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Pão-nosso-de-cada-dia

Quando deixei de estudar, não que estudasse muito, os meus pais arranjaram-me um emprego na pequena padaria da terra. A princípio, não gostei, porque era de noite, e sentia-me um desterrado no trabalho, às horas em que os meus amigos passeavam e se divertiam, mas a pouco e pouco, ganhei gosto pelo que fazia. O trabalho não matava ninguém, e havia sempre uma ou duas pausas, enquanto as massas levedavam, que dava para descansarmos, espojados em cima dos sacos de farinha, a conversar sobre o que calhava. E depois havia os petiscos, pão com chouriço, broa de milho com sardinha, com bacon, com torresmos. Aquilo saía do forno do pão a frigir com os molhos do que metíamos lá dentro, e já nós, com as mãos escaldadiças, partíamos em nacos e comíamos com vontade, a queimar os lábios mas a saber que nem ginjas. Por vezes, também acompanhávamos os petiscos com uma bebida, uma garrafa de vinho do Porto ou de ginja, que se mantinha escondida por trás das paletes com farinha, e da qual se bebia por copos de plástico que lavávamos de seguida e se emborcava no gargalo da garrafa clandestina. Os colegas também não eram maus tipos, tirando o forneiro, que tinha muito mau génio e ralhava por qualquer coisa, esse era mesmo uma peça, o pessoal falava da inflação, dalgum jogo de futebol, dum naufrágio, do mau tempo em França, e logo ele, surdo e desconfiado, repetia com um estribilho de papagaio: "Tá tudo na Bíblia! Tá tudo na Bíblia!". Ninguém o contradizia, mas também não lhe davam corda, mas, quando se falava em mulheres, em freguesas jeitosas, e ele se apercebia disso, a sua conversa mudava, para outro disco riscado, contando como se ninguém soubesse que, uma vez, em moço, quando andara embarcado, dormira com duas mulheres ao mesmo tempo, o que para ele era um grande orgulho e um hino à sua virilidade; e logo eu, rapaz, impregnado de malícia, cochichava para os outros: «elas ressonavam enquanto ele, apalpando as mamas delas, cacarejava: "Tá tudo na Bíblia! Tá tudo na Bíblia!"».
De todos os colegas que conheci naquele trabalho, a minha amizade recaiu, naturalmente, para o Zé Mauro, porque os dois tínhamos idades muito próximas, e já nos conhecíamos de outras paragens. O Zé Mauro era da terra, nascera na aldeia e sempre por ali ficara, ao contrário de mim, que andei aos tombos de terra em terra antes de ali fixar residência. Eram outros tempos, mais fechados e sem oportunidades de maior, a mãe do Zé Mauro trabalhava há trinta anos numa quinta, e o filho sempre a acompanhara, ganhando uns cobres nas férias da escola a apanhar fruta ou a guardar ovelhas, a primeira vez que o Zé Mauro saiu do concelho já tinha doze anos, e acompanhou a mãe a Lisboa para uma consulta médica. Foram de comboio, acompanhados de um primo da sua idade e, chegados a Lisboa, a mãe foi de táxi para o tal consultório médico, e o Zé Mauro e o primo preferiram ficar na estação do Rossio, a subir e descer nas escadas rolantes durante horas, de tão maravilhados que estavam, porque nunca tinham visto semelhante prodígio.
Com o tempo, o Zé Mauro evoluiu, e ele próprio contava com gosto aquele episódio das escadas rolantes. Estivera quase um ano como jardineiro pela Câmara da Nazaré e outro tanto num emprego a termo certo na Marinha Grande, e em seguida, tentara a sorte nos cargueiros, e na esperança de um futuro melhor, experimentou ainda andar nos barcos de pesca, mas depois de chegar ao porto de Peniche num galeão nazareno derreado e semi-inundado de água, desistiu de aventuras e neptunices e voltou à aldeia que o vira nascer, e segurou aquela vaga de ajudante de padeiro. Não se ganhava muito, mas era sólido, e, uma vez que não pensava em casar-se ou ter filhos, o emprego correspondia ao que precisava. Vivia na casa da mãe, e o salário caía inteirinho nas suas despesas e gastos pessoais, quase todos de roupa, tabaco e saídas ao fim-de-semana.
O Zé Mauro conhecia toda a gente ali, sabia quem eram as pessoas, onde viviam e quando lá estavam. Por esse motivo, era ele quem fazia surtidas à noite, para ir roubar fruta. Quando entrei para a padaria, tornei-me o seu valido. Saímos nas pausas nocturnas, com sacos, e rapinávamos fruta, íamos como estávamos, de roupas brancas como a cal, ou com um casaco por cima da bata se a friagem era muita. Quando saíamos pela porta traseira da padaria, o Zé Mauro já sabia de antemão qual era o alvo, certo pomar carregado que ele topara durante o dia, ou as árvores de fruto dum quintal que não tinha cão ou, nem sequer, lá tinha os donos a viver. A dieta era variada - maçãs, peras, alperces, diospiros, ameixas, damascos, nêsperas. Dois sacos cheios de fruta davam-nos para uma semana, semana e pouco, e esvaziava-se depressa porque todos, os nossos patrões inclusive, debicavam dela sem pudor. Por vezes, a fruta sabia-nos melhor do que o habitual, e exagerávamos um pouco no consumo, obtendo, em resultado, monumentais caganeiras.
