INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

(a insularidade é um estado de espírito)

Era um cientista, e estava em férias, mas um cientista nunca tem férias, seria como pedir a um bibliófilo que mantivesse os olhos fechados numa viagem no tempo até à biblioteca de Pérgamo ou Alexandria. Tudo à volta deste homem eram pretextos, estímulos, desafios -objectos e seres mesquinhos, como uma folha de árvore, uma formiga, um cristal de gelo, ou um punhado de areia, eram o suficiente para o arrancarem da inércia, fazendo-o vogar pelos domínios do conhecimento. Rain or shine, ele analisava, observava, registava, e se estava fora da sua formação ou da sua experiência, era bem capaz de enviar um mail ou a uma carta a um investigador x, ou ao professor y, à procura de respostas. A mulher censurava-lhe a obsessão, não sem deixar transparecer uma terna admiração por ela, e habituara-se aos seus devaneios e silêncios pensativos. Quando encontraram o tronco de árvore na areia da praia, ele isolou-se de imediato na sua atenta curiosidade. Enquanto a mulher se sentava no tronco caído, e as filhas saltitavam em volta, o cientista recolhia dados. Era apenas um tronco cedido à terra pelas ondas duma tempestade invernal, mas, para ele, representava o início de uma pequena pesquisa. O tronco não estava na água há muito tempo, nem devia vir de muito longe, porque ainda apresentava alguns dos ramos mais frágeis e pedaços da casca, apesar do efeito de lixa causado pelo atrito da areia. Pediu a uma das filhas um pedaço de rocha que estava cravado numa das raízes e juntou-a aos indícios que colhera (era laminar e escura, de origem vulcânica). Devia pertencer ao lugar de onde a árvore fora arrancada pelas ondas, nalguma praia ou falésia ribeirinha.
Voltaram para o bungalow que haviam alugado no Parque de Campismo, com ele a pensar nas formas de abordar o problema. Na manhã seguinte, com o pretexto de ir comprar o jornal à cidade, evadiu-se da família. Um dia de trabalho na Universidade local (e a única do arquipélago), permitiu-lhe obter o que procurava. Determinara a espécie da árvore e, mais importante, conseguira circunscrever os três lugares na região onde poderia ser encontrada aquele tipo de rocha vulcânica, dos quais, apenas um se encontrava perto do mar, um promontório rochoso junto ao qual, segundo as plantas cartográficas, se havia desenvolvido uma pequena aldeia de pescadores.
Agora, planeava deslocar-se a essa terra para deslindar um mistério subsidiário daquele. Num dos ramos de médio porte da árvore, retirara o que restava de fibras de sisal, dalguma corda, que ali estivera atada, durante tanto tempo que o crescimento do ramo quase a engolira. Afastou a possibilidade de pertencer a um balouço, não por motivos científicos, a ciência estava fora disso - o promontório de pedras escuras, os pescadores na sua relação de vida e de morte com o mar, sugeriam-lhe um enforcamento, alguém que pusera fim à vida, levado por uma tristeza profunda diante de um mar sempre diferente e sempre igual, ou talvez cansado de esgravatar pelo sustento naquela ilha pobre no fim do mundo.
Voltou ao Parque de Campismo, sem o jornal, e contou o projecto à mulher, que o escutava com os olhos vidrados de sono, enquanto as filhas já dormiam. Ele estava excitado, mercê de um entusiasmo insólito, novo e romântico, por pessoas e pela vida. Queria ir de carro até à tal aldeia, e inquirir às pessoas se tinha havido por ali algum suicídio, uma morte que enlutara a comunidade, meses ou anos antes daquela árvore ser arrancada pelo mar. Por ser generosa, mas mais por vontade de ir dormir, a mulher acedeu à sua vontade.
No dia seguinte, partiram num carro alugado. Foram quatro horas de viagem por terras ubérrimas, esquartejadas por muros de pedra acima das quais assomava o verde das culturas e a rica paleta das flores. A aldeia de pescadores situava-se no sopé do tal promontório vulcânico, e descia-se até ela por uma estrada em mau estado onde não caberiam dois carros um ao lado do outro. Na aldeia, o cientista travou-se de amizades com um pescador e, como quem não quer a coisa, falando das dificuldades da ilha e do tributo em vidas que o mar cobra, chegou ao que queria saber, se alguém se havia suicidado naquela terra. Não! A resposta foi cabal. Morrem ou emigram, mas não se matam! Sentiu-se desalentado, talvez as cartas geológicas estivessem ultrapassadas mas, no entanto, a pedra da árvore era abundante ali, conseguia distingui-la sem dificuldade nas paredes do casario e nos degraus salientes dalgumas casas. Vamos passear, tirar umas fotografias aos barcos, propôs a mulher, tentando animá-lo. Seguiu-as, sem ânimo, as filhas penduravam-se nos seus braços como se ele fosse um galheteiro, tentando dar-lhe carolos, mas nem mesmo assim ele sorria com vontade. Desceram até ao pequeno cais e, enquanto as filhas faziam poses e a mulher tirava retratos, o cientista olhou em volta, à procura de um novo estímulo, como se precisasse dele para anular a sua decepção. Pedra vulcânica, erupção, mar fervente, marcas da erosão, marés-vivas. Mas o seu espírito não criou associações ou hipóteses de trabalho, antes se deixando penetrar pelo que o rodeava num fascínio orgânico e poroso. A aldeia crescera na aba do promontório como um cogumelo na sombra de uma ávore, havia pedra, mas também terra fértil a poucos metros do mar, e conseguia vislumbrar algumas hortitas no meio das casas, resguardadas por tapumes de canas e tábuas. Aí, um outro detalhe atraiu o seu olhar, o cemitério a um extremo da aldeia, como um castelejo sobre as rochas, de paredes caiadas. Caminhou até lá, junto ao cemitério havia um pequeno parque com árvores, onde o mar já fizera estragos, e as árvores...as árvores eram da mesma espécie daquela que dera à costa na praia. Numa espécie de transe tranquilo, entrou no parque pelo rombo que as ondas haviam feito nos seus muros. Estavam lá as árvores, e assentos suspensos dos ramos por cordas de sisal, onde se sentavam mulheres vestidas de negro, bordando e falando da vida enquanto se balouçavam docemente, junto aos que repousavam por perto, nas campas ou no mar, muito perto, na dor dos seus corações.

