Quase oitenta anos, e tinha o corpo feito num oito. Uma bacia fracturada por duas ocasiões e a coluna vertebral afeiçoada em feitio de meia-lua como se alguém lhe tivesse dado uma marretada com força nas costelas do lado direito. Deslocava-se numa cadeira de rodas, mas por vezes, com grande esforço e urros de dor, conseguia aguentar-se num par de canadianas, com as quais se arrastava pela aldeia onde morava, para ver os amigos. Um sobrinho seu, que fora em tempos chofer de praça, levava-o duas vezes por mês a um endireita na zona de Minde, que o punha a calores no aparelho de infra-vermelhos, e depois lhe dava uns puxões às pernas e violentas pancadas na bacia, que o faziam sentir um pouco melhor nas horas seguintes. No dia seguinte estava na mesma, mas com ganas de voltar ao tratamento benfazejo.
Nas suas viagens a Minde para não-endireitar os ossos, passava por muitos lugares e lugarejos, e a maior satisfação que tinha era cruzar-se com algum cortejo fúnebre. Pedia logo ao sobrinho para parar o carro, e fazia corpo com as pessoas que acompanhavam o morto ao cemitério. Ficava lá até ao fim, assistia ao pranto, à oração, à descida do féretro e as despedidas na despedida. Quando voltava para o carro, cheio de energia e quase correndo apoiado nas canadianas, o sobrinho já sabia o que ele ia dizer:
- Se calhar até era novo, e mais direito que o meu cajado, mas também este foi primeiro que eu.

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