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A mostrar mensagens de Dezembro, 2008
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Feliz


2009!

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Dardos

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O Vergílio Torres (obrigado!) decidiu agraciar-me com o Prémio Dardos, que é o correspondente blogal e pessoal das medalhas do 10 de Junho ;).
Passo a literatura inclusa:

"Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o "Prêmio Dardos" e o aceita deve seguir algumas regras:
1. - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos
."

Nadando um pouco contra a corrente, porque o o ano se esgota, passo-o a cinco (5) blogues, todos no feminino, onde a palavra se faz c…

A mulher de César

A uma hora de caminho, no meio de um bosque que adquiriu e cercou para que não o profanassem, William the Third construiu de raiz, e com as suas próprias mãos, uma cabana-refúgio em madeira, que considerava o seu verdadeiro lar. Ali, não havia máquinas, engenhos, portáteis, ecrãs Lcd, tudo era rude e áspero como a madeira afeiçoada a enxó de uma cabana de lenhador. Os móveis rudimentares com pranchas de madeira unidas por pregos e cavilhas, a lareira de pedra, o cântaro de folha onde ia buscar água ao riacho, as armadilhas para coelhos suspensas de pregos na parede, a cana de pesca com que tentava a sua sorte, porque as trutas eram caprichosas, e a cadeira de espaldar no alpendre onde, iria jurar, era capaz de ouvir a erva a crescer. Passava todo o tempo que conseguia ali, todo o que lhe sobrava da sua vida pública, da sua carreira gloriosa de génio de informática e criador de uma sistema operativo, cidadão do mundo que construíra a pulso um império financeiro, e arquitectara uma casa…

O substantivo colectivo aplicado ao Ensino

Exame de Abelhas

Amizade

- Então, como vai isso? Não te tenho visto por aqui!
- Um pouco atribulado, sabes, não sei se é do rigor deste Inverno ou das debilidades do meu corpo, tenho andado adoentado, gripes, dores de cabeça, os nervos em franja, saturado das coisas. Num estado desses, uma pessoa atém-se ao seu mínimo denominador comum, guardando as forças para os ritos inadiáveis, e as tarefas essenciais. Depois há as forças obscuras e gigantescas que nos rodeiam, a incerteza do futuro, o emprego que anda em convulsões e que ameaça desaparecer de um momento para o outro, os compromissos e encargos económicos...
- Mas vais-te aguentando, não é?
- Sim, vou indo!
-Fico mais tranquilo, é que, da maneira que estavas a falar, vê-se que não és dos que se confessam ao padreco!
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Sem título, mas com a musicalidade do italiano, mais um texto que Stefano Valente teve a cortesia de traduzir.
Uma pesquisa no browser fez-me encontrar a primeira obra de Stefano Valente publicada em Portugal, chama-se O Espelho de Orfeu, e tem a chancela da Ésquilo.

Mimos

Ele lê o jornal, está cansado, do jornal também, um diário com uns dias, a cadela anda para um lado e para o outro na sala, parece inquieta. -Leva-a a dar uma volta! - sugere a mulher, sentada do outro lado da sala, com os olhos fitos na xaropada da telenovela. - Deixa-me só acabar esta página - a cadela parece ter ouvido e arranha-lhe as pernas das calças, não tem como não ir. Levanta-se, põe-lhe a trela e sai para o patamar das escadas. Levanta a cadela, com os braços em volta dos seus quartos dianteiros, roda sobre si, e descreve com ela uma, duas, três voltas, pousa a cadela meio estonteada e ata a trela ao corrimão das escadas. Ela não ladra nem rosna, está a ficar habituada. Ele desce um lance de escadas e fuma um cigarro no patamar seguinte, a chuva a bater com força nos vidros. Senta-se num degrau, com os joelhos encostados ao peito e esfrega as têmporas com as palmas das mãos. Um porta a fechar-se à chave num dos andares de cima arranca-os do seu torpor, e levanta-se, a cadela …
[Como uma outra vida nas antípodas, a escrita redime o homem dos silêncios a que se entrega]

Dois macacos-de-Gibraltar estão sentados numa rocha a beber chá e a ouvir um relato da Premier League, e avistam dois homens voadores, sustentados no ar por asas que agitam com energia.
- Dédalo e Ícaro, Sir?
- Hum, não creio.
- Talvez venham de Creta...
- Não! Marrocos!