Ode Triunfal

À melindrosa luz do monitor do pêcê,
Escrevo, com a água a escorrer-me na boca,
faminta de todas as gulodices do mundo.
Ó bolachas! Marias, Charmants, Torrrradas
- Ó delícias, rectangulares, redondas, e redundantes,
rolando num r-r-r-r de roedor!
Je vous salue, Marie!
Je vous salue, Belgiens!
Sigo o vosso voo, Joaninhas graciosas,
adejando aos cálices de flores rosa-Hookie,
deitem para fora as vossas Línguas pardas, Gatos de confeitaria,
falem-me de Montezuma e de Malinche, suas perdições achocolatadas
Reconciliem-me com os Clássicos, bolachinhas de Manteiga
Com Tolstoi, Unamuno, e José Rodrigues dos Santos,
Mais não digo
(Não falo da Maria Choc, que era uma stripper
com varizes e rugas e buço,
nem da Tucha, que era nome de revista
porno,
a incinerar as minhas teen-fantasy's)
E por aqui me fico
Vou comer
bolachas, é claro!
(Guardo-te algumas,
Álvaro,
para tasquinhares enquanto te revolves,
na tua alter-tumba).


Salesman

- Você, como chefe de compras da sucursal, podia dar-nos uma oportunidade. Ia ser muito rentável para si!
-...
- Se quiser, combinamos um almoço no melhor restaurante da cidade, e ultimamos pormenores.
- Se calhar, vocês pensam que eu me vendo por pouco...
- Dois almoços?
- Está bem!

O homem é, naturalmente, bom a enganar (-se)

Isto não tem nada a ver, mas lembrei-me, na arquitectura funerária da China Antiga, escavavam-se pirâmides invertidas, que surgem hoje diante dos olhos de um observador como se uma pirâmide metálica maciça tivesse caído dos céus com o vértice para baixo e tivesse imprimido essa forma caprichosa no solo macio, nessa cova piramidal no solo, talhavam degraus (o caminho da descida) e ornamentavam esse caminho com imagens e pinturas alusivas à vida atribulada no mundo inferior, se a China estivesse perto de Florença, acho que Dante iria gostar de fazer aí turismo, e sentir-se-ia como se estivesse em casa, tantas são as analogias com os mundos sobrepostos das suas visões do Além, mas o que eu queria era falar do poder, queria falar, por catarse, do poder, estou em crer que o poder podia ser representado por uma dupla pirâmide com as bases coladas, os que estão nas rédeas do poder político e económico não estão no topo da pirâmide superior, são a pirâmide superior, todos os outros, os medianamente poderosos e os nada-possantes (setenta por cento da humanidade), formam os tijolos de adobe da pirâmide inferior, mas criaram para alívio dos seus males e dos seus trabalhos, imagens factícias de estruturas de poder, como as empresas e os governos democráticos, que os fazem crer que estão a subir na hierarquia ou que pertencem a um confortável poder intermédio, quando, na verdade, são tão importantes como os cagalhotos de um babuíno gordo numa árvore da floresta.
O que nos resta então, aos dominados? Podíamos ir viver para dentro de um barril para demonstrar a nossa descrença nessas ficções sociais, mas isso não é muito confortável, porque não se consegue arranjar um barril certificado com três assoalhadas e aquecimento central. O estoicismo, o comunismo, a militância anarquista ou a redenção pela arte, são outras perspectivas risíveis, sobretudo, para quem detém o poder (deixem-nos iludirem-se e bramirem, enquanto nos puxam o riquexó!). O que há a fazer é, não fazer nada, mas, por quem sois, ter consciência disso! Ser servos e servis, eleitores, membros de clubes e partidos com as quotas em dia, trabalhadores dedicados, porteiros de lupanares, procriadores da próxima geração de servos, mas sem ilusões nem mentiras. Se um porco qualquer nos puser a pata em cima ou nos cuspir do alto, isso não deve causar grande espanto, porque o nosso trabalho e a nossa vontade não são mais do que pedra inerte que um canteiro afeiçoa com a sua picadeira para atapetar uma calçada.

A borboleta de Chuang-Tsé

Trabalhei no turno da noite, mantive-me desperto e activo enquanto os outros dormiam e sonhavam. Quando trocávamos de papéis, assaltou-me a dúvida, razoável, se era eu que procurava o sono, ou se seriam os outros que o tinham iniciado.
Há muito tempo que não te vejo, nostalgia, uma necessidade serena de te ter ao meu lado, desapareceste e é estranho ter de lidar com a ausência de ti, o que me dói mais, é não poder procurar-te de alma aberta, espontaneamente, com a naturalidade de dois amigos que se encontram por acaso num passeio de uma rua e se abraçam, felizes por se verem, mas não é assim tão simples, a nossa amizade gerou para si regras absurdas e artifícios miseráveis que nos empobreceram, tornando impensáveis um gesto, um telefonema, uma palavra. A única coisa que construímos juntos, de um e de outro lado, foi a cortina de silêncio na qual a nossa amizade ficou emparedada.

prosa quebrada

É tão fácil
acreditar quando olho para
ti, o Sol inunda-te de luz enquanto brincas no relvado, como se
não houvesse mais nada para além de nós, tu nada
sabes sobre o que é ter problemas e sentir-se
nauseado, simplesmente,
por estar vivo e respirar,
sofrer a angústia que nos
gangrena
por termos a noção de que tivemos a vida
nas mãos e a deixamos
malbaratar-se e fugir-nos; não
sabes o que é
ter de estar sempre
a pensar no que tem de se fazer
a seguir
e o que iremos
sacrificar
se nos esquecermos de
alguma coisa, por pequena que seja,
preferia, mandar tudo para o ar,
recuperar do passado a minha fisga
e a bola de futebol, e brincar
contigo
no relvado, correr e rir sem ideias
nem calendários, reavendo essa
majestade
sem cedências nem compromissos que dá
às crianças,
sem que o procurem,
o porte altivo de um rei.

