INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Num outro plano

O mundo está cheio de espíritos simples que se reputam de tolos, a quem não se dá o devido valor, e que, para seu infortúnio, acabam num Lar qualquer, depois de morrer ou desistir deles, quem os protege e alimenta. A dona Suca era uma dessas pessoas bondosas, que tomou à sua guarda o neto, que o próprio filho queria pôr numa instituição. O neto parecia e era uma pessoa normal, só que, desde miúdo, mostrara ser a criatura mais desprendida do mundo, passava horas a olhar uma espiga de erva a ondular na brisa ou à espera que caísse uma folha duma oliveira, com ele dávamo-nos conta de que o tempo não tinha medida, e os fenómenos não precisavam de leis, porque já existiam antes de nos pormos a pensar sobre eles. Discorria e cogitava sobre qualquer assunto, mas acabou por desistir da escola, por problemas de adaptação mas também por a avó achar que a escola só iria amputar o seu espírito livre.
Como a dona Suca e o neto viviam numa casa velha numa rua estreita que convergia para a marginal, era comum encontrar os dois na praia da Nazaré quando ia passear o meu cão, ela sentada numa cadeira de pano com um chapéu de aba larga na cabeça e um xaile sobre as pernas, e ele, despreocupado e feliz, a percorrer o areal. Cumprimentei a anciã, que conhecia bem porque eu era o seu médico, e prendi a trela do meu cão ao mastro duma bandeira de praia e tentei abordá-lo - caminhava com as mãos atrás das costas, muito atento às marcas na areia.
Perguntei-lhe o que fazia, e ele explicou-me sem se embaraçar, que seguia o rasto de uma gaivota, andava a segui-la há mais de meia-hora. Reconheci na areia as marcas em tridente das patas de uma gaivota, que em alguns sítios, quase não se conseguiam ver, afundadas por pegadas humanas. Acompanhei-o, secundando o seu estudo e ouço-o gritar de alegria.
- Aqui desapareceu! É o terceiro rasto de gaivota que eu sigo, e todas desaparecem no mesmo sítio, aqui mesmo onde estamos. O primeiro vinha desde ao pé da avó'uca aos ziguezagues até aqui, e havia um outro que vinha do lado do mar, ali, por aquela duna onde você prendeu o cão e acaba aí, ao pé do seu pé esquerdo.
- Levantaram voo juntas.
- Sim, mas não, deve ter sido de manhã, não havia temporal nem pessoas, levantaram voo aqui, porque o ar aqui é mais leve.
Levantou o rosto para o céu, e sorriu triunfalmente, naquele momento, o céu estava quase todo coberto de nuvens, menos ali, na perpendicular do lugar onde o ar era mais leve, ali as coisas podiam ascender como num túnel de vento, por serem imponderáveis. Não pude deixar de sentir um certo respeito por ele. Despedi-me dele, que descobrira e começava a seguir um quarto rasto de gaivota que partia dali, resgatei o meu cão, que já mostrava impaciência por estar ali preso, e aproveitei para dar uma palavra à dona Suca.
- Como está a máquina, voltou a sentir pontadas no coração?
- Não, pararam, cheguei a ficar preocupada...
Não por ela, parecia dizer o seu olhar que seguia com enlevo os passos do neto, não por ela.
- Logo que tenha a eco e o electro que fez, leve-os ao consultório!
Ela assentiu, e eu continuei a passear o meu cão pela praia. No dia seguinte, informaram-me que a mulher tinha ido de urgência para o hospital e permanecia internada, em estado grave. O coração soçobrara.
Procurei o neto, perguntei a várias pessoas e acabei por dar com ele no caminho para a Pederneira. Um aluimento de terras fizera tombar uma árvore ao pé do morro onde se estendia o Parque de Campismo da Nazaré, e por ali se entretinha o neto da dona Suca. Como a árvore virada deslizara pela encosta, a terra despregara-se quase toda das raízes, e estas, raiando para o céu como dedos afilados, pareciam os novos ramos da árvore. A primeira preocupação do jovem fora recuperar da copa caída e amassada, os ninhos de pássaros que conseguira encontrar e dispo-los entre as raízes da árvore, os seus ramos de agora. Quando me cheguei ao pé dele, arrancava ramos e folhas da copa, para os transferir para a parte superior, repondo a ordem natural das coisas.
Chamei-o à parte, conversei com ele com muita calma, e expliquei-lhe que a avó voltara para o hospital. Eu ia acompanhá-lo a casa e a Rosa, a vizinha deles, uma mulher muito prestável, iria fazer-lhe comida e cuidar dele por uns dias.
- avó'uca vai para o céu?
- Não, acho que não, pelo menos por agora.
Intimamente, não acreditava no que dissera, a máquina da mulher já dera repetidos sinais e parecia esgotada.
Levei o neto a casa, e fui dar uma palavra à vizinha, combinando detalhes. Quando voltei para me despedir dele, perguntou-me se não queria ver a sua colecção. Aceitei, e ele levou-me a uma sala pequena, que já fora um quarto em tempos, juncada de caixas e caixas de madeira e cartão. Dentro delas, as suas mãos revelaram-me uma panóplia de objectos e artigos. Seixos polidos, e pedras comuns onde ele descobrira alguma espécie de beleza, conchas, folhas secas, bagos de fruta, insectos mortos, impressões de objectos e pegadas na lama seca que preservara cortando um quadrado de lama com três dedos de espessura e depositando-o na tampa de uma caixa de sapatos, e as suas palavras expunham-me outras maravilhas, um fóssil de vieira que encontrou ao pé da Praia do Norte, que ele deixou a amaciar dentro de um frasco de água salgada antes de o devolver ao mar, um coração diminuto que ele extraiu de uma cobra que fora esmagada por uma roda e que colocara dentro de um frasco com álcool, onde continuou a bater sozinho durante três semanas, um pedaço de rocha vulcânica que trouxera do monte S. Bartolomeu e que a avó conservava debaixo da cama porque lhe afiançava que o quarto dela ficava menos frio com ele ali.
As suas mãos e as suas palavras libertavam-se com paixão, quando o telefone tocou, sacudindo o ambiente como uma descarga eléctrica. Não foi nenhum de nós que atendeu, mas a vizinha que viera para preparar o jantar, não foram precisas palavras, o gemido de dor dela ao telefone era sobejamente explícito. Senti darem-me um empurrão violento, tropecei numa gaveta e caí no meio dos caixotes. Quando me recompus, corri até à rua, mas não havia sinais dele. Tinha desaparecido.
Em poucos minutos, eu e diversos vizinhos, que haviam sido alertados, percorríamos as ruas mal iluminadas, sem o conseguirmos encontrar. Já todos começavam a desesperar quando me lembrei de ir buscar o meu cão e voltar com ele à casa da dona Uca. Apanhei uma t'shirt dele nas costas de uma cadeira e dei-a a cheirar ao animal, e ele partiu sem hesitar pelas ruas, seguido por nós. O odor da peça levou-nos até à praia. Fiz um sinal aos outros para esperarem e confiei a trela do cão à Rosa. Entrei sozinho na praia, ultrapassei a faixa de areia iluminada pelas luzes amarelas da vila e descobri-o, sozinho, no meio do areal. Estava de pé, a agitar os braços como se fossem asas, no lugar, mais ou menos no lugar, onde ele estava seguro de que o ar era mais leve.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...