INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página
«Não sou nenhum psicólogo encartado, mas para ser sincero, acho que tu entraste num processo de negação!».
«Não, não, e não! Nego isso também!».

"Deus não dorme" - condescende o céptico - "O medo que Ele tem de estar a ficar amnésico, provoca-Lhe insónias!".

Esquecido num milheiral, o espantalho ficou largado ao vento e à chuva de Inverno. O chapéu de palha caiu, à cabeleira de feno roeram-na os ratos, e o seu tronco partiu-se em dois como se um raio o tivesse atingido. Quase parecia uma urze ou uma oliveira-anã. Um pardal fez do seu casaco a sua casa, e com aquela ave no seu peito, o espantalho espantava o frio e ia recuperando o orgulho perdido.

Inflação

Os relógios para portão de cemitério estão pela hora da morte.

Estavam sentados os dois no piso de Restauração do Centro Comercial, a comer pizza quente.
"Estou cansada da nossa relação" - desabafou ela - "acho que devemos dar um tempo".
Ele saltou da cadeira como se tivesse sido impelido por uma mola, e saiu a correr pelo meio das mesas. Passados uns minutos, voltou com um sorriso nos lábios. Ela ainda estava sentada na mesma cadeira, e ele estende-lhe o relógio que foi comprar.

cilarca

Virando costas à chuva, encapelado sob a sua capa impermeável, mete as botas ao caminho, e vai à cata de cogumelos. Com o queixo encostado ao peito, evita que lhe escorra pela cara o pingo-pingo da orla do capuz. Sabe onde procurar, os lugares menos batidos e os solos mais gratos. Só colhe uma variedade de cogumelo, uns grandes, esbranquiçados, ainda que saiba distinguir sete ou oito espécies deles que não são tóxicas. Em pouco mais de uma hora, já encheu o saco, e enceta o regresso, evitando as poças de água e os bocados mais lamacentos do solo do pinhal. Quando está a chegar ao lugar onde deixou o carro, vê um outro colector, a apanhá-los na berma da estrada, parece saído dum filme do Senhor dos Anéis, capa de tecido grosseiro até aos pés, rosto enrugado com longas barbas, faces manchadas. Nota que o homem os colhe a esmo, mesmo os venenosos. Aproxima-se dele, com receio de que a ignorância dele tenha consequências funestas.
- Esse é venenoso - Diz, apontando para um cogumelo que ele segura, de chapéu cor-de-laranja.
Ele ergue os olhos, baços como vidro fosco, parece cego, e não dá sinais de ter compreendido. Deve ser mouco também, considera.
- Venenosos! Maus! No good! - Grita-lhe.
O estranho enfia o cogumelo no saco de linho, vira costas e continua a colher cogumelos com uma foice pequena e dourada, os pés nus enterrados na lama da valeta.
Encolhe os ombros e deixa-o à sua sorte. Alcança o carro, que está parado a meia dúzia de metros, a meio da descida, e refugia-se no seu interior. Quando liga o limpa-párabrisas, não consegue avistar o homem. Desengata o carro, e deixa-o deslizar em ponto-morto. O homem parece ter-se evaporado. A primeira ideia que lhe ocorre é que possa estar estendido na valeta e, resmungando, volta a sair do carro para verificar. Não o vê em lado nenhum. Quando perscruta a valeta ao lado da estrada, no ponto em que o deixara, distingue um brilho dourado na água barrenta que corre na valeta. Só pode ser a foicinha, pensa, mas do homem, nem sinal. Pragueja contra a burrice das pessoas, e salta lá para dentro. As mãos seguem o olhar e tenta apanhar a foicinha, sente o fio da lâmina a cortar-lhe ao de leve um dedo, mas quando retira a mão da água, o que tem seguro entre os dedos é um bocado de pedra, curvo e do tamanho da foicinha, mas pedra bruta, castanha e rugosa, quando muito, uma pequena escultura, um capricho da Mãe Natureza. Olha em volta, confundido, e ao seu lado, numa rocha que sobressai do solo do pinhal, vê numa outra pedra uma coisa igualmente estranha, a silhueta de uma pegada impressa na rocha dúctil, olha e volta a olhar, e parece mesmo uma pegada, o contorno nítido do pé e as impressões arredondadas dos dedos. Pousa a pedra recurva na água e sai da valeta. Ela brilha outra vez, com reflexos de ouro. Encaminha-se para o carro, tentando pensar apenas no saco com cogumelos e no pitéu que a mulher vai preparar com eles. Quando o carro desliza novamente pela estrada, parece-lhe ouvir uma voz, mas não quer prestar atenção. Liga o rádio, alto, e começa a acompanhar com um assobio, a voz monocórdica do locutor.

Gerir uma casa nocturna requer muita fibra e visão, sobretudo para escolher os empregados, os que fazem o serviço à porta, com mais caparro, e todos os outros, da manutenção, do bar, os protagonistas do entretenimento e os que ficam encarregues de guardar o dinheiro e cobrir as despesas. Marco tinha fibra e visão, mas também tinha as suas manias, todos os elementos da sua equipa o sabiam. Aos caloteiros, e os que armavam bronca, aos putos armados em espertos e aos que incorriam no seu desagrado, clientes ou empregados, ele gostava de lhes dar pessoalmente o correctivo. O alegado transgressor era escoltado até um anexo ao lado da garrafeira, onde o trancavam, e quando o movimento amainava, o big boss ia até lá e aliviava o stress, enterrando nele os seus punhos e a biqueira das botas pretas. Naturalmente, que o objecto dos seus mimos se encontrava manietado, ou imobilizado por um dos seus homens. Raras vezes saíam dali em bom estado, quando não levavam alguns ossos partidos para a urgência do Hospital onde um dos seguranças o largava como se o tivesse encontrado no meio da rua. Marco fazia gala nas suas sovas terapêuticas, e gostava de convidar amigos para assistir, dando-lhes a oportunidade de o ajudarem na tarefa da maneira mais adequada às fantasias e inventividade de cada um, em sessões animadas por álcool e drogas à discrição.
Quando Marco foi baleado na cabeça por um adolescente, a comunidade ficou em estado de choque, Marco, a figura pública, adulada pelas mulheres e pela objectiva das máquinas, morto cobardemente por um projecto de homem, e ainda por cima, feio como as cobras, com aquela cara de susto listada de profundas cicatrizes encarniçadas.

Um dos prazeres simples que ela não dispensava, era quando o seu namorado lhe fazia cafuné no cabelo. Encostava-se a ele como um bebé se deita no regaço da mãe, e ele fazia-lhe cafuné, os seus dedos passeavam-lhe pelos cabelos em dóceis torvelinhos, por vezes, separando apenas os cabelos e fazendo-os ondular entre os seus dedos, outras, imprimindo uma suave pressão na pele com as papilas dos dedos, passeando-as por toda a cabeça (delícia maior quando se demoravam nas têmporas). Era uma arte que ele havia desenvolvido com entrega e paixão, fazendo-lhe cafuné nos seus momentos de relaxamento com ela, ou, exercitando com a sua cabeleira quando os dois não podiam estar juntos.

Um instante de arrebatada alegria, de espasmo luminoso - as fotografias de grupo. Da escola, da excursão de finalistas, da viagem de estudo, de plêiades de casamentos e baptizados, do grupo de amigos ou colegas que participou num torneio de futebol, que desceu às grutas, que se mascarou, que desbundou.