Notas de trabalho de um ghostwriter

2 de Abril
Recebi o mail de ALB, solicitando-me que escreva o seu novo romance. Um segundo mail descrimina o enredo, que é, sumariamente este: um médico em Angola, durante a guerra colonial, sonha criar um hospital moderno e bem apetrechado no meio da savana, o Cubata Lounge, mas é ostracizado pela comunidade branca, que boicota o seu trabalho e o obriga a regressar à metrópole, onde retoma o seu sonho, erguendo do nada um hospital no interior transmontano, onde é ostracizado por todas as comunidades - situação agravada por um trauma de guerra que o faz dar tiros para o ar com a sua G3 em noite de S. João, e por uma paixão tensa e violenta por uma enfermeira com predilecções sado-masoquistas.
Orçamento médio. Já escolhi os nomes para as personagens e fiz pesquisa sobre os lugares onde a trama se desenrolará. A encomenda não deve apresentar dificuldades, conheço sobejamente o estilo de ALB, e já é a terceira obra que me encomenda.

7 de Julho
ML assinou o contrato para a redacção dos seus textos de prosa poética, e providenciou-me diversas folhas manuscritas que estou a tentar decifrar. Orçamento topo de gama. ML quer o exclusivo durante a elaboração do original, porque se sente inspirada e grava todos os dias os seus improvisos literários, para eu transcrever.
Nota: Perguntar a ML se devo proceder ao registo onomatopaico dos seus gritos na cama.

8 de Agosto
Trabalho assombrado. O Centro de Pesquisa Atómica apresentou-me os dados das pesquisas do último ano, para eu redigir uma exposição. O dinheiro é bom, mas não possuo os requisitos. Procurar um ghoswriter habilitado, para trabalhar em regime de sub-empreitada.
Adenda: encontrei o ghostwriter, é o chefe de pesquisa do Centro, que aceitou o trabalho porque eu pago-lhe por isso. Mas exige que o ex-líbris com o seu nome apareça em todas as folhas do relatório.

21 de Setembro
Acertados os detalhes com Den para eu coligir os seus artigos de crítica literária para uma obra a publicar em 2010. Curiosidade. Eu e Den parecemos sósias, descobrimos isso durante a reunião. Den propôs que trocássemos de trabalho por uma semana, porque começa sentir-se incomodado com mails "intimidatórios" que lhe estão a enviar, nos quais querem obrigá-lo a comprar uma réplica de um Rolex. Concordei, mas avisei-o que não é fácil atravessar paredes.

23 de Outubro
Al veio me mostrar o Prémio Pulitzer que ganhei através dele. Ao contrário do que ele afirma, eu tenho estômago. O estômago de Al é que não é grande coisa, ainda não comeu metade do livro premiado, e já diz que se sente mal disposto.


Links externos:

