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Feliz



2009!


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Dardos


O Vergílio Torres (obrigado!) decidiu agraciar-me com o Prémio Dardos, que é o correspondente blogal e pessoal das medalhas do 10 de Junho ;).

Passo a literatura inclusa:


"Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o "Prêmio Dardos" e o aceita deve seguir algumas regras:
1. - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos
."


Nadando um pouco contra a corrente, porque o o ano se esgota, passo-o a cinco (5) blogues, todos no feminino, onde a palavra se faz carne.






A mulher de César

A uma hora de caminho, no meio de um bosque que adquiriu e cercou para que não o profanassem, William the Third construiu de raiz, e com as suas próprias mãos, uma cabana-refúgio em madeira, que considerava o seu verdadeiro lar. Ali, não havia máquinas, engenhos, portáteis, ecrãs Lcd, tudo era rude e áspero como a madeira afeiçoada a enxó de uma cabana de lenhador. Os móveis rudimentares com pranchas de madeira unidas por pregos e cavilhas, a lareira de pedra, o cântaro de folha onde ia buscar água ao riacho, as armadilhas para coelhos suspensas de pregos na parede, a cana de pesca com que tentava a sua sorte, porque as trutas eram caprichosas, e a cadeira de espaldar no alpendre onde, iria jurar, era capaz de ouvir a erva a crescer. Passava todo o tempo que conseguia ali, todo o que lhe sobrava da sua vida pública, da sua carreira gloriosa de génio de informática e criador de uma sistema operativo, cidadão do mundo que construíra a pulso um império financeiro, e arquitectara uma casa que era o símbolo desse sucesso, uma preciosidade de domótica onde os robôs e a inteligência artificial regulavam os mínimos detalhes da sua vida diária.

O substantivo colectivo aplicado ao Ensino

Exame de Abelhas

Amizade

- Então, como vai isso? Não te tenho visto por aqui!
- Um pouco atribulado, sabes, não sei se é do rigor deste Inverno ou das debilidades do meu corpo, tenho andado adoentado, gripes, dores de cabeça, os nervos em franja, saturado das coisas. Num estado desses, uma pessoa atém-se ao seu mínimo denominador comum, guardando as forças para os ritos inadiáveis, e as tarefas essenciais. Depois há as forças obscuras e gigantescas que nos rodeiam, a incerteza do futuro, o emprego que anda em convulsões e que ameaça desaparecer de um momento para o outro, os compromissos e encargos económicos...
- Mas vais-te aguentando, não é?
- Sim, vou indo!
-Fico mais tranquilo, é que, da maneira que estavas a falar, vê-se que não és dos que se confessam ao padreco!
Sem título, mas com a musicalidade do italiano, mais um texto que Stefano Valente teve a cortesia de traduzir.
Uma pesquisa no browser fez-me encontrar a primeira obra de Stefano Valente publicada em Portugal, chama-se O Espelho de Orfeu, e tem a chancela da Ésquilo.

