INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página
Ninguém o enganava, era um PRO do Pão por Deus, sabia quem morava onde, o que dava e como davam. Na sua cabecinha de cabelos doirados, os seus trajectos estavam delineados previamente, e os outros miúdos iam-lhe à cola na condição de lhe confiarem uma parte dos seus proventos, mas iam em pequenos grupos faseados para não malbaratar a oferenda. Era um sempre a aviar. Rua da Consolação, Urbanização da Encosta, Bairro das Fontainhas, Bairro da Estrela, davam para a manhã, à tarde, se não chovesse, podiam completar o perímetro, que abrangia os bairros menos faustosos, mas de gente igualmente mãos-largas. Este prédio valia a pena, mas só os apartamentos sete e nove, nos outros não davam nada a não ser maçãs tocadas e ralhos parvos, na vivenda a seguir, como quem desce, era obrigatório, porque choviam para os sacos chocolates e pintarolas com fartura, por vezes, um carro barato da loja dos chineses, na vivenda de muro de hera, não valia a pena pararem, a menos que quisessem ficar grogues com uns copitos de água-pé, havia também as três vivendas para macacos, que só davam amendoins. Ele ia dando instruções aos mais próximos e os sequazes imitavam, não era preciso muito latim com eles porque o miúdo louro levava um pedaço de giz branco, com o qual gravava um certo ou um xis nos muros das vivendas ou nas paredes dos prédios. Com a hora do almoço a chegar, o miúdo louro pensou que ainda havia tempo para a vivenda da D. Genoveva, que era muito amiga de dar, beijos e lambarices. Ele e depois eles, chegaram-se ao portão do jardim, estava aberto e entraram em fila indiana, a D. Genoveva estava sentada na cadeira de espaldar do alpendre, com o galgo deitado aos pés. O galgo rosnou e afastou-se, mas a D. Genoveva não rosnou nem se mexeu. A mulher tinha-se finado na cadeira, com os olhos muito abertos e a boca aberta cheia de espuma de baba, os sacos de hipermercado pousados ao lado, com pequeninos sacos de plástico no seu interior com as ofertas para a rapaziada. Esta ficou a olhá-la, muito espantados. Alguns nunca tinham visto um morto, muito menos assim, morto como se dormisse uma sesta. O miúdo louro tomou a iniciativa, abriu os sacos grandes e distribuiu o conteúdo aos discípulos, que se iam retirando, um pouco confusos. O miúdo louro ficou para último. Não queria ovos de chocolate nem rebuçados, esvaziou a mulher de pulseiras, brincos e colares, e em seguida corrinhou para a rua mas, mal atingiu o passeio, lembrou-se de algo e voltou atrás. Meteu as mãos aos queixos da defunta e escancarou-os, retirando a sua dentadura postiça com as pontas dos dedos. Enxugou-a da baba, esfregando-a na relva, e meteu-a ao bolso. Ia ser-lhe preciosa para pregar um valente susto à irmã. Fez uma festa apressada na cabeça do cão tristonho, e saiu depressa dali, já com a barriga a dar horas.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...