Sabes que podíamos arranjar uma maneira, podias ir viver para a minha cidade, arranjava-te onde ficar, e um emprego para os teus alfinetes.
- Na tua empresa?
- Não! Isso era arriscado. Lá ao pé de nós há um bar de alterne onde eu e os meus colegas costumamos ir à noite. Era o ideal, aquilo é um trabalho onde só tens de dar tanga a uns quantos tipos e até não deves ganhar mal. Quando eu saio com os amigos, a minha mulher nem pergunta onde fui ou com quem estive. Se trabalhasses lá, de certeza que nos veríamos muitas mais vezes.
- Não sei, acho um trabalho degradante, estava á espera de outra coisa.
- Amor, sabes que a vida não facilita. É um trabalho como qualquer outro, e eu teria orgulho em ti. Devias pensar no assunto. Mal consiga o divórcio, tiro-te de lá e vou viver contigo. Prometes que pensas nisso?
Ela anuiu com um profundo suspiro, ele despediu-se com um novo beijo e partiu no seu carro comercial. Ao seguir o carro com o olhar, ela distinguiu algo na berma da estrada, uma mulher, a uns cinquenta metros mais à frente, sentada numa pedra na orla do pinhal à espera de clientes. Reconheceu-a mesmo àquela distância, era a Rosa, estava um pouco longe da sua área.
Rodou a chave na ignição e meteu o carro dentro do pinhal por uma estrada de areia. Arrumou-o entre duas árvores, puxou de um saco de ginástica pousado no banco de trás, e tirou a sua roupa de trabalho e as botas pretas de cano alto. Queria ver se ainda apanhava a Rosa para falarem um pouco antes de começar a trabalhar.

Auto-retrato de um escultor

(do mais narcisista de todos)

Epitáfio 2

Aqui jaz Beltrano, por ter trocado o pára-quedas por um pack de Red Bull.

Epitáfio


Aqui jaz Sicrano, que nunca se deixou vencer pelos golpes da vida. Caía, levantava-se, caía, levantava-se. Até agora.

Superstição

“Não sou supersticioso”, orava, diante do gato preto que se atravessara no seu caminho, e voltou a repeti-lo com a sua vozinha de ratito enquanto era engolido pelo gato.

A Proporção de Lata

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Era ainda um miúdo quando os médicos, ineptos, acharam que conseguiam corrigir com gesso o seu pé-valgo com a rótula descaída para fora. Armaram uma bota de gesso enorme no pé, com um peso doido, e fizeram-no gramar aquele pé-de-chumbo durante dois meses. No dia marcado para o fim do suplício, o pai levou-o ao Hospital. Vivia em Moçambique e haviam-se iniciado os primeiros aguaceiros, a água caía em bátegas sobre o carro, enquanto o pai, fumando com uma fresta do vidro aberto, tentava descortinar com dificuldade os carros que circulavam na marginal. O rádio soltava uma música de Miriam Makeba, e lembrou-se que podia por o pé fora da janela para a chuva dissolver o gesso, mas sabia que o pai não iria deixar. Quando chegaram ao Hospital, a chuva havia cessado, mantendo-se a promessa do seu regresso nas trovoadas fortes que incandesciam a linha-de-água. O pai levou-o para dentro numa cadeira de rodas, já com um novo cigarro pendurado do canto do lábio. Um enfermeiro guiou-os por um dédalo de corredores até uma enfermaria juncada de macas com pessoas com braços e pernas partidas. Um médico de ar desleixado fixou num painel de luz uma radiografia que tirara um mês atrás, a sua face retorceu-se num esgar, tossicou duas vezes seguidas e sentenciou sem os olhar.
- Já deve estar bom!
Voltou a sair, e os dois ficaram ali, num simulacro de angústia, durante perto de duas horas. O pai foi à procura do médico para pedir contas da situação e, em resposta, apareceu um enfermeiro com ar contrariado que arrastou a cadeira de rodas para um alpendre nas traseiras do hospital. Fazia frio como o raio. O enfermeiro cortou-lhe o gesso e atirou os despojos para uma caixote de madeira a uma canto, onde se erguia já uma pirâmide daqueles retalhos. Não sentia o pé e isso assustava-o. Foi reconduzido à enfermaria, onde o pai havia resgatado o mesmo médico, fazendo uso dos seus comprovados métodos de persuasão. O médico segurou-lhe o pé inerte entre as mãos, observando-o por simpatia. Estava igual ao que estava antes do gesso, deformado e torto.
- Isto com o tempo vai ao lugar - avaliou com todo o seu latim - ele só precisa de andar muito, de preferência, sobre terra solta ou areia do mar. Uma meia-elástica também pode ajudar. Ainda o hei-de ver jogar no Clube Ferroviário! Marcas lá uns golos e mandam-te para a metrópole para jogar no meu Belenenses.
Riu-se, riram, um riso de ocasião que disfarçou o seu embaraço do médico, despediu-se deles e voltou a eclipsar-se nas entranhas do hospital. O pai levou-o de volta ao carro, lá, pegou-o ao colo e sentou-o no banco do pendura. Enquanto o pai amarfanhava o maço vazio de cigarros, pediu-lhe para pararem ao pé da praia. O pai concordou, dava-lhe jeito, porque tinha de parar para comprar tabaco. Enquanto o pai desenleava o caminho para a marginal, tentou mexer de novo o pé e, desta vez, conseguiu, apenas um pouco, mas conseguiu, sentiu uma pontada de dor no tornozelo, misturada com a alegria do seu pequeno êxito. Quando o carro estacionou, já mexia bem os dedos, e conseguira dobrar e flectir o joelho daquele lado. O pai tirou-o do carro, segurando-o pelos ombros, manquejou assim até à areia. A chuva dera tréguas e o pai perguntou-lhe se ficava bem. Confirmou, e viu-o afastar-se com passos rápidos. Descalçou o outro sapato, enterrando os dois pés na areia molhada, e reiniciou a marcha. O pai alcançou um quiosque do outro lado da rua, e comprou um pacote de maços. Os primeiros passos na areia quase não mereciam esse nome, porque arrastava o pé que tivera gesso, mas teimou e começou a sentir esse pé perder a atrofia, e ao fim de alguns passos desajeitados, conseguiu caminhar quase como antes, tomando o caminho do mar. Sentia-se feliz, leve como uma folha, e a alegria crescia dentro de si como uma maré álgida a invadir-lhe o peito, ria sozinho e ria alto como não se lembrava de rir há meses. O som dos seus risos tranquilizou o pai, que alcançara o areal. Este sorriu fugazmente e desfez a ponta do pacote para tirar um maço. Decidiu deixar o filho andar um pouco, e limitou-se a observá-lo enquanto ele alcançava as primeiras ondas e entrava pelo mar adentro, pairando sobre a água.