Mimos

Ele lê o jornal, está cansado, do jornal também, um diário com uns dias, a cadela anda para um lado e para o outro na sala, parece inquieta.
-Leva-a a dar uma volta! - sugere a mulher, sentada do outro lado da sala, com os olhos fitos na xaropada da telenovela.
- Deixa-me só acabar esta página - a cadela parece ter ouvido e arranha-lhe as pernas das calças, não tem como não ir.
Levanta-se, põe-lhe a trela e sai para o patamar das escadas. Levanta a cadela, com os braços em volta dos seus quartos dianteiros, roda sobre si, e descreve com ela uma, duas, três voltas, pousa a cadela meio estonteada e ata a trela ao corrimão das escadas. Ela não ladra nem rosna, está a ficar habituada. Ele desce um lance de escadas e fuma um cigarro no patamar seguinte, a chuva a bater com força nos vidros. Senta-se num degrau, com os joelhos encostados ao peito e esfrega as têmporas com as palmas das mãos. Um porta a fechar-se à chave num dos andares de cima arranca-os do seu torpor, e levanta-se, a cadela abana o rabo, deve estar a ficar viciada em desportos radicais, pega-lhe como antes e fá-la rodar nos ares, depois, sempre com ela nos braços, entra no apartamento. A mulher adormeceu diante da televisão, conduz a cadela pela coleira e deixa-a no quarto dos fundos, a sua casa. Volta à sala e desliga a televisão, já não vê necessidade de fingir que lê, a mulher já dorme. Apaga as luzes todas, e a sala recolhe-se à luz vaga dos candeeiros e néons da rua em baixo. Deixa-se cair no sofá, a chuva nas vidraças desenha ondas na parede do fundo, ondas onde a sua vontade se dilui como se a maré subisse pelo seu corpo deitado até ultrapassar a cabeça, fazendo os seus cabelos ondularem na água, os pés enterram-se na areia da praia, debaixo d'água ainda ouve as vozes das pessoas e o ressonar abafado da mulher, e um outro som, persistente, orgânico, prolongado como um rosnar de cão, abre os olhos dentro de água, alarmado, as suas narinas captaram aquele bafo quente fracções de segundos antes que os seus olhos se apercebessem das fauces que se fecham sobre o seu pescoço.

[Como uma outra vida nas antípodas, a escrita redime o homem dos silêncios a que se entrega]

Dois macacos-de-Gibraltar estão sentados numa rocha a beber chá e a ouvir um relato da Premier League, e avistam dois homens voadores, sustentados no ar por asas que agitam com energia.
- Dédalo e Ícaro, Sir?
- Hum, não creio.
- Talvez venham de Creta...
- Não! Marrocos!

Micro-testamento

O de Rabelais:

«Não tenho nada, e as minhas dívidas são grandes. O resto, deve ser dado aos pobres».

Crónica hipocrática

Hospital Distrital de Caldas da Rainha, dia seis de Dezembro. Uma doença na família, leva-me como acompanhante (pois!) à urgência pediátrica do Hospital. Está à cunha, crianças e mais crianças, aflitas, elas e os pais, febres, tosses, bronquiolites, todos apertados numa sala de espera que se tornou pequena, tossindo e espirrando uns para cima dos outros, os pais estressados por isso, e porque os filhos não são adultos, e alguns ainda arranjavam forças para procurar brincar com as outras crianças e ter birras súbitas e rastejar pelo chão sujo como rambos em miniatura, além de desenvolverem uma propensão exasperante para meterem na boca os brinquedos e a roupa dos outros miúdos. Uma urgência pediátrica com cinco horas de demora entre a triagem e o atendimento médico. No tempo que estive à espera encontrei algumas pessoas conhecidas, comi uma barra de chocolate com cereais, bebi uns três cafés para acalmar, e passei algum tempo na sala de espera da outra sala. Aí, o ambiente ainda estava pior, com uma média de dez horas de espera, com pessoas adultas a fazerem justificadas birras, a escrevinharem testamentos no livro de reclamações e a crucificar verbalmente instituições e forças políticas. Perto da hora em que me vim embora, onze e tal da noite, as conversas cruzadas das pessoas crescidas fizeram saltar para a ribalta um homem idoso que aí estava sentado. Tinha chegado ao Hospital às oito da manhã com dores fortes num ombro, foi à triagem e puseram-lhe uma pulseira verde, e por ali tinha ficado até àquela hora. Porque é que não vai para casa? perguntou um, o idoso respondeu que não podia, estava num Lar e a dona deixara-o ali e dissera que depois passava por lá para ir buscá-lo, mas não tinha voltado a aparecer. Nova pergunta - E não comeu nada? Não tenho dinheiro comigo, respondeu, vim de pijama com o roupão por cima.
Num instante, gerou-se uma onda de solidariedade pelo náufrago, alguém foi buscar à máquina um pacote de bolachas que ele devorou num instante, outro, foi fazer barulho na porta da triagem e logo em seguida o seu nome foi invocado por uma médica. No final, quando eu estava quase despachado, uma senhora informou-se com ele sobre o nome do Lar onde estava a morar e telefonou para lá. Do outro lado, devem ter-se mostrado incomodados, porque a senhora elevou o tom de voz e ameaçou-os com uma inspecção. Não pude seguir a conversa toda, mas suponho que o telefonema tirou alguém do sono dos justos. Apetece uma pessoa repetir o que se ouve com frequência nesses sítios: para se conseguir estar doente, é preciso uma pessoa ter saúde.

