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(img)Atirou a caneta para um canto do tampo da secretária, e levantou-se. Foi espreitar a mulher. Estava sentada aos pés da cama da filha, que dormia, deitada de lado, com um lenço perfurado a velar-lhe a boca. Ela sentiu a sua presença e reuniu-se a ele no corredor. Voltou à secretária, tentando trabalhar mais um pouco. A mulher sentou-se ao de leve no tampo, e fez-lhe uma afago no ombro, sentia a tensão no seu silêncio.
- Não gosto de ver, faz-me impressão, qualquer dia a tua filha sufoca, além do mais, não é salutar, o lenço está carregado de germes, do ar viciado que lhe sai dos pulmões.
Ela já estava a prever, não era a primeira vez que ele tocava no assunto. Esperava que o seu protesto se desvanecesse como de outras vezes, mas hoje ele estava insatisfeito e rezinga, e não baixou a guarda.
- Eu compreendo que foi assim que foste criada, que lá em África faziam o mesmo contigo, mas já vieste para cá há quatro anos, vocês já falam bem o português, tu tens um emprego e a tua filha anda na escola. Não achas que podias abandonar esses costumes tribais e obscurantistas?
- Não é obscurantismo, é tradição, é herança, como eu venerar Niamié. Quando dormimos, a nossa alma pode fugir do corpo e por isso tapamos a boca. Se ela fugir para muito longe, pode não voltar e o corpo morre.
- Todos dormimos e todos sonhamos, e não é isso que atrai a morte. A tua filha tem onze anos, vais continuar a ir tapar a boca dela com um lenço até ela ser velhinha?
- Nunca me perguntaste isso, e a resposta é não. É só até ela ser mulher, aí, vai ficar isolada com Niamié durante dois meses e a sua alma vai ganhar lastro, e depois já não é preciso. A menos que ela adoeça com gravidade, aí tenho de tapar-lhe outra vez a boca, e colocar por perto odores desagradáveis ao nariz para que ela não se sinta tentada a partir para longe.
- Mas não achas que...
O discurso dele interrompeu-se quando ela premiu os lábios dela contra os seus, a cadeia de raciocínios desvaneceu-se com ela sentada no seu colo, a elevar a sua excitação. Beijaram-se e acariciaram-se num crescendo de sensações que atingiu os píncaros quando ela se fez penetrar pelo seu homem, cavalgando o seu pénis como uma amazona núbia.
Quando esgotou o seu ânimo, ela despediu-se dele com um beijo mesclado de sorrisos, e foi-se deitar. Ele seguiu-a, mas, antes de se enfiar nos lençóis, e quando ela já dormia, rumou ao quarto da enteada e desatou o nó do lenço na nuca. Deixou o lenço solto ao lado da cabeça, como se tivesse caído acidentalmente.
Na manhã seguinte, foi a mulher quem o acordou, chorava em silêncio.
- Niamié-Ama - disse ela - caiu o lenço à minha filha e ela viajou para longe, esteve muito longe e a sua respiração era gelada como a manhã lá fora.
Ele levantou-se de um salto, alarmado.
- Está viva?
- Sim, mas chora muito. Ela esteve em nossa casa, no que resta da nossa casa, viu tudo destruído, o milheiral a arder, os mortos pelo chão e na ravina do rio, eram dezenas, cheios de moscas, alguns decepados a golpes de catana.
Abraçou-a com força, sabia que ela não ia aceitar o que tinha para lhe dizer.
- Ela não viajou, foi uma recordação, ela sonhou outra vez com o massacre a que vocês as duas assistiram, escondidas no bojo de um imbondeiro. É normal que ela tenha pesadelos com isso, é apenas uma criança.
- Não, não é verdade, ela esteve lá outra vez e tocou no corpo do pai. Podes ver por ti mesmo, ela tem sangue nos dedos.


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