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- ALL RISE!!
O mendigo ergueu o olhar perplexo, para o técnico que acabara de entrar no gabinete.
- Desculpe-me - pediu o técnico - lembro-me sempre destas tiradas holiúdescas quando vejo alguém sentado. O senhor é mendigo e, segundo me informaram, vinha indagar se havia alguma solução para si neste programa de novas oportunidades?
- Sim, senhor doutor. Ser mendigo já não dá, as pessoas não dão esmola e chegam a assaltar-me, e agora vem o frio e a chuva e não se está bem em lugar algum.
- Concordo consigo, e a polícia também não ajuda, não é? Vejamos... tenho vários cursos a iniciar-se, alguns ainda com vagas - programação, contabilidade, telemarketing, cunnilingus tântrico, jardinagem...
- Eu não queria cursos, doutor, apenas uma ocupação mais rentável, a minha cabeça já não dá para marranços ou copianços e eu queria apenas o que vocês publicitam: uma nova oportunidade.
- De acordo, cavalheiro, estamos aqui para isto. Tem alguma experiência profissional, além da de crava-esmolas?
- Não doutor, comecei com um prato de estanho aos dez anos de idade e ando com o mesmo prato de estanho aos cinquenta. Sempre pedi, e agora peço uma vez mais.
- De acordo, de acordo, mas podia tentar valorizar-se e deixar de ser um pedinte andrajoso. Tomava banho, vestia-se bem, e mandava imprimir numa tipografia um livro de talões, e em vez de pedir esmolas ridículas, pedia contribuições para uma viagem de estudo a um lugar longínquo, o Djibuti ou Vila Real de Santo António. As pessoas são sensíveis às carências dos universitários, e acho que você se safava com menos horas de trabalho.
- Mas isso não é ilegal? É que os polícias conhecem-me bem, e mesmo desencascado pelo banho, eu acho que eles me topavam às primeiras e desatavam logo a malhar no desgraçado.
- A coisa assim está mal, mas ainda lhe posso fazer uma sugestão, à luz da oportunidade a que você aspira...
- Tenha a bondade, doutor.
- Você é um mendigo mal sucedido, porque a única deformidade que apresenta é cheirar mal. Não tem um braço a menos, ou sarna ou borbulhas na cara. As pessoas olham para si e pensam: vai trabalhar ou tirar um curso, atira-te ao telemarketing ou ao cunnilingus. Só se faz caridade com quem consideramos mais desfavorecido do que nós e, visto isso, vou-lhe dar o número de telefone de um cunhado meu que tem um talho e o pode ajudar...
- Mas, doutor...
- CUT! CUT!

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