Num outro plano

O mundo está cheio de espíritos simples que se reputam de tolos, a quem não se dá o devido valor, e que, para seu infortúnio, acabam num Lar qualquer, depois de morrer ou desistir deles, quem os protege e alimenta. A dona Suca era uma dessas pessoas bondosas, que tomou à sua guarda o neto, que o próprio filho queria pôr numa instituição. O neto parecia e era uma pessoa normal, só que, desde miúdo, mostrara ser a criatura mais desprendida do mundo, passava horas a olhar uma espiga de erva a ondular na brisa ou à espera que caísse uma folha duma oliveira, com ele dávamo-nos conta de que o tempo não tinha medida, e os fenómenos não precisavam de leis, porque já existiam antes de nos pormos a pensar sobre eles. Discorria e cogitava sobre qualquer assunto, mas acabou por desistir da escola, por problemas de adaptação mas também por a avó achar que a escola só iria amputar o seu espírito livre.
Como a dona Suca e o neto viviam numa casa velha numa rua estreita que convergia para a marginal, era comum encontrar os dois na praia da Nazaré quando ia passear o meu cão, ela sentada numa cadeira de pano com um chapéu de aba larga na cabeça e um xaile sobre as pernas, e ele, despreocupado e feliz, a percorrer o areal. Cumprimentei a anciã, que conhecia bem porque eu era o seu médico, e prendi a trela do meu cão ao mastro duma bandeira de praia e tentei abordá-lo - caminhava com as mãos atrás das costas, muito atento às marcas na areia.
Perguntei-lhe o que fazia, e ele explicou-me sem se embaraçar, que seguia o rasto de uma gaivota, andava a segui-la há mais de meia-hora. Reconheci na areia as marcas em tridente das patas de uma gaivota, que em alguns sítios, quase não se conseguiam ver, afundadas por pegadas humanas. Acompanhei-o, secundando o seu estudo e ouço-o gritar de alegria.
- Aqui desapareceu! É o terceiro rasto de gaivota que eu sigo, e todas desaparecem no mesmo sítio, aqui mesmo onde estamos. O primeiro vinha desde ao pé da avó'uca aos ziguezagues até aqui, e havia um outro que vinha do lado do mar, ali, por aquela duna onde você prendeu o cão e acaba aí, ao pé do seu pé esquerdo.
- Levantaram voo juntas.
- Sim, mas não, deve ter sido de manhã, não havia temporal nem pessoas, levantaram voo aqui, porque o ar aqui é mais leve.
Levantou o rosto para o céu, e sorriu triunfalmente, naquele momento, o céu estava quase todo coberto de nuvens, menos ali, na perpendicular do lugar onde o ar era mais leve, ali as coisas podiam ascender como num túnel de vento, por serem imponderáveis. Não pude deixar de sentir um certo respeito por ele. Despedi-me dele, que descobrira e começava a seguir um quarto rasto de gaivota que partia dali, resgatei o meu cão, que já mostrava impaciência por estar ali preso, e aproveitei para dar uma palavra à dona Suca.
- Como está a máquina, voltou a sentir pontadas no coração?
- Não, pararam, cheguei a ficar preocupada...
Não por ela, parecia dizer o seu olhar que seguia com enlevo os passos do neto, não por ela.
- Logo que tenha a eco e o electro que fez, leve-os ao consultório!
Ela assentiu, e eu continuei a passear o meu cão pela praia. No dia seguinte, informaram-me que a mulher tinha ido de urgência para o hospital e permanecia internada, em estado grave. O coração soçobrara.
Procurei o neto, perguntei a várias pessoas e acabei por dar com ele no caminho para a Pederneira. Um aluimento de terras fizera tombar uma árvore ao pé do morro onde se estendia o Parque de Campismo da Nazaré, e por ali se entretinha o neto da dona Suca. Como a árvore virada deslizara pela encosta, a terra despregara-se quase toda das raízes, e estas, raiando para o céu como dedos afilados, pareciam os novos ramos da árvore. A primeira preocupação do jovem fora recuperar da copa caída e amassada, os ninhos de pássaros que conseguira encontrar e dispo-los entre as raízes da árvore, os seus ramos de agora. Quando me cheguei ao pé dele, arrancava ramos e folhas da copa, para os transferir para a parte superior, repondo a ordem natural das coisas.
Chamei-o à parte, conversei com ele com muita calma, e expliquei-lhe que a avó voltara para o hospital. Eu ia acompanhá-lo a casa e a Rosa, a vizinha deles, uma mulher muito prestável, iria fazer-lhe comida e cuidar dele por uns dias.
- avó'uca vai para o céu?
- Não, acho que não, pelo menos por agora.
Intimamente, não acreditava no que dissera, a máquina da mulher já dera repetidos sinais e parecia esgotada.
Levei o neto a casa, e fui dar uma palavra à vizinha, combinando detalhes. Quando voltei para me despedir dele, perguntou-me se não queria ver a sua colecção. Aceitei, e ele levou-me a uma sala pequena, que já fora um quarto em tempos, juncada de caixas e caixas de madeira e cartão. Dentro delas, as suas mãos revelaram-me uma panóplia de objectos e artigos. Seixos polidos, e pedras comuns onde ele descobrira alguma espécie de beleza, conchas, folhas secas, bagos de fruta, insectos mortos, impressões de objectos e pegadas na lama seca que preservara cortando um quadrado de lama com três dedos de espessura e depositando-o na tampa de uma caixa de sapatos, e as suas palavras expunham-me outras maravilhas, um fóssil de vieira que encontrou ao pé da Praia do Norte, que ele deixou a amaciar dentro de um frasco de água salgada antes de o devolver ao mar, um coração diminuto que ele extraiu de uma cobra que fora esmagada por uma roda e que colocara dentro de um frasco com álcool, onde continuou a bater sozinho durante três semanas, um pedaço de rocha vulcânica que trouxera do monte S. Bartolomeu e que a avó conservava debaixo da cama porque lhe afiançava que o quarto dela ficava menos frio com ele ali.
As suas mãos e as suas palavras libertavam-se com paixão, quando o telefone tocou, sacudindo o ambiente como uma descarga eléctrica. Não foi nenhum de nós que atendeu, mas a vizinha que viera para preparar o jantar, não foram precisas palavras, o gemido de dor dela ao telefone era sobejamente explícito. Senti darem-me um empurrão violento, tropecei numa gaveta e caí no meio dos caixotes. Quando me recompus, corri até à rua, mas não havia sinais dele. Tinha desaparecido.
Em poucos minutos, eu e diversos vizinhos, que haviam sido alertados, percorríamos as ruas mal iluminadas, sem o conseguirmos encontrar. Já todos começavam a desesperar quando me lembrei de ir buscar o meu cão e voltar com ele à casa da dona Uca. Apanhei uma t'shirt dele nas costas de uma cadeira e dei-a a cheirar ao animal, e ele partiu sem hesitar pelas ruas, seguido por nós. O odor da peça levou-nos até à praia. Fiz um sinal aos outros para esperarem e confiei a trela do cão à Rosa. Entrei sozinho na praia, ultrapassei a faixa de areia iluminada pelas luzes amarelas da vila e descobri-o, sozinho, no meio do areal. Estava de pé, a agitar os braços como se fossem asas, no lugar, mais ou menos no lugar, onde ele estava seguro de que o ar era mais leve.

- ALL RISE!!
O mendigo ergueu o olhar perplexo, para o técnico que acabara de entrar no gabinete.
- Desculpe-me - pediu o técnico - lembro-me sempre destas tiradas holiúdescas quando vejo alguém sentado. O senhor é mendigo e, segundo me informaram, vinha indagar se havia alguma solução para si neste programa de novas oportunidades?
- Sim, senhor doutor. Ser mendigo já não dá, as pessoas não dão esmola e chegam a assaltar-me, e agora vem o frio e a chuva e não se está bem em lugar algum.
- Concordo consigo, e a polícia também não ajuda, não é? Vejamos... tenho vários cursos a iniciar-se, alguns ainda com vagas - programação, contabilidade, telemarketing, cunnilingus tântrico, jardinagem...
- Eu não queria cursos, doutor, apenas uma ocupação mais rentável, a minha cabeça já não dá para marranços ou copianços e eu queria apenas o que vocês publicitam: uma nova oportunidade.
- De acordo, cavalheiro, estamos aqui para isto. Tem alguma experiência profissional, além da de crava-esmolas?
- Não doutor, comecei com um prato de estanho aos dez anos de idade e ando com o mesmo prato de estanho aos cinquenta. Sempre pedi, e agora peço uma vez mais.
- De acordo, de acordo, mas podia tentar valorizar-se e deixar de ser um pedinte andrajoso. Tomava banho, vestia-se bem, e mandava imprimir numa tipografia um livro de talões, e em vez de pedir esmolas ridículas, pedia contribuições para uma viagem de estudo a um lugar longínquo, o Djibuti ou Vila Real de Santo António. As pessoas são sensíveis às carências dos universitários, e acho que você se safava com menos horas de trabalho.
- Mas isso não é ilegal? É que os polícias conhecem-me bem, e mesmo desencascado pelo banho, eu acho que eles me topavam às primeiras e desatavam logo a malhar no desgraçado.
- A coisa assim está mal, mas ainda lhe posso fazer uma sugestão, à luz da oportunidade a que você aspira...
- Tenha a bondade, doutor.
- Você é um mendigo mal sucedido, porque a única deformidade que apresenta é cheirar mal. Não tem um braço a menos, ou sarna ou borbulhas na cara. As pessoas olham para si e pensam: vai trabalhar ou tirar um curso, atira-te ao telemarketing ou ao cunnilingus. Só se faz caridade com quem consideramos mais desfavorecido do que nós e, visto isso, vou-lhe dar o número de telefone de um cunhado meu que tem um talho e o pode ajudar...
- Mas, doutor...
- CUT! CUT!

