INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

simetria

Os sacerdotes tremeram de pavor à aproximação do cometa. O mundo ia acabar, afiançavam, o cometa aparecia na altura exacta de atar os anos, e isso era um presságio funesto. Mas talvez fosse possível que eles poupassem o universo, e para isso, pediram voluntários para serem sacrificados na pirâmide sagrada ao deus do sol, patrono das luminárias do céu. Coatlatl, mulher nobre da linhagem real de Texcoco, foi uma das que se ofereceram, acometida dum fervor místico. Foi a primeira a subir as escadarias, deitou-se na pedra vermelha e deixou que lhe arrancassem o coração do peito. Quando o seu corpo tépido rolou pelas escadarias, outros voluntários se seguiram até se consumar a hecatombe. Sobre ela, o cometa brilhou intensamente com a cauda a rodar enquanto se afastava da terra e deixava de constituir uma ameaça. Enquanto todos gritavam de alegria com os olhos fixos no céu, Centlotzin, filho da piedosa Coatlatl, resgatou o seu corpo do monte de cadáveres aos pés da pirâmide e levou-a dali. Em casa, encheu o buraco aberto no seu peito com papa de milho, mandou abrir em solo sagrado uma depressão no solo com a forma duma pirâmide invertida e enterrou-a ali. Ele sabia que também era preciso alimentar e contentar o sol nocturno, o patrono das potências do mundo inferior cujos olhos brilhavam como estrelas.

O paleontólogo especializado em dinossauros, apaixonou-se por uma ornitóloga toda New Age. Iniciaram uma relação e decidiram casar-se. O enlace deu-se sob o signo do dragão.
Os órgãos internos daquela empresa, colaboravam num pacto silencioso de conhecimento e cumplicidade. O Menezes e o Faria dos pagamentos desviavam substanciais somas de dinheiro, e o administrador sabia, a Dona Glória dos Recursos Humanos fazia pequenas falcatruas, e o administrador sabia, o dr. Pacheco, o economista, cobrava indevidamente despesas de deslocação e almoço, e o administrador sabia, o assessor do administrador, o Morais, transferira dinheiro dos fundos de representação da empresa para uma conta pessoal, e o administrador sabia. De tudo isso e muito mais, sabia e consentia o administrador. Alheio a todas estas dóceis concordâncias, trabalhava o Rafael do Arquivo, um empregado dedicado que não se importava de trabalhar para além do seu horário de trabalho mesmo sem ser remunerado, e o administrador sabia disso. Um certo dia o Rafael, na hora de regressar a casa, lembrou-se de que ia precisar de agrafar uns panfletos que havia escrito, e que já não tinha agrafos em casa; e meteu ao bolso uma caixa encetada de agrafos, acto infame que foi presenciado pela Dona Glória. No dia seguinte, esperava-o uma carta de despedimento por justa causa - acto enérgico que o administrador esperava que servisse de aviso a todos os prevaricadores.

ludo-palavras

O anúncio de um núncio com cio.

Não é preciso viajar muito para sairmos de onde estamos, nem mesmo sair de casa; e não falo nas experiências de passagem, evasão, que muitos encontram num ecrã de televisão ou monitor, ou no consolo duma garrafeira preenchida ou um punhado de droga que compraram a peso de ouro. Aquilo a que me refiro em concreto, é que a minha casa possui uma porta que não dá para lado algum, ou seja, por ela não se passa para outra divisão da casa ou sai-se dela para a rua. A porta e o umbral da porta abrem-se para um lugar que nunca vi mas onde é sempre noite, com estrelas e nebulosas a brilharem num céu que ocupa o lugar do que deveria ser o tecto da divisão. Sempre achei esta divisão aberrante, porque se a contorno (passando duma para outra das divisões que a rodeiam) o raciocínio a que chego é que ela terá pouco mais de dois metros quadrados, mas quando entro nela, caminhando a medo por um solo irregular e juncado de pedras redondas como seixos, a impressão que tenho é que ela não acaba nunca, e que poderia caminhar durante dias do mesmo modo que já o fiz por horas a fio, e ainda assim não lhe encontraria um fim. Devo dizer que descobri essa divisão de uma forma algo ilícita. Tendo alugado esta casa na montanha para passar uma temporada afastado de tudo e de todos, não tardei a encontrar a porta fechada com um cadeado, e como alguém que toma posse daquilo que é seu de direito, parti o cadeado e arrombei-a; quando estiver na hora de partir, reporei as coisas na sua ordem prévia e sairei daqui com a consciência leve como um pássaro. Voltando ao que dizia antes, não preciso sair daqui para viajar, o gesto sumário de cruzar o umbral da porta com uma passada faculta-me isso tudo, mas também devo confessar que é uma viagem muito pobre e sem graça, e naquele lugar faz frio como um raio, um frio que atravessa a porta como um vento gélido – nos dias em que não faço tenção de entrar ali, mantenho a porta encostada, calafetada com mantas velhas que dispus em torno do aro da porta. Hoje de manhã, há um par de horas, como ouvisse o vento a uivar pelas frinchas entre a porta e o umbral, empenhei-me em isolá-la o melhor que podia, e retirei-a do lugar. Notei então que a porta também possuía um cadeado da parte de dentro, arrombado da mesma forma que eu arrombei o que me impedia de entrar naquele quarto fechado. Agora que a isolei novamente e a recoloquei no lugar, não consigo deixar de pensar sobre a função desse cadeado, de quem o teria colocado lá, e para cerrar passagem a quem ou o quê? Talvez seja alguém como eu, que vive como um selvagem sob as estrelas e que se aventurou um dia até á casa onde pernoito para espiolhar os seus cantos e recantos. Não sei se tem alguma coisa a ver com isso, mas tenho tido a crescente sensação de que o meu reflexo no único espelho que encontro na casa, é distinto daquilo que eu sou ou pareço. Muitas vezes, ao sair do banho no meio do vapor do chuveiro, limpo o espelho e este devolve-me uma imagem alterada de mim, com o corpo e a face revestida duma penugem leve e dourada, e os meus olhos também me parecem diferentes, maiores e mais vítreos, como os olhos dos animais que se acostumaram a viver no escuro. Mas o que mais me impressiona é a pele das mãos – quando limpo o espelho com a palma das mãos, a pele parece-me mais alva e enrugada, como se estivesse exposta a um frio rigoroso, o que não é o caso. Esta imagem reflexa é efémera, e dissolve-se ao cabo dalguns minutos numa vibração de luz, como se me estivesse estado a contemplar ao luar na superfície dum lago ou charco. Dentro de uma semana, acaba o período de aluguer da casa, e não posso dizer que isso me vá trazer um grande desgosto; é verdade que tenho aproveitado o sossego para por as ideias em ordem e tentar escrever alguma coisa e que até tenho trabalhado com regularidade, mas não consigo abandonar a sensação de que nunca conseguirei fechar novamente aquela malfadada porta.

Mais surdos do que absurdos


Em tempo de balanços e ressacas, organizei mais uma "colectânea" doméstica de textos deste blogue que ultrapassaram o prazo de validade.

Dei-lhe o título de Surdos e Absurdos, e coloquei-os em dois miradouros distintos: o SCRIBD, e o (howdo) YUDU, o primeiro mais prático, o outro mais elegante.

Chega atrasado como prenda de Natal, mas bem a tempo de fazer companhia ás passas do Ano Novo (não às do Algarve, espero).