um dia daqueles

- Hoje estás com muito mau aspecto, nem sei como é que tiveste coragem de sair à rua. Pareces um esfolado, todo coberto de sangue. E o que é isso no alto da cabeça? A raiz dos cabelos?
- Não me digas nada, porque hoje eu acordei virado do avesso!

Escalada

Durante a semana havia aulas, ao Domingo, missa, ao Sábado de manhã as mães não os deixavam sair à porta porque havia deveres de casa para fazer - à pressa, mas o Sábado de tarde ninguém lhes tirava, pequena alcateia de miúdos ladinos que brincavam e jogavam como se as regras e a disciplina tivessem levado um pontapé no cu, e o Sábado não fosse acabar nunca.
O líder consensual era o Mário, era o mais velho e tinha mais caparro, ser um pouco lerdo das ideias e um eterno repetente só o tornava ainda mais popular. O Mário só puxava pela tola quando era para inventar novas brincadeiras e aventuras. Subir e descer a uma árvore por uma corda, fazer trenó nos declives do barreiro, apanhar pássaros com uma armadilha composta por uma caixa de borco e uma corda atada a um graveto, atar latas ao rabo de cães e gatos. A última de que o Mário se lembrou, surpreendeu-os a todos - pôr pedras na frente do comboio. O Mário levou-os até à linha férrea e explicou-lhes o desafio. Depois de sair do apeadeiro, a linha de comboio descrevia uma pequena curva e depois tinha diante de si uma recta de quase meio quilómetro. Só tinham de se colocar a meio dessa recta, e colocar pequenas pedras na linha, e ver como os comboios numa ou noutra direcção os lançavam pelos ares como balas de canhão.
Todos pareceram animados com a ideia, e toca de enfileirar brita nos carris, o Afonso, que era filho do guarda-freio, conhecia de cor as horas em que todos eles passavam e cronometrava a operação com um relógio do Mickey que o tio da França lhe oferecera. Abrigaram-se, à espreita atrás de uma pilha de barrotes abandonados, quando a primeira locomotiva apareceu, mas a expectativa deles gorou-se, porque o avental metálico na dianteira da locomotiva dispersou as pedras como se fossem migalhas inofensivas. Não tinha piada. O Afonso, olhando novamente o relógio, pediu para terem paciência porque tivera uma ideia. Uma hora depois, mais um comboio, este, no sentido contrário ao primeiro, Afonso pedia-lhes calma e para não se mexerem. Depois da locomotiva passar, o Afonso levanta-se com uma pedra cúbica na mão e arremessa-a para os carris, ouve-se um ruído metálico e a pedra é deflectida, passa a um palmo da cabeça do puto e vai cravar-se no tronco duma azinheira. A malta explode de alegria, que espectáculo! Todos festejam e saúdam o heróico Afonso, menos o Mário, que sente ciúmes daquela súbita popularidade. Pergunta ao Afonso quanto tempo têm até ao próximo, meia-hora, responde este, e o Mário prepara-se. Manda-os acoitarem-se atrás dos barrotes, e faz um pequeno périplo até encontrar o que procurava - uma caixa de cartão meia desfeita, que arma na cabeça para protecção. Quando o comboio descreve a curva, ele já está a postos, era dos grandes, a locomotiva eléctrica a puxar por dez ou quinze vagões de carga cheios de troncos de eucalipto. Mário deixa passar a locomotiva, enche o peito de ar e levanta acima da cabeça um pedregulho enorme que atira para a linha. Ouvem um estrondo, o vagão de carga ergue-se no ar, grande como uma casa, empurrado pelos vagões precedentes, e todo o comboio descarrila para o lado oposto da linha no meio de uma nuvem de pó e fumo, e coroado pelo lamento pavoroso do ferro retorcido.
Todos ficam estarrecidos diante daquilo, alguns dos putos soltam exclamações de pasmo, mas a maior parte perdeu o pio. Afonso, que ficou imóvel e gelado enquanto o comboio rolava pelo talude, foi o primeiro a reagir.
- Este jogo não tem piada. Alguém trouxe berlindes?


