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A mostrar mensagens de Novembro, 2008
«Não sou nenhum psicólogo encartado, mas para ser sincero, acho que tu entraste num processo de negação!».
«Não, não, e não! Nego isso também!».

"Deus não dorme" - condescende o céptico - "O medo que Ele tem de estar a ficar amnésico, provoca-Lhe insónias!".

Esquecido num milheiral, o espantalho ficou largado ao vento e à chuva de Inverno. O chapéu de palha caiu, à cabeleira de feno roeram-na os ratos, e o seu tronco partiu-se em dois como se um raio o tivesse atingido. Quase parecia uma urze ou uma oliveira-anã. Um pardal fez do seu casaco a sua casa, e com aquela ave no seu peito, o espantalho espantava o frio e ia recuperando o orgulho perdido.

Inflação

Os relógios para portão de cemitério estão pela hora da morte.

Estavam sentados os dois no piso de Restauração do Centro Comercial, a comer pizza quente. "Estou cansada da nossa relação" - desabafou ela - "acho que devemos dar um tempo". Ele saltou da cadeira como se tivesse sido impelido por uma mola, e saiu a correr pelo meio das mesas. Passados uns minutos, voltou com um sorriso nos lábios. Ela ainda estava sentada na mesma cadeira, e ele estende-lhe o relógio que foi comprar.

cilarca

Virando costas à chuva, encapelado sob a sua capa impermeável, mete as botas ao caminho, e vai à cata de cogumelos. Com o queixo encostado ao peito, evita que lhe escorra pela cara o pingo-pingo da orla do capuz. Sabe onde procurar, os lugares menos batidos e os solos mais gratos. Só colhe uma variedade de cogumelo, uns grandes, esbranquiçados, ainda que saiba distinguir sete ou oito espécies deles que não são tóxicas. Em pouco mais de uma hora, já encheu o saco, e enceta o regresso, evitando as poças de água e os bocados mais lamacentos do solo do pinhal. Quando está a chegar ao lugar onde deixou o carro, vê um outro colector, a apanhá-los na berma da estrada, parece saído dum filme do Senhor dos Anéis, capa de tecido grosseiro até aos pés, rosto enrugado com longas barbas, faces manchadas. Nota que o homem os colhe a esmo, mesmo os venenosos. Aproxima-se dele, com receio de que a ignorância dele tenha consequências funestas. - Esse é venenoso - Diz, apontando para um cogumelo que ele…
Gerir uma casa nocturna requer muita fibra e visão, sobretudo para escolher os empregados, os que fazem o serviço à porta, com mais caparro, e todos os outros, da manutenção, do bar, os protagonistas do entretenimento e os que ficam encarregues de guardar o dinheiro e cobrir as despesas. Marco tinha fibra e visão, mas também tinha as suas manias, todos os elementos da sua equipa o sabiam. Aos caloteiros, e os que armavam bronca, aos putos armados em espertos e aos que incorriam no seu desagrado, clientes ou empregados, ele gostava de lhes dar pessoalmente o correctivo. O alegado transgressor era escoltado até um anexo ao lado da garrafeira, onde o trancavam, e quando o movimento amainava, o big boss ia até lá e aliviava o stress, enterrando nele os seus punhos e a biqueira das botas pretas. Naturalmente, que o objecto dos seus mimos se encontrava manietado, ou imobilizado por um dos seus homens. Raras vezes saíam dali em bom estado, quando não levavam alguns ossos partidos para a urgê…
Um dos prazeres simples que ela não dispensava, era quando o seu namorado lhe fazia cafuné no cabelo. Encostava-se a ele como um bebé se deita no regaço da mãe, e ele fazia-lhe cafuné, os seus dedos passeavam-lhe pelos cabelos em dóceis torvelinhos, por vezes, separando apenas os cabelos e fazendo-os ondular entre os seus dedos, outras, imprimindo uma suave pressão na pele com as papilas dos dedos, passeando-as por toda a cabeça (delícia maior quando se demoravam nas têmporas). Era uma arte que ele havia desenvolvido com entrega e paixão, fazendo-lhe cafuné nos seus momentos de relaxamento com ela, ou, exercitando com a sua cabeleira quando os dois não podiam estar juntos.