Frias, tornam-se tristes, quase sinistras, o nosso reflexo parcelar num espelho estilhaçado, e quando as vemos há quase sempre alguém por perto para acordar os fantasmas, como um corvo a corvejar num cemitério.

Lembras-te deste, era o Chaves, namoriscou com a tua irmã e depois casou no estrangeiro antes de lhe acontecer aquilo, e aqui, a Laura, era metade do que é hoje, vi há dias o irmão dela, coitado, antes tivesse engordado, olha o Fancisco, tinha menos um ano que tu e...

Estás só, era bom não te lembrares que estás só.

...e a Rute, o que é feito dela? Sabias que me disseram que ela é lésbica? Não devias ficar tão chateado por ela ter saído de casa. Ao lado dela está um dos filhos do Saraiva, não me lembro o nome, mas disseram-me que a Rute fugiu para ir ter com ele, olha, vamos mudar de assunto, sabes quem é esta que está ao lado do nosso professor de Ciências? Tenho certeza que é a Mafalda, ela...

Arrancamos com a nossa vida como se partíssemos para umas férias num lugar longínquo, e levamos as malas carregadas, de acessórios e de sonhos, de prosaicas utilidades e de quimeras indefinidas que envolvem, como uma crisálida, uma vaga e aquosa esperança. Temos bagagens que cheguem e que sobrem para a estadia, e julgamos que, com os dias, se irá aligeirar o peso que arrastamos connosco, na razão inversa da nossa felicidade e das alegrias que a viagem nos poderá proporcionar. Mas a viagem de volta é igual, estamos cansados e trazemos o mesmo peso, as nossas leituras de viagem estão esgotadas e não temos forças para mais uma fotografia, um sorriso ou uma laracha, as nossas roupas e haveres estão revolvidos e amarfanhados em sacos de supermercado, de modo semelhante às nossas ideias e sentimentos, que são como fatos velhos dobrados e calcados no fundo da bagagem, a ponto de nos esquecermos deles.
É chegada a hora de regressar, arrumar e lavar as coisas, para descobrir o que trouxemos e retemperar forças. Quando começamos a desempacotar as malas, para que a memória e a experiência da viagem se cumpram em nós, vem a morte e apaga a luz.

Criptozoologia

Os Criptólogos pertencem ao Reino animal, Classe dos Mamíferos, da Ordem dos Primatas, Família dos Hominídeos.
Mas esta classificação é controversa, havendo quem defenda outras variantes, em função de estudos de natureza científica que pretendem agrupá-los na ordem dos Rodentia (Espécie Rattus Bibliothecus); ou Artiodactila (Espécie Taurus Marronus); ou na Ordem dos Perissodáctilos (Espécie C. Kaballistus).

Violência na Era da Cibernética.

- Levas um tabefe, que nem sabes a quantas andas!
- Espere um pouco, deixe-me fazer um backup, não vá você danificar algum ficheiro.

Desde os seus quinze anos que deixou de ir a estádios de futebol. Cansou-se, das caneladas, do apito do árbitro, de ser rasteirado e rolar no piso de terra batida, enquanto os dois bêbedos da terra assobiavam com alegria, a gritar a plenos pulmões que ele andava a atirar-se para a piscina.

Inverso

O flic-flac, é um exercício de ginástica interdito à raça dos gigantes. Para não serem confundidos com moinhos, e sofrerem o ataque da raça de D. Quixote.

Uma dependência crescente foi unindo o papagaio vivaz ao seu dono, este pronunciava ou soletrava uma palavra, e ele repetia-a como um eco fiel, quase uma gravação. E isto com tudo, com um estalido da língua, o menear da cabeça, um bocejo arrastado, ou um praguejar extemporâneo. Essa repetição foi tornando os dois cada vez mais parecidos e eram até, mais parecidos do que alguém poderia imaginar. É que o dono, como um pássaro, também acabou por levantar voo, e o seu papagaio, ansioso por imitá-lo, agitou e esgarçou as asas dentro da gaiola, impedido que estava de alçar o seu voo desde o terraço do prédio.
Para iludir o frio, que o Inverno não dormia, entreteceu-se a compor cadências e poemas com o calor dentro, um catamarã sulcando as ondas entre as ilhas dos Maoris, a batida mítica e ritmada de um batuque africano, o sol do deserto na pele de uma iguana, a pele da amante de outros dias, que dormira entre os lençóis, aninhada junto ao seu peito.
Entreteceu-se e entrecoseu-se, e o calor palpitava como as brasas, descosturando os fantoches dos medos. Liberta do frio, abandonou a cama de jornais onde dormia e dançou nua sobre a neve do parque.

Andava a recolher do chão folhas meio-amarelecidas, para as prensar dentro de livros e obter um Outono bidimensional. Absorto nesse mata-tempo, sentiu uma joaninha pousar-lhe no pulso. Repugnou-a a vermelhidão do insecto, aquela criatura-labareda queimava-lhe a vista. Fechou os olhos e esmagou-a com uma palmada e, sempre com os olhos fechados, pegou nos seus restos viscosos e juntou-a à colecção de folhas. Tudo desfalece e perde a cor, pensou, aquela joaninha seria uma evocação sépia de si mesma no momento em que secasse sobre uma folha no ventre de um livro. E ia visualisando o quadro, quando viu a passear diante dos seus olhos uma menina ruiva de vestido berrante de motivos florais e coloridos.

O novel pároco desaguara no Clube Recreativo da terra para uma partida de sueca, mas não encontrou parceiros, e ficou-se pelas paciências numa mesa de canto, salvo da monotonia por uma taça de conhaque. Foi nessa mesa que o farmacêutico o surpreendeu, sentando-se ao pé dele com ares de conspirador.
- Gaivotas em terra...estás com alguma crise de vocação?
- Não, infelizmente para ti. Vai um jogo?
O outro aceitou, o clérigo baralhou e deu as cartas.
- É a tua vez de jogares.
Bateu uma carta no tampo da mesa.
- Sabes que eu andava justamente à tua procura? Tive um sonho estranho a noite passada!
- Jogue!
- Estava a dormir e tive uma dor no peito, não sei se morri, mas senti-me como se tivesse tido uma experiência religiosa.
- Logo tu, que sempre foste positivista e anti-clerical, que idolatra o Voltaire, e mofa do Padre Eterno como o Junqueiro. Deve ter sido o pior dos pesadelos!
- Não, foi muito interessante, senti que estava a descolar-me do corpo, que saía de mim, mas não tinha uma alma somente, mas três almas diferentes. Não eram os egípcios que acreditavam que tínhamos três almas?
- Sim, vejo que estudaste o livro de Drioton que te emprestei. E como eram essas almas?
- A primeira era a mais caseira, e ficou Ká, a segunda seguiu-lhe o exemplo e Aqui ficou. Só a terceira é que hesitou se ia, se ficava.
- Porquê? É a tua vez de jogar.
- A terceira alma era mais como eu, gostaria de ter viajado, de subir os Alpes e assistir a uma dança do ventre em Marraquexe, de ter um hárem ou, pelo menos, duas ou três odaliscas no séquito. Mas depois, olhou em volta, viu mais um velho crédulo deitado numa cama e, sufocando o riso, abriu a bocarra desdentada e exclamou: "Bah!".