Apontamento

Natacha é uma boa senhora, afável e simpática dentro das limitações do seu português rudimentar, e tem o bom-senso de fazer um uso comedido das palavras, não vá a gente pensar que trocaria o trabalho que faz por duas ou três horas de conversa de chacha. Natacha é mulher-a-dias, eslava e enorme, que, um Sábado por mês, vou buscar à porta do prédio onde mora. Desconfia da utilidade do aspirador e evita usá-lo, porque não é artigo com que tenha sido criada, e aprendeu que se pode limpar impecavelmente uma casa sem precisar desse barroquismo tecnológico. Vemo-la a atacar o cotão e a sujidade com vassouras, panos e espanadores, e quando acaba, pode-se gastar os olhos e a digital do dedo indicador, que não encontramos defeitos que se possam apontar ao seu trabalho.
Do conhecimento circunstancial e rotineiro que tenho dessa criatura aplicada, ressaltam duas ou três impressões mais incomuns e raras. Natacha tem um método simples de descascar laranjas - que eu acabei por imitar - em vez de cravar o polegar na laranja e foçar a partir daí, usa uma faca e dá uns golpes superficiais e precisos na casca da laranja, paralelos, ou cruzados como se traçasse losangos, e quando se começa a descascar a laranja, o trabalho torna-se mais fácil.
Numa outra altura, enquanto ela se entregava ás limpezas, eu amassei massa para pão na cozinha e deixei-a na masseira de barro a levedar enquanto ia preparando o forno. Nas suas idas e vindas pela casa, Natacha cedeu à curiosidade e espreitou a massa. Como a visse abanar a cabeça, perguntei-lhe o que ela achava. Ela riu-se, um pouco constrangida como se tivesse sido apanhada em falta. Na aldeia onde fora criada, explicou-me, cozer pão era uma coisa muito séria, juntavam-se muitas famílias e os fornos trabalhavam sem descanso, se alguma coisa falhava por culpa duma família, a vergonha recaía sobre o bom nome dessa família. A sua massa está fraca, disse-me por fim. Concordei, não gosto de abusar no fermento porque se nota no sabor do pão cozido, nem de o dissolver em água quente porque esta coze parcialmente o fermento, retirando-lhe as faculdades, prefiro que a massa cresça devagar enquanto o forno aquece até embranquecer os tijolos que o revestem, e regozijo-me quando os pães crescem no forno e ficam bonitos e bem cozidos (quando ficam), mas tudo no seu tempo próprio, sem as urgências que fazem as pessoas atalhar nas suas tarefas, só para ganhar algum tempo, ao qual não darão um uso melhor. O que é que você faria? Perguntei a Natacha. Ela mostrou-mo sem palavras. Separou um alguidar de plástico que usamos para a roupa, encheu-o de água quente e colocou sobre ele a masseira de barro, de forma que o fundo desta não tocava na água quente. O calor e o vapor-de-água envolviam a massa. E foi só isso, um gesto sábio como um procedimento alquímico.
A outra impressão extra-ordinária que tive de Natacha, teve também uma origem casual. Vendo que ela se detinha a olhar a capa dum livro de Dostoiévski que deixara dessarrumado na sala, lembrei-me de lhe perguntar se gostava de ler Dostoiévski, o que depois me pareceu um pouco preconceituoso, porque os russos não têm a obrigação de conhecer ou ler Dostoiévski, como os espanhóis de serem versados em Cervantes ou os portugueses, de lerem os Lusíadas; mas Natacha limitou-se a responder que já o lera, que gostava das obras mas não do homem, porque Dostoiévski era racista. Como eu tivesse mostrado alguma surpresa, ela perguntou-me se tinha lido um dos seus livros, e disse-me o título em russo, do qual só retive a palavra Doma. Descobri depois que se tratava das "Recordações da Casa dos Mortos", tinha-o lido em tempos, com uns vinte e poucos anos, e na altura tinha achado que Soljenitsine o deveria ter tido na mesa de cabeceira, mas não era livro que gostasse de ler uma segunda vez, nem mesmo para conferir a apreciação de Natacha, que me parece capaz de descascar a literatura com a mesma desenvoltura com que descasca laranjas.

"greguería"

A bola de básquete, é apenas uma bola de râguebi a atravessar uma fase de obesidade mórbida.

2=1

A bela encontrou o monstro, no espelho, mas seguia procurando a bela que um dia vira em si mesma.

Não passava de um mentiroso patológico, e teve de ser operado de urgência quando uma verdade imprevista lhe ficou atravessada na garganta.



Do caminho árduo dos que catam palavras

A escrita é um exercício burguês, exige tempo, disponibilidade, cabeça. Falta-nos o tempo, enche-se-nos a cabeça dos ecos ainda tão vivos do cansaço, e nem uma palavra nos salta dos dedos. Resta-nos pousar a cabeça sobre o dorso do silêncio, fechar os olhos, cheirar uma flor africana.


desnível

Andei à deriva nos corredores apinhados do Centro Comercial e à minha frente seguia um casal de mão dada de meia-idade, ele muito alto, uma bizarma, meio acorcovado para chegar à mulher que seguia ao seu lado, e esta esticava o braço para alcançar as pontas dos dedos dele, ela não era anã, mas era baixa, muito baixa mesmo. No meio do tropel de compradores desenfreados, ouvi a voz dele, doce e amantíssima: "Minha cara, vê por onde andas, que não quero que te ponham um pé em cima!".


War Games

O comandante Greg Micthell está sentado na sala de reuniões do porta-aviões nuclear, diante duma mesa com linhas quadriculadas com uma maquete das forças em combate - porta-aviões, contratorpedeiros, submarinos... A posição das unidades bélicas varia a cada minuto, mas um assessor do comandante vai movendo os modelos segundo a intuição do seu superior hierárquico.
- 4-C - grita o comandante para o microfone - Fogo!
- Água, meu comandante...
- 9-F! Fogo!
- Água de novo, meu comandante.
- Bolas! - ruge o comandante - na academia eu até era bom nisto.

Gen., I, 26

O homem, o escriba, lembrou-se de escrever uma frase próspera: «Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”». O escriba pousou a cunha com que gravava numa tábua de barro, levantou-se e encheu o peito do ar. Repetiu aquelas palavras entredentes, desfrutando do seu eco sibilino. Deus no céu e o homem na terra, as duas pontas do mesmo eixo à volta do qual tudo rodava. Saiu da tenda e olhou em volta e achou que tinha razão em pensar assim, tudo estava ordenado e submetido pela sua vontade, os animais no curral, as plantas dóceis que cresciam nos campos amanhados, a acéquia que haviam criado para irrigar os campos, e as brasas que coruscavam no centro do terreiro como se guardassem o espírito do raio. Somos como Deus, disse para si, está tudo ao nosso dispor, como uma noiva no leito, uma noiva que podemos amar e cuidar, mas também desprezar, magoar, mutilar. Quando voltou para a tenda, o homem que se sentia um rei já concebera as palavras que se seguiriam: “Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra”.

O lobo disse ao ingénuo Pedro: Vai lá, diz que eu apareci e que quero comer-te o rebanho. E Pedro foi, e em vão, porque no regresso, não se via lobo nenhum, e as pessoas a quem pedira ajuda, olhavam-no com desconfiança. E o lobo repetiu a graça uma e outra vez até deixarem de acreditar nele, porque o lobo desaparecia e Pedro ficava cercado pela animosidade dos populares. E vendo que o lobo se divertia à sua custa, Pedro caiu em si e fez publicar um anúncio no jornal para se dissociar das partidas do lobo, e contactou um seu tio, advogado, para mover ao lobo uma acção judicial por danos morais e cívicos.