Um instante de arrebatada alegria, de espasmo luminoso - as fotografias de grupo. Da escola, da excursão de finalistas, da viagem de estudo, de plêiades de casamentos e baptizados, do grupo de amigos ou colegas que participou num torneio de futebol, que desceu às grutas, que se mascarou, que desbundou.

Frias, tornam-se tristes, quase sinistras, o nosso reflexo parcelar num espelho estilhaçado, e quando as vemos há quase sempre alguém por perto para acordar os fantasmas, como um corvo a corvejar num cemitério.

Lembras-te deste, era o Chaves, namoriscou com a tua irmã e depois casou no estrangeiro antes de lhe acontecer aquilo, e aqui, a Laura, era metade do que é hoje, vi há dias o irmão dela, coitado, antes tivesse engordado, olha o Fancisco, tinha menos um ano que tu e...

Estás só, era bom não te lembrares que estás só.

...e a Rute, o que é feito dela? Sabias que me disseram que ela é lésbica? Não devias ficar tão chateado por ela ter saído de casa. Ao lado dela está um dos filhos do Sar…
Arrancamos com a nossa vida como se partíssemos para umas férias num lugar longínquo, e levamos as malas carregadas, de acessórios e de sonhos, de prosaicas utilidades e de quimeras indefinidas que envolvem, como uma crisálida, uma vaga e aquosa esperança. Temos bagagens que cheguem e que sobrem para a estadia, e julgamos que, com os dias, se irá aligeirar o peso que arrastamos connosco, na razão inversa da nossa felicidade e das alegrias que a viagem nos poderá proporcionar. Mas a viagem de volta é igual, estamos cansados e trazemos o mesmo peso, as nossas leituras de viagem estão esgotadas e não temos forças para mais uma fotografia, um sorriso ou uma laracha, as nossas roupas e haveres estão revolvidos e amarfanhados em sacos de supermercado, de modo semelhante às nossas ideias e sentimentos, que são como fatos velhos dobrados e calcados no fundo da bagagem, a ponto de nos esquecermos deles. É chegada a hora de regressar, arrumar e lavar as coisas, para descobrir o que trouxemos e r…

Criptozoologia

Os Criptólogos pertencem ao Reino animal, Classe dos Mamíferos, da Ordem dos Primatas, Família dos Hominídeos. Mas esta classificação é controversa, havendo quem defenda outras variantes, em função de estudos de natureza científica que pretendem agrupá-los na ordem dos Rodentia (Espécie Rattus Bibliothecus); ou Artiodactila (Espécie Taurus Marronus); ou na Ordem dos Perissodáctilos (Espécie C. Kaballistus).

Violência na Era da Cibernética.

- Levas um tabefe, que nem sabes a quantas andas! - Espere um pouco, deixe-me fazer um backup, não vá você danificar algum ficheiro.

Desde os seus quinze anos que deixou de ir a estádios de futebol. Cansou-se, das caneladas, do apito do árbitro, de ser rasteirado e rolar no piso de terra batida, enquanto os dois bêbedos da terra assobiavam com alegria, a gritar a plenos pulmões que ele andava a atirar-se para a piscina.

Inverso

O flic-flac, é um exercício de ginástica interdito à raça dos gigantes. Para não serem confundidos com moinhos, e sofrerem o ataque da raça de D. Quixote.

Uma dependência crescente foi unindo o papagaio vivaz ao seu dono, este pronunciava ou soletrava uma palavra, e ele repetia-a como um eco fiel, quase uma gravação. E isto com tudo, com um estalido da língua, o menear da cabeça, um bocejo arrastado, ou um praguejar extemporâneo. Essa repetição foi tornando os dois cada vez mais parecidos e eram até, mais parecidos do que alguém poderia imaginar. É que o dono, como um pássaro, também acabou por levantar voo, e o seu papagaio, ansioso por imitá-lo, agitou e esgarçou as asas dentro da gaiola, impedido que estava de alçar o seu voo desde o terraço do prédio.
Para iludir o frio, que o Inverno não dormia, entreteceu-se a compor cadências e poemas com o calor dentro, um catamarã sulcando as ondas entre as ilhas dos Maoris, a batida mítica e ritmada de um batuque africano, o sol do deserto na pele de uma iguana, a pele da amante de outros dias, que dormira entre os lençóis, aninhada junto ao seu peito. Entreteceu-se e entrecoseu-se, e o calor palpitava como as brasas, descosturando os fantoches dos medos. Liberta do frio, abandonou a cama de jornais onde dormia e dançou nua sobre a neve do parque.