Cerdas aceradas

Como ainda morasse na casa da mãe, não queria que a mãe ouvisse pitada da sua vida íntima, uma vez que a entrada para o seu quarto era porta com porta com a da mãe, separadas por um corredor estreito. Tenta amortecer os ruídos produzidos pelas molas do colchão, o ranger da madeira, o ruído causado pelo atrito dos encaixes metálicos da base. Por fim, decide que, a ter sexo, teria de ser no chão, em cima do tapete. A primeira vez que o faz, esvazia-se a boneca insuflável.

Pão-nosso-de-cada-dia

Quando deixei de estudar, não que estudasse muito, os meus pais arranjaram-me um emprego na pequena padaria da terra. A princípio, não gostei, porque era de noite, e sentia-me um desterrado no trabalho, às horas em que os meus amigos passeavam e se divertiam, mas a pouco e pouco, ganhei gosto pelo que fazia. O trabalho não matava ninguém, e havia sempre uma ou duas pausas, enquanto as massas levedavam, que dava para descansarmos, espojados em cima dos sacos de farinha, a conversar sobre o que calhava. E depois havia os petiscos, pão com chouriço, broa de milho com sardinha, com bacon, com torresmos. Aquilo saía do forno do pão a frigir com os molhos do que metíamos lá dentro, e já nós, com as mãos escaldadiças, partíamos em nacos e comíamos com vontade, a queimar os lábios mas a saber que nem ginjas. Por vezes, também acompanhávamos os petiscos com uma bebida, uma garrafa de vinho do Porto ou de ginja, que se mantinha escondida por trás das paletes com farinha, e da qual se bebia por copos de plástico que lavávamos de seguida e se emborcava no gargalo da garrafa clandestina. Os colegas também não eram maus tipos, tirando o forneiro, que tinha muito mau génio e ralhava por qualquer coisa, esse era mesmo uma peça, o pessoal falava da inflação, dalgum jogo de futebol, dum naufrágio, do mau tempo em França, e logo ele, surdo e desconfiado, repetia com um estribilho de papagaio: "Tá tudo na Bíblia! Tá tudo na Bíblia!". Ninguém o contradizia, mas também não lhe davam corda, mas, quando se falava em mulheres, em freguesas jeitosas, e ele se apercebia disso, a sua conversa mudava, para outro disco riscado, contando como se ninguém soubesse que, uma vez, em moço, quando andara embarcado, dormira com duas mulheres ao mesmo tempo, o que para ele era um grande orgulho e um hino à sua virilidade; e logo eu, rapaz, impregnado de malícia, cochichava para os outros: «elas ressonavam enquanto ele, apalpando as mamas delas, cacarejava: "Tá tudo na Bíblia! Tá tudo na Bíblia!"».
De todos os colegas que conheci naquele trabalho, a minha amizade recaiu, naturalmente, para o Zé Mauro, porque os dois tínhamos idades muito próximas, e já nos conhecíamos de outras paragens. O Zé Mauro era da terra, nascera na aldeia e sempre por ali ficara, ao contrário de mim, que andei aos tombos de terra em terra antes de ali fixar residência. Eram outros tempos, mais fechados e sem oportunidades de maior, a mãe do Zé Mauro trabalhava há trinta anos numa quinta, e o filho sempre a acompanhara, ganhando uns cobres nas férias da escola a apanhar fruta ou a guardar ovelhas, a primeira vez que o Zé Mauro saiu do concelho já tinha doze anos, e acompanhou a mãe a Lisboa para uma consulta médica. Foram de comboio, acompanhados de um primo da sua idade e, chegados a Lisboa, a mãe foi de táxi para o tal consultório médico, e o Zé Mauro e o primo preferiram ficar na estação do Rossio, a subir e descer nas escadas rolantes durante horas, de tão maravilhados que estavam, porque nunca tinham visto semelhante prodígio.
Com o tempo, o Zé Mauro evoluiu, e ele próprio contava com gosto aquele episódio das escadas rolantes. Estivera quase um ano como jardineiro pela Câmara da Nazaré e outro tanto num emprego a termo certo na Marinha Grande, e em seguida, tentara a sorte nos cargueiros, e na esperança de um futuro melhor, experimentou ainda andar nos barcos de pesca, mas depois de chegar ao porto de Peniche num galeão nazareno derreado e semi-inundado de água, desistiu de aventuras e neptunices e voltou à aldeia que o vira nascer, e segurou aquela vaga de ajudante de padeiro. Não se ganhava muito, mas era sólido, e, uma vez que não pensava em casar-se ou ter filhos, o emprego correspondia ao que precisava. Vivia na casa da mãe, e o salário caía inteirinho nas suas despesas e gastos pessoais, quase todos de roupa, tabaco e saídas ao fim-de-semana.