Torneio

Com uma lâmina de barbear, e uma laçada de corda de nylon, e venenos, foi jogando com a morte.

Começou o primeiro jogo com uma mão cheia de trunfos, acabou o último a jogar à mão morta.

Biscate

O amigo recebeu-o junto à porta do apartamento. Pousou a mala de ferramentas e apertou-lhe a mão.
«Preciso da tua ajuda para um trabalho que exige discrição e infinitos cuidados. Recorro a ti porque outros poderiam sentir-se tentados a comentar o que se passa cá dentro, e a última coisa de que preciso agora, é da curiosidade de vizinhos e estranhos».
«Sê directo? Que trabalho?»
«O meu apartamento é um pouco acanhado, tem pouco espaço para arrumação. Agora, mediante uma soma razoável, consegui alugar um espaço para arrumação nas águas-furtadas, e precisava da tua ajuda para levar para lá uma coisa...»
«Mobília? Um piano?».
«Não, a minha culpa!»
«!?»
«Acredita-me, pela amizade que me tens, acredita no que eu te digo, preciso que me ajudes a levar a minha culpa para as águas-furtadas. A princípio, ela era pequena e cabia em qualquer canto do apartamento, dentro de um roupeiro ou numa gaveta qualquer, mas, nos últimos tempos ela tem crescido de forma vertiginosa, e quase não me consigo mexer cá dentro. Ainda por cima, tenho medo, é que eu, para ir de uma divisão para outra, tenho de passar junto a ela, que está sempre pronta a morder ou roer».
«E é só pôr-lhe um açaimo e levá-la por aí acima?».
«Não, não cabe na porta da entrada, é demasiado grande. Receio que teremos de partir uma parte da ombreira da porta para o fazer, então sim, penso que é possível...».
«Desculpa amigo, mas não vou poder, tenho outros serviços e empreitadas urgentes. Se fosse uma coisa rápida, podias contar comigo, mas isso é trabalho para um dia inteiro. Mas dou-te uma sugestão profissional. Se bem me recordo, o acesso para a tua varanda faz-se por portas de aro de alumínio, daquelas que é só desencaixar e tirar. Em vez de andares a partir paredes, porque não arrastas a culpa até à varanda e a atiras dali?».
O amigo pareceu ponderar as conveniências desse processo.
«Sabes que essa foi uma das ideias que já me ocorreu, é viável mas não estou muito seguro de ser bem sucedido. É uma operação arriscada, porque ela, de certeza, que me vai tentar arrastar na queda...»
«Mais não posso fazer. Se quiseres, deixo-te algumas ferramentas e alagas a parede, depois chamas-me e fazemos o transporte».
«Obrigado, sabia que podia contar contigo. É isso que eu vou fazer, se não morrer esmagado antes!».



De Henry Chinasky, aliás, Charles Bukowsky:

«Não sou um pensador. Cada mulher é diferente. Fundamentalmente, parecem ser uma combinação do melhor e do pior - ambas as coisas, mágicas e terríveis. Portanto, estou contente por elas existirem».

«(...) As pessoas sem moral consideravam-se muitas vezes livres, mas sobretudo, eram incapazes do mínimo sentimento ou de amor. Por isso eram despreocupadas. Os mortos a foderem os mortos. Não havia nem risos nem amor nos seus jogos - era um cadáver a foder outro cadáver. As morais eram restritivas, mas enraizavam-se, mesmo na experiência humana de várias gerações. Algumas morais tendiam a manter as pessoas como escravas nas fábricas, nas igrejas, e levavam-nas a acreditar no Estado. Outras morais faziam mais sentido. Era como um jardim cheio de frutos envenenados e de frutos sãos. Tínhamos de saber quais devíamos colher e comer, e em quais não tocar».

(Charles Bukowski, "Mulheres", tradução de Fernando Luís, Publicações Dom Quixote, 2001)

O tempo não nos chega

Andou ao acaso por entre as estantes, como se procurasse a saída do labirinto (o silêncio rugia à sua volta como o lamento surdo de um Minotauro).
«Precisa de ajuda?».
Uma funcionária, prestável e sorridente. Apertou entre as mãos o boné, e estendeu-lhe a mão.
«Bom dia, minha senhora. Deram-me agora o cartão da Biblioteca, eu não tinha coragem de pedir um cartão antes, é que eu tenho setenta e três anos, e só aprendi a ler há dois anos, com a ajuda do senhor meu pároco».
«E agora quer requisitar uns livros para ler, não é?».
«Sim, minha senhora, eu sempre gostei de ver programas de televisão sobre História, sempre tive vontade de ler, mas não sabia».
«E que temas lhe interessavam?».
«Muitos, a Arca da Aliança e o Templo de Salomão, a Revolução Francesa, os Maçons...».
«Venha comigo, vou separar alguns para o senhor escolher».
Ela guiou-o por entre o dédalo de livros até uma estante de topo. Puxando de uma carreta de livros, começou a empilhar sobre o tampo os livros que versavam os temas apontados.
«Minha senhora!».
«Sim?».
Ele esfregava novamente o boné entre as mãos, olhando com um misto de alegria e profundo desalento, a pilha de livros que se formara diante de si.
«Eu sei que sou uma pessoa com saúde, graças a Deus, mas assim, olhando apenas para mim, a senhora acha que eu sou capaz de viver até aos cento e vinte anos?».

Entente Cordiale

À noite, o cunhado de Santiago ligou-lhe e confirmou as notícias que se esperavam. Estava tudo acertado, o contrato de trabalho no estrangeiro, e as datas estimadas. Daí a uma semana ele ia ter a casa de Santiago e partiam para Lisboa para apanharem o primeiro voo que houvesse.
Uma semana! Santiago não queria trabalhar mais uma semana, precisava passar algum tempo com a família antes de mais uma aventura no estrangeiro, e por isso, estava decidido a iniciar de imediato as suas pequenas férias. Trabalhava como vendedor-distribuidor de uma Pastelaria. No fim da distribuição, foi aos pequenos escritórios, e pediu para falar com o gerente, um homem de setenta anos que o empregara quando ele voltara desasado de um contrato falhado em Itália.
- Senhor Ramiro - começou de pronto - Vou-me embora, hoje foi o último dia que trabalhei aqui, faça as minhas contas que, amanhã ou depois, a minha mulher passa aqui para vir buscar o cheque.
- Mas, Santiago, assim, de um momento para o outro? Há a volta, os clientes, você podia esperar uns dois dias e instruir alguém para o substituir.
- Não quero saber! E quer saber porquê? Porque você é uma pessoa que me faz espécie, um fraco, sem decisão nem carácter. Não tem coragem para enfrentar ninguém, e não teve a decência de me aumentar o ordenado quando eu lhe pedi. Você não merece um empregado como eu, e quer saber mais? Daqui a uma semana, vou para o estrangeiro, ganhar três vezes mais daquilo que me pagavam aqui, e não vou ter de lidar todos os dias com um velho xexé como você, exemplo acabado do portuguesinho provinciano e medíocre.
Aliviado do seu peso, voltou para casa, ufano e valente, saudou todos na rua com grandes abraços efusivos, contando-lhes à porfia, detalhes da sua viagem iminente.
Em casa, anunciou à mulher que iam todos jantar fora, e enquanto o pessoal se preparava, toca o telefone. Era o cunhado. Tinham dado com os burros na água, não havia contrato nem viagem. Podiam continuar a tentar, e talvez para a próxima a coisa resultasse melhor. Santiago sentiu os tomates caírem-lhe ao chão. Desculparam-se com a crise, explicava ainda o cunhado, não te chegaste a despedir, pois não? Não! Exclamou Santiago, e não mentia, tinha a certeza disso, não chegara a despedir-se, fora apenas uma conversa menos tranquila, coisas que um homem diz a outro quando o dia lhe corre menos bem.
Na manhã seguinte, às oito da manhã, a hora habitual, Santiago entra pela Pastelaria como sempre fizera nos dois últimos anos, confirma as quantidades encomendadas de véspera, e carrega a carrinha, a assobiar como um pardalito como se nada se passasse. Ramiro, o gerente, fica de queixo caído, mas não chega a reagir, como se não se tivesse passado nada.