Skate sortudo

Da janela de sua casa, via nitidamente a urbanização lá embaixo, do outro lado da rua principal, entretinha-se a jogar no PC, e de quando em vez olhava pela janela, é só acabar de subir a torre e varrer os bichos lá embaixo com a arma de plasma, dois adolescentes exercitavam-se com os seus skates na rua em declive da urbanização, deslizavam sobre eles quase até à estrada, depois saltavam agilmente e seguravam o skate, subindo a rua para encetar um nova viagem, nível oito, nunca chegara ao nível oito naquele jogo, a coisa estava a correr bem, agora o louro de colete, saltou do skate, aparecem os lagartos antropomorfos, toca a disparar, precisa de munições, ali estão, junto ao carro incendiado, apanha-as, setenta e oito mil pontos, sou barra nisto, pensa, agora é a vez do adolescente franzino, aí vai ele, saltou do skate e vai segurá-lo, não, o skate cruza a estrada, milagrosamente passa incólume entre as rodas do carro, sorte do skate que o carro foi travado pelo corpo do rapaz, raios, perdeu a sua última vida, game over, ainda bem que tinha salvo o jogo no nível sete, não precisa de começar tudo outra vez, está de novo pronto, e armado, e já sabe o que o espera,

A Justiça afectada pela dieta

O Juiz corrupto trocou os doces tradicionais, ricos em calorias, pelo Pão de Law.

Dia coerente

Tomou um banho rápido e deixou-se ficar sentada na orla da banheira, com os pés no tapete. Dia mau é assim, uma pessoa levanta-se e não tem vontade nem maldade, é uma esponja caída ao lado da banheira, a ressequir sobre o mosaico, levantou-se mesmo assim e arrastou-se até à sala, ligou as pequenas colunas ovóides ao Mp3 e começou a busca de faixas, não, não, velhinha, sem sal, estou farta desta, esta também não. Toca o telefone, dos antigos, fixo e maciço, umbilicado à parede no outro lado da casa. Atira o Mp3 para um sofá e vai em sua busca, cruza o corredor o mais depressa que pode, pingando água no soalho, e alcança o telefone no instante preciso em que ele deixa de tocar. Raio de dia! Hesita em voltar para a sala, pode tocar outra vez, mas nem põe a hipótese de ligar de volta, quem estiver interessado que ligue. Pousa o telefone e volta à sala mas, à passagem, decide que tem de secar o cabelo, pega no secador, o seu corpo de esponja continua a pingar, e quando vai conectar a ficha na tomada apanha um esticão que a atira para o meio do corredor. O choque eléctrico não é fatal, mas está paralisada de pernas e braços, deitada no chão como uma lagartixa com os membros decepados. O telefone toca novamente e recomeça a arrastar-se, resmungando . "Eu sabia que ia tocar outra vez! Eu sabia!!".

Negócio da esquina

O vendedor ambulante andava de porta em porta, vendia faiança de marca, ouro velho, colchas, relógios importados, livros pornográficos, tintas e terebintinas, pendentes de cortinado, dobradiças de latão niquelado para portas, talheres de cabo de prata, e gatos siameses, em promoção, dois pelo preço de um.

