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O homem é, naturalmente, bom a enganar (-se)

Isto não tem nada a ver, mas lembrei-me, na arquitectura funerária da China Antiga, escavavam-se pirâmides invertidas, que surgem hoje diante dos olhos de um observador como se uma pirâmide metálica maciça tivesse caído dos céus com o vértice para baixo e tivesse imprimido essa forma caprichosa no solo macio, nessa cova piramidal no solo, talhavam degraus (o caminho da descida) e ornamentavam esse caminho com imagens e pinturas alusivas à vida atribulada no mundo inferior, se a China estivesse perto de Florença, acho que Dante iria gostar de fazer aí turismo, e sentir-se-ia como se estivesse em casa, tantas são as analogias com os mundos sobrepostos das suas visões do Além, mas o que eu queria era falar do poder, queria falar, por catarse, do poder, estou em crer que o poder podia ser representado por uma dupla pirâmide com as bases coladas, os que estão nas rédeas do poder político e económico não estão no topo da pirâmide superior, são a pirâmide superior, todos os outros, os medianamente poderosos e os nada-possantes (setenta por cento da humanidade), formam os tijolos de adobe da pirâmide inferior, mas criaram para alívio dos seus males e dos seus trabalhos, imagens factícias de estruturas de poder, como as empresas e os governos democráticos, que os fazem crer que estão a subir na hierarquia ou que pertencem a um confortável poder intermédio, quando, na verdade, são tão importantes como os cagalhotos de um babuíno gordo numa árvore da floresta.
O que nos resta então, aos dominados? Podíamos ir viver para dentro de um barril para demonstrar a nossa descrença nessas ficções sociais, mas isso não é muito confortável, porque não se consegue arranjar um barril certificado com três assoalhadas e aquecimento central. O estoicismo, o comunismo, a militância anarquista ou a redenção pela arte, são outras perspectivas risíveis, sobretudo, para quem detém o poder (deixem-nos iludirem-se e bramirem, enquanto nos puxam o riquexó!). O que há a fazer é, não fazer nada, mas, por quem sois, ter consciência disso! Ser servos e servis, eleitores, membros de clubes e partidos com as quotas em dia, trabalhadores dedicados, porteiros de lupanares, procriadores da próxima geração de servos, mas sem ilusões nem mentiras. Se um porco qualquer nos puser a pata em cima ou nos cuspir do alto, isso não deve causar grande espanto, porque o nosso trabalho e a nossa vontade não são mais do que pedra inerte que um canteiro afeiçoa com a sua picadeira para atapetar uma calçada.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...