Adaptação

Do que a Ministra da Educação faria se fosse o Pai Natal:
- Entraria por todas as chaminés, para pôr uma pedra no sapatinho.

«Esta é a primeira vez que vocês, pais, se juntam, e é por uma boa causa, a festa de Natal dos vossos pequenos heróis».
Ouvia, distraído, a voz da educadora de infância. Os pais todos, reunidos e pouco à-vontade. Não sentia especial curiosidade pelos outros, mas sentia que pelo menos metade deles se aplicava a estudar os presentes com afinco, examinava, julgava, classificava.
Estavam todos sentados em roda nas cadeiras do ginásio improvisado, dito de outro modo, viam-se todos uns aos outros, era uma exposição de gente como a dos mercados de escravos, avaliava-se os corpos, as roupas, se os dentes tinham falhas, se existia alguma deformidade física.
A educadora guiava-os pelos itens que lhes queria falar, as crianças iam fazer um teatrinho, não quereriam os pais seguir-lhes o exemplo, e cantarem uma canção ou actuarem numa pequena peça?
Sentiu-se observado, intensamente observado. No outro lado da roda, um casal de mão dada. Ela observava-o, um rosto muito afilado, como se tivesse sido apertado nos mordentes dum torno, a boca era um traço fino mas, os olhos, pelo contrário, eram enormes, e não se despegavam dos seus pés. Apercebeu-se porquê. Trouxera os seus sapatos de rua, não aqueles com que saía à rua, mas os que usava para as pequenas tarefas do jardim e quintal, dar comida aos animais, tapar as gaiolas dos pássaros, transportar lenha para junto da lareira. Mudara de roupa à pressa e esquecera-se de calçar outros sapatos.
«Teatrinho ou canção? Vamos a votos? Alguém tem outra sugestão? O senhor pai, aí, com o braço levantado - qual era?».
A mulher de olhos de sapo tentava olhar para a educadora, para o tecto, para longe, mas o seu olhar voltava sempre aos seus sapatos sujos e velhos, poderosos como ímanes. Para aquela mulher afectada e pretensiosa, ele reduzia-se aos sapatos velhos, não tinha espírito ou essa coisa a que chamam alma, não sentia, não fiava, não lia e não criava. Aquele par de sapatos era o que retinha do seu rosto e da sua natureza, um par de sapatos com uma filha no infantário, coisa inaudita!
«Então, é a canção! Tinha uma ou duas sugestões para o tema, mas se tiverem outras, agradecia que as exprimissem!».
Estava a passar-se, tinha vontade de esfregar os sapatos na cara daquela mulher, ou então, o que era melhor, quando todos estivessem a sair à porta, arranjava maneira de estar junto dela no molhe de gente, e, com um toque discreto, pregar-lhe uma rasteira e espetar com ela no chão. Talvez passasse despercebido, ou só ela notasse e, mais tarde ou num outro dia, lhe dissesse, com voz áspera: «A sua filha sai a si, resolve as coisas a pontapé e à dentada!».
«Então fica assente, já temos uma canção vencedora, e de hoje a uma semana voltamos aqui para o primeiro ensaio. Obrigado a todos vocês, pais, em nome da escola e em nome dos vossos filhos».
Começaram todos a levantar-se, tomou atenção à mulher, ainda que tivesse perdido o seu ímpeto de a agredir. Mas esta, em vez de se dirigir à saída, caminhou em direcção a si.
«Não sei se o senhor se sente confortável - disse num murmúrio - mas tem os sapatos calçados ao contrário!».


Eram gémeos siameses, e suscitaram a curiosidade geral; primeiro, sendo gémeos, até nem eram muito parecidos, depois, nem estavam juntos, soldados em nenhuma parte da cabeça ou dos membros, e nem mesmo andavam habitualmente pelas mesmas divisões da casa, porque os dois procuravam cultivar a distância entre si. Eram um caso insólito, e difícil de compreender, parecendo que só tinham vindo ao mundo para derreter os miolos dos investigadores.
Gata que os pariu!!

Outras andanças

A Comunidade Espiritual, um portal rico e diversificado onde principiei a participar com um ou outro artigo ou tópico, assinado com o nick de Sonhâmbulo. É uma experiência nova, como foi um dia a dos blogues, e as palavras custam a aparecer, mas espero conseguir melhorar, aprendendo com a prática e com os outros.

Encruzilhada

A mãe esperou que chegasse a sua vez. Depois da priminha e marido, do colega de Faculdade e namorada, foi a vez dela posar para a fotografia com o filho e a mulher, junto ao altar decorado com flores. Deu-lhe o braço, sorriu para o fotógrafo, uma, duas, três fotografias, e ela sussurrou para o filho. «Preciso de falar contigo, antes de irmos todos para o restaurante». Ele concordou, e não se esqueceu do recado. Quando a maratona fotográfica acabou, ele foi ter com a mãe.
«O que me querias?»
«Sabes, o teu pai, que já não vês há doze anos. Pedi-lhe que viesse cá hoje, para te desejar felicidades. Ele arranjou uma brecha no meio da sua vida no estrangeiro e das suas viagens constantes, e está lá atrás, no último banco da igreja!».
O seu rosto iluminou-se, olhou para o fundo da igreja, e reconheceu o pai pelas fotos de álbum, mais velho e de cabelos brancos e, naquele momento acenava-lhe de sorriso aberto, em pé, entre dois homens altos.
Correu até ele, e deram um abraço forte. O pai chorava sem remissão.
«Que alegria, pai, porque não veio antes, podia ter tirado fotos comigo. Olhe, esta é a minha mulher, Cláudia, a futura mãe dos seus netos. Vem connosco para a boda, não é?»
«Não posso, Pedrito, dentro de uma hora tenho voo marcado para Inglaterra, e também não gosto de fotografias, não sou bonito como tu ou a tua mulher. Mas tinha de estar aqui hoje, não me perdoaria se não estivesse, nem que fosse só um minuto».
Conversaram um pouco antes do fotógrafo os interromper, apelando para a presença dos recém-casados nas fotografias de exterior. Deram um novo abraço, e despediram-se, e o filho desapareceu na luz da entrada, ladeado pela mulher que lhe enxugava as lágrimas com uma ponta do véu. A mãe do noivo seguiu-o, cruzando um olhar significativo com o seu antigo companheiro. Este sentou-se pesadamente no banco, enquanto um dos dois polícias que o ladeavam soltava a algema que unia um dos seus tornozelos ao do preso.
«Vamos voltar para a nossa casinha?»
«Podemos esperar um pouco até as fotos acabarem? E também não tenho pressa, tenho mais dez anos para estar lá!».

