Força de intervenção

Já eram dez da noite, quando todos se reuniram no gabinete do editor. O Abel vinha cheio de olheiras porque havia adormecido a ver televisão e o Chaves, do Departamento Gráfico, fora transplantado duma festa e ainda trazia na cabeça um chapéu de cone com fitinhas, e segurava uma garrafa de champanhe rearrolhada. Todos estavam curiosos para conhecer as causas daquele reunião. O editor, vendo que já estavam todos reunidos, foi breve e devastador:
- Morreu esta noite o Jonas Capião, vulgo Jónatas, o nosso autor mais lucrativo.
A notícia caiu como uma bomba, pulverizando figurativamente os corpos e os espíritos por tudo quanto era sítio. O pó em que se convertera o Chaves estava ensopado em champanhe.
Morrera o Jónatas, o laureado poeta e romancista Jónatas, o mimado arrebanha-prémios!
- Tinhamos uma parceria com Jónatas e vamos mantê-la com o colégio dos seus herdeiros e familiares. Hoje temos muito trabalho pela frente, e vocês ficam a partir deste momento divididos em três equipas, que vão explorar as diferentes vertentes do problema. No quadro de cortiça estão listadas as equipas e respectivas funções. Amanhã ao meio-dia, reunimo-nos outra vez aqui para confrontar resultados, se precisarem de dormir, dormem em turnos de três horas, e nunca duas pessoas da mesma equipa ao mesmo tempo. Estamos entendidos?
Todos concordaram com um resmungo indefinido, já abeirados da lista presa ao quadro por um alfinete verde, e saíram apressadamente para cumprir as incumbências.
No dia seguinte, voltaram-se a reunir ao meio-dia, como fora agendado. Traziam caixas, pastas, blocos de apontamentos com folhas rasuradas. O editor esperava-os, angustiado.
- Ponham-me a par, um de cada equipa faz de porta-voz.
Avançaram os mais carismáticos.
- Juntamos todos os papéis do Jónatas e fiz uma cópia de tudo o que ele tinha no disco rígido - disse um - isso salda-se em vinte e quatro rascunhos de poemas os dois primeiros capítulos de um novo romance e alguns esboços manuscritos de artigos ou crónicas. O meu departamento pode lapidar os poemas até os dar como concluídos, e estes dois capítulos podem ser reescritos como uma pequena novela com um final inconclusivo, como todos os romances de Jónatas, aliás. Os artigo, podemos desenvolver e recriar com outros temas, merecendo uma eventual edição, documentada com uma fotografia desfocada das folhas.
O editor sorriu, menos mal, duas edições, talvez três, a acrescentar às reedições de tudo o que já havia sido publicado.
- Equacionamos a eventualidade de novos projectos com a insígnia Jónatas. Transformar a casa dele em casa-museu parece viável, uma vez que morava num edifício de interesse histórico e possui uma biblioteca rica, no entanto, a casa é pobre e muito vazia, teríamos de enriquecê-la com alguns quadros e colecções, coerentes com o que as pessoas conhecem dele. Processamos todos as roupas e objectos pessoais que nos poderão servir para exposição, e a viúva ofereceu-nos o seu depósito de fetiches e filmes pornográficos, do qual já nos desembaraçamos, por nos parecer muito comprometedor. A Ana guardou num frasco de vidro, amostras encontradas no tampo da sua secretária, das crostas que ele estava sempre a raspar das têmporas, pode ser que venham a ser de alguma utilidade para biografias ou ensaios futuros.
- Analisamos o contexto legal e ético, e não existe nenhuma contrariedade - discursou por fim o Abel - a família e os advogados estão inteiramente do nosso lado à custa de alguns donativos e promessas. Há apenas uma nano-problema ético. O Jónatas deixou escrito em diferentes passagens que gostaria que tudo o que dele sobreviesse depois da morte fosse destruído ou queimado, escritos, notas, desenhos; disse-o também a vários membros da família e tencionava grafá-lo no testamento, o que não veio a acontecer porque, se calhar, como todos, morreu mais cedo do que pensava.
- Se era só uma intenção, não lhe vamos dar atenção. Inventariem os familiares a quem ele havia confessado isso e peçam-lhes que o omitam aos jornalistas e curiosos. Não creio que isso justifique subornos, porque eles têm tanto interesse como nós em esfolar o Jónatas. Mais alguma coisa de interesse?
- Não! - responderam em uníssono os três porta-vozes.
- Óptimo, o funeral, a meu pedido, é só esta tarde. Quero que tudo o que foi sugerido aqui seja convertido num plano de trabalho meticuloso, e temos de limar arestas e tomar deciões definitivas antes da missa do sétimo dia. O Jónatas morreu, longa vida ao Jónatas!!

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