Andava a recolher do chão folhas meio-amarelecidas, para as prensar dentro de livros e obter um Outono bidimensional. Absorto nesse mata-tempo, sentiu uma joaninha pousar-lhe no pulso. Repugnou-a a vermelhidão do insecto, aquela criatura-labareda queimava-lhe a vista. Fechou os olhos e esmagou-a com uma palmada e, sempre com os olhos fechados, pegou nos seus restos viscosos e juntou-a à colecção de folhas. Tudo desfalece e perde a cor, pensou, aquela joaninha seria uma evocação sépia de si mesma no momento em que secasse sobre uma folha no ventre de um livro. E ia visualisando o quadro, quando viu a passear diante dos seus olhos uma menina ruiva de vestido berrante de motivos florais e coloridos.

O novel pároco desaguara no Clube Recreativo da terra para uma partida de sueca, mas não encontrou parceiros, e ficou-se pelas paciências numa mesa de canto, salvo da monotonia por uma taça de conhaque. Foi nessa mesa que o farmacêutico o surpreendeu, sentando-se ao pé dele com ares de conspirador. - Gaivotas em terra...estás com alguma crise de vocação? - Não, infelizmente para ti. Vai um jogo? O outro aceitou, o clérigo baralhou e deu as cartas. - É a tua vez de jogares. Bateu uma carta no tampo da mesa. - Sabes que eu andava justamente à tua procura? Tive um sonho estranho a noite passada! - Jogue! - Estava a dormir e tive uma dor no peito, não sei se morri, mas senti-me como se tivesse tido uma experiência religiosa. - Logo tu, que sempre foste positivista e anti-clerical, que idolatra o Voltaire, e mofa do Padre Eterno como o Junqueiro. Deve ter sido o pior dos pesadelos! - Não, foi muito interessante, senti que estava a descolar-me do corpo, que saía de mim, mas não tinha uma alma somente…

Torneio

Com uma lâmina de barbear, e uma laçada de corda de nylon, e venenos, foi jogando com a morte.

Começou o primeiro jogo com uma mão cheia de trunfos, acabou o último a jogar à mão morta.

Biscate

O amigo recebeu-o junto à porta do apartamento. Pousou a mala de ferramentas e apertou-lhe a mão. «Preciso da tua ajuda para um trabalho que exige discrição e infinitos cuidados. Recorro a ti porque outros poderiam sentir-se tentados a comentar o que se passa cá dentro, e a última coisa de que preciso agora, é da curiosidade de vizinhos e estranhos». «Sê directo? Que trabalho?» «O meu apartamento é um pouco acanhado, tem pouco espaço para arrumação. Agora, mediante uma soma razoável, consegui alugar um espaço para arrumação nas águas-furtadas, e precisava da tua ajuda para levar para lá uma coisa...» «Mobília? Um piano?». «Não, a minha culpa!» «!?» «Acredita-me, pela amizade que me tens, acredita no que eu te digo, preciso que me ajudes a levar a minha culpa para as águas-furtadas. A princípio, ela era pequena e cabia em qualquer canto do apartamento, dentro de um roupeiro ou numa gaveta qualquer, mas, nos últimos tempos ela tem crescido de forma vertiginosa, e quase não me consigo mexer cá…
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De Henry Chinasky, aliás, Charles Bukowsky:
«Não sou um pensador. Cada mulher é diferente. Fundamentalmente, parecem ser uma combinação do melhor e do pior - ambas as coisas, mágicas e terríveis. Portanto, estou contente por elas existirem».«(...) As pessoas sem moral consideravam-se muitas vezes livres, mas sobretudo, eram incapazes do mínimo sentimento ou de amor. Por isso eram despreocupadas. Os mortos a foderem os mortos. Não havia nem risos nem amor nos seus jogos - era um cadáver a foder outro cadáver. As morais eram restritivas, mas enraizavam-se, mesmo na experiência humana de várias gerações. Algumas morais tendiam a manter as pessoas como escravas nas fábricas, nas igrejas, e levavam-nas a acreditar no Estado. Outras morais faziam mais sentido. Era como um jardim cheio de frutos envenenados e de frutos sãos. Tínhamos de saber quais devíamos colher e comer, e em quais não tocar».(Charles Bukowski, "Mulheres", tradução de Fernando Luís, Publicações Dom Quixote, 2001)