Mãe Ercília, em atenção á quadra, queria que todos passassem a usar um gorro vermelho com borla branca, mas a família foi contra porque seria insensato, ela que usasse, se fazia tanto gosto nisso. A família de Mãe Ercília é uma quadrilha de carteiristas, chegaram a ser cinco, operando de preferência nas paragens de autocarro das linhas 15 e 23, mas hoje só conta com três membros, porque o mais novo preferiu acompanhar os tempos e converteu-se em hacker informático, e a irmã deste, logo que aprendeu a tabuada, começou a fazer contas á vida, e enveredou pela prostituição sob a tutela duma cadeia de hotéis. O M.O. da quadrilha da Mãe Ercília é básico e muito fácil de imitar, se o candidato reunir o talento e a descontracção exigidos. Como preâmbulo do golpe aguardam pelo autocarro com camuflagens cuidadas, fingem ser turistas, ou estudantes com estojos de máquinas fotográficas a tiracolo ou uma pasta gasta de mola; ao contrário deles, Mãe Ercília não muda de personagem, parece ser - e é, de certo modo - uma vendedeira de mercado, usa lenço na cabeça e avental com moedas a tilintar nos bolsos, é manifestamente gorda, de pernas grossas e peludas como caules de cacto e os braços de pregas de gordura bamboleantes apoiados na bengala nodosa. Quando chega o autocarro, a vítima potencial já está escolhida e catalogada. Há uma táctica habitual e rotineira que faz avançar Mãe Ercília ao lado da vítima, e dependendo de onde esteja a carteira que se quer roubar, ela sobe primeiro, parando no primeiro degrau do autocarro como se fosse cair para trás sobre o turista, enquanto a mão ágil do Manitas de Oro extrai a carteira do bolso, ao mesmo tempo que o seu primo Tomás, o Muleta, serve de escudo, ocultando a operação dos restantes utentes que querem entrar no autocarro; se a carteira estiver num sítio mais complicado, como no bolso interior do casaco ou gabardina, a opção é mesmo o abalroamento, o turista é prensado contra a esquina da porta pelos cento e trinta quilos de Mãe Ercília, e enquanto luta para não ser esmagado, fica sem a carteira num abrir e fechar de olhos. Muitas vezes, o manitas e o Tomás não chegam a entrar no autocarro e eclipsam-se entre as pessoas que passam, e nele segue apenas a matrona que compra o seu bilhete e fala muito alto com as pessoas, queixando-se da crise e do que custa ganhar a vida. Se a vítima der pela falta da carteira na altura de comprar o bilhete, não irá suspeitar daquela mulher que entrou consigo e permanece ali . Umas semanas antes, a quadrilha da Mãe Ercília teve um percalço. A vítima escolhida era um polícia á paisana, que se deixou roubar e depois seguiu Mãe Ercília até ela se reunir com os outros dois. Apareceu então em cena, não para os prender, mas para lhes exigir que lhe dessem todo o dinheiro que tinham roubado naquele dia, e para os pressionar, afirmou que um colega gravara a operação toda com a câmara dum telemóvel que trazia consigo, e num gesto teatral mete a mão ao bolso para puxar da prova incriminatória, mas o telemóvel tinha desaparecido, tal como os dois homens da quadrilha que desataram a correr como lebres antes que ele pudesse esboçar um protesto. Mãe Ercília sentara-se no chão e garantiu ao polícia que não conseguia andar, e que se ele a quisesse levar para a prisão, tinha de a carregar ao colo. O homem desistiu, desistiu de a prender e desistiu da quadrilha, receoso de que eles, por seu turno, tivessem gravado algum trecho do seu discurso com o seu próprio telemóvel. Passado o susto, a quadrilha de três retomou a sua rotina habitual, mas o percalço que tiveram em seguida perturbou ainda mais a matrona. A vítima era um tipo alto cujo rosto de barba grisalha fazia lembrar à Mãe Ercília a cara dum tipo que aparecia na capa dum livro numa montra do bairro (era Hemingway, mas ela não sabia o nome), e a vítima até prometia, trazia na cova do braço uma bolsa de cabedal castanho que parecia recheada. O fulano tinha uma cara bondosa e até parecia simpático, sorrindo para todos e sempre pronto a ceder a sua vez a quem queria entrar; ela aceitou o oferecimento e subiu á sua frente e quando ameaçou desabar para trás como uma árvore, o simpático ergueu os braços para a amparar, deixando cair a bolsa ao chão - dois toques com a biqueira do sapato do manitas de oro, e a bolsa foi escondida num casaco dobrado que Tomás carregava preso á ilharga. Quando se juntaram os três, abriram a bolsa e sentiram-se defraudados, não trazia dinheiro, apenas cartas. Mãe Ercília abriu uma na esperança de que trouxesse algum dinheiro - daquelas notas que as pessoas teimam em mandar por correio apesar de serem avisadas para não o fazerem - mas ficou surpreendida, era mesmo uma carta, e com um teor estranho, era uma carta ao Pai Natal escrito por uma criança de nome Rafael, trazia o desenho de uma árvore com enfeites, e uma lista de pedidos escrita numa caligrafia de adulto. Mãe Ercília abriu mais duas cartas, e teve diante dos olhos outras duas cartas ao Pai Natal, e começou a sentir uma angústia crescente. Será que…? Tomás e Manitas de Oro, esforçando-se para não se rirem dela, não deram importância ao caso, aquele tipo, afirmaram, deveria ser um empregado dos Correios, que levara trabalho para casa, cartas ao Pai Natal que fora incumbido de responder em nome do dito. Mas Mãe Ercília não se mostrou vencida nem convencida com o argumento. Passou a usar na cabeça um gorro vermelho com borla branca, e transporta o maço de cartas num dos bolsos do avental. Alimenta a esperança de reencontrar o homem de barba grisalha para as entregar. E, de preferência, antes de 25 de Dezembro.


fait-divers

Houve, dizem, um tremor de terra á 1.37 da manhã. Recebi dois éssémeésses ao respeito, o primeiro inquiria-me se o tinha ouvido, e respondi polidamente que os meus ouvidos, tal como o resto da minha pessoa, estavam a dormir por essa altura. A segunda mensagem transmitia-me uma reclamação irónica: “A estas horas é que o Berlusconi se lembrou de reagir, é mesmo típico do gajo!”.

(Estranho destino, o dos plátanos plácidos, a quem o frio vai despindo na sua bonomia, enquanto o vento espalha as suas roupas que dançam entre os nossos passos como se executassem um bailado de despedida)

Fábula corrida

Certo dia a lebre desafiou a tartaruga para uma corrida, gabando-se de que era mais rápida e que ela nunca a poderia vencer. A tartaruga aceitou o desafio, roendo-se por dentro por saber que a lebre tinha razão, e enquanto a pobre tartaruga treinava em desespero de causa, esticando as patas diminutas para fora da carapaça, a lebre ria-se ás gargalhadas enquanto dava ágeis saltos em volta, vencendo com cada salto a distância que a tartaruga completava ao fim de dez ou quinze passos esforçados. No dia da corrida, os animais da floresta vieram assistir, mas o seu começo foi francamente decepcionante para a tartaruga, que aos primeiros passos da corrida perdeu logo de vista a lebre que desapareceu numa nuvem de pó. A tartaruga teimou na corrida, e ao fim de algumas horas reencontrou a lebre, que confiante na sua vantagem e superioridade, se deitara á sombra de uma árvore a dormir. A tartaruga aproximou-se pata ante pata, e antes que a lebre acordasse, esmagou-lhe a cabeça com um pedregulho. E retomou então a corrida, chegando finalmente á meta ao fim dum par de horas, mas ao contrário do que esperava, não a receberam os animais da floresta, nem os vivas pelo seu triunfo. Apenas uma criatura o esperava na meta, uma tartaruga semelhante a ele, mas sem carapaça e com os olhos encovados e insones. Era a sua culpa.