Comuna

«Tens fêmea?». Perguntou-lhe Gisela, a nova colega de trabalho, na pausa para o café. «Não!», disse, sem entoação nem intenção. «Hoje vou contigo para tua casa. Se quiseres, posso lá ficar a noite!». Concordou. À saída, ela esperava-o. Sentou-se ao seu lado no carro e foi com ele. Mostrou-lhe o apartamento onde morava, e ela gostou, da cozinha moderna, da sala toda equipada, do elevador futurista do prédio e, sobretudo, da cama enorme com quatro por dois metros. Tiraram uma pizza do congelador, aqueceram-no no forno, e comeram-na, acompanhada com um garrafa de tinto que ela descobrira, cheia de pó, no vão das escadas. Ela tirava medidas à casa, planificava as coisas, estimava os espaços. Nessa noite, ela levou-o para a cama e fê-lo passar um bom bocado, tirando um pouco o cheiro a bolor do seu pénis. Na manhã seguinte, deitados preguiçosamente na cama, a comer o pequeno-almoço que ela havia preparado, ela expôs-lhe o seu drama pessoal. Tinha, na cidade, a irmã adulta e a mãe sem tecto, a viver de favores de pessoas amigas, dormindo uma noite num sítio e a seguinte noutro. Tinham deixado tudo em Florianópolis, e gasto todo o dinheiro que tinham nas passagens de avião para Lisboa. Será que não podiam ficar todas as três com ele? Iria ser bom, e ele nunca se arrependeria. «Só tenho um quarto!». Ainda objectou ele, mas Gisela já não o ouvia. Estava tudo planeado. Fez umas chamadas, e uma hora depois, a casa estava mais preenchida, com a irmã, , uma jovem gorda como um hipopótamo, e a mãe delas, uma mulher de meia-idade, agitada como uma folha por tremuras incontroláveis. A bagagem era simples, uma mala velha e esgarçada, a abarrotar de roupa, e o resto dos haveres em trouxas, improvisadas com lençóis de pontas atadas. Instalaram-se enquanto os dois pombinhos tomavam banho e fodiam na banheira. Na hora de deitar, não houve hesitações - dormiam todos na mesma cama, era enorme, e conseguiam arrumar-se todos nela. E tudo às escuras. Naquela noite e nas que se seguiram, as coisas ficaram um pouco confusas. O leito era tumultuado por movimentos e operações nada transparentes. Ele era solicitado para manobras amorosas, puxado para o anelo de coxas desconhecidas, ou sentindo esfregar no seu rosto um tufo de pêlos púbicos a exigir homenagem, e no fim, nunca sabia a quem devia a atenção, e só estava certo disso quando calhava a vez da matriarca, elucidado pelos seus tremores característicos. Outras noites, tinha a sensação de que havia muita gente em cima da cama porque ouvia vozes e guinchos estranhos, mas quando acendia a luz, só divisava as três mulheres, dormindo ou em transe, com espuma a escorrer-lhes dos lábios. Aquele arranjo parecia servir a qualquer uma das três na maior parte dos dias, à excepção de alguns em que discutiam entre elas como se disputassem um hamster e, como efeito reflexo, e para serenar o ambiente, faziam-lhe a cama no chão da sala, e extraditavam-no do colchão gigante. Nem mesmo assim, ele se sentiu tentado a abortar o arranjo. Nem quando notou que as três mulheres nunca se mantinham iguais, antes pareciam trocar entre si as suas identidades, as vozes que saíam das suas gargantas pareciam emprestadas umas das outras, outras notava que Gisela ou a irmã pareciam ter envelhecido décadas numa noite enquanto a sua mãe ganhava cores e lisura de pele, e o seu olhar tornara-se vivo e apaixonado.
No trabalho, Gisela tratava-o com uma crescente intimidade, como se fossem recém-casados, e foi num desses momentos de ternura, quando lhe levou ao gabinete um café e um donut e lhe cobriu a calva de beijos, que lhe deu a novidade: tinha acabado de chegar a Lisboa o resto da família de Florianópolis, eram só seis familiares. Será que...
Negou-se, não os queria, e pediu-lhe também que pensasse em sair do seu apartamento, ela e a famelga. Ela fez uma beicinha, e soltou algumas lágrimas, mas acabou por aceitar.
Nessa tarde, Gisela não voltou com ele, também não estava no apartamento, para ser rigoroso, nada estava no apartamento, que tinha sido limpo de alto a baixo, não tendo ficado para trás um único bibelô ou peça de mobília. No fundo, já o esperava. A irmã de Gisela andava a fazer olhinhos a um celibatário como ele que morava dois andares mais acima, e nesse instante, deviam estar a instalar-se lá, com a nova mobília.
Sem despeito nem rancor, contactou uma loja de ferragens para lhe irem mudar as fechaduras, e saiu do apartamento para comprar fita de calafetar. Estranhas como aquelas mulheres eram, podiam tentar voltar a entrar no apartamento por debaixo da porta ou pelo buraco da fechadura, transformadas em névoa quente ou lava.

Ligações preguiçosas

Raul e os amigos tinham poucas coisas em comum, os lugares onde trabalhavam, os interesses e afecções, ou as preferências e antipatias, tudo diferia; nem os clubes de futebol da sua simpatia, ou a fraternidade obtusa das respectivas filiações políticas, ofereciam matéria para longas conversas ou debates. O máximo denominador comum de todos eles, é que eram pessoas desenraizadas, sem laços, tinham família, pais, mulheres e filhos, mas fugiam a estar com ela. Encontravam-se ali todos os dias, na mesma mesa do mesmo bar, bebiam cervejas uma atrás da outra, fumavam, falavam ao acaso e nem sempre sobre as mesmas coisas, por vezes, escapuliam-se para as traseiras para enrolar e fumar um charro, e voltavam ali para mais umas cervejas, ou um uísque ocasional. Raul achava que era uma rotina estúpida, e dava consigo a pensar que não sabia o que continuava a fazer ali. Mas quando se despediam, às horas do fecho do bar, ele e os amigos usavam os mesmas expressões de sempre: - Até amanhã! - Amanhã à mesma hora! E voltavam a casa, satisfeitos, como se estivessem felizes.