O Zé Mauro conhecia toda a gente ali, sabia quem eram as pessoas, onde viviam e quando lá estavam. Por esse motivo, era ele quem fazia surtidas à noite, para ir roubar fruta. Quando entrei para a padaria, tornei-me o seu valido. Saímos nas pausas nocturnas, com sacos, e rapinávamos fruta, íamos como estávamos, de roupas brancas como a cal, ou com um casaco por cima da bata se a friagem era muita. Quando saíamos pela porta traseira da padaria, o Zé Mauro já sabia de antemão qual era o alvo, certo pomar carregado que ele topara durante o dia, ou as árvores de fruto dum quintal que não tinha cão ou, nem sequer, lá tinha os donos a viver. A dieta era variada - maçãs, peras, alperces, diospiros, ameixas, damascos, nêsperas. Dois sacos cheios de fruta davam-nos para uma semana, semana e pouco, e esvaziava-se depressa porque todos, os nossos patrões inclusive, debicavam dela sem pudor. Por vezes, a fruta sabia-nos melhor do que o habitual, e exagerávamos um pouco no consumo, obtendo, em resultado, monumentais caganeiras.
Já o acompanhava nessas incursões nocturnas há mais de um ano, quando eu e o Zé Mauro apanhamos um susto enorme. Aconteceu-nos durante uma expedição a um pomar na berma da estrada para a Quinta. O dia estava quase a raiar e estávamos a apanhar fruta a esmo, quando ouvimos um remexer de canas perto de nós, e logo, sem aviso, começaram a chover pedras à nossa volta, enquanto uma voz esganiçada uivava: "Meus malandros, a roubar fruta, meus sacanas!" - desatamos os dois a correr com os sacos mal-seguros por uma alça a libertar o conteúdo pelo caminho, e só paramos dentro da padaria, a arfar e cheios de remorsos. Não devíamos ter levado as batas! - dizíamos um para o outro - Assim já devem saber quem nós somos! Estúpidos! Ainda somos despedidos por causa de um saco de peras! - O Zé Mauro já rezava que o melhor que havia a fazer, era embarcar outra vez, e andamos naquela agonia durante uma hora, até nos baterem à porta de serviço da padaria. Era a mãe do Zé Mauro, antes de ir para a Quinta tinha ido ao fontanário buscar um jarricão de água, e fora ela quem nos surpreendera no pomar, as suas palavras mal se percebiam no meio das gargalhadas, e os olhos choravam-lhe de tanto rir. E nós dois, entrunfados e com a burra amarrada, mas mais aliviados do que se nos tivessem tirado de cima uma pilha de sacos de farinha.
Passado o susto, retomamos a nossa rotina habitual, o trabalho durante a noite, amenizado pelos acepipes e pelo copito de vinho ou licor, e, pela manhã, as tarefas de limpeza ou arrumação, antes de saírmos para o dia acabado de nascer, á procura do leito acolhedor. Andei uns tempos a ajudar na distribuição, depois, encarregaram-me de acondicionar o pão nas prateleiras e tulhas da padaria. Foi numa dessas manhãs a arrumar pão por trás do balcão, que ouvi algo que me sobressaltou. A Guilhermina, uma senhora muito velha e de aspecto desleixado e sujo, queixava-se à patroa que às vezes, ouvia muito barulho à noite, e, na noite anterior, em particular, ganhara coragem e fora à janela, e vira um vulto branco a andar em cima do muro alto. Esgueirei-me para o interior da padaria, e contei-o ao Zé Mauro, que raspava a massa seca de uma tendeira. Ele ergueu os olhos com olheiras, e pensou um pouco. A Guilhermina morava por trás da rua da padaria, na segunda rua paralela a ela e, realmente, nessa noite, nós dois tínhamos ido ao quintal dos Azevedos, que estavam a passar férias na casa do Baleal, e a casa dela era mesmo ao lado. Tínhamos de ter mais cuidado, aquela velha com insónias podia estragar-nos o esquema. Não voltamos a falar no assunto, também, ninguém ligava ao que a Guilhermina dizia, porque tinha fama de ser um pouco tonta, já que falava sozinha para as sombras e tinha a mania que os animais eram almas reencarnadas.
Duas semanas depois desse aviso, as reservas de fruta estavam no fim, pelo que lá tivemos de ir outra vez
à procura de mais. O Zé Mauro estava decidido, o melhor sítio era a casa dos Azevedos, a família continuava a banhos no Baleal, e as árvores de fruto estavam marrecas, de tão carregadas. Só lhes fazia bem que as aliviássemos de algum peso. Levamos os sacos e, num instante, estávamos posicionados junto ao muro do quintal. No mesmo sítio da outra noite, empilhamos os dois tijolos que lá haviam sido deixados, e elevamo-nos para a garupa do muro. Saltei lá para dentro, mas o Zé Mauro continuou sentado no muro. Chamei-o uma e outra vez, mas não me deu resposta. Subi para o banco de jardim que estava encostado ao muro e voltei para junto dele. Perguntei-lhe o que se passava, mas nada, perdera o pio, e tinha o olhar fixo em frente. Segui a direcção do seu olhar e entendi tudo. Os Azevedos tinham construído um grelhador em tijoleira e ferro no quintal, com a chaminé adossada ao muro da vizinha, para o que tiveram de levantar o muro uns bons dois metros dos dois lados da chaminé. Donde estavámos, mesmo que por erro de cálculo, tivéssemos estado, na vez anterior, um ou dois metros mais ao lado, não se avistava nem uma franja da casa da Guilhermina, muito menos, a janela de onde ela avistara o vulto branco sobre o muro. Fora na mesma noite, mas não éramos nós. Num convénio silencioso, os dois voltamos à padaria, de mãos a abanar. Não posso falar pelo Zé Mauro, que continuava sem fala, mas eu estava mesmo a precisar de um ou dois cálices de Porto, porque a noite gelara de repente.