O tempo não nos chega

Andou ao acaso por entre as estantes, como se procurasse a saída do labirinto (o silêncio rugia à sua volta como o lamento surdo de um Minotauro).
«Precisa de ajuda?».
Uma funcionária, prestável e sorridente. Apertou entre as mãos o boné, e estendeu-lhe a mão.
«Bom dia, minha senhora. Deram-me agora o cartão da Biblioteca, eu não tinha coragem de pedir um cartão antes, é que eu tenho setenta e três anos, e só aprendi a ler há dois anos, com a ajuda do senhor meu pároco».
«E agora quer requisitar uns livros para ler, não é?».
«Sim, minha senhora, eu sempre gostei de ver programas de televisão sobre História, sempre tive vontade de ler, mas não sabia».
«E que temas lhe interessavam?».
«Muitos, a Arca da Aliança e o Templo de Salomão, a Revolução Francesa, os Maçons...».
«Venha comigo, vou separar alguns para o senhor escolher».
Ela guiou-o por entre o dédalo de livros até uma estante de topo. Puxando de uma carreta de livros, começou a empilhar sobre o tampo os livros que versavam os temas apont…

Entente Cordiale

À noite, o cunhado de Santiago ligou-lhe e confirmou as notícias que se esperavam. Estava tudo acertado, o contrato de trabalho no estrangeiro, e as datas estimadas. Daí a uma semana ele ia ter a casa de Santiago e partiam para Lisboa para apanharem o primeiro voo que houvesse. Uma semana! Santiago não queria trabalhar mais uma semana, precisava passar algum tempo com a família antes de mais uma aventura no estrangeiro, e por isso, estava decidido a iniciar de imediato as suas pequenas férias. Trabalhava como vendedor-distribuidor de uma Pastelaria. No fim da distribuição, foi aos pequenos escritórios, e pediu para falar com o gerente, um homem de setenta anos que o empregara quando ele voltara desasado de um contrato falhado em Itália. - Senhor Ramiro - começou de pronto - Vou-me embora, hoje foi o último dia que trabalhei aqui, faça as minhas contas que, amanhã ou depois, a minha mulher passa aqui para vir buscar o cheque. - Mas, Santiago, assim, de um momento para o outro? Há a volta…

Adaptação

Do que a Ministra da Educação faria se fosse o Pai Natal: - Entraria por todas as chaminés, para pôr uma pedra no sapatinho.

«Esta é a primeira vez que vocês, pais, se juntam, e é por uma boa causa, a festa de Natal dos vossos pequenos heróis». Ouvia, distraído, a voz da educadora de infância. Os pais todos, reunidos e pouco à-vontade. Não sentia especial curiosidade pelos outros, mas sentia que pelo menos metade deles se aplicava a estudar os presentes com afinco, examinava, julgava, classificava. Estavam todos sentados em roda nas cadeiras do ginásio improvisado, dito de outro modo, viam-se todos uns aos outros, era uma exposição de gente como a dos mercados de escravos, avaliava-se os corpos, as roupas, se os dentes tinham falhas, se existia alguma deformidade física. A educadora guiava-os pelos itens que lhes queria falar, as crianças iam fazer um teatrinho, não quereriam os pais seguir-lhes o exemplo, e cantarem uma canção ou actuarem numa pequena peça? Sentiu-se observado, intensamente observado. No outro lado da roda, um casal de mão dada. Ela observava-o, um rosto muito afilado, como se tivesse sido ap…
Eram gémeos siameses, e suscitaram a curiosidade geral; primeiro, sendo gémeos, até nem eram muito parecidos, depois, nem estavam juntos, soldados em nenhuma parte da cabeça ou dos membros, e nem mesmo andavam habitualmente pelas mesmas divisões da casa, porque os dois procuravam cultivar a distância entre si. Eram um caso insólito, e difícil de compreender, parecendo que só tinham vindo ao mundo para derreter os miolos dos investigadores. Gata que os pariu!!