Daquilo que conseguia ver de dentro da loja, por entre as estantes cumuladas de brinquedos e enfeites natalícios, dava para notar que as pessoas se demoravam diante da montra da sua loja, sentiu-se orgulhoso, tinha-a armado com gosto e talento, e aquele cartão-de-visitas iria beneficiar o movimento da caixa. Quando se aproximou para admirar a sua obra-prima, descobriu que aquilo que as pessoas olhavam não era a montra, mas uma menina andrajosa e suja que olhava os brinquedos expostos com olhos grandes de corça. Aproximou-se dela e deu-lhe uma moeda para ela ir comprar qualquer coisa, e quando se viu livre da sua presença, limpou o vidro da montra com um pano, para o caso daquele olhar ter deixado resíduo.

Crisis? What crisis?

- Tenho frio! - queixou-se o banqueiro, mal entrou na mansão.
- Quer que lhe acenda a lareira, senhor? - inquiriu o mordomo.
- Não, manda esfolar um dos criados, porque estou a precisar de um casaco de peles novo!

Um novo início

Durante alguns anos, não gostou muito do Natal, desde o ano da ruptura, nesse, como em todos os anos desde que tinha memória, ela e os pais decoraram a casa no feriado do primeiro dia de Dezembro, foram buscar os enfeites ao sótão, desencaixotaram-nos e armaram a árvore de Natal e, no fim desta estar pronta, o presépio em volta do vaso, como uma paisagem rodeando uma torre de ribate. Ao pai, cabia sempre as tarefas mais técnicas, fixar a árvore dentro do vaso, e segurá-la com um fio de pesca a um camarão na parede, e experimentar e consertar as gambiarras multicolores. Ela ajudava a mãe a colocar os enfeites na árvore e a dispor as casinhas e as figuras do presépio, embelezadas por pequenas pedras xistosas, e musgo verde que se apanhava de véspera. Ao entardecer, todas as decorações estavam prontas, à excepção da coroa de Natal da porta de entrada, o pai disse que a que tinham estava muito velha e desfiada, e saiu para ir comprar uma coroa nova.
Esperou por ele à janela, chovia muito e era engraçado ver as gotas de chuva a criar pequenos círculos na superfície das poças de água. Quando o pai voltou, não vinha sozinho, havia uma mulher dentro do carro, que desembaciou o vidro lateral com a manga da camisola rosa e que espreitou por aí, encontrando o seu olhar com o dela. O pai entrou, afagou-lhe a coroa da cabeça e foi falar com a mãe. Ouviu vozes altas lá dentro, gritos, lamentos. A mulher no carro era loura, e não conseguiu sustentar o seu olhar, virou-se para a frente, como se estivesse encolhida, e a sua figura começou a ficar embaciada como se uma névoa no interior do carro a tivesse engolido.
O pai despediu-se dela com um abraço forte, e saiu de casa. Só mais tarde, veio a perceber que saíra para não mais voltar. Nos anos que se seguiram, só o via de quando em vez, por uns dias, ou em fins-de-semana agendados, e nesses contactos conviveu com a sua nova mulher e acompanhou as duas gravidezes de que nasceram os seus meio-irmãos. A mãe também voltou a casar-se, e o padrasto ajudou a criá-la como um novo pai e, como o pai antes dele, ajudava a mãe nas remodelações natalícias do primeiro dia de Dezembro. Mas, e isso era um ponto de honra para ela, nunca voltaram a colocar na porta uma coroa de Natal.
Quase dez anos depois da separação dos pais, os dois lados da família combinaram passar todos juntos a consoada. As feridas estavam saradas e todos sentiam que isso era importante para os três filhos. Na véspera de Natal, chovia como no dia distante em que os a vida dos pais haviam seguido rumos diferentes. O pai chegou com a mulher e os dois rapazes, que tinham metade da sua idade e da sua altura. Apesar dalgum embaraço de ambas as partes, as coisas correram bem, e a alegria dos mais novos preencheu os nichos de silêncios e equívocos dispersos pelos cantos da casa. Ela viu a mãe conversar à parte com o pai e este sair para a rua; um pouco depois, o pai regressou, trazendo uma coroa de Natal que fora comprar. O pai pediu a sua ajuda, e os dois fixaram a coroa na porta de entrada, com a chuva oblíqua a ensopar-lhes as pernas das calças. Quando abriram a porta, para o interior denso de calor e aromas pantagruélicos, ela sentiu, com um lampejo de euforia, que o Natal entrava com eles em casa.