Olhos

Nunca via o mesmo quando olhava pelas janelas da sua casa, através delas, de dentro para fora, tudo mudava em segundos, a cor das folhas, o voo dos pássaros, a aparente quietude dos edifícios de pedra, ela maravilhava-se com esta mutação contínua, por vezes, distinguia mesmo outras formas por entre as formas do mundo, pessoas que andavam em lugares improváveis, na vertical das paredes ou a uns palmos do chão, sombras vagas como de serpentes aladas, silhuetas de pirâmides ou pagodes a insinuarem-se sobre a linha dócil das colinas. Um dia viu-se a si mesma, ou o que parecia ser a sua imagem, com a saia roxa e a blusa de cetim, e o chapéu largo a espanejar sobre os seus cabelos soltos, viu-se a andar pelo jardim e sair pelo portão da rua, com uma mala na mão. Não sofreu nem sentiu receio. Tudo mudava em segundos, sentiu que estava a chegar a sua hora de partir, e viver de alguma forma no outro lado da janela.
Ela acordou de madrugada com o corpo dorido, dobrado e quebrado no assento do carro. Limpou os vidros embaciados com uma ponta da camisola presa entre o indicador e o pulso, e lembrou-se que tinha o carro estacionado junto ao hipermercado. Cheirava mal, a vómito e urina, inclinou-se e anichou a cabeça entre o volante e a porta e confirmou as suspeitas, mijara-se, ainda que não tivesse noção alguma das circunstâncias. Ao seu lado, o pastor evangélico ainda dormia, um polegar enfiado na boca como uma criança de colo e o crucifixo preso entre as pernas, pensou que aquilo devia ter alguma conotação freudiana, e sentiu vontade de lhe vomitar em cima, mas acabou por abrir a porta e vomitou antes na jante duma roda, logo, acocorou-se ao lado e mijou com gosto. Ficou melhor, apesar do fel na boca e da cabeça que lhe doía como se lhe tivessem aplicado um murro. Precisava de um banho, mas a sede era maior. Descobriu uma garrafa ao lado dos pedais, sem tampa, mas deitada, com um resto de precioso líquido a marulhar, ajoelhou-se e levou-a à boca, sorvendo-o até à última gota. O som abafado da garrafa plástica a saltitar no alcatrão acordou o seu companheiro. Ela dirigia-se para a mala do carro, e ele percebeu a intenção. Saltou do banco do pendura e tentou agarrá-la e impedir os seus movimentos, de caminho, apalpou-lhe as mamas e o rabo, e a sua distracção permitiu que ela conseguisse o que queria, rasgar o pack de garrafas de água de litro e meio, e meter uma à boca entre os gritos desesperados do filho de Deus. Bebeu-a quase toda de enfiada. Como ele não a largasse, ela despejou-lhe o resto da água em cima da cabeça, e depois arrependeu-se porque era mal empregue, e enquanto as orações e os exorcismos afloravam à boca do pastor como baba epiléptica, a sua ovelha tresmalhada conseguiu soltar-se e, na sua sofreguidão, deitou-se sob a torneira da lavagem de carros e abriu-a em fio, prosseguindo a sua bebedeira imparável que já ia no terceiro dia.

O Fado

O Fado de Lisboa

O seu Fado, o seu destino, não tinha o enlevo dos acordes de uma guitarra, ou os versos inspirados de um boémio bêbedo. Tudo isso ficara para trás, na cave típica e enfumarada, onde ouvira fado e esbanjara dinheiro alegremente.
O seu Fado, esse, conheceu-o na viela escura, onde a amante de ocasião lhe cortou a jugular. Os fados na memória oclusa, fizeram as pedras da calçada chorar sangue.


O Fado de Coimbra

Desde rapaz novo que se habituara a resgatar vidas às águas do Mondego, e fizera disso a sua ocupação de vida como se seguisse um destino traçado do alto. Já ancião, continuava a atirar-se à água para tentar salvar os seus semelhantes, ou percorrer o rio no seu barco para recuperar da dissolução os corpos vencidos dos que se haviam afogado. Uma noite, durante umas cheias tumultuosas, o rio Mondego pareceu exigir em troca a sua própria vida, e arrastou-o nas águas revoltas como um tufo de erva. E foi então que alguém o salvou, nadando com energia e arrastando-o para a margem. Foi a sua vez de ser salvo, e como outros perante ele, também ele agradeceu comovido a quem o salvou - a figura translúcida de uma mulher vestida de luar.

Silêncio, que se vai contar o fado!

Telemiligrama

Minguante nº 12 stop tema o fado stop sessenta e quatro fadistas em noites de arromba stop projecto-centopeia com muitas pernas para andar non-stop


Telegrama

Uma palavra aos e-books editados pela Minguante, uma forma inovadora de dar espaço aos autores, e na qual tive a grata experiência de participar. Se lhe passou despercebido, ou não está actualizado, confira os autores: Luís Ene, Paulo Rodrigues Ferreira, Carlos Seabra, Fernando Gomes, myself, Ana Mello, Rita Tavares de Melo, Angela Schnoor, Edgar Borges, e Carla Ribeiro.


Romantic beliefs

O que existe de menos inefável em encontrarmos a nossa alma-gémea, é a pele dela ser fria ao tacto, como o vidro.

Cluedo

Morreu na Biblioteca, com o crânio esmagado por uma Bíblia do rei Jaime, uma edição monumental com capa dura com um alfa e um ómega em metal dourado.

O inspector não queria acreditar que a Bíblia pudesse ter mudado a vida daquele homem, e manteve a sua suspeita inicial de que ele havia sido mortalmente golpeado na cabeça por alguém com um relógio de ouro.

Comer a carne

- Pssst, onde é que ele está?
- O seu pai está no quarto, já me perguntou o que está a fazer no lugar da poltrona, a caixa de fruta emborcada no chão.
- O que é que disseste?
- Que era uma homenagem dos rendeiros da herdade.
- Essa foi de génio, mulher! Olha, eu e a mana vamos levar a cómoda Luís XVI. Ele não precisa dela, porque nem consegue dobrar uma camisola.
- E a roupa?
- Pomos em baixo da cama de rede, em cima do tapete persa...não...o tapete também é vendável, em cima dum lençol velho!
Ouvem um barulho nas escadas e calam-se todos. Os irmãos encostam novamente a cómoda à parede, no instante em que o ancião entra, com a bengala na mão e vestido com o seu roupão felpudo, a barba grisalha por fazer.
- Ah, são vocês, tão cedo! Ouvi vozes e vim ver.
Os dois abraçaram-se a ele, estreitando-o emotivamente nos seus braços. O velho mantém o olhar cego perdido algures, e cochicha.
- Queria mesmo falar com vocês, digam à Ana para sair.
A mulher não precisou de instruções e saiu pelo próprio pé.
- Estou velho - confessou o velho num suspiro, recebendo em troca uma exclamação de incredulidade - doem-me os ossos e mal me consigo mexer, a vista já se foi há muito tempo, e a memória tem falhas.
- O que nos queres, pai? O que podes querer que não tenhas já?
- Eu durmo em cima duma cama de rede, porque o médico vos disse que era melhor para os meus ossos, e a mesa de jantar é aquela em que antes se amanhavam os coelhos nas traseiras. Não sou de mordomias e não me queixo, mas precisava que me ajudassem a encontrar a minha Ilíada em braille, definho se não leio, se não sigo a voz do meu Quíron.
- Está bem, pai, já que aqui estamos, vamos procurar a Ileida. Se não encontrarmos posso sempre ir procurar ao Chaves, o alfarrabista, pode ser que tenha uma novela igual a essa - e depois, em voz chã - Sabe pai? Acho que você deposita demasiada confiança na Ana, às vezes, aqueles que nos servem são como os lobos domesticados, nunca sabemos quando vão voltar a sentir o apelo da selva.