Micro-testamento

O de Rabelais:

«Não tenho nada, e as minhas dívidas são grandes. O resto, deve ser dado aos pobres».

Crónica hipocrática

Hospital Distrital de Caldas da Rainha, dia seis de Dezembro. Uma doença na família, leva-me como acompanhante (pois!) à urgência pediátrica do Hospital. Está à cunha, crianças e mais crianças, aflitas, elas e os pais, febres, tosses, bronquiolites, todos apertados numa sala de espera que se tornou pequena, tossindo e espirrando uns para cima dos outros, os pais estressados por isso, e porque os filhos não são adultos, e alguns ainda arranjavam forças para procurar brincar com as outras crianças e ter birras súbitas e rastejar pelo chão sujo como rambos em miniatura, além de desenvolverem uma propensão exasperante para meterem na boca os brinquedos e a roupa dos outros miúdos. Uma urgência pediátrica com cinco horas de demora entre a triagem e o atendimento médico. No tempo que estive à espera encontrei algumas pessoas conhecidas, comi uma barra de chocolate com cereais, bebi uns três cafés para acalmar, e passei algum tempo na sala de espera da outra sala. Aí, o ambiente ainda estava…

Skate sortudo

Da janela de sua casa, via nitidamente a urbanização lá embaixo, do outro lado da rua principal, entretinha-se a jogar no PC, e de quando em vez olhava pela janela, é só acabar de subir a torre e varrer os bichos lá embaixo com a arma de plasma, dois adolescentes exercitavam-se com os seus skates na rua em declive da urbanização, deslizavam sobre eles quase até à estrada, depois saltavam agilmente e seguravam o skate, subindo a rua para encetar um nova viagem, nível oito, nunca chegara ao nível oito naquele jogo, a coisa estava a correr bem, agora o louro de colete, saltou do skate, aparecem os lagartos antropomorfos, toca a disparar, precisa de munições, ali estão, junto ao carro incendiado, apanha-as, setenta e oito mil pontos, sou barra nisto, pensa, agora é a vez do adolescente franzino, aí vai ele, saltou do skate e vai segurá-lo, não, o skate cruza a estrada, milagrosamente passa incólume entre as rodas do carro, sorte do skate que o carro foi travado pelo corpo do rapaz, raios,…

A Justiça afectada pela dieta

O Juiz corrupto trocou os doces tradicionais, ricos em calorias, pelo Pão de Law.

Dia coerente

Tomou um banho rápido e deixou-se ficar sentada na orla da banheira, com os pés no tapete. Dia mau é assim, uma pessoa levanta-se e não tem vontade nem maldade, é uma esponja caída ao lado da banheira, a ressequir sobre o mosaico, levantou-se mesmo assim e arrastou-se até à sala, ligou as pequenas colunas ovóides ao Mp3 e começou a busca de faixas, não, não, velhinha, sem sal, estou farta desta, esta também não. Toca o telefone, dos antigos, fixo e maciço, umbilicado à parede no outro lado da casa. Atira o Mp3 para um sofá e vai em sua busca, cruza o corredor o mais depressa que pode, pingando água no soalho, e alcança o telefone no instante preciso em que ele deixa de tocar. Raio de dia! Hesita em voltar para a sala, pode tocar outra vez, mas nem põe a hipótese de ligar de volta, quem estiver interessado que ligue. Pousa o telefone e volta à sala mas, à passagem, decide que tem de secar o cabelo, pega no secador, o seu corpo de esponja continua a pingar, e quando vai conectar a ficha…

Negócio da esquina

O vendedor ambulante andava de porta em porta, vendia faiança de marca, ouro velho, colchas, relógios importados, livros pornográficos, tintas e terebintinas, pendentes de cortinado, dobradiças de latão niquelado para portas, talheres de cabo de prata, e gatos siameses, em promoção, dois pelo preço de um.