Outras andanças

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A Comunidade Espiritual, um portal rico e diversificado onde principiei a participar com um ou outro artigo ou tópico, assinado com o nick de Sonhâmbulo. É uma experiência nova, como foi um dia a dos blogues, e as palavras custam a aparecer, mas espero conseguir melhorar, aprendendo com a prática e com os outros.

Encruzilhada

A mãe esperou que chegasse a sua vez. Depois da priminha e marido, do colega de Faculdade e namorada, foi a vez dela posar para a fotografia com o filho e a mulher, junto ao altar decorado com flores. Deu-lhe o braço, sorriu para o fotógrafo, uma, duas, três fotografias, e ela sussurrou para o filho. «Preciso de falar contigo, antes de irmos todos para o restaurante». Ele concordou, e não se esqueceu do recado. Quando a maratona fotográfica acabou, ele foi ter com a mãe.
«O que me querias?»
«Sabes, o teu pai, que já não vês há doze anos. Pedi-lhe que viesse cá hoje, para te desejar felicidades. Ele arranjou uma brecha no meio da sua vida no estrangeiro e das suas viagens constantes, e está lá atrás, no último banco da igreja!».
O seu rosto iluminou-se, olhou para o fundo da igreja, e reconheceu o pai pelas fotos de álbum, mais velho e de cabelos brancos e, naquele momento acenava-lhe de sorriso aberto, em pé, entre dois homens altos.
Correu até ele, e deram um abraço forte. O pai chorava …

Comuna

«Tens fêmea?». Perguntou-lhe Gisela, a nova colega de trabalho, na pausa para o café. «Não!», disse, sem entoação nem intenção. «Hoje vou contigo para tua casa. Se quiseres, posso lá ficar a noite!». Concordou. À saída, ela esperava-o. Sentou-se ao seu lado no carro e foi com ele. Mostrou-lhe o apartamento onde morava, e ela gostou, da cozinha moderna, da sala toda equipada, do elevador futurista do prédio e, sobretudo, da cama enorme com quatro por dois metros. Tiraram uma pizza do congelador, aqueceram-no no forno, e comeram-na, acompanhada com um garrafa de tinto que ela descobrira, cheia de pó, no vão das escadas. Ela tirava medidas à casa, planificava as coisas, estimava os espaços. Nessa noite, ela levou-o para a cama e fê-lo passar um bom bocado, tirando um pouco o cheiro a bolor do seu pénis. Na manhã seguinte, deitados preguiçosamente na cama, a comer o pequeno-almoço que ela havia preparado, ela expôs-lhe o seu drama pessoal. Tinha, na cidade, a irmã adulta e a mãe sem tecto…

Ligações preguiçosas

Raul e os amigos tinham poucas coisas em comum, os lugares onde trabalhavam, os interesses e afecções, ou as preferências e antipatias, tudo diferia; nem os clubes de futebol da sua simpatia, ou a fraternidade obtusa das respectivas filiações políticas, ofereciam matéria para longas conversas ou debates. O máximo denominador comum de todos eles, é que eram pessoas desenraizadas, sem laços, tinham família, pais, mulheres e filhos, mas fugiam a estar com ela. Encontravam-se ali todos os dias, na mesma mesa do mesmo bar, bebiam cervejas uma atrás da outra, fumavam, falavam ao acaso e nem sempre sobre as mesmas coisas, por vezes, escapuliam-se para as traseiras para enrolar e fumar um charro, e voltavam ali para mais umas cervejas, ou um uísque ocasional. Raul achava que era uma rotina estúpida, e dava consigo a pensar que não sabia o que continuava a fazer ali. Mas quando se despediam, às horas do fecho do bar, ele e os amigos usavam os mesmas expressões de sempre: - Até amanhã! - Amanhã…

