INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página
O professor Correia, ou sotôr, na boca dos discentes, possuía uma cultura variada e volumosa. Depois de muito ver mundo e correr seca e meca para encontrar os lugares e as pessoas que já conhecia em texto de letra, converteu-se num crítico atento e severo de tudo o que o rodeava. Uma gralha num jornal ou num livro não passava incólume, e sentia-se na obrigação de escrever aos editores ou autores para que fosse corrigida, ou evitada numa próxima edição, e reservava os mesmos mimos às citações falsas ou deturpadas, as inexactidões dos factos tratados ou o mau português de letreiros comerciais como os vendessse casa ou procoro novo dono.

Não seria de estranhar que, passando umas férias repousadas na Beira Alta, a adrenalina tivesse incendiado o seu intelecto ao contemplar um escandaloso letreiro de informação turística: Dólman da Palha - a 3 quilómetros. Dólman? Que absurdo! Dólmen! Dólmen! Monumento megalítico, dólmen ou anta. Isto não vai ficar assim, resmungou para os seus botões. Tirou uma fotografia ao letreiro e foi à procura do dólmen, três quilómetros em terreno pedregoso a redigir mentalmente os termos e as frases do que seria um artigo de jornal ou, ainda melhor, uma exposição enérgica ao IPPAR.

Exmos Senhores...saudações cordiais...dirijo-me a vossas excelências para vos denunciar um caso de imprópria e absurda referenciação das nossas riquezas arqueológicas e patrimoniais...

Pré-escreveu tudo o que iria escrever no teclado do seu portátil, e até se imaginou a rubricar o exemplar impresso. Três quilómetros? Já os devia ter percorrido. Parou no cimo de um montinho e olhou em redor, e descobriu-o, ao dólman - um espantalho numa pequena seara de milho vestido com umas calças velhas e um casaco justo e curto, o próprio dólman. Tinha sido enchido com palha, e uma pena de pomba na cabeça evocava a pluma no chapéu dos hussardos. Sentou-se no pequeno monte a descansar, e tirou uma foto ao espantalho, pelo pitoresco da imagem, enquanto o seu espírito premia o delete na carta.

Repousado o corpo e sentindo mais tolerância pelo universo, encetou o caminho de volta, deixando para trás o monte onde descansara, monte que, aliás, não era bem um monte, mas uma colina artificial, uma mamoa, que cobria a câmara e o corredor de um dólmen megalítico.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...