Um Ovni pousou na minha caixa de correio

E porque acredito na vida inteligente extraterrestre, transcrevo o mail:

Casa da Misericórdia

Joan Margarit na Casa Fernando Pessoa

Joan Margarit, uma das grandes figuras da poesia catalã contemporânea, lança o seu primeiro livro em Portugal a 14 de Dezembro, pelas 18.30h, na Casa Fernando Pessoa. Na sessão participará também o escritor Fernando Pinto do Amaral.

Casa da Misericórdia tem chancela da ovni e tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas, e recebeu, entre outros, o Prémio Nacional de Poesia em 2008, galardão conferido anualmente pelo Ministério de Cultura de Espanha à obra de poesia que mais se destaca em qualquer uma das línguas oficiais do país.

Para mais informações, por favor consulte:

Microsite OVNI dedicado à obra de Joan Margarit

Casa da Misericórdia no site da OVNI

Casa Fernando Pessoa

Filmes: The Sixth Sense

Postal ilustrado 3

Postal ilustrado 2

Postal ilustrado

Adicto 1

Entrou em estado catatónico, quando o Casino fechou para obras

Adicto 2

Fumava muito, e tossia com frequência, é da cigarreira, comentava com os amigos. Um dia, no regresso a casa, o carro que conduzia derrapou no piso molhado e embateu contra uma árvore. Levado ao hospital, constataram que não parecia ter nada partido mas, como se queixasse de dores no peito, fizeram-lhe exames. Estes indicaram que não havia ossos partidos, mas que padecia de tuberculose em estado avançado. A enfermeira contou-lhe, rematando: “deve dar graças a Deus pelo acidente, assim, ainda pode ser tratado!”. Ele abriu muito os olhos, como se ela falasse chinamarquês, e inquiriu: “Quer isso dizer que eu não posso fumar?”.

Adicto 3

Depois do divórcio, ela começou a sentir estranheza na sua própria casa, e saía dela para a rua como se passasse duma para outra divisão dum prédio desabitado.

Um dia, há muito tempo, existiu alegria na sua casa, lembrava-se disso, mas há muito tempo que não a encontrava. Talvez tivesse caído por uma das frinchas do soalho ou talvez - quem sabe? - a tivesse aspirado sem querer.

Estamos no mês do Natal, lembrou-lhe a mulher com um leve tom de censura, devias tentar escrever coisas menos carregadas. A contragosto, ele teve de lhe dar razão, e começou a acrescentar aos dizeres que gravava com um cinzel em lápides funerárias, um pequeno motivo a um canto que evocava um ramo de azevinho.

Novas oportunidades

Até ao dia em que foi apanhado nas malhas da lei (quando já era demasiado grande), ele havia-se especializado no furto de viaturas, que eram desmontadas em peças para venda. Quando voltou á liberdade, decidiu inovar, e aplicou todo o seu know-how no comércio de órgãos humanos.

(É recompensador ter uma casa com varandas que se abrem para o mar - sonhador quando está coroado de nevoeiro, esplendoroso quando o sol se espelha nele, em sintonia connosco se nos sentimos melancólicos e o Mar se chama Negro).

O troco do desejo

Queixava-se e condoía-se de todos o ignorarem, e sentia-se infeliz porque não conseguia levar a cabo uma vida decente; hoje, queixa-se disto por estar entre os criminosos mais procurados.

Quando os pais trocaram a casinha humilde por um apartamento minúsculo na grande cidade, o menino sentiu-se atraiçoado. Não podiam fazer isto comigo, queixou-se, a nossa casa tinha passagens secretas e túneis camuflados que me levavam a cavernas cheias de tesouros. A mãe afagou-lhe os cabelos, compassiva, procurando fazer ver-lhe as vantagens da mudança – aqui também tens tudo isso, meu pequeno, são as escadas e os elevadores que conduzem ao pequeno shopping da cave.

Mudou de casa e mudou de lugar, mas ainda sentia que não era suficiente. Ao abandonar a toca ouviu o roçagar da pele velha que deixava atrás de si, e só então sentiu que a mudança estava completa.

A pétala no deserto

As redes sociais da Web prodigalizaram o encontro, e num sítio arrojado, um motel de má pinta na berma da estrada. Ela chegou primeiro, com óculos de lentes grossas, e os quadris gordos ataviados numa saia aos quadrados muito apertada que não conseguia suster a barriga que procurava disfarçar. Ela, Rosa de Luna era o seu nick, olhou nervosamente em volta e sentou-se na cama, de costas viradas para a porta, compondo a saia sobre os joelhos, e roendo as unhas já maltratadas. Pouco depois chegou Apollo, entrando a medo no quarto, esfregando as têmporas com as mãos suadas. Trajava umas calças de ganga, uma camisa de algodão de cores garridas e um casaco de napa por cima, com o colarinho levantado, como as estrelas pop dos eighties, quando ele e Rosa eram jovens. Apollo sentou-se também na cama, de costas para Rosa, e ambos permaneceram assim num profundo mutismo, apenas suavizado pelo sibilar ténue das suas respirações. Os minutos escoaram-se como horas. Algum tempo, ou muito, muito tempo depois dele ter entrado, algo de fortuito aconteceu. Ou foi ela que tentou puxar uma aba do cobertor para as pernas numa reacção involuntária ao som da chuva nas telhas, ou ele que esfregava no cobertor as palmas das mãos para as enxugar do seu transpirar nervoso, mas as mãos de ambos tocaram-se, sentiram o toque uma da outra, humanizaram-se no calor da pele. Deram-se as mãos, sempre de costas um para o outro, sem coragem para se olharem de frente, mas as suas mãos apertavam-se, os dedos conheciam-se e acariciavam-se, transidos de emoção. Passaram assim a noite, de mãos dadas no escuro para não se perderem, até o sono os vencer e adormecerem um ao lado do outro. A luz da manhã despertou-os, o rosto dum diante do rosto do outro, mas em posição invertida. Riram-se com gosto, e esse foi o início e o fim da única história de amor que os dois teriam para contar.

Saiu de casa para ir a uma consulta. O médico examinou-o, leu-lhe o Tarot e mandou interná-lo. Já na cama do hospital, a enfermeira nada enfermiça trouxe-lhe uma chávena de chá, e depois dele o beber, ela leu-lhe o futuro nas folhas de chá e instou-o a voltar a casa o mais depressa possível. Obedecendo, voltou a casa, e encontrou o médico com a sua mulher á volta dum ritual divinatório que envolvia um colchão de penas de ganso. Expulsou os dois de casa e entregou-se á dor, um personagem que cheirava a éter e a folhas de chá, e a dor só o devolveu à solidão da casa depois de lhe subtrair todo o dinheiro que ele ali guardava, mais o ganso das penas.