Olhos

Nunca via o mesmo quando olhava pelas janelas da sua casa, através delas, de dentro para fora, tudo mudava em segundos, a cor das folhas, o voo dos pássaros, a aparente quietude dos edifícios de pedra, ela maravilhava-se com esta mutação contínua, por vezes, distinguia mesmo outras formas por entre as formas do mundo, pessoas que andavam em lugares improváveis, na vertical das paredes ou a uns palmos do chão, sombras vagas como de serpentes aladas, silhuetas de pirâmides ou pagodes a insinuarem-se sobre a linha dócil das colinas. Um dia viu-se a si mesma, ou o que parecia ser a sua imagem, com a saia roxa e a blusa de cetim, e o chapéu largo a espanejar sobre os seus cabelos soltos, viu-se a andar pelo jardim e sair pelo portão da rua, com uma mala na mão. Não sofreu nem sentiu receio. Tudo mudava em segundos, sentiu que estava a chegar a sua hora de partir, e viver de alguma forma no outro lado da janela.
Ela acordou de madrugada com o corpo dorido, dobrado e quebrado no assento do carro. Limpou os vidros embaciados com uma ponta da camisola presa entre o indicador e o pulso, e lembrou-se que tinha o carro estacionado junto ao hipermercado. Cheirava mal, a vómito e urina, inclinou-se e anichou a cabeça entre o volante e a porta e confirmou as suspeitas, mijara-se, ainda que não tivesse noção alguma das circunstâncias. Ao seu lado, o pastor evangélico ainda dormia, um polegar enfiado na boca como uma criança de colo e o crucifixo preso entre as pernas, pensou que aquilo devia ter alguma conotação freudiana, e sentiu vontade de lhe vomitar em cima, mas acabou por abrir a porta e vomitou antes na jante duma roda, logo, acocorou-se ao lado e mijou com gosto. Ficou melhor, apesar do fel na boca e da cabeça que lhe doía como se lhe tivessem aplicado um murro. Precisava de um banho, mas a sede era maior. Descobriu uma garrafa ao lado dos pedais, sem tampa, mas deitada, com um resto de precios…

O Fado

O Fado de Lisboa

O seu Fado, o seu destino, não tinha o enlevo dos acordes de uma guitarra, ou os versos inspirados de um boémio bêbedo. Tudo isso ficara para trás, na cave típica e enfumarada, onde ouvira fado e esbanjara dinheiro alegremente.
O seu Fado, esse, conheceu-o na viela escura, onde a amante de ocasião lhe cortou a jugular. Os fados na memória oclusa, fizeram as pedras da calçada chorar sangue.

O Fado de Coimbra

Desde rapaz novo que se habituara a resgatar vidas às águas do Mondego, e fizera disso a sua ocupação de vida como se seguisse um destino traçado do alto. Já ancião, continuava a atirar-se à água para tentar salvar os seus semelhantes, ou percorrer o rio no seu barco para recuperar da dissolução os corpos vencidos dos que se haviam afogado. Uma noite, durante umas cheias tumultuosas, o rio Mondego pareceu exigir em troca a sua própria vida, e arrastou-o nas águas revoltas como um tufo de erva. E foi então que alguém o salvou, nadando com energia e arrastando-o para a m…

Silêncio, que se vai contar o fado!

Telemiligrama Minguante nº 12 stop tema o fado stop sessenta e quatro fadistas em noites de arromba stop projecto-centopeia com muitas pernas para andar non-stop

Telegrama Uma palavra aos e-books editados pela Minguante, uma forma inovadora de dar espaço aos autores, e na qual tive a grata experiência de participar. Se lhe passou despercebido, ou não está actualizado, confira os autores: Luís Ene, Paulo Rodrigues Ferreira, Carlos Seabra, Fernando Gomes, myself, Ana Mello, Rita Tavares de Melo, Angela Schnoor, Edgar Borges, e Carla Ribeiro.


Romantic beliefs

O que existe de menos inefável em encontrarmos a nossa alma-gémea, é a pele dela ser fria ao tacto, como o vidro.

Cluedo

Morreu na Biblioteca, com o crânio esmagado por uma Bíblia do rei Jaime, uma edição monumental com capa dura com um alfa e um ómega em metal dourado.
O inspector não queria acreditar que a Bíblia pudesse ter mudado a vida daquele homem, e manteve a sua suspeita inicial de que ele havia sido mortalmente golpeado na cabeça por alguém com um relógio de ouro.

