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Por amor

Quando a camioneta chegou à cidade, ainda tinha setenta e cinco minutos até à hora de bulir. Fica um pouco na Garagem a aspirar o fumo das camionetas e dos cigarros. Os cigarros sabem-lhe mal, comprou um pacote ao Teixeira porque estava a metade do preço, era de contrabando, dizia o colega, se o era, não sabia, mas sabiam mal, deviam ter apanhado água, cheiravam a mofo e a palha podre. A Dora também lá estava, a fazer tempo para ir para a Escola, muito loura e vestida de branco, parecia uma noiva em casamento de bairro social. Mas a Dora não lhe dava bola, tinha a varejar à sua volta os tinhosos atléticos de ténis de marca e camisolas de equipas da NBA. Despede-se dela com dois beijinhos, como se os dois tivessem alguma coisa marcada para mais tarde, e anda pelas ruas ao calhas, com o saco do almoço a tiracolo. Está ensonado e pára no café ao pé da loja, já lá está o Bijeu, o seu colega polivalente. É um castiço, vai sempre ali para o mata-bicho, palavra que adoptou dos retornados, e o seu mata-bicho é mesmo terminal - dois copos de aguardente seguidos. O mata-bicho não fica por ali, depois da aguardente, come uma cebola como se fosse uma maçã, e fica com um hálito incendiário para o resto do dia.
Bebe um café, mal tirado e cheio de borras, apetecia-lhe comer algum bolo, mas sabe que não tem muito dinheiro, e fica à conversa com dois clientes até a loja abrir. Ainda a bocejar, apresenta-se ao chefe. Vais para o armazém, ordena ele, arrumar a tinta. Aquiesce, reduzido à sua insignificância, mas satisfeito interiormente. Ali podia estar sossegado, a trabalhar a prestações o resto do dia. Dentro do armazém, no outro lado da rua, consegue controlar a loja e antecipar a chegada do chefe ou dalgum dos patrões. É uma casa velha com um corredor com tulhas e estantes a unir duas divisões para arrumos. Com as luvas calçadas, vai desarrumando e arrumando baldes de tinta até lhe arranjarem outra tarefa. Os caixeiros da loja pactuam no jogo
- O teu chefe já cá veio hoje?.
- Ontem - responde - é melhor não venderes corrente zincada de um oitavo a três quartos, o gajo deve ter lá mijado ontem
- Porra, era mesmo essa que o cliente queria. Vou dizer ao tipo que só temos em ferro ferrugento, se ele quiser, encantado da vida. Obrigado, puto!.
O chefe está velho e já não aguenta o mijo, quando lhe dá vontade, é onde calha. Quase à hora de almoço, o Arlindo vem á sua procura.
- Sabes, pá, a minha mãe diz que já não me dá mais mesada, porque agora trabalho aqui e não devia precisar que me sustentassem! Quero que me arranjes um coelho para lhe pregar um susto, para ela ver como elas mordem.
Ele concorda, e promete que lhe embrulha um coelho para ele levar para casa. Na divisão do fundo, é onde andam os coelhos, ratazanas enormes como coelhos, que vêm pelos esgotos do restaurante ao lado, para roer o sebo em barra, mas abocanham engodos de carne com veneno e bucham e estrebucham até morrer no meio do sebo e das latas de creolina. Um dos seus trabalhos como aprendiz, é enfiá-las numa caixa de cartão e juntá-la ao lixo do contentor. Galga à prateleira do sebo e lá está uma, estendida de lado como se estivesse a apanhar sol na praia. Coisa nojenta. Menos mal, não tresanda. Com um pau, puxa a bicha até à boca da caixa de cartão, até ouvir o baque surdo do corpo no fundo da caixa. Cruza as abas da caixa e deposita-a ao pé da porta, mas já lá está o Arlindo, pediu para sair mais cedo porque quer chegar a casa antes da mãe e atar a ratazana com um cordão ao fecho do portão da garagem, é daqueles com automatismo, que se levantam, explica o Arlindo, ela fica no carro à espera que o portão abra todo e, quando isso acontece, tem este coelho pendurado diante dos olhos - «A cabra hoje nem almoça» - casquina o Arlindo, sumindo no passeio com a caixa debaixo do braço. Ficou à porta a contemplar a rua, descuidado, quando é surpreendido pelo patrão, que o olha de alto a baixo, como a um mendigo à porta do castelo, o seu olhar endurece e as asas das narinas agitam-se, sorvendo e expelindo ar com força.