Depois de muitas horas de bares e copos, deu-lhe uma branca. Acordou numa cama que não era sua ao lado duma mulher branca completamente despida, e não sabia como é que tinha ido lá parar.

pensando nisso

Os paleontólogos descobriram um fóssil de dinossauro em cima duns ovos e chamaram-lhe Oviraptor, porque pensaram que se tratava dum ladrão de ovos. Se os paleontólogos do futuro descobrirem o fóssil da minha prima Adozinda, que trabalha num aviário, vão julgar ter encontrado uma mulher poedeira.
Tinha pé-de-atleta, mas só de um lado.
Fez os 500 metros barreiras ao pé-coxinho.

divagação ociosa

O avesso é o oposto do direito, mas como é notório que todos vivemos um pouco avessados, quando se diz que alguém nos põe do avesso, significa que essa pessoa nos reconduz à nossa forma inicial, correcta, razão pela qual nos deveríamos sentir gratos por quem nos põe do avesso - vivermos comummente avessados torna impraticável fazer a barba ou cortar as unhas dos pés.

Gin Tónica

O linguista pediu um pires de sílabas tónicas para acompanhar o seu Gin.

monroísmo

- Não pode passar! - advertiu o guarda na sala de controlo do aeroporto – transporta demasiadas coisas.

- Que coisas?! – protestou.

- Memórias e vestígios da terra de onde veio, mercadorias ínfimas mas poderosas como o cheiro da terra ou a cor dos céus, o aroma duma pele de mulher, ou o resíduo de uma música do velho transístor das suas tardes de infância. Não o podemos deixar entrar aqui, as coisas que traz consigo podem contaminar de beleza a sociedade onde desejava integrar-se.

- E o que é que vão fazer comigo? Não posso passar como um animal esviscerado, sem nada dentro.

- Vai ser recambiado ás suas origens, terá de adiar ou realinhar a sua busca de prosperidade, mas deixe-me dizer-lhe, a título pessoal, que nós é que ficamos mais pobres por o deixarmos de fora.

Á Belenenses

O Velho do Restelo, um velho de aspecto venerando, plantado na areia da praia entre a multidão, gritava a plenos pulmões, tentando convencer os marinheiros a não embarcar nas naus, abandonando assim as mulheres e os filhos, censurava-os por renegarem a terra dos seus avós em nome duma aventura no desconhecido.
- Não ides! - bramava - mas se tiverem mesmo de ir, tragam-nos na volta, um ou dois pontas-de-lança!

Do mal o menos

O transeunte deteve-se no passeio. Um homem com a cara protegida por uma máscara de filtro, pintava á pistola o gradeamento dum portão alto. Encheu-se de coragem e aproximou-se dele, saltando a fita vermelha e amarela que demarcava o espaço de segurança da pintura.
- Desculpe, senhor, mas a sua máscara chamou-me a atenção, ela é muito diferente, é por causa do vírus h1n1? É algum tipo de protector especial?
- Não – negou o homem com a voz nasalada – esta máscara é para me proteger do cheiro deste verniz, que é altamente tóxico, e o senhor não deveria estar no meio da nuvem a respirar este veneno.
- Ah! Que pena! Eu tinha esperança que fosse alguma máscara nova, cem por cento garantida contra o vírus da gripe.
- O senhor deveria afastar-se, o seu nariz está a aspirar este veneno todo, o senhor até corre risco de vida!
- Na verdade, estou-me a sentir um pouco nauseado e com vontade de vomitar…mas como não é o vírus da gripe, não deve haver espiga.

Sangueira

Ele era uma pessoa fora de comum, um nobre, e como todas as pessoas fora de comum, mereceu um tratamento especial, estenderam-lhe uma comprida tapeçaria vermelha da base do primeiro degrau ao centro do estrado, onde estava pregado um outro tapete, também vermelho vivo, mas de forma quadrada. Ideia muito prática, que tivera o camponês a quem haviam encarregue de limpar o estrado onde fora montada a guilhotina.

O nosso grupo de amigos vinha de longe, primeiro, colegas de escola, alguns camaradas da tropa, todos sem nos perdermos de vista, e todos a colocar o mesmo empenho em arranjar um trabalho e uma casa e uma mulher. O primeiro a casar foi o Gonçalo, e marcamos a despedida de solteiro para a semana anterior ao evento, um jantar seguido de um sarau de copos e uma ronda pelos bares da onda. Éramos cinco e cabíamos todos no mesmo carro, e a quem é que iria calhar ir ao volante? Sobre isso não havia dúvidas, o Sérgio! O Sérgio não bebia, nunca bebia, era abstémio e frugal como um mórmon. Depois calhou a vez do Jacinto se casar, e nova despedida de solteiro e de novo o Sérgio a conduzir o carro dos folguedos. Na vez seguinte, a coisa não foi tão simples, era o próprio Sérgio que ia casar, marcou-se um dia para a despedida de solteiro, mas o Sérgio, que continuava a não beber, recusou-se a servir de motorista na sua própria festa, e a nenhum dos outros apeteceu-lhe passar uma noite de folia a beber água mineral ou sumos de frutas, porque assim, nem as tipas do strip-tease iriam parecer tão belas. A coisa compôs-se dentro destas contingências. Organizamos um périplo mais reduzido, e o Sérgio foi sentado no banco de trás do carro, enquanto eu e os restantes empurrávamos o carro pela rua fora, fazendo os nossos cânticos e lamúrias rivalizarem com as buzinadelas e insultos saídos dos carros que nos ultrapassavam.

A velha senhora está a passear no meio do pinhal, colhe cogumelos para um saco, e ouve o ladrar de cães e os tiros de caçadores, não muito longe. Nisto passa uma lebre em fuga e ela incita como se rezasse – corre, lebre, corre! Concorrendo com estas palavras soa uma detonação muito perto, cujo eco nas árvores parece repetir: morre, lebre, morre!

Escreveu a sua autobiografia, que só foi publicada postumamente. A edição em papel não ficou como ele desejava porque não arranjou maneira de introduzir algumas correcções.

Cavalices

A chuva surpreendeu-os a todos enquanto compravam e comparavam no supermercado, uma chuva insistente, prolongada, imorredoura. As famílias que começavam a bater em retirada, estugavam o passo e ficaram imóveis junto á saída, como cavalos narcotizados. Seria uma temeridade sair para o parque de estacionamento com aquela chuva – o carrinho de compras carregado com as compras, e as crianças e eles de cabeça descoberta. Ficaram por ali, entreolhando-se e olhando a chuva, como se os outros ou a chuva pudessem apresentar uma solução á medida da pluviosidade incidente. Entrou então em cena Atalvino da Conceição, homem resoluto e desempoeirado que não se detinha com nada. Trazia um simples saco de compras – peixe congelado, ainda por cima, artigo que a chuva não assustava – mas trazia pela mão a filha pequena, Atalvina, miúda enfezadita que não se podia submeter aos rigores do tempo. O homem olhou os restantes, como os homens carismáticos costumam olhar os pobres de espírito que os seguem, e levando dois dedos á boca, soltou um silvo agudo. Poucos segundos depois, um par de faróis acendeu-se no meio do parque de estacionamento, e um carro aproximou-se aos poucos, não rolando sobre as rodas como um carro comum, mas balançando-se de um lado para o outro, como se cada uma das rodas fosse uma pata ou perna que o carro pousava alternadamente no chão. E com esse andar patético, o carro encostou-se á parte exterior da saída do supermercado, expelindo vapor pela grelha do radiador como um cavalo que resfolegasse pelas ventas. Atalvino e a sua filha entraram no carro sem quase se darem conta se a chuva era húmida ou enxuta, e Atalvino acenou-lhes num gesto garboso de despedida, já com o chapéu de cowboy na cabeça, e as mãos a segurarem as rédeas que saíam do tablier do carro. E foi a última coisa que retiveram daquelas duas personagens, isso e o seu exemplo, que uma das testemunhas do ocorrido tentou emular, soltando um assobio fraco e envergonhado, que não produziu qualquer efeito. Pelo menos, que me lembre.