Dúvida metódica

A reabilitação dos teledependentes, é feita com abraços?

Comer a carne

- Pssst, onde é que ele está? - O seu pai está no quarto, já me perguntou o que está a fazer no lugar da poltrona, a caixa de fruta emborcada no chão. - O que é que disseste? - Que era uma homenagem dos rendeiros da herdade. - Essa foi de génio, mulher! Olha, eu e a mana vamos levar a cómoda Luís XVI. Ele não precisa dela, porque nem consegue dobrar uma camisola. - E a roupa? - Pomos em baixo da cama de rede, em cima do tapete persa...não...o tapete também é vendável, em cima dum lençol velho! Ouvem um barulho nas escadas e calam-se todos. Os irmãos encostam novamente a cómoda à parede, no instante em que o ancião entra, com a bengala na mão e vestido com o seu roupão felpudo, a barba grisalha por fazer. - Ah, são vocês, tão cedo! Ouvi vozes e vim ver. Os dois abraçaram-se a ele, estreitando-o emotivamente nos seus braços. O velho mantém o olhar cego perdido algures, e cochicha. - Queria mesmo falar com vocês, digam à Ana para sair. A mulher não precisou de instruções e saiu pelo próprio pé. - Es…
O indigente acordou enregelado, embrulhado nos cobertores retesados pelo frio. À sua volta desenrolava-se uma grande algazarra, um eclipse havia velado o Sol e as pessoas faziam barulho para afugentar o monstro que havia devorado o astro, pretendo assustá-lo com gritos e uivos, e com o som caótico e pavoroso de cornetas, pandeiretas, pratos metálicos, ferrinhos, bombos, e lãs roçagadas. O desgraçado juntou-se à festa com o bater dos dentes, marfim contra marfim. Quando a luz voltou a inundar o mundo, todos ficaram suspensos num silencioso êxtase religioso, apenas cortado por aquele sacrílego bater de dentes. Inspirados pela suspeita de que o monstro se havia refugiado naquele homem sujo, viraram contra ele as suas armas, e brindaram-no com panelas e pratos, cornetas e baquetas.

Não teve fama, mas teve glória, ou antes, Glória - quinze minutos de Glória, aqueles que demorou a conhecê-la no elevador.

Narrador e tema

De Italo Calvino:

«Em resumo: estava possesso daquela mania característica de quem conta histórias e que, a determinada altura, não sabe já se as mais belas são as verdadeiramente acontecidas e em relação às quais só o recordá-las é o suficiente para arrastar consigo um oceano de horas passadas, de sentimentos minuciosos, tédios, felicidade, incerteza, vanglória, náusea de si próprio, etc., ou as histórias inventadas, em que tudo pode acontecer segundo a vontade de cada um e todas as coisas aparecem fáceis. Mas depois constata-se que, por mais que se invente, já se está a falar novamente de coisas que aconteceram ou cuja compreensão existiu na realidade enquanto elas eram vividas.
Cosimo estava ainda na idade em que a ânsia de contar confere igualmente uma ânsia de viver, e se crê que não se viveu o suficiente para se poder contar tudo aquilo que se deseja
(...)».
("O Barão Trepador", c. 16, Editorial Teorema, Lisboa)
Não se inveja as pessoas cujo íntimo está repleto de mesuras e sentimentos gentis e fraternos, que dão mais valor à colorida flor do cacto do que ao próprio, que deslizam pelos dias como se este fosse um escorrega de geleia doce, e se socorrem de todos os ideais e princípios para desculpar e louvar os monstros que lhes castraram a vida. Não se inveja, porque não conseguiríamos vestir a pele delas, dado que a pele que nos cobre não é macia nem serve para ser tosquiada, porque aprendemos a usar a boca para beijar e rasgar com o mesmo empenho, e a apertar a mão do próximo com as garras recolhidas, mas presentes. Ressumamos em nós o desencanto, o nojo e a fúria - arestas, gumes, espinhos, aguilhões, que podem esfacelar e cortar, ferir e mutilar. O que nos dissocia do sociopata e do cínico empedernido, é que essas arestas vítreas, sob uma dada luz - de pessoas, valores, afectos - se comportam como os laminares cacos de vidro no interior de um caleidoscópio, transmutando os estímulos num ar…
Teve sempre medo das palavras, furtava-se ao seu encontro e escondia-se quando lhe saíam ao caminho, no face oculta de uma esquina, por detrás de uma pedra, duma moita, de uma pessoa, por detrás de si mesma, conseguiu viver uma soma considerável de anos neste lusco-fusco de semi-ocasos e breves eclipses, sem chocar ou sofrer com as palavras, mas sabia ser seu destino que não lhes podia fugir para sempre, e um dia apanhou-as pela frente, nuas e de face descoberta. As palavras corresponderam aos seus medos e terrores, e maltrataram-na com barbaridade, humilharam-na, despiram os seus atavios e guirlandas, esborrataram a maquilhagem dos seus pretextos e ficções. A partir desse dia, perdeu o medo das palavras, mas passou a viver obrigada por estas, a coabitar com a verdade.