(Mudança de via, mais suave)

Marmúrio

Quando alguém ganha, como um prurido irritante, o desejo de algo que não sabe como obter, é natural e saudável que faça figura de parvo. Foi o que aconteceu ao imaturo Neves, flutuando numa idade incerta entre o pico da adolescência e a idade adulta. Todo o tempo que lhe sobejava de trabalho duro nas obras, empregava-o sabiamente a frequentar lugares frequentados por mulheres - bares, bailes, festas, aniversários - e a tentar converter-se, aos seus olhos, num objecto de desejo. Pelo menos, esforçava-se, abdicara das suas roupas genuínas de metaleiro convicto, em favor de umas roupas de betinho, com sapatos bem engraxados e cabelo cortado curto em estilo clássico. Também passara a barbear-se todos os dias, cortando pela raiz qualquer pêlo solitário que se atrevesse a romper na cara. O único resíduo que se permitira do tempo em que as suas hormonas não o tiranizavam, fora uma insígnia de pano dos Iron Maiden, cosidos pela mãe ao bolso das calças. Vestido assim, e compondo a personagem fictícia com citações de Paulo Coelho e letras decoradas dos Oasis, foi rodopiando numa espiral ascendente de contactos e convites para festas e eventos.
Uma vez mais vestido com artifício e fazendo tempo para uma recepção num clube náutico, lembrou-se de fazer uma caminhada pela marginal. O sol de Outubro era baixo, mas intenso. Algumas pessoas mais corajosas, tinham-se despido parcialmente para apanhar um pouco de sol na areia da praia. Olhava ociosamente as gaivotas pousadas por perto, quando viu a mulher sentada na areia, encostada ao murete da calçada. Estudou-a, devia ter uns trinta anos, tez morena, e cabelos castanhos apanhados no alto da cabeça por um elástico. Era uma oportunidade soberana, achou, as mulheres maduras podiam dar mais prazer a um tipo do que qualquer das miúdas que esperava reencontrar na festa. Talvez ela tivesse um carro e quisesse dar uma volta para uma queca ou um bobó. Ás vezes, as mulheres, mesmo as casadas, iam para sítios daqueles à procura de companhia. Só tinha de meter conversa e ser esperto. Desapertou dois botões da camisa, passou a palma da mão pela cara num gesto vago, e pisou o areal junto a ela.
- Olá, está um sol fantástico, não...
Calou-se, a conversa de circunstância pulverizou-se na areia. Ela olhava-o, surpreendida, uns olhos negros e profundos que foram seguindo dentro de si as momentâneas transformações do seu desejo. A mulher de trinta anos tinha o corpo quebrado, mutilado por algum acidente. Uma das pernas terminava num coto à altura do joelho, enquanto a outra mantinha com o tronco um ângulo estranho, absurdo, e com a pele rasgada por profundas cicatrizes. Duas canadianas estavam largadas na areia ao seu lado.
Neves não foi capaz de pronunciar mais palavra alguma, virou costas e regressou ao empedrado da marginal, roendo-se de culpa e com um nó no estômago, por não ter conseguido dizer nada àquela mulher desconhecida. Aquele olhar agridoce não o largava.
Voltou para casa, e a mãe estranhou, por ser muito cedo e por ele ter vomitado de seguida, com violência, como se tivesse bebido uns copos valentes.

Domingo

de Edward Hopper

- Sabes, sei que tenho aparecido pouco, mas estou ali ao lado, a escalar outra montanha diferente desta...
- Mas, como é possível? Consegues dividir-te em dois, e escalar duas montanhas ao mesmo tempo?
- Não me expliquei, não sei se é outra montanha, ou outra vertente desta, ou este mesmo caminho que agora sigo, mas do lado de dentro, no verso ou negativo deste.
- Se isso é uma coisa zen, é melhor explicares-me, sílaba por sílaba, a minha imaginação esgotou-se há muito tempo, a assistir à retórica dos políticos.
- Não é zen, não tenho aparecido, prontos! Passa-me mais grampos, por favor!
- Para esta ou para a outra montanha? É que, se for para a outra, não os posso desperdiçar, e esta nossa montanha ainda não tem o topo à vista.
- Está bem, esquece!
- Porquê? Vais por dentro?
- Não, porra, vou apanhar o elevador panorâmico!

Fórmula exorcista dos vanguardistas:

VAI-TE, RETRO!!

- Então, estás aqui?
- É verdade, tem de ser, a gente precisa e lá tem de vir.
- E para os teus lados, tudo a correr bem?
- Dois motoristas de camião, três uniformes, um homem que eu não sei o que estava a fazer no meio da rua, e uma mulher, a mulher foi por engano, tinha o cabelo curto, parecia mesmo um bivaque.
- Pois, a minha manhã também foi parecida. E cá estamos outra vez. Nem estávamos aqui se não viéssemos ao mesmo. Onde estás agora?
- Na catedral, na torre danificada pelas bombas. E tu, ainda preferes cisternas?
- Sim, é como a catedral, ninguém espera que nada de mal venha dali.
- As pessoas são mesmo simples. Bem, lá temos de ir, levo balas Slim, tem mais poder de penetração, há alguns alvos com colete.
- Sim, também tenho encontrado, é preferível apontar sempre para a cabeça, para não haver ripostação. Ali não há metal, só se for um dente de ouro.
- Pois é, vamos à vida que a morte é certa.
- Tens razão, temos de a levar à frente, como aqueles escaravelhos que fazem rolar uma bola de bosta.
- Nem mais, saúde e tudo de melhor.
- Também para ti.

(a lei de Murphy aplicada aos antiquários)

Se, numa loja de antiguidades, encontrar exposta uma peça excepcional, muito superior a tudo o que a rodeia, não vale a pena perguntar o preço porque, de certeza, essa peça «não é para venda».