Desconversa telefónica

«Jorge? És mesmo tu?».
«Iá! Estás bom, pá?»
«Eu tou, tava a convidar a tua irmã para ir ao cinema e, vai daí, ela disse-me que estavas deitado no sofá. Já não falava contigo há séculos. Como é que tens passado?»
«Mais ou menos, olha, ando com duas canadianas!»
«Jura! Fico contente por ti, sabes, nunca andei com nenhuma canadiana, com uma americana já, bem, ela não era bem americana, estava lá emigrada, mas quando estava a levar com a sarda dizia palavras em inglês, parecia uma actriz daquelas sessões da meia-noite que a malta ia ver ao Estúdio 1. Lembras-te? E como é que são as canadianas?»
«Não percebeste, as canadianas que estou a falar...»
«São quentes? E como é que fazes? Ficas no meio, ou elas brincam uma com a outra e depois tu, truxa!?»
«Não percebeste mesmo, não é nada disso!»
«Prontos, prontos, não falo mais no assunto!... não fazia ideia que as canadianas eram tão púdicas!».

No particular

[É mais fácil desejar a paz no Universo (entre israelitas e palestinianos, ou terrestres e Klingon's) do que perdoar ao filho da puta do meu vizinho que levou as maçãs da árvore que está plantada do meu lado, e que só merecia que eu lhe ajeitasse o capachinho com uma tranca da macieira].

Evidência estatística

O trinchar do peru na casa de um pintor de paredes, leva muito mais tempo do que o habitual.

Retrospectiva

Quando se pôs a fazer BTT naquela manhã de Domingo - a deslizar por carreiros de terra entre rochas e árvores - julgava estar munido de todo o equipamento que poderia necessitar, capacete para a cabeça, luvas, joelheiras e cotoveleiras.
Pormenor ínfimo, mas crucial: não usava nenhuma narigueira.

Vida mudada

Cumprindo uma resolução de Ano Novo, deixou de ser um desprezível yes-man. Depois de umas luzes em línguas, agora, vê-se a si mesmo como um oui-monsieur.