Fomos avisados!!

Ano de dois mil e doze, madrugada do dia vinte e dois de Dezembro. O argumentista de Hollywood acorda num bar de auto-estrada. Adormecera ás tantas sobre o tampo da mesa, rodeado de garrafas vazias de uísque. Boceja, e acende um cigarro, rezando para que não se incendeie o hálito da sua boca. Depois de coçar o umbigo descoberto pela camisa desfraldada, olha para o exterior pelas vidraças do bar. Está um dia esplêndido de sol, não há sinais do fim do mundo, nem mesmo a sombra ameaçadora de uma nuvenzita no céu claro. Com o cigarro no canto da boca, alivia-se no urinol, passaja as mãos por água, e aproxima-se do empregado que o olha através dumas olheiras de coruja.

- Parece que o mundo não acabou mesmo. Queria pagar a conta…

Tendencialmente tristes,
as aves de hoje paradas no olhar.

O voo não chega
aos braços dos homens:
as asas ferem-lhes o rosto, cegam-nos.

Tendencialmente tristes,
os homens de hoje tiram penas
dos olhos.

Ficam comovidos e parados no olhar
das aves.

Ficam em terra.

Só um pássaro se anuncia,
veloz,
contra o céu.

(Filipa Leal, Cidade Líquida & Outras Texturas, Deriva Editores, 2006)

Noé

Noé juntou na sua arca todas as espécies animais do planeta, para as salvar do extermínio. Mas eram muitos os dias da arca sobre as águas, e umas vezes para matar a fome, outras para enganar o tédio, Noé e a família foram exterminando uma espécie atrás da outra. E nós continuamos o bom trabalho.

Noé 2

Noé juntou na sua arca todas as espécies animais do planeta, para as salvar do extermínio. Quando acabara de o fazer, entrou a mãe, que deu uma mirada pelo quarto e observou:

- Bonito menino, fez a cama e arrumou a bicharada toda no baú!

Manuel viu-se a braços com muitos problemas na sua vida, e todos a desabarem sobre si ao mesmo tempo (mania muito comum aos problemas), e num dado passo, deixou de sorrir, assim mesmo, os lábios ficaram rijos como pedra, ou usando uma imagem mais orgânica, rijos como madeira. Os médicos não sabiam o que fazer, porque assim, Manuel não podia abrir a boca para ingerir os alimentos, e, de igual forma, não podia falar e comunicar com os outros. Mas os médicos são pessoas muito inteligentes que arranjam solução para tudo, e Manuel passou a ser alimentado por um tubo ligado ao estômago, e providenciaram-lhe um boneco de madeira para o qual o Manuel podia projectar a sua voz, suprindo as suas lacunas de comunicação. E a primeira coisa que Manuel ventrílocou para o seu boneco foi: “Que merda de comida!”

Quando abre a época da caça, aumenta o número de cães vitimados no alcatrão das estradas, eles que na sua inocência descem aos rios de asfalto em busca de presas abatidas ou dos seus próprios donos, perdidos deles, e são caçados ali pelos carros. Um qualquer tira-lhe a vida e os outros carros moem-nos, triturando os ossos e as vísceras numa papa a apodrecer à chuva e ao sol.

(O céu dos cães deve ficar super-lotado nesta época).

Nevermore

Numa tarde melancólica de Inverno, Edgar Allan Poe releu o poema que acabara de escrever, e constatou que ele estava imperfeito e que continha algumas gralhas. Exasperado, rasgou a folha de papel em mil pedacinhos e voltou a escrever o poema, de cabeça, fiando-se na sua memória e sentido do belo. Quando o releu, constatou que, desta feita, ele não tinha nenhuma gralha, mas em compensação, conseguiu inventariar nele, doze corvos de enfiada.

Quero lá saber!

Os moradores do prédio degradado não pintam o prédio, não limpam as escadas, não lavam o terraço amplo no topo. Não se lhes pode pedir muito, são inquilinos dos antigos que pagam uns tostões pela renda e que acordam todas as manhãs com a ansiedade de confirmarem se o prédio se mantém intacto, ou se houve alguma derrocada. Deste modo, o prédio já quase não tem tinta nas paredes, porque não cabe a eles pintá-lo, a sujidade e poças de urina nos degraus da escada também não são da sua conta e só têm de contornar o que lhes desagrada, e também não lembraria a nenhum deles ir varrer ou lavar o terraço no topo. Neste caso, ainda bem que é um terraço e ainda bem que chove. A água da chuva leva e lava tudo á frente, escoando-se defeituosamente pelas goteiras enferrujadas e cheias de buracos. Nesta última chuvada, a água que escorreu pela goteira vinha avermelhada, da cor do sangue, era visível nas paredes e no passeio junto ao prédio. Mas os moradores do prédio degradado não deram qualquer importância, não lhes cabia limparem aquela porcaria, e não era da conta deles se, agora, o senhorio decidira usar o terraço como talho.


Cauteloso

A jovem dorme profundamente no seu leito, nua sob os lençóis, com o alvo pescoço a emergir deles como se tivesse sido afeiçoado em marfim. Na escuridão do quarto passeia-se o vampiro como um pirilampo, empunhando uma vela acesa. Está esfomeado, os dentes salientes a gotejar de sede e desejo, mas contém-se enquanto vasculha nos papéis dela, e na carteira abandonada em cima duma cómoda, procurando, caso haja, o seu último teste de HIV.


tsantza

Em outros tempos, os índios Jívaros cortavam a cabeça dos seus inimigos e encolhiam-nas até ficarem do tamanho dum punho. Mas isso foi em outros tempos, hoje, dizem, os Jívaros já não fazem isso. As cabeças, essas fazem pela vida, entregues á actividade política.

Pânico

Teve um pesadelo horrível, mau-sonhou que estava no meio duma cidade, mas na cidade não havia pessoas, apenas camaleões e rãs, por todo o lado, pendurados em cachos nos candeeiros de rua e nos túneis do metropolitano, a invadir todas as ruas e escadarias como marés vivas de milhares, milhões de seres coloridos e brilhantes, a agitar as línguas viscosas como chicotes ameaçadores. Foi então que acordou, e agitou as asas de alegria, pousada num cagalhoto de cão na berma duma estrada.

Libido

Por despacho ministerial, todos os animais imaginários tiveram de ser entregues pelos seus possuidores ás autoridades competentes, para que os encerrassem em zoos especializados que iriam zelar pela sua preservação. Ninguém contestou ou opôs resistência, hidras, dragões, quimeras, grifos, e centenas de outros espécimes estranhos foram confiados ás autoridades, e estas só viram o seu trabalho complicado quando tiveram de enfrentar a Dama, que se recusou a abrir mão do seu Licorne, pelo menos, enquanto não arranjasse marido.


reunião de família

Era uma família numerosa, doze irmãos, para não contabilizar outros quatro que haviam morrido á nascença. Os doze irmãos desde cedo seguiram os seus caminhos, estudos, empregos, vida no estrangeiro ou nas grandes cidades, e logo se deram conta de que se haviam deixado de ver por completo, que viviam vidas apartadas e estanques apesar da sincera afeição que cada um nutria pelos restantes. Reuniram-se ao fim de muitos anos no velório dos pais, atropelados ao atravessar uma rua – e gostaram de se verem e abraçarem, apesar das circunstâncias. Poucos anos depois, foi um dos irmãos que bateu as botas, e depois um outro – velório e mais um velório, e o reencontro dos irmãos saudosos, apesar das circunstâncias. No velório do terceiro irmão falecido, e num momento da noite de vigília em que as lágrimas haviam secado e o sono já pesava, um dos irmãos pensou em voz alta: “Gostaria que nos víssemos mais vezes, mas acho que desejar isso é capaz de atrair o azar…”.

