INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

(a insularidade é um estado de espírito)

Era um cientista, e estava em férias, mas um cientista nunca tem férias, seria como pedir a um bibliófilo que mantivesse os olhos fechados numa viagem no tempo até à biblioteca de Pérgamo ou Alexandria. Tudo à volta deste homem eram pretextos, estímulos, desafios -objectos e seres mesquinhos, como uma folha de árvore, uma formiga, um cristal de gelo, ou um punhado de areia, eram o suficiente para o arrancarem da inércia, fazendo-o vogar pelos domínios do conhecimento. Rain or shine, ele analisava, observava, registava, e se estava fora da sua formação ou da sua experiência, era bem capaz de enviar um mail ou a uma carta a um investigador x, ou ao professor y, à procura de respostas. A mulher censurava-lhe a obsessão, não sem deixar transparecer uma terna admiração por ela, e habituara-se aos seus devaneios e silêncios pensativos. Quando encontraram o tronco de árvore na areia da praia, ele isolou-se de imediato na sua atenta curiosidade. Enquanto a mulher se sentava no tronco caído, e as filhas saltitavam em volta, o cientista recolhia dados. Era apenas um tronco cedido à terra pelas ondas duma tempestade invernal, mas, para ele, representava o início de uma pequena pesquisa. O tronco não estava na água há muito tempo, nem devia vir de muito longe, porque ainda apresentava alguns dos ramos mais frágeis e pedaços da casca, apesar do efeito de lixa causado pelo atrito da areia. Pediu a uma das filhas um pedaço de rocha que estava cravado numa das raízes e juntou-a aos indícios que colhera (era laminar e escura, de origem vulcânica). Devia pertencer ao lugar de onde a árvore fora arrancada pelas ondas, nalguma praia ou falésia ribeirinha.
Voltaram para o bungalow que haviam alugado no Parque de Campismo, com ele a pensar nas formas de abordar o problema. Na manhã seguinte, com o pretexto de ir comprar o jornal à cidade, evadiu-se da família. Um dia de trabalho na Universidade local (e a única do arquipélago), permitiu-lhe obter o que procurava. Determinara a espécie da árvore e, mais importante, conseguira circunscrever os três lugares na região onde poderia ser encontrada aquele tipo de rocha vulcânica, dos quais, apenas um se encontrava perto do mar, um promontório rochoso junto ao qual, segundo as plantas cartográficas, se havia desenvolvido uma pequena aldeia de pescadores.
Agora, planeava deslocar-se a essa terra para deslindar um mistério subsidiário daquele. Num dos ramos de médio porte da árvore, retirara o que restava de fibras de sisal, dalguma corda, que ali estivera atada, durante tanto tempo que o crescimento do ramo quase a engolira. Afastou a possibilidade de pertencer a um balouço, não por motivos científicos, a ciência estava fora disso - o promontório de pedras escuras, os pescadores na sua relação de vida e de morte com o mar, sugeriam-lhe um enforcamento, alguém que pusera fim à vida, levado por uma tristeza profunda diante de um mar sempre diferente e sempre igual, ou talvez cansado de esgravatar pelo sustento naquela ilha pobre no fim do mundo.
Voltou ao Parque de Campismo, sem o jornal, e contou o projecto à mulher, que o escutava com os olhos vidrados de sono, enquanto as filhas já dormiam. Ele estava excitado, mercê de um entusiasmo insólito, novo e romântico, por pessoas e pela vida. Queria ir de carro até à tal aldeia, e inquirir às pessoas se tinha havido por ali algum suicídio, uma morte que enlutara a comunidade, meses ou anos antes daquela árvore ser arrancada pelo mar. Por ser generosa, mas mais por vontade de ir dormir, a mulher acedeu à sua vontade.
No dia seguinte, partiram num carro alugado. Foram quatro horas de viagem por terras ubérrimas, esquartejadas por muros de pedra acima das quais assomava o verde das culturas e a rica paleta das flores. A aldeia de pescadores situava-se no sopé do tal promontório vulcânico, e descia-se até ela por uma estrada em mau estado onde não caberiam dois carros um ao lado do outro. Na aldeia, o cientista travou-se de amizades com um pescador e, como quem não quer a coisa, falando das dificuldades da ilha e do tributo em vidas que o mar cobra, chegou ao que queria saber, se alguém se havia suicidado naquela terra. Não! A resposta foi cabal. Morrem ou emigram, mas não se matam! Sentiu-se desalentado, talvez as cartas geológicas estivessem ultrapassadas mas, no entanto, a pedra da árvore era abundante ali, conseguia distingui-la sem dificuldade nas paredes do casario e nos degraus salientes dalgumas casas. Vamos passear, tirar umas fotografias aos barcos, propôs a mulher, tentando animá-lo. Seguiu-as, sem ânimo, as filhas penduravam-se nos seus braços como se ele fosse um galheteiro, tentando dar-lhe carolos, mas nem mesmo assim ele sorria com vontade. Desceram até ao pequeno cais e, enquanto as filhas faziam poses e a mulher tirava retratos, o cientista olhou em volta, à procura de um novo estímulo, como se precisasse dele para anular a sua decepção. Pedra vulcânica, erupção, mar fervente, marcas da erosão, marés-vivas. Mas o seu espírito não criou associações ou hipóteses de trabalho, antes se deixando penetrar pelo que o rodeava num fascínio orgânico e poroso. A aldeia crescera na aba do promontório como um cogumelo na sombra de uma ávore, havia pedra, mas também terra fértil a poucos metros do mar, e conseguia vislumbrar algumas hortitas no meio das casas, resguardadas por tapumes de canas e tábuas. Aí, um outro detalhe atraiu o seu olhar, o cemitério a um extremo da aldeia, como um castelejo sobre as rochas, de paredes caiadas. Caminhou até lá, junto ao cemitério havia um pequeno parque com árvores, onde o mar já fizera estragos, e as árvores...as árvores eram da mesma espécie daquela que dera à costa na praia. Numa espécie de transe tranquilo, entrou no parque pelo rombo que as ondas haviam feito nos seus muros. Estavam lá as árvores, e assentos suspensos dos ramos por cordas de sisal, onde se sentavam mulheres vestidas de negro, bordando e falando da vida enquanto se balouçavam docemente, junto aos que repousavam por perto, nas campas ou no mar, muito perto, na dor dos seus corações.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...