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Mono-diálogos

- A casa está quase toda limpa, menino, quer que escalde a botija de água quente para a noite?
- Não, Rosa, eu mesmo faço isso.
A velha senhora continuou a limpar o pó do escritório, olhando-o de soslaio enquanto ele debitava palavras num ecrã branco. Estava sempre desconfiada.
- Sabe que eu fui sempre amiga dos seus paizinhos, enquanto foram vivos.
- ...
- Eles iriam ficar muito tristes lá em cima se aquilo que o menino escreve tivesse asneiras ou não respeitasse os dez mandamentos. O menino não ia fazer uma coisa dessas, pois não?
- Não, Rosa, se eles treslessem o que estou a escrever, ficariam muito contentes e orgulhosos!
- Ah, ainda bem, menino, nem sabe como isso me deixa satisfeita.
Ela continuou a limpar e ele procurou retomar a escrita, sem êxito.
Pegou num livro da estante e saiu. O apartamento onde morava situava-se no penúltimo andar de um prédio de planta irregular encravado entre duas ruas, que terminava a nascente num ângulo de quarenta e cinco graus, o que deixava à sua mercê um terraço pequeníssimo onde se habituara a refugiar-se. Sentou-se na sua cadeira de plástico e abriu o livro, retesando o marcador de fita.



Estás cá fora outra vez, vizinho, as paredes pesam, não é? Não é muito prudente ires para o terraço de camisola interior, sobretudo, quando já passaste os cinquenta, e tens montes de doenças associadas aos teus problemas de nervos. Como vai ser agora? Vais ler dois parágrafos antes de te enroscares no chão como um gato, ou vais ficar a olhar para a rua, mordendo com força no teu antebraço? Seja como for, não te atires hoje, porque me sinto particularmente bem-disposta. Estive a tratar das plantas, mudei umas três de vaso juntando terra preta de saco, e algumas estavam a precisar de sol e trouxe-as aqui para o terraço. Sabes que as plantas são como nós? Quando possuem raízes a mais para o espaço onde estão confinadas, sufocam, precisam de desenlear as raízes e criar novas guias, arejar e ficar mais leves. Nós também precisávamos que nos mudassem de vaso para uns maiores onde coubessem todos os nossos silêncios e frustrações, vasos grandes, enormes, com um pouco de prado e de montanha, algumas ondas de mar e - porque não? - uma ou duas estrelas, das pequeninas, que brilham como vagalumes. Fiz chá, vizinho, quente e cheio de aromas, gosto de segurar a chávena entre as mãos, e inspirar com força, com o nariz sobre os seus vapores. Oferecia-te uma chávena, vizinho, fazia-te bem, mas estás do outro lado da rua e nunca nos falamos, irias pensar que eu sou maluca. Não, não faças isso! Não puxes os cabelos, nem te mordas! Então, vizinho? Não pode ser assim tão mau! Olha, vou para dentro, assim não se consegue falar contigo. E vê se vestes um casaco, porque senão, ficas outra vez de cama, cheio de febres!

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...