INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Correio normal

Há coisa de um ano, enviei um mail (identificado) a um contacto blogoesférico, no estilo de uma pequena carta, manuscrita por alguém da sua terra natal. Era uma brincadeira postal e hoje, depois de ter recebido uma carta inesperada, de um amigo que já não vejo há mais de dez anos, decidi recuperar esse mail e postá-lo aqui. Se o destinatário do mail/carta o topar, espero que não, estou certo de que não levará a mal. Rezava assim:

Como estás? Sei que não te escrevo há algum tempo, mas tem sido apenas por preguiça.Comecemos pelas (poucas) notícias, lembras-te da minha tia Adília? A do rabo-de-cavalo? O mês passado ela acordou com a certeza de que era uma pomba, daquelas sujas, que debicam migalhas na sombra das estátuas. Eu e o teu primo Jorge tentamos convencê-la do contrário. Ele colocou-lhe um espelho largo à frente e ela só fez foi bater as asas, os braços, digo. Eu, trouxe-lhe uma cassete VHS do casamento da Armanda e do Luís e fi-la ver um pedaço no qual ela cantava a Guantanamera depois de uns copos de champanhe e dançava o que supunha ser uma valsa ao som de uma canção pimba cantada por alguém com um nome como MárciaMariaCristina ou ElisângelaArminda; mas também isso não deu resultado, ela tentou valsar diante do televisor com as asas a bater e a obsessão manteve-se. Eu e o Jorge optamos pela solução radical: levamo-la ao terraço e instamos: "Voe!" Ela atirou-se no vazio e aterrou como uma pedra no monte de saibro que tem diante da casa. A mania passou-lhe mas, diga-se, não me surpreenderia muito se ela saísse a voar sobre as casas do nosso bairro, rindo-se ou arrulhando de alegria ante o nosso pasmo. As mulheres têm coisas...passamos uma vida inteira a julgar que as conhecemos mas é apenas vaidade, é como julgar conhecer os abismos do Oceano só por lhes admirar a superfície iluminada. Alguém disse (e nomearia, se me lembrasse quem) que as mulheres são ilhas no coração solitário dos homens, e não posso estar mais de acordo, as mulheres deixam os homens perplexos e assustados, e eles inventam Padrões de Descobrimento como sexo forte, possuir, comer, só para disfarçar a sua atrapalhação e o facto delas permanecerem ilhas onde eles não conseguem mais do que dar um ou dois passitos na areia da praia. Sigam as notícias, ou antes, a ausência delas. Não existem notícias. Acho que ao contrário da Adília, ninguém mais mudou. Tenho andado pelas ruas e tudo me parece igual, as pessoas andam e pensam da mesma forma, sem desvios nem demências transformadoras, enfeitam-se com rugas, pregas de gordura ou sinais de calvície, mas não abandonam os papéis para os quais se julgam talhados - ser o sustento da família, criar um filho o melhor que se consegue, fazer contas ao dinheiro e à falta dele para passar umas curtas férias ou visitar a família que estuda ou trabalha longe, levar o filho à catequese ou ensiná-lo a fugir dela, sentir o coração pungido com as desgraças e as matanças que passam nos noticiários da televisão, sempre quando a comida está na mesa e a família se junta á volta. Como exemplo dou-te este: o Matias, o carteiro que já era carteiro quando eras pequena, reformou-se entretanto, mas ficou tão enredado nos seus hábitos de trinta e cinco anos de trabalho que continua a dar a volta pelo bairro como sempre fez, pedalando a sua bicicleta e chegando-se a todas as caixas de correio para lhes fazer uma festa na tampa como se tivesse acabado de colocar correio nelas. Por vezes, estou cá fora, no jardim ou à volta do carro e, quando o vejo passar, esqueço-me que ele está reformado e vou até ao portão para ver que carta me chegou. Mas, como sabes também, não me costuma chegar muitas cartas, a família que tenho está por perto, pelo menos, em ruas próximas, e os meus amigos, o tempo dispersou-os como semente estéreis de uma planta, poupam no papel e na caneta e desbaratam a amizade no casual abraço ou aperto de mão que procura dissimular que já não temos nada em comum. Esta carta já vai longa, espero que estejas bem, e que continues com esse sorriso luminoso que todos aqui te conhecemos. Quando voltares, passa lá à mercearia para te cumprimentarmos, e prometo que te deixo levar uma mão-cheia de rebuçados do frasco de vidro, como quando eras mais nova. Um abraço grande, deste teu conterrâneo.

Adenda: depois de escrever este mail, procurei a frase que citava, e descobri que era uma falsa citação, porque reformulara uma passagem, muito mais expressiva, escrita por Clara Ferreira Alves:
«(...) escuto alguém, entre pausas e arrebatamentos, falar do amor e da morte, e das ilhas que são as mulheres no tempo curto dos homens».

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...