Era uma vez...

...um homem que partiu da sua terra para procurar exílio noutra terra sob um outro céu, e não sabia a qual deveria permanecer fiel, se àquela em que nascera e onde as suas raízes latejavam ao som de uma língua diferente e de músicas de uma outra existência, ou à que lhe deu guarida, oficiosa e oficial, a terra que pisava todos os dias, procurando conhecer o ritmo das suas marés minerais.

Era uma vez um homem exilado e dividido, que refugiou todas as partes de si na pátria íntima do amor de uma mulher.

OR

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(img)Atirou a caneta para um canto do tampo da secretária, e levantou-se. Foi espreitar a mulher. Estava sentada aos pés da cama da filha, que dormia, deitada de lado, com um lenço perfurado a velar-lhe a boca. Ela sentiu a sua presença e reuniu-se a ele no corredor.Voltou à secretária, tentando trabalhar mais um pouco. A mulher sentou-se ao de leve no tampo, e fez-lhe uma afago no ombro, sentia a tensão no seu silêncio.
- Não gosto de ver, faz-me impressão, qualquer dia a tua filha sufoca, além do mais, não é salutar, o lenço está carregado de germes, do ar viciado que lhe sai dos pulmões.
Ela já estava a prever, não era a primeira vez que ele tocava no assunto. Esperava que o seu protesto se desvanecesse como de outras vezes, mas hoje ele estava insatisfeito e rezinga, e não baixou a guarda.
- Eu compreendo que foi assim que foste criada, que lá em África faziam o mesmo contigo, mas já vieste para cá há quatro anos, vocês já falam bem o português, tu tens um emprego e a tua filha anda …

Conversa de refeitório

- Vou-te contar uma coisa, mas não digas a ninguém! - Prometo! - Em breve vou deixar de comer estas comidas sensaboronas que provocam problemas digestivos, também vou deixar de aturar o nosso chefe e de passar oito horas de ansiedade por dia, preso aos riscos do gráfico electrónico da máquina. - Não me digas... - Também não vou precisar de andar sempre na secção de pessoal a reclamar por cortes no ordenado e faltas inexistentes. - Caramba! Arranjaste outro emprego ou saiu-te a sorte grande? Porque é que não estás aos saltos, de contente? - Tenho leucemia!

Ninguém o enganava, era um PRO do Pão por Deus, sabia quem morava onde, o que dava e como davam. Na sua cabecinha de cabelos doirados, os seus trajectos estavam delineados previamente, e os outros miúdos iam-lhe à cola na condição de lhe confiarem uma parte dos seus proventos, mas iam em pequenos grupos faseados para não malbaratar a oferenda. Era um sempre a aviar. Rua da Consolação, Urbanização da Encosta, Bairro das Fontainhas, Bairro da Estrela, davam para a manhã, à tarde, se não chovesse, podiam completar o perímetro, que abrangia os bairros menos faustosos, mas de gente igualmente mãos-largas. Este prédio valia a pena, mas só os apartamentos sete e nove, nos outros não davam nada a não ser maçãs tocadas e ralhos parvos, na vivenda a seguir, como quem desce, era obrigatório, porque choviam para os sacos chocolates e pintarolas com fartura, por vezes, um carro barato da loja dos chineses, na vivenda de muro de hera, não valia a pena pararem, a menos que quisessem ficar grogues co…