Daquilo que conseguia ver de dentro da loja, por entre as estantes cumuladas de brinquedos e enfeites natalícios, dava para notar que as pessoas se demoravam diante da montra da sua loja, sentiu-se orgulhoso, tinha-a armado com gosto e talento, e aquele cartão-de-visitas iria beneficiar o movimento da caixa. Quando se aproximou para admirar a sua obra-prima, descobriu que aquilo que as pessoas olhavam não era a montra, mas uma menina andrajosa e suja que olhava os brinquedos expostos com olhos grandes de corça. Aproximou-se dela e deu-lhe uma moeda para ela ir comprar qualquer coisa, e quando se viu livre da sua presença, limpou o vidro da montra com um pano, para o caso daquele olhar ter deixado resíduo.

Crisis? What crisis?

- Tenho frio! - queixou-se o banqueiro, mal entrou na mansão. - Quer que lhe acenda a lareira, senhor? - inquiriu o mordomo. - Não, manda esfolar um dos criados, porque estou a precisar de um casaco de peles novo!

Um novo início

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Durante alguns anos, não gostou muito do Natal, desde o ano da ruptura, nesse, como em todos os anos desde que tinha memória, ela e os pais decoraram a casa no feriado do primeiro dia de Dezembro, foram buscar os enfeites ao sótão, desencaixotaram-nos e armaram a árvore de Natal e, no fim desta estar pronta, o presépio em volta do vaso, como uma paisagem rodeando uma torre de ribate. Ao pai, cabia sempre as tarefas mais técnicas, fixar a árvore dentro do vaso, e segurá-la com um fio de pesca a um camarão na parede, e experimentar e consertar as gambiarras multicolores. Ela ajudava a mãe a colocar os enfeites na árvore e a dispor as casinhas e as figuras do presépio, embelezadas por pequenas pedras xistosas, e musgo verde que se apanhava de véspera. Ao entardecer, todas as decorações estavam prontas, à excepção da coroa de Natal da porta de entrada, o pai disse que a que tinham estava muito velha e desfiada, e saiu para ir comprar uma coroa nova.
Esperou por ele à janela, chovia muito e…

Neófito

Foi iniciado, com rituais rebuscados, numa sociedade secretíssima cujos membros nunca a mencionavam nem revelavam a sua existência, com medo de serem fulminados por um raio. Depois de admitido àquela assembleia de Puros, acedeu a um nível superior de conhecimento transgeracional e de verdades cósmicas, onde ficou a saber que não havia palavras para exprimir o indizível, nem axiomas que fixassem o incognoscível. Mas o núcleo de sabedoria cósmica, oferecido a uns poucos humanos por enviados das estrelas (luminosos, como convém a seres estelares), só lhe foi comunicado quarenta e nove dias depois da sua iniciação, e consistia num curso de voo astral por correspondência, de custos módicos quando comparados aos preços exigidos pela transportadora aérea nacional, ou a exorbitância cobrada pela NASA para voos turísticos orbitais. Desgostado com o rumo da sua aprendizagem, sobretudo, por sofrer de vertigens, entrevistou-se com o Grande Iuminado e, entre duas imperiais e dois pires de tremoços…
O parto da filha foi complicado, deram-lhe epidural, mas não houve grandes progressos, o médico insistia que a criança havia de nascer por ela, e realmente, a menina no seu ventre começou a querer emergir entre as suas coxas, mas a dilatação não era suficiente e nem com ferros a conseguiram tirar. Por fim, vencido pela evidência, o médico optou pela cesariana. Com a mãe numa agonia excruciante, levaram-na na maca até ao bloco operatório, dois andares mais acima, onde o nascimento foi bem sucedido, para a menina e para a mãe. Mal a tiraram de si, e ainda enquanto a cosiam, a mãe pediu para ver a menina. Puseram-na ao seu lado no leito, durante breves segundos, durante os quais ela mal a viu, com a vista toldada pelas lágrimas, de dor e de felicidade. Por fim, levaram-na, por ordem do médico. Cosida e medicada, a mãe caiu num sono profundo. Horas mais tarde, quando acordou com o corpo todo dorido, a enfermeira acercou-se dela e perguntou-lhe se tinha forças para pegar de novo no seu beb…