devaneio

A âncora fixa a embarcação ao solo marinho, a embarcação dança nas ondas como se respondesse ao canto de sereias, mas a âncora impede que se perca nessa dança. A âncora acompanha-nos desde que somos homens, primeiro uma pedra talhada toscamente com um furo por onde a corda era atada, depois, as elegantes âncoras de pedra dos fenícios e romanos, e as primeiras âncoras de metal, que foram sendo aperfeiçoadas até aos nossos dias. Uma vez posta em uso, a âncora torna-se familiar às profundezas marinhas, e segue no bojo dos nossos navios como um coral ou outra criatura marinha, revestida de minúsculos seres e fiapos de algas, confidente de segredos marinhos dos quais nem suspeitamos. Com o tempo, a sua lealdade vacila. Os marinheiros contam histórias de âncoras de ferro que se diluíram na água salgada, ou que foram carregadas para longe por hostes de crustáceos que assim arrastaram a embarcação fundeada e os seus residentes para um lugar maldito povoado por monstros das profundezas e intensos turbilhões. Uma outra sorte de histórias acresce uma nova variante ao símbolo: a da âncora que não pode ser arrancada do fundo. Como a história de uma traineira carregada de peixe que fundeou numa enseada para reparar uma avaria dos motores e, quando estava pronta para partir de regresso ao porto de pesca de onde havia saído, não conseguiram levantar a âncora. Não querendo deixá-la ali, devido às incertezas que alimentavam sobre o motor consertado, andaram em círculos com o motor do barco em esforço, mas ela não se descravou do fundo. Quando os homens, supersticiosos por natureza, começaram a julgar que estavam sob alguma maldição que os iria matar a todos, o capitão deu ordens para despejar no mar todo o peixe dos porões e, no instante em que o fizeram, a âncora soltou-se e veio ao de cima como se tivesse o peso de uma âncora de madeira. Uma narrativa algo semelhante foi conservada pelos pescadores da Provença. Numa enseada natural abrigada dos ventos que existia a poucos quilómetros da torre de Boucq, um pescador que mergulhava na captura de ostras, descobriu no fundo da baía uma âncora perdida que brilhava com reflexos de ouro. Estava apenas a uns cem metros da costa. Alertou os da sua companha e, entre todos, concordaram que a iriam desalojar do fundo para a vender. Ataram-se cordas compridas à âncora de ouro, cujas pontas se ataram à canga de bois. Durante horas, juntou-se a força de homens e animais para trazer a âncora a terra, mas ela parecia não se mexer. Caiu a noite, mas os homens não desistiram e continuaram a puxar pelas cordas ao ritmo de gritos e cantos de incitamento. Por fim, desistiram, e dormiram sobre as areias, decididos a retomar o trabalho à primeira luz do dia. Quando a manhã os acordou, julgaram que sonhavam ainda. A âncora estava diante dos seus olhos, mas não era de ouro mas de pedra coberta de limos secos, e em volta, toda a enseada havia desaparecido, o fundo do mar viera do de cima, os barcos de pesca adornados na terra encharcada como peixes a morrer a seco e, em volta, viam-se ruínas antigas a pingar água, colunas coríntias derrubadas, restos de paredes e muros de pedra, e bases orgulhosas de antigos pórticos e arcos.

Duplo Regresso

O irrequieto Luís Ene, que é daquelas pessoas que possui a inestimável virtude de não conseguir deixar de trabalhar, juntou ao seu trabalho na revista Minguante, a participação na revista Veredas e a escrita de um novo romance.
Agora, está de regresso à blogoesfera com um blogue retomado, o ENE COISAS.
Saudamos com alegria esta nova oportunidade de partilharmos o que ele escreve, e desejamos ao Luís os melhores sucessos nesta nova empresa.


Pesadelo-de-uma-Noite-de-Inverno

Melchior, o Rei Mago, procurava equilibrar-se em cima do camelo, amputado que estava de um braço à altura do cotovelo, corte em carne viva donde escorria sangue, e o seu camelo manquejava sobre uma pata partida. Ao seu lado, Baltazar, perneta, abraçava o pescoço de um camelo de olhos vazados, enquanto Gaspar, sem braços, estava amarrado à garupa de um camelo sem orelhas. Os três singravam por entre um olival imenso, que parecia ter sido plantado no centro do inferno abrasador da Geena, por todo o lado se ouviam gritos e uivos de dor, e as estrelas explodiam sobre as suas cabeças. Mas a estrela, a sua estrela, mantinha-se intacta. Melchior começava a recear sobre o que iriam encontrar no final da viagem, quando sentiu uma mão fresca pousar na sua testa e despertou.
Não estava num olival, mas deitado numa maca, com uma enfermeira ao seu lado. Era um hospital de campanha montado perto da infindável guerra das trincheiras, um lugar improvisado sobre lonas estendidas onde os médicos tentavam contrariar a agonia dos feridos e das vítimas das granadas de gás. Os gritos que ouvira eram os dos seus companheiros de infortúnio, e as deflagrações da guerra haviam ressurgido no seu sonho como a explosão de astros no céu. Um médico com um oleado pelas costas aproximou-se dele, pingando água. Tirou os óculos de aros redondos e limpou-os a uma ponta da bata. Notava-se o seu cansaço, estava um caco, mas arranjou forças para lhe dizer:
- A gangrena continua a alastrar, vamos ter de o cortar.
Levantou-se de um salto, a gritar, e tudo serenou à sua volta, mergulhando numa penumbra sem gritos nem estampidos. Tacteou os seus membros, estava intacto, não havia cortes nem feridas com pus. Voltou a deitar-se, procurando, a custo, adormecer, enlevado pelo som da areia das dunas arrastada pelo vento e pelo blaterar nervoso dos camelos junto à tenda.
Janus, era um deus latino satisfeito consigo mesmo, tinha as chaves de todas as portas, e duas cabeças - dois pares de olhos para rodar em volta e olhar as quatro direcções do espaço, ou sondar o segredos do passado e do futuro.
Janus nunca se sentiu diminuído nem nunca se queixou da sua condição, até ao dia em que começou a precisar de óculos.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...