Não gostava e mantinha uma certa suspeita no que concerne a campainhas de porta com um óculo de câmara. Mas, neste caso, aceitava-se, tratando-se de um consultório médico. Tocou à campainha e, alguns segundos depois, a porta abriu-se - talvez o estivessem estado a estudar, ou a tentar ler a sua aura para aquilatar a sua potencial periculosidade.
- Senhor Miranda, não é verdade?
- Sim, todos os dias.
- Entre e instale-se, por favor, as consultas estão um pouco atrasadas e é natural que tenha de ter um pouco de paciência.
- Não faz mal - ouviu-se dizer, por artificial educação. Não só fazia mal, como não gostava nada de esperar. Até nascera prematuro, devido a isso.
Sentou-se pesadamente num sofá. A sala de espera era modernaça, um candeeiro de pé todo torcido num delírio de design, um balcão que parecia saído de um episódio do Star Trek, e um enorme painel fotográfico na parede maior, retratando um grupo de pessoas felizes a correr num relvado sob a chuva dos repuxos.
Aguentou uns bons dez minutos a desempenhar gestos mínimos e corriqueiros, tornar paralelo o ângulo de um cinzeiro quadrado com a esquina da mesinha de vidro, olhou o relógio umas duas vezes (mais, podia parecer que se sentia impaciente), tentou ainda, ler ao longe os cabeçalhos dos folhetos publicitários em exposição no balcão e, sobretudo, fez tudo para procurar não fixar o aparelho nos dentes da recepcionista - não que o impressionasse, mas ficaria constrangido se ela imaginasse que isso lhe fazia alguma diferença.
Esgotados os gestos de que se conseguia lembrar, e incapaz de assumir a vivacidade de uma ameba, virou-se para o cesto de revistas do consultório.
Estava organizado, grosso modo, de forma estratigráfica, as pessoas remexiam com mãos indóceis na primeira ou segunda publicação, que espiavam no período de tempo em que os mantinham à espera, depois colocavam outra vez lá, os números trocados cronologicamente, mas fiéis ao depósito em função do ano e, por vezes, até, do mês em que lá tinham sido disponibilizados pela primeira vez.
Como não saía nenhum paciente do consultório do seu médico, atacou o cesto de revistas, mas de uma forma original. Retirou para cima do sofá, por ordem, as publicações mais recentes: uma revista cor-de-rosa de há dois meses e uma outra revista, de reportagens, saída no primeiro trimestre do ano que findava. Despistada a curiosidade da recepcionista, avançou mais fundo, e empilhou em cima do sofá, por ordem inversa, as revistas entesouradas nos últimos seis anos. Espiou uma, e deu mais um salto no tempo. Como a consulta demorasse, deliciou-se com uma história desenhada por Arturo Moreno na revista O Mosquito, uma leitura rápida, a contra-relógio, agora que estava a gostar de desarquivar aquelas revistas velhas, e tão rapidamente como isso, tirou mais umas quantas revistas, atravessando anos, décadas, e começou a ler o index de um número da revista A Águia, à procura de um artigo que fosse de Teixeira de Pascoaes.
- Senhor Miranda, o doutor vai recebê-lo.
Caraças, logo agora!
- Um minuto, é só arrumar as revistas - anunciou, quase suplicando por mais uns segundos.
Consumiu aquele minuto a dar uma vista de olhos no primeiro parágrafo de um panfleto anti-monárquico do ano de 1870, que repousava sob a A Águia, e logo, um pouco contrariado, levantou-se, deixando as revistas por arrumar. Seguiu a recepcionista, que o confiou a uma enfermeira, quem, por sua vez, o introduziu no consultório, anunciando alto o seu nome.
O doutor cumprimentou-o, fez-lhe algumas perguntas de rotina, e colocou à sua frente um vidro de pó medicinal com tampa esférica e rótulo emoldurado escrito a caneta.
- Vai tomar uma colher pequena deste fármaco, todos os dias, à hora da novena. E agora, vamos proceder à purga. Enfermeira, traga as sanguessugas, por favor!

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