(Imagem: "Yerres, chuva", pintura de Gustave Caillebotte)

Neófito

Foi iniciado, com rituais rebuscados, numa sociedade secretíssima cujos membros nunca a mencionavam nem revelavam a sua existência, com medo de serem fulminados por um raio. Depois de admitido àquela assembleia de Puros, acedeu a um nível superior de conhecimento transgeracional e de verdades cósmicas, onde ficou a saber que não havia palavras para exprimir o indizível, nem axiomas que fixassem o incognoscível. Mas o núcleo de sabedoria cósmica, oferecido a uns poucos humanos por enviados das estrelas (luminosos, como convém a seres estelares), só lhe foi comunicado quarenta e nove dias depois da sua iniciação, e consistia num curso de voo astral por correspondência, de custos módicos quando comparados aos preços exigidos pela transportadora aérea nacional, ou a exorbitância cobrada pela NASA para voos turísticos orbitais. Desgostado com o rumo da sua aprendizagem, sobretudo, por sofrer de vertigens, entrevistou-se com o Grande Iuminado e, entre duas imperiais e dois pires de tremoços, manifestou-lhe a sua vontade de abandonar a sociedade secreta. O Grande Iluminado, revisor da Carris nos tempos livres, não se opôs à sua vontade, tranquilo como estava por estarem à conversa num bar provido de pára-raios.
O parto da filha foi complicado, deram-lhe epidural, mas não houve grandes progressos, o médico insistia que a criança havia de nascer por ela, e realmente, a menina no seu ventre começou a querer emergir entre as suas coxas, mas a dilatação não era suficiente e nem com ferros a conseguiram tirar. Por fim, vencido pela evidência, o médico optou pela cesariana. Com a mãe numa agonia excruciante, levaram-na na maca até ao bloco operatório, dois andares mais acima, onde o nascimento foi bem sucedido, para a menina e para a mãe. Mal a tiraram de si, e ainda enquanto a cosiam, a mãe pediu para ver a menina. Puseram-na ao seu lado no leito, durante breves segundos, durante os quais ela mal a viu, com a vista toldada pelas lágrimas, de dor e de felicidade. Por fim, levaram-na, por ordem do médico. Cosida e medicada, a mãe caiu num sono profundo. Horas mais tarde, quando acordou com o corpo todo dorido, a enfermeira acercou-se dela e perguntou-lhe se tinha forças para pegar de novo no seu bebé, e ela respondeu afirmativamente, tomada de uma repentina comoção. Trouxeram a bebé e depositaram-na nos seus braços. Ela fez uma cara estranha e afirmou:
- Não é a minha filha!
- Claro que é - respondeu a enfermeira - nasceu de si, e já lhe vestimos as roupinhas que a senhora trouxe de casa.
- Não é a minha filha! - repetiu, entregando a criança à enfermeira - o cheiro é diferente, chamem o doutor e vejam isso.
O médico foi chamado, assim como a médica responsável pela maternidade e um dos seguranças do Hospital. Analisaram a sua queixa, e acabaram por lhe dar razão. Um falha de atenção duma das enfermeiras de serviço desencadeara a troca de bebés. A sua verdadeira filha foi trazida à sua presença, e enquanto os médicos se descosiam em desculpas, ela, com um sorriso doce nos lábios, limitou-se a desnudar um dos seios e levar o mamilo aos lábios rosados da filha.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...