Harold Haraldsen, escritor norueguês de diálogos para peças de teatro mímico, foi interpelado um dia por uma jornalista de Sandefjord que lhe perguntou porque é que ele era uma pessoa tão reservada e recusava-se sempre a dar entrevistas. Haraldsen respondeu que não via nenhuma utilidade ou proveito nisso, e que as pessoas teriam tanto interesse nisso como em saber para que lado é que acordava em cada manhã o rei Olavo V. A jornalista não se deu por vencida, e argumentou que, se ele se deixasse entrevistar, as pessoas poderiam conhecê-lo muito melhor. “Para isso, leiam o que eu escrevo!”, replicou logo Haraldsen.

Almas vivas

Passo o testemunho:

Próximo Sábado, 31 de Outubro, pelas 18h00, na Galeria Santa Clara, em Coimbra, (re)descubra Gógol pela voz dos seus tradutores, Nina Guerra e Filipe Guerra.

No mesmo dia e local, mas pelas 22 horas, Rui Manuel Amaral desfia o seu read-list de contos curtos de autores russos.


(Em baixo: versão de O Capote de Gogól, com arte de Noemí Villamuza)

Confrades

A mulher apanhada pelas ondas, vê-se aflita para se manter á tona da água, e pede ajuda aos gritos. Mas não há ninguém por perto, apenas gaivotas, mas como repete o pedido com desespero, acaba por ser ouvida e surge-lhe, a flutuar sobre as ondas, dois seres que lhe parecem familiares – Elvis Presley a surfar sobre uma guitarra, e Michael Jackson a fazer moonwalk em cima dum pato de borracha gigantesco.

- Viemos ajudar-te – anuncia Elvis – fomos reis na terra, e agora fomos eleitos anjos, para proteger as pessoas e fazer milagres.

Elvis estende-lhe um colar de maciços elos dourados, onde ela se suspende. É transportada pelos ares até á praia, onde firma os pés.

- Sentes-te bem? Precisas de mais alguma coisa? – Pergunta Michael Jackson entre dois gritos agudos.

- Sinto-me agoniada, mas vocês não têm a culpa. Digam ao vosso chefe, que os gostos musicais dele deixam muito a desejar.


oração incompleta

as palavras são fontes, ressequidas pelos nossos sentidos gastos, uma vez por outra alguém vê através delas, ouve o seu rumorejar, refresca-se ou corta-se no seu fio de água cristalino e musical, e as palavras

Antes de tudo acontecer

Noite funda, e ele sonha no sono que Deus é uma mulher, e que o leva pelo braço por uma ponte fumegante sobre um manto de neve. Acorda sem razão, e descobre a amante abraçada ao seu braço, os dois deitados lassos sobre os lençóis brancos como a neve. Olha então para o fundo escuro do quarto, e pergunta-se, aonde a ponte os levaria.



Por portas travessas, o inventário de esferográficas, clipes e agrafes da redacção, acabou reproduzido na secção literária do jornal como um exemplo de poesia concreta.

the pursuit of happyness

Fez uma busca no browser por felicidade, e este trouxe-lhe catorze milhões de resultados, mais coisa menos coisa; fez outra busca por amor, e desta vez os resultados daí resultantes eram para cima de duzentos milhões. Sentiu-se mais tranquilo, porque não parecia haver uma correspondência directa, e assim, talvez ainda tivesse hipóteses.


Como não soubesse para que lado se virar, subiu pela escada de incêndio.

Espirais

O cadáver foi encontrado num terreno baldio, muito mutilado. A polícia tomou conta do caso, havia que identificar a vítima, mas isso não seria tarefa fácil. Os olhos haviam sido arrancados, e cortadas as mãos - decerto que por causa das impressões digitais - e para além disso, o corpo apresentava-se esfolado num dos ombros e parte das costas, provavelmente, para remover alguma tatuagem significativa.
Isto é trabalho de profissionais, crime organizado, avaliou o inspector, mas nós não estamos na Idade da Pedra, temos o ADN!
O trabalho da polícia científica confirmou a opinião do inspector, aquilo era mesmo trabalho de profissionais - as moléculas de ADN tinham sido todas desenroladas.

Poesia reciclada

A vida, por vezes, usa para connosco de extrema e refinada ironia, quando o que nós desejaríamos é que as coisas fossem simples e claras e, já agora, favoráveis aos nossos propósitos e desejos. Todo o tempo que ele empregara na poesia tinha como fim último, ser publicado, conhecido, admirado. Agora, era um poeta publicado, e apenas isso, três ou quatro lançamentos do seu livro que foram mais ignorados do que o estribilho musical do amolador de tesouras e facas, uma pilha de exemplares no seu escritório que era suposto tentar vender ou dar, e um silêncio absoluto e esmagador sobre a importância da sua obra. Uma estatística da editora cifrara em cinquenta e dois, o número absoluto de exemplares vendidos da obra. O poeta achou que era altura de forçar a nota e obrigar o universo a dar-lhe o destaque que sabia merecer. A sua primeira jogada, foi criar uma figura fictícia em todas as redes sociais que conhecia, Twitter, Netlog, Facebook e quejandos, um personagem que odiava visceralmente os seus versos e todos os dias lançava insultos ordinários contra eles, estendendo o seu veneno á pessoa do seu autor. Acreditava que isso espicaçaria a curiosidade geral, mas, aparentemente, enganara-se. O livro continuava intocável nas livrarias mais próximas, prestes a ser transferido das novidades para as prateleiras temáticas onde se afundam no olvido. Voltou á carga, com uma queixa na polícia sobre as ameaças telefónicas que estava a receber, dirigidas por uma mulher psicopata que se intitulava Niila Objeccionista, e que pretendia que ele abjurasse da autoria da sua obra. A polícia não ligou nenhuma, e somou o seu segundo pontapé no ar, e começou a entrar em parafuso. Precisava de um golpe publicitário de arromba, do género de um auto-de-fé literário, ou um vídeo a circular na Net sobre o seu sequestro e tortura ás mãos da pseudo-Niila-sanguinária. Uma tentativa de suicídio também podia ser um bom rastilho para a notoriedade que desejava. Andava ele nestas elucubrações sombrias, quando o seu editor lhe telefonou a dizer que ia passar pela cidade e convidou-o para um petisco. Agendaram um encontro num restaurante conhecido. Era um homem afável e inteligente, o seu editor. Os dois reuniram-se a uma mesa num fim de tarde, a beber vinho e a comer umas lascas de presunto Pata Negra, e falaram de livros, autores e novidades, e só ao fim de umas horas é que o editor lhe disse ao que viera – tinham descoberto que o seu livro de versos não lhe pertencia, porque ele plagiara na íntegra um livro de poesia dos idos de quarenta de um autor pouco conhecido, e o seu único mérito fora actualizar a ortografia do original. O que quer que eu faça agora? Pergunta o putativo poeta. Nada! – Responde o editor – deixe assentar a poeira, porque isto vai passar. Até agora recebemos apenas um mail nesse sentido de um leitor seu, que disse ter ficado com a pulga atrás da orelha com as acusações que lhe fez um gajo qualquer no Facebook.