- Não tem que fazer? - troveja, e ele gagueja em resposta, que está a arrumar a tinta, e a loja a fechar, azar do caraças - «À tarde, vai aprender ao balcão!» - ordena.
Aquiesce, não pode fazer mais nada, acabou-se a vida boa. Vai almoçar, mas quase não consegue tragar nada, tem o estômago embrulhado. Trabalhar ao balcão, atender pessoas, que raio de sorte, pensa consigo, e pensa muito até à hora de entrar ao serviço, tanto que até lhe dói a cachimónia. O patrão está à sua espera na porta da loja, e encaminha-o para o balcão. Os caixeiros veteranos acolhem-no e toda a santa tarde fazem dele, moço de recados, vai aviar quilos de massa de vidro e ocre e corrente, e a mandos, vai ao café buscar uma bifana, ao quiosque comprar o Record, à Foto Paris levantar um rolo. Na primeira vez que há um cliente isolado ao balcão, um deles empurra-o para o balcão.
- O que deseja? - pergunta, a medo.
- Parafusos auto-roscantes para fixar um perfil com meia polegada - pede o cliente, ele olha em volta em busca de ajuda - Não sabe o que são? Auto-roscantes? Parafusos picha-de-porco? Hei, pessoal, o balcão não é sítio para desmamar crianças, mandem-no para a tropa! - Grita à sua frente o cliente, com a boca desdentada.
Ele encolhe-se e enrosca-se, com todos os olhares fixos nele, e o encarregado manda-o chamar. Interrompe a conferência de guias de remessa e estuda-o como se o visse pela primeira vez, os óculos muito graduados apoiados na ponta do nariz.
- Meu rapaz - discursa, muito calmo - são precisos anos de rodagem para uma pessoa se tornar um caixeiro mais-ou-menos, e nem todos nascem para isto, o comércio não é uma profissão, é um sacerdócio como a medicina ou o ensino, não tenhas pressa e acabas por descobrir se nasceste para isto ou se estavas melhor a polir esquinas na aldeia de onde vieste - Baixou a voz, em confidência e adiantou - Também é verdade que há aqui tipos que eram capazes de ser caixeiros durante cem anos, e não melhorarem em nada. Percebeste, rapaz?
- Sim, senhor!
- De hoje em diante, cumpres tarefas para os teus amos e senhores, e só encostas o umbigo a um balcão se eu te der ordens!
- Sim, senhor!
- Agora vai ter com o senhor Eduardo, e vê se ele tem trabalhos para ti!
- Sim, senhor, obrigado, senhor!
Procurou o senhor Eduardo, ainda nervoso e com as orelhas quentes.
- O senhor encarregado mandou-me ter consigo.
O senhor Eduardo sorri, francamente divertido.
- Se queres ganhar uns cobres, vieste ter com a pessoa certa, sobretudo se aprenderes coisas simples, como fixar um varão de cortinado ou substituir umas dobradiças ou um puxador de porta. Quando os nossos clientes mais leais pedem, nós mandamos os marçanos executar essas tarefas, se for na hora de trabalho, paga o patrão, se for depois, paga-te Deus e tu afias o dente com as gorjetas...ora deixa cá ver, instalar resguardo de polibã, não, é muito complexo para ti, envernizar cadeira...humm, não sei...
Tocou o telefone, o senhor Eduardo atende, devia ser fêmea, já lhe tinham dito, sempre que fala com uma dona, o senhor Eduardo coça as costas da mão na pêra à Robin dos Bosques.
- Não me diga...logo a senhora precisa de alguém para instalar o abajur que nos comprou...pois...esta juventude...não...não...tenho a pessoa indicada para si, estava no armazém e agora está na loja, ainda hoje chegou e já levou uma tareia verbal dum cliente, mas recomendo-o vivamente...além do mais, é o único que temos disponível...sim...fechamos às seis e ele fica á sua disposição...não, não tem de agradecer, é sempre um prazer poder ser-lhe útil.
Pousa o telefone.
- Ás seis horas, uma senhora espera-te à porta da loja. A que horas tens camioneta para a terrinha.
- A última é às oito e meia, mas esperava ir na das sete, que é quando vai a Dora, uma amiga.