& Roer os ossos

Os dois irmãos contristados vagueavam pela casa vazia, seguidos pela governanta, que apertava nas mãos papudas o envelope lacrado com a carta de referências (as piores possíveis, só que a inocente nem sonhava). A espaços, ela perguntava - porque sabia onde estavam as coisas e era leal como um cão - se não queriam nada, um chá, um refresco, uma torrada para a fomica, que já eram horas do lanche.
- Não haverá mais nada? - murmurava o filho órfão, pensando alto.
- Há as terras - lembrou a irmã.
- Não, pensava em dinheiro, ou ouro. O velhote não guardava nada no Banco, deve haver uma caixa cheia de notas, algures, enterrada ou escondida - afirmou, batendo nas paredes com os nós dos dedos.
A irmã digeriu as suas palavras e começou a bater com o tacão do sapato nos tacos do chão, como um cavalo amestrado no pátio de uma coudelaria.
- Não querem mesmo nada? - perguntava ainda a governanta, com a mala aos pés e um casaco dobrado no braço - posso pedir para trazerem fruta do pomar, ou preparar uns ovos mexidos.
- Não! - recusou ele - já estamos servidos. Diz-nos uma coisa, Ana, se o nosso pai tivesse que esconder alguma coisa de nós, onde o faria?
- Que coisa?
- Um objecto, sei lá, olha, a Ileida dele, aquele livro cheio de furos de que ele gostava tanto.
- O vosso pai não vos esconderia uma coisa, se quisesse que ela fosse encontrada.
- Adiante, mulher, onde?
- Ele dizia que vocês os dois estavam irreconhecíveis porque tinham ido fazer uma longa viagem, e que talvez um dia regressassem, tal como vos conhecia de serem crianças e vos ver crescer, e sentir o amor que um pai sente pelos filhos. Ele esperou sempre por isso, um dia vocês voltariam como ele gostava de se lembrar de vocês.
- Ana, porque é que nos aborreces? Se queres dizer alguma coisa de útil, diz, caso contrário, a porta da rua é a serventia da casa.
- O vosso pai amava Homero, porque encontrava nas suas obras, os protótipos de pessoas reais. Às vezes, chamava-me Euricléia, a ama de Ulisses, e ele próprio se identificava com Laertes, que longamente esperou o regresso do filho. Quando Ulisses encontra Laertes, este está a cavar em volta de uma pereira. Se o vosso pai queria guardar alguma coisa para vocês encontrarem, tem de estar enterrado junto a uma pereira.
- Obrigado, Ana, adeus Ana!
- Talvez o encontrem também, acabado de velho e com uma grande tristeza na alma.Ana deixou-os, arrastando com dificuldade para fora da sala, a mala carregada de valores insuspeitados.
- As pereiras do pomar - exclamou o filho órfão, exprimindo a excitação dos dois irmãos - eu vou mandar cavar em volta delas enquanto tu vais à procura de alguém que tenha um detector de metais.
- Mas primeiro vamos comer alguma coisa, está-me a dar a fomica, como a Ana disse.
- O que é que cozinhaste?
- As mãos. Apetece-te?-
Só se for a parte do polegar, tem mais carne, ainda que deva ser seca.- O que é que tu queres? É carne de velho! Mas podes ficar com os polegares, sempre foste o mais pisco a comer!

O indigente acordou enregelado, embrulhado nos cobertores retesados pelo frio. À sua volta desenrolava-se uma grande algazarra, um eclipse havia velado o Sol e as pessoas faziam barulho para afugentar o monstro que havia devorado o astro, pretendo assustá-lo com gritos e uivos, e com o som caótico e pavoroso de cornetas, pandeiretas, pratos metálicos, ferrinhos, bombos, e lãs roçagadas.
O desgraçado juntou-se à festa com o bater dos dentes, marfim contra marfim. Quando a luz voltou a inundar o mundo, todos ficaram suspensos num silencioso êxtase religioso, apenas cortado por aquele sacrílego bater de dentes.
Inspirados pela suspeita de que o monstro se havia refugiado naquele homem sujo, viraram contra ele as suas armas, e brindaram-no com panelas e pratos, cornetas e baquetas.

Não teve fama, mas teve glória, ou antes, Glória - quinze minutos de Glória, aqueles que demorou a conhecê-la no elevador.

Narrador e tema

De Italo Calvino:

«Em resumo: estava possesso daquela mania característica de quem conta histórias e que, a determinada altura, não sabe já se as mais belas são as verdadeiramente acontecidas e em relação às quais só o recordá-las é o suficiente para arrastar consigo um oceano de horas passadas, de sentimentos minuciosos, tédios, felicidade, incerteza, vanglória, náusea de si próprio, etc., ou as histórias inventadas, em que tudo pode acontecer segundo a vontade de cada um e todas as coisas aparecem fáceis. Mas depois constata-se que, por mais que se invente, já se está a falar novamente de coisas que aconteceram ou cuja compreensão existiu na realidade enquanto elas eram vividas.
Cosimo estava ainda na idade em que a ânsia de contar confere igualmente uma ânsia de viver, e se crê que não se viveu o suficiente para se poder contar tudo aquilo que se deseja
(...)».

("O Barão Trepador", c. 16, Editorial Teorema, Lisboa)
Não se inveja as pessoas cujo íntimo está repleto de mesuras e sentimentos gentis e fraternos, que dão mais valor à colorida flor do cacto do que ao próprio, que deslizam pelos dias como se este fosse um escorrega de geleia doce, e se socorrem de todos os ideais e princípios para desculpar e louvar os monstros que lhes castraram a vida. Não se inveja, porque não conseguiríamos vestir a pele delas, dado que a pele que nos cobre não é macia nem serve para ser tosquiada, porque aprendemos a usar a boca para beijar e rasgar com o mesmo empenho, e a apertar a mão do próximo com as garras recolhidas, mas presentes. Ressumamos em nós o desencanto, o nojo e a fúria - arestas, gumes, espinhos, aguilhões, que podem esfacelar e cortar, ferir e mutilar. O que nos dissocia do sociopata e do cínico empedernido, é que essas arestas vítreas, sob uma dada luz - de pessoas, valores, afectos - se comportam como os laminares cacos de vidro no interior de um caleidoscópio, transmutando os estímulos num arco-íris de novos efeitos.
Enquanto assim for, vai-se dando o desconto.

Teve sempre medo das palavras, furtava-se ao seu encontro e escondia-se quando lhe saíam ao caminho, no face oculta de uma esquina, por detrás de uma pedra, duma moita, de uma pessoa, por detrás de si mesma, conseguiu viver uma soma considerável de anos neste lusco-fusco de semi-ocasos e breves eclipses, sem chocar ou sofrer com as palavras, mas sabia ser seu destino que não lhes podia fugir para sempre, e um dia apanhou-as pela frente, nuas e de face descoberta. As palavras corresponderam aos seus medos e terrores, e maltrataram-na com barbaridade, humilharam-na, despiram os seus atavios e guirlandas, esborrataram a maquilhagem dos seus pretextos e ficções.
A partir desse dia, perdeu o medo das palavras, mas passou a viver obrigada por estas, a coabitar com a verdade.

Era uma vez...

...um homem que partiu da sua terra para procurar exílio noutra terra sob um outro céu,
e não sabia a qual deveria permanecer fiel,
se àquela em que nascera e onde as suas raízes latejavam ao som de uma língua diferente e de músicas de uma outra existência,
ou à que lhe deu guarida, oficiosa e oficial, a terra que pisava todos os dias, procurando conhecer o ritmo das suas marés minerais.

Era uma vez um homem exilado e dividido, que refugiou todas as partes de si na pátria íntima do amor de uma mulher.

