Nove da noite. Talvez não venham, pensou, talvez não venham aqui, a este quarto de pensão minúsculo e triste. Iria à sua procura, era o melhor, vestiu-se e agasalhou-se, e no bolso interior do casaco que o agasalhava arrumou um bloco de notas, uma caneta e um gravador de voz. Quando saiu á porta da pensão, encolheu-se com o vento agreste que soprava da baía. Com uma noite destas, não devem andar por aí. Caminhou pelas ruas, estudando os transeuntes para verificar se não era nenhuma delas. Desanimava. Deteve-se no miradouro, de onde avistava toda a vila e as águas escuras da baía, sentou-se num banco ao pé do antigo colégio, e ficou à espera. Um homem sentado sozinho num banco no escuro inquieta as pessoas. Dois namorados que ali arrimaram, não demoraram a procurar outro pouso na certeza de que ele seria algum tarado à coca, pouco depois foi abordado por uma mulher que lhe perguntou com uma pronúncia eslava se ele não precisava de companhia. Recusou, estava à espera, estava à espera, repetiu ao polícia que o entrevistou a seguir. À espera de quê? Perguntou novamente o polícia. Da namorada? Da droga? Estou á espera das palavras, respondeu envergonhado, não vieram ter comigo e saí à sua procura. Das palavras! O polícia desistiu do inquérito, os tontinhos deprimiam-no. E ele continuou à espera das palavras, que nunca chegaram, sentado no regaço frio do vento. A sede e a fome desalojaram-no dali. Parou num café da marginal para comer uma tosta e um sumo, e regressou por ruas mal iluminadas, ao quarto da pensão. Deitou-se vestido em cima da cama, tapando-se com uma dobra do lençol, os olhos fixos na janela iluminada pela luz amarela do candeeiro de rua. De manhã, tinha de arrumar o quarto, tomar um banho e fazer a barba. Talvez viessem de manhã, as palavras, tinha de estar irrepreensível para as receber.

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