Já o acompanhava nessas incursões nocturnas há mais de um ano, quando eu e o Zé Mauro apanhamos um susto enorme. Aconteceu-nos durante uma expedição a um pomar na berma da estrada para a Quinta. O dia estava quase a raiar e estávamos a apanhar fruta a esmo, quando ouvimos um remexer de canas perto de nós, e logo, sem aviso, começaram a chover pedras à nossa volta, enquanto uma voz esganiçada uivava: "Meus malandros, a roubar fruta, meus sacanas!" - desatamos os dois a correr com os sacos mal-seguros por uma alça a libertar o conteúdo pelo caminho, e só paramos dentro da padaria, a arfar e cheios de remorsos. Não devíamos ter levado as batas! - dizíamos um para o outro - Assim já devem saber quem nós somos! Estúpidos! Ainda somos despedidos por causa de um saco de peras! - O Zé Mauro já rezava que o melhor que havia a fazer, era embarcar outra vez, e andamos naquela agonia durante uma hora, até nos baterem à porta de serviço da padaria. Era a mãe do Zé Mauro, antes de ir para a Quinta tinha ido ao fontanário buscar um jarricão de água, e fora ela quem nos surpreendera no pomar, as suas palavras mal se percebiam no meio das gargalhadas, e os olhos choravam-lhe de tanto rir. E nós dois, entrunfados e com a burra amarrada, mas mais aliviados do que se nos tivessem tirado de cima uma pilha de sacos de farinha.
Passado o susto, retomamos a nossa rotina habitual, o trabalho durante a noite, amenizado pelos acepipes e pelo copito de vinho ou licor, e, pela manhã, as tarefas de limpeza ou arrumação, antes de saírmos para o dia acabado de nascer, á procura do leito acolhedor. Andei uns tempos a ajudar na distribuição, depois, encarregaram-me de acondicionar o pão nas prateleiras e tulhas da padaria. Foi numa dessas manhãs a arrumar pão por trás do balcão, que ouvi algo que me sobressaltou. A Guilhermina, uma senhora muito velha e de aspecto desleixado e sujo, queixava-se à patroa que às vezes, ouvia muito barulho à noite, e, na noite anterior, em particular, ganhara coragem e fora à janela, e vira um vulto branco a andar em cima do muro alto. Esgueirei-me para o interior da padaria, e contei-o ao Zé Mauro, que raspava a massa seca de uma tendeira. Ele ergueu os olhos com olheiras, e pensou um pouco. A Guilhermina morava por trás da rua da padaria, na segunda rua paralela a ela e, realmente, nessa noite, nós dois tínhamos ido ao quintal dos Azevedos, que estavam a passar férias na casa do Baleal, e a casa dela era mesmo ao lado. Tínhamos de ter mais cuidado, aquela velha com insónias podia estragar-nos o esquema. Não voltamos a falar no assunto, também, ninguém ligava ao que a Guilhermina dizia, porque tinha fama de ser um pouco tonta, já que falava sozinha para as sombras e tinha a mania que os animais eram almas reencarnadas.
Duas semanas depois desse aviso, as reservas de fruta estavam no fim, pelo que lá tivemos de ir outra vez
à procura de mais. O Zé Mauro estava decidido, o melhor sítio era a casa dos Azevedos, a família continuava a banhos no Baleal, e as árvores de fruto estavam marrecas, de tão carregadas. Só lhes fazia bem que as aliviássemos de algum peso. Levamos os sacos e, num instante, estávamos posicionados junto ao muro do quintal. No mesmo sítio da outra noite, empilhamos os dois tijolos que lá haviam sido deixados, e elevamo-nos para a garupa do muro. Saltei lá para dentro, mas o Zé Mauro continuou sentado no muro. Chamei-o uma e outra vez, mas não me deu resposta. Subi para o banco de jardim que estava encostado ao muro e voltei para junto dele. Perguntei-lhe o que se passava, mas nada, perdera o pio, e tinha o olhar fixo em frente. Segui a direcção do seu olhar e entendi tudo. Os Azevedos tinham construído um grelhador em tijoleira e ferro no quintal, com a chaminé adossada ao muro da vizinha, para o que tiveram de levantar o muro uns bons dois metros dos dois lados da chaminé. Donde estavámos, mesmo que por erro de cálculo, tivéssemos estado, na vez anterior, um ou dois metros mais ao lado, não se avistava nem uma franja da casa da Guilhermina, muito menos, a janela de onde ela avistara o vulto branco sobre o muro. Fora na mesma noite, mas não éramos nós. Num convénio silencioso, os dois voltamos à padaria, de mãos a abanar. Não posso falar pelo Zé Mauro, que continuava sem fala, mas eu estava mesmo a precisar de um ou dois cálices de Porto, porque a noite gelara de repente.


(Mudança de via, mais suave)

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...