- Fica combinado, seis horas, montas o abajur e a dona do abajur, e ainda recebes uma gorjeta.
Riram-se os dois, um riso tácito, a soar a falso. Ele não queria horas extras e o senhor Eduardo devia ter aquela mulher na mira, tinha-as a quase todas, pelo menos, gabava-se disso, as mulheres do planeta inteiro eram como árvores marcadas da floresta de Sherwood.
Passou o resto da tarde a desempenhar pequenas tarefas sujas a mando dos seus mestres, contrariado e desgostoso da vida e, ás seis horas, mal saiu á porta da loja, viu logo quem era a mulher. Jovem ainda, trinta e pouco, quarenta, vestia-se bem, como uma senhora da sociedade, gostou da sua saia justa e do modo espontâneo como lhe estendeu a mão para o cumprimentar. Seguiu-a até ao carro, escurecia, ela abriu-lhe a bagageira para ele depositar a pequena mala de ferramentas da loja, e quando se sentou ao seu lado, já ela pusera o carro a trabalhar. Parecia impaciente, conduziu o carro, velozmente mas com segurança, pelas ruas da cidade, ele encontrou encanto em admirar o correr dos néons pelos seus joelhos descobertos e pelo recorte do peito. Menos de um quarto de hora depois, já tinham abandonado o emaranhado de prédios indistintos e moviam-se nas ruas ordenadas de um bairro residencial com jardins de árvores e gradeamentos altos.
- É aqui! - exclamou a cliente, estacionando o carro diante duma vivenda.
Retirou a mala de ferramentas e seguiu-a pelo portão do jardim, impaciente para se ver livre daquilo, talvez ainda desse para ir na camioneta das sete e tentar sentar-se ao lado da Dora de cabelos dourados...
- Bebe alguma coisa? Uma cerveja ou um chá para os nervos?
Recusou, agradecendo, e lembrou-se, não lhe ocorreu porquê, do mata-bicho do Biseu. Ela abriu a porta da frente, rodando com força a chave da fechadura de trancas, e chegou-se para o lado. Quando entrou, o Biseu, a Dora e a camioneta das sete, voaram para o espaço. No hall de entrada só havia uma cadeira, e o Arlindo estava sentado nela, amarrado ao espaldar, e com a ratazana morta cingida ao peito por um lenço ou xaile. Arlindo olhava o tecto e baixou o olhar para ele, tinha os olhos arroxeados pelo choro. Aparvalhado, olhou repetidamente para um e para outro, e só então estabeleceu a ligação entre os dois.
A cliente colocou-se por trás da cadeira onde estava o filho e arrastou-a um pouco para o lado. Depois desapareceu por uma porta e voltou com um banco metálico e um abajur com motivos florais. Arlindo voltara a fixar o olhar no tecto sem dizer palavra, as lágrimas corriam-lhe pla cara.
- Eu própria punha o abajur, mas dá-me tonturas estar em cima de um banco.
Acendeu a luz do candeeiro do móvel da entrada e desligou a do tecto. Ele subiu para o banco, desenroscou a lâmpada quente com a ajuda de um lenço, fixou o abajur com a porca inferior, e recolocou a lâmpada. Ela acendeu a luz com um gritinho de puro deleite, e deu-lhe um abraço de fugida quando ele voltou á terra.
- Estou-lhe muito agradecida. Não quer mesmo beber nada, ou comer? Tenho aí muita comida, o meu filho não comeu nada de jeito, já não está habituado a que lhe dê o almoço á boca.
Recusou uma vez mais, evitando olhar para o colega. Aquilo parecia uma armadilha, e se não tivesse cuidado, aquela doida ainda os matava aos dois.
- Se me pudesse deixar na cidade, eu tentava apanhar a camioneta das sete.
- Com certeza, vamos lá. Vê se descansas, meu filho, a mãe não demora, está bem?
A cliente acompanhou-o ao portão, abriu-o e afastou-se de novo para o lado para lhe dar passagem. Quando ele se viu no passeio, ela fechou o portão com estrondo nas suas costas, deixando-o sozinho, debaixo do halo do candeeiro da rua. Quando se refez do inesperado da situação, iniciou o regresso á cidade.
«Que gand'a porra! - exclamou - nem ás oito e meia lá estou».

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