O náufrago

O piloto solitário viu-se ainda mais só quando a sua avioneta caiu em pleno deserto. Dunas e mais dunas, um mar de areia a perder de vista. Experimentou o rádio, estava danificado, poderia usar a pistola de sinalização mas não estava certo de que valesse a pena. Vasculhou a bagagem á procura de algo que pudesse ser útil naquela situação espinhosa. Encontrou alguns víveres enlatados, uma garrafa de uísque velho, prenda de um amigo no aeroporto de Mogadíscio, e um camião grande em plástico que comprara numa feira para oferecer ao filho no regresso. Começa a anoitecer e ele de volta do rádio para o tentar reparar. Desiste ao lusco-fusco, as ferramentas semeadas em volta. Começa a fazer frio. Veste o casaco, e senta-se sob a asa da avioneta, come alguma coisa e despeja aos poucos a garrafa de uísque, aquecendo o estômago. A manhã vai encontrá-lo a dormir de lado, no mesmo lugar. Acorda com a luz, o espírito e as ideias refulgindo como os cristais de areia. Levanta-se sem demora, escreve um pedido de socorro numa folha de papel do diário, indicando a sua última posição conhecida, rasga um pedaço de tecido, e alivia o camião de brinquedo da sua cisterna e habitáculo. Associando os diferentes elementos, protege o seu bilhete num plástico, enrola-o e insere-o na garrafa de uísque vazia, esta é atada ao que sobreviveu do camião de plástico, e melhora a eficiência deste, estendendo o retalho de pano numa armação de caniço que prende ao camião como uma vela improvisada. Mal sente um sopro de brisa, chega-se á berma da duna onde o avião caíra, e executa a experiência. Pousado no chão, com as rodas largas a manter acima da areia o pouco peso que suportava, o camião começa a descer a duna com a pequena vela enfunada. O piloto solitário solta uma gargalhada de triunfo. As suas hipóteses de sobrevivência haviam aumentado exponencialmente.

(imagem: Wallpaper recolhido aqui)

As lições da História

Conduzia o seu carro por uma estrada entre pinhais quando viu a figura humana caída no alcatrão. Investiu-se das suas qualidades samaritanas, parou o carro e aproximou-se do infortunado enquanto sacava do telemóvel para ligar para o número de emergência. Não era um acidentado, mas um pulha, que se levantou dum salto com um revólver na mão, espancou-o, e roubou-lhe a carteira e o carro, deixando-o semi-inconsciente, caído no alcatrão. Um pouco depois surge um outro carro na estrada, e o condutor vê-o deitado no alcatrão, mas, em vez de parar, acelera o carro e atropela-o (já fora roubado naquelas paragens e não o voltavam a enganar!).




Acabaram-se os dias de nomadismo! - discursara a uma semana das eleições, o vereador para os Assuntos Sociais, no dia em que a comunidade cigana do concelho foi realojada no Bairro Social acabado de construir – acabaram-se as carroças e as casas improvisadas em aglomerado e zinco. A partir deste momento, estas casas são a terra onde crescerão as vossas raízes.

No coro de aplausos que coroou estas palavras, o avô Ramiro sentiu-se triste mas não o confessou a ninguém, não se resignava a ficar confinado entre quatro paredes, a deixar de ser livre, e já estava muito velho para mudar. Ao mesmo tempo, não queria que a sua família se apercebesse ou ficasse preocupada com ele, e assim, o avô Ramiro desenvolveu uma nova rotina - esperava, acordado na sua cama, até que todos estivessem a dormir, e depois agarrava num braçado de mantas e ia deitar-se no chão do telheiro, nas traseiras da casa, acalentado pelo cheiro da terra e pela procissão das estrelas no céu.




Indizível, indescritível, intraduzível. Tudo o que pulsa e existe por si mesmo abaixo e além desta ponta gelada de icebergue onde erguemos os nossos castelos de cartas e palavras,
o sono do granito no seio da montanha, o piar dum corvo marinho num rochedo solitário no meio do mar, a luta fratricida num planeta distante que luz para nós como um ponto indiferente no espaço para o qual sorrimos na nossa ignorância
as ideias e palavras rodopiam nos ares como vaga-lumes bêbedos, esgotamo-nos nestes voos como se ambicionássemos apor clipes e agrafes na brisa e na água fluida.
Daí, esta sensação permanente de fatuidade
Daí, que nos vamos
calando

Toponímia urbana

Já tinha passado muito perto da Rua da Amargura, e espreitado o Beco do Fim, mas onde vivia mesmo, era na Praça do Marasmo, na esquina entre as confluentes Rua da Saudade e Travessa do Nunca.

Handicap

Jonas achava-se um ser desproporcionado. Sendo alto, possuía, achava ele, uns braços muito curtos, o que era flagrante na silhueta da sua sombra e na sua imagem reflectida no espelho. Para compensar essa sua deficiência física, Jonas abria e fechava os braços a espaços, para dar a impressão aos outros de que os seus braços eram maiores. E, efectivamente, começou a notar que os outros o olhavam com mais simpatia, não, como ele acreditava, por estarem ludibriados pelo seu truque com os braços, mas por julgarem tratar-se de mais um tolinho que queria levantar voo.

Handicap 2

A Baleia achava-se um ser desproporcionado. Sendo comprida como uma ilha era, no entanto, muito estreita e chã, quase como uma tábua. Para compensar essa sua deficiência física, imitou os golfinhos e acostumou-se a dar grandes saltos para fora de água, convencida de que isso a faria parecer mais gorda e saudável aos olhos de quem a observava. E efectivamente, isso a fez engordar um pouco quando, no decurso dum desses saltos, engoliu Jonas que cruzava os ares, a voar com a força dos braços.


Fim de tarde delicioso á beira-mar na enseada de S. Martinho do Porto, um sol em esplendor a dourar as águas, tingindo as colinas em redor de uma luminosidade pictórica, quase mediterrânica. Podia-se imaginar que se estava nas ilhas gregas ou em Siracusa, e aquela luz seria complacente com a fantasia. O turista sem dinheiro que viera a penates do norte da Europa, sente-se contagiar por aquele espectáculo de luz e calor. Pelo menos por aquela noite, ainda deveria estar safo, para se recolher uma vez mais num dos barcos que querenam na areia e adormecer sem medo da chuva. Dormir, mas só depois de uma refeição frugal. Desenrola o pequeno tapete que comprara na loja dos chineses, senta-se em posição de ioga e toca flauta (um trecho de Verdi, para condizer).


Para tranquilidade e paz d’alma do seu parceiro, começou a fingir que sentia prazer, e, por fim, fingia que sentia, simplesmente. Ele sentiu-se chocado quando ela saiu de casa, justo ela, que tinha tantos orgasmos que ele receava que o seu coração, um dia, não aguentasse.

Prenúncio

O sacerdote asteca sonhou que lhe roubavam do templo a estátua de ouro do deus Tonatiuh, homens barbudos cobertos de metal, retiravam-na da pirâmide, pisando um manto rubro de astecas mortos. Durante a noite, o sacerdote retirou o ícone do altar e tentou levá-lo para fora dali para o esconder em segurança, mas foi descoberto pelos seus pares, fazendo-o cair em desgraça. A sua mulher e filhos foram mortos em expiação e ele próprio foi destinado ao sacrifício no topo da pirâmide. Depois de noites continuadas de torturas com picos de agave e lâminas de obsidiana, encharcaram o seu estômago de pulque e exibiram-no diante da multidão em delírio antes de lhe arrancarem o seu coração do peito e projectarem o seu cadáver pela escadaria da pirâmide. Tonatiuh nada fez, abandonou o seu fiel sacerdote como acabou por abandonar o seu povo, embarcado num galeão depois de derretido em diferentes barras de ouro.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...