Marmúrio

Quando alguém ganha, como um prurido irritante, o desejo de algo que não sabe como obter, é natural e saudável que faça figura de parvo. Foi o que aconteceu ao imaturo Neves, flutuando numa idade incerta entre o pico da adolescência e a idade adulta. Todo o tempo que lhe sobejava de trabalho duro nas obras, empregava-o sabiamente a frequentar lugares frequentados por mulheres - bares, bailes, festas, aniversários - e a tentar converter-se, aos seus olhos, num objecto de desejo. Pelo menos, esforçava-se, abdicara das suas roupas genuínas de metaleiro convicto, em favor de umas roupas de betinho, com sapatos bem engraxados e cabelo cortado curto em estilo clássico. Também passara a barbear-se todos os dias, cortando pela raiz qualquer pêlo solitário que se atrevesse a romper na cara. O único resíduo que se permitira do tempo em que as suas hormonas não o tiranizavam, fora uma insígnia de pano dos Iron Maiden, cosidos pela mãe ao bolso das calças. Vestido assim, e compondo a personagem fictícia com citações de Paulo Coelho e letras decoradas dos Oasis, foi rodopiando numa espiral ascendente de contactos e convites para festas e eventos.
Uma vez mais vestido com artifício e fazendo tempo para uma recepção num clube náutico, lembrou-se de fazer uma caminhada pela marginal. O sol de Outubro era baixo, mas intenso. Algumas pessoas mais corajosas, tinham-se despido parcialmente para apanhar um pouco de sol na areia da praia. Olhava ociosamente as gaivotas pousadas por perto, quando viu a mulher sentada na areia, encostada ao murete da calçada. Estudou-a, devia ter uns trinta anos, tez morena, e cabelos castanhos apanhados no alto da cabeça por um elástico. Era uma oportunidade soberana, achou, as mulheres maduras podiam dar mais prazer a um tipo do que qualquer das miúdas que esperava reencontrar na festa. Talvez ela tivesse um carro e quisesse dar uma volta para uma queca ou um bobó. Ás vezes, as mulheres, mesmo as casadas, iam para sítios daqueles à procura de companhia. Só tinha de meter conversa e ser esperto. Desapertou dois botões da camisa, passou a palma da mão pela cara num gesto vago, e pisou o areal junto a ela.
- Olá, está um sol fantástico, não...
Calou-se, a conversa de circunstância pulverizou-se na areia. Ela olhava-o, surpreendida, uns olhos negros e profundos que foram seguindo dentro de si as momentâneas transformações do seu desejo. A mulher de trinta anos tinha o corpo quebrado, mutilado por algum acidente. Uma das pernas terminava num coto à altura do joelho, enquanto a outra mantinha com o tronco um ângulo estranho, absurdo, e com a pele rasgada por profundas cicatrizes. Duas canadianas estavam largadas na areia ao seu lado.
Neves não foi capaz de pronunciar mais palavra alguma, virou costas e regressou ao empedrado da marginal, roendo-se de culpa e com um nó no estômago, por não ter conseguido dizer nada àquela mulher desconhecida. Aquele olhar agridoce não o largava.
Voltou para casa, e a mãe estranhou, por ser muito cedo e por ele ter vomitado de seguida, com violência, como se tivesse bebido uns copos valentes.

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