OR

(img)Atirou a caneta para um canto do tampo da secretária, e levantou-se. Foi espreitar a mulher. Estava sentada aos pés da cama da filha, que dormia, deitada de lado, com um lenço perfurado a velar-lhe a boca. Ela sentiu a sua presença e reuniu-se a ele no corredor. Voltou à secretária, tentando trabalhar mais um pouco. A mulher sentou-se ao de leve no tampo, e fez-lhe uma afago no ombro, sentia a tensão no seu silêncio.
- Não gosto de ver, faz-me impressão, qualquer dia a tua filha sufoca, além do mais, não é salutar, o lenço está carregado de germes, do ar viciado que lhe sai dos pulmões.
Ela já estava a prever, não era a primeira vez que ele tocava no assunto. Esperava que o seu protesto se desvanecesse como de outras vezes, mas hoje ele estava insatisfeito e rezinga, e não baixou a guarda.
- Eu compreendo que foi assim que foste criada, que lá em África faziam o mesmo contigo, mas já vieste para cá há quatro anos, vocês já falam bem o português, tu tens um emprego e a tua filha anda na escola. Não achas que podias abandonar esses costumes tribais e obscurantistas?
- Não é obscurantismo, é tradição, é herança, como eu venerar Niamié. Quando dormimos, a nossa alma pode fugir do corpo e por isso tapamos a boca. Se ela fugir para muito longe, pode não voltar e o corpo morre.
- Todos dormimos e todos sonhamos, e não é isso que atrai a morte. A tua filha tem onze anos, vais continuar a ir tapar a boca dela com um lenço até ela ser velhinha?
- Nunca me perguntaste isso, e a resposta é não. É só até ela ser mulher, aí, vai ficar isolada com Niamié durante dois meses e a sua alma vai ganhar lastro, e depois já não é preciso. A menos que ela adoeça com gravidade, aí tenho de tapar-lhe outra vez a boca, e colocar por perto odores desagradáveis ao nariz para que ela não se sinta tentada a partir para longe.
- Mas não achas que...
O discurso dele interrompeu-se quando ela premiu os lábios dela contra os seus, a cadeia de raciocínios desvaneceu-se com ela sentada no seu colo, a elevar a sua excitação. Beijaram-se e acariciaram-se num crescendo de sensações que atingiu os píncaros quando ela se fez penetrar pelo seu homem, cavalgando o seu pénis como uma amazona núbia.
Quando esgotou o seu ânimo, ela despediu-se dele com um beijo mesclado de sorrisos, e foi-se deitar. Ele seguiu-a, mas, antes de se enfiar nos lençóis, e quando ela já dormia, rumou ao quarto da enteada e desatou o nó do lenço na nuca. Deixou o lenço solto ao lado da cabeça, como se tivesse caído acidentalmente.
Na manhã seguinte, foi a mulher quem o acordou, chorava em silêncio.
- Niamié-Ama - disse ela - caiu o lenço à minha filha e ela viajou para longe, esteve muito longe e a sua respiração era gelada como a manhã lá fora.
Ele levantou-se de um salto, alarmado.
- Está viva?
- Sim, mas chora muito. Ela esteve em nossa casa, no que resta da nossa casa, viu tudo destruído, o milheiral a arder, os mortos pelo chão e na ravina do rio, eram dezenas, cheios de moscas, alguns decepados a golpes de catana.
Abraçou-a com força, sabia que ela não ia aceitar o que tinha para lhe dizer.
- Ela não viajou, foi uma recordação, ela sonhou outra vez com o massacre a que vocês as duas assistiram, escondidas no bojo de um imbondeiro. É normal que ela tenha pesadelos com isso, é apenas uma criança.
- Não, não é verdade, ela esteve lá outra vez e tocou no corpo do pai. Podes ver por ti mesmo, ela tem sangue nos dedos.


Conversa de refeitório

- Vou-te contar uma coisa, mas não digas a ninguém!
- Prometo!
- Em breve vou deixar de comer estas comidas sensaboronas que provocam problemas digestivos, também vou deixar de aturar o nosso chefe e de passar oito horas de ansiedade por dia, preso aos riscos do gráfico electrónico da máquina.
- Não me digas...
- Também não vou precisar de andar sempre na secção de pessoal a reclamar por cortes no ordenado e faltas inexistentes.
- Caramba! Arranjaste outro emprego ou saiu-te a sorte grande? Porque é que não estás aos saltos, de contente?
- Tenho leucemia!

Ninguém o enganava, era um PRO do Pão por Deus, sabia quem morava onde, o que dava e como davam. Na sua cabecinha de cabelos doirados, os seus trajectos estavam delineados previamente, e os outros miúdos iam-lhe à cola na condição de lhe confiarem uma parte dos seus proventos, mas iam em pequenos grupos faseados para não malbaratar a oferenda. Era um sempre a aviar. Rua da Consolação, Urbanização da Encosta, Bairro das Fontainhas, Bairro da Estrela, davam para a manhã, à tarde, se não chovesse, podiam completar o perímetro, que abrangia os bairros menos faustosos, mas de gente igualmente mãos-largas. Este prédio valia a pena, mas só os apartamentos sete e nove, nos outros não davam nada a não ser maçãs tocadas e ralhos parvos, na vivenda a seguir, como quem desce, era obrigatório, porque choviam para os sacos chocolates e pintarolas com fartura, por vezes, um carro barato da loja dos chineses, na vivenda de muro de hera, não valia a pena pararem, a menos que quisessem ficar grogues com uns copitos de água-pé, havia também as três vivendas para macacos, que só davam amendoins. Ele ia dando instruções aos mais próximos e os sequazes imitavam, não era preciso muito latim com eles porque o miúdo louro levava um pedaço de giz branco, com o qual gravava um certo ou um xis nos muros das vivendas ou nas paredes dos prédios. Com a hora do almoço a chegar, o miúdo louro pensou que ainda havia tempo para a vivenda da D. Genoveva, que era muito amiga de dar, beijos e lambarices. Ele e depois eles, chegaram-se ao portão do jardim, estava aberto e entraram em fila indiana, a D. Genoveva estava sentada na cadeira de espaldar do alpendre, com o galgo deitado aos pés. O galgo rosnou e afastou-se, mas a D. Genoveva não rosnou nem se mexeu. A mulher tinha-se finado na cadeira, com os olhos muito abertos e a boca aberta cheia de espuma de baba, os sacos de hipermercado pousados ao lado, com pequeninos sacos de plástico no seu interior com as ofertas para a rapaziada. Esta ficou a olhá-la, muito espantados. Alguns nunca tinham visto um morto, muito menos assim, morto como se dormisse uma sesta. O miúdo louro tomou a iniciativa, abriu os sacos grandes e distribuiu o conteúdo aos discípulos, que se iam retirando, um pouco confusos. O miúdo louro ficou para último. Não queria ovos de chocolate nem rebuçados, esvaziou a mulher de pulseiras, brincos e colares, e em seguida corrinhou para a rua mas, mal atingiu o passeio, lembrou-se de algo e voltou atrás. Meteu as mãos aos queixos da defunta e escancarou-os, retirando a sua dentadura postiça com as pontas dos dedos. Enxugou-a da baba, esfregando-a na relva, e meteu-a ao bolso. Ia ser-lhe preciosa para pregar um valente susto à irmã. Fez uma festa apressada na cabeça do cão tristonho, e saiu depressa dali, já com a barriga a dar horas.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...