Força de intervenção

Já eram dez da noite, quando todos se reuniram no gabinete do editor. O Abel vinha cheio de olheiras porque havia adormecido a ver televisão e o Chaves, do Departamento Gráfico, fora transplantado duma festa e ainda trazia na cabeça um chapéu de cone com fitinhas, e segurava uma garrafa de champanhe rearrolhada. Todos estavam curiosos para conhecer as causas daquele reunião. O editor, vendo que já estavam todos reunidos, foi breve e devastador:
- Morreu esta noite o Jonas Capião, vulgo Jónatas, o nosso autor mais lucrativo.
A notícia caiu como uma bomba, pulverizando figurativamente os corpos e os espíritos por tudo quanto era sítio. O pó em que se convertera o Chaves estava ensopado em champanhe.
Morrera o Jónatas, o laureado poeta e romancista Jónatas, o mimado arrebanha-prémios!
- Tinhamos uma parceria com Jónatas e vamos mantê-la com o colégio dos seus herdeiros e familiares. Hoje temos muito trabalho pela frente, e vocês ficam a partir deste momento divididos em três equipas, que vão explorar as diferentes vertentes do problema. No quadro de cortiça estão listadas as equipas e respectivas funções. Amanhã ao meio-dia, reunimo-nos outra vez aqui para confrontar resultados, se precisarem de dormir, dormem em turnos de três horas, e nunca duas pessoas da mesma equipa ao mesmo tempo. Estamos entendidos?
Todos concordaram com um resmungo indefinido, já abeirados da lista presa ao quadro por um alfinete verde, e saíram apressadamente para cumprir as incumbências.
No dia seguinte, voltaram-se a reunir ao meio-dia, como fora agendado. Traziam caixas, pastas, blocos de apontamentos com folhas rasuradas. O editor esperava-os, angustiado.
- Ponham-me a par, um de cada equipa faz de porta-voz.
Avançaram os mais carismáticos.
- Juntamos todos os papéis do Jónatas e fiz uma cópia de tudo o que ele tinha no disco rígido - disse um - isso salda-se em vinte e quatro rascunhos de poemas os dois primeiros capítulos de um novo romance e alguns esboços manuscritos de artigos ou crónicas. O meu departamento pode lapidar os poemas até os dar como concluídos, e estes dois capítulos podem ser reescritos como uma pequena novela com um final inconclusivo, como todos os romances de Jónatas, aliás. Os artigo, podemos desenvolver e recriar com outros temas, merecendo uma eventual edição, documentada com uma fotografia desfocada das folhas.
O editor sorriu, menos mal, duas edições, talvez três, a acrescentar às reedições de tudo o que já havia sido publicado.
- Equacionamos a eventualidade de novos projectos com a insígnia Jónatas. Transformar a casa dele em casa-museu parece viável, uma vez que morava num edifício de interesse histórico e possui uma biblioteca rica, no entanto, a casa é pobre e muito vazia, teríamos de enriquecê-la com alguns quadros e colecções, coerentes com o que as pessoas conhecem dele. Processamos todos as roupas e objectos pessoais que nos poderão servir para exposição, e a viúva ofereceu-nos o seu depósito de fetiches e filmes pornográficos, do qual já nos desembaraçamos, por nos parecer muito comprometedor. A Ana guardou num frasco de vidro, amostras encontradas no tampo da sua secretária, das crostas que ele estava sempre a raspar das têmporas, pode ser que venham a ser de alguma utilidade para biografias ou ensaios futuros.
- Analisamos o contexto legal e ético, e não existe nenhuma contrariedade - discursou por fim o Abel - a família e os advogados estão inteiramente do nosso lado à custa de alguns donativos e promessas. Há apenas uma nano-problema ético. O Jónatas deixou escrito em diferentes passagens que gostaria que tudo o que dele sobreviesse depois da morte fosse destruído ou queimado, escritos, notas, desenhos; disse-o também a vários membros da família e tencionava grafá-lo no testamento, o que não veio a acontecer porque, se calhar, como todos, morreu mais cedo do que pensava.
- Se era só uma intenção, não lhe vamos dar atenção. Inventariem os familiares a quem ele havia confessado isso e peçam-lhes que o omitam aos jornalistas e curiosos. Não creio que isso justifique subornos, porque eles têm tanto interesse como nós em esfolar o Jónatas. Mais alguma coisa de interesse?
- Não! - responderam em uníssono os três porta-vozes.
- Óptimo, o funeral, a meu pedido, é só esta tarde. Quero que tudo o que foi sugerido aqui seja convertido num plano de trabalho meticuloso, e temos de limar arestas e tomar deciões definitivas antes da missa do sétimo dia. O Jónatas morreu, longa vida ao Jónatas!!

Mono-diálogos

- A casa está quase toda limpa, menino, quer que escalde a botija de água quente para a noite?
- Não, Rosa, eu mesmo faço isso.
A velha senhora continuou a limpar o pó do escritório, olhando-o de soslaio enquanto ele debitava palavras num ecrã branco. Estava sempre desconfiada.
- Sabe que eu fui sempre amiga dos seus paizinhos, enquanto foram vivos.
- ...
- Eles iriam ficar muito tristes lá em cima se aquilo que o menino escreve tivesse asneiras ou não respeitasse os dez mandamentos. O menino não ia fazer uma coisa dessas, pois não?
- Não, Rosa, se eles treslessem o que estou a escrever, ficariam muito contentes e orgulhosos!
- Ah, ainda bem, menino, nem sabe como isso me deixa satisfeita.
Ela continuou a limpar e ele procurou retomar a escrita, sem êxito.
Pegou num livro da estante e saiu. O apartamento onde morava situava-se no penúltimo andar de um prédio de planta irregular encravado entre duas ruas, que terminava a nascente num ângulo de quarenta e cinco graus, o que deixava à sua mercê um terraço pequeníssimo onde se habituara a refugiar-se. Sentou-se na sua cadeira de plástico e abriu o livro, retesando o marcador de fita.



Estás cá fora outra vez, vizinho, as paredes pesam, não é? Não é muito prudente ires para o terraço de camisola interior, sobretudo, quando já passaste os cinquenta, e tens montes de doenças associadas aos teus problemas de nervos. Como vai ser agora? Vais ler dois parágrafos antes de te enroscares no chão como um gato, ou vais ficar a olhar para a rua, mordendo com força no teu antebraço? Seja como for, não te atires hoje, porque me sinto particularmente bem-disposta. Estive a tratar das plantas, mudei umas três de vaso juntando terra preta de saco, e algumas estavam a precisar de sol e trouxe-as aqui para o terraço. Sabes que as plantas são como nós? Quando possuem raízes a mais para o espaço onde estão confinadas, sufocam, precisam de desenlear as raízes e criar novas guias, arejar e ficar mais leves. Nós também precisávamos que nos mudassem de vaso para uns maiores onde coubessem todos os nossos silêncios e frustrações, vasos grandes, enormes, com um pouco de prado e de montanha, algumas ondas de mar e - porque não? - uma ou duas estrelas, das pequeninas, que brilham como vagalumes. Fiz chá, vizinho, quente e cheio de aromas, gosto de segurar a chávena entre as mãos, e inspirar com força, com o nariz sobre os seus vapores. Oferecia-te uma chávena, vizinho, fazia-te bem, mas estás do outro lado da rua e nunca nos falamos, irias pensar que eu sou maluca. Não, não faças isso! Não puxes os cabelos, nem te mordas! Então, vizinho? Não pode ser assim tão mau! Olha, vou para dentro, assim não se consegue falar contigo. E vê se vestes um casaco, porque senão, ficas outra vez de cama, cheio de febres!

Sentia-se infeliz, ou, pelo menos, gostava de acreditar que sim. A mulher expulsara-o de casa e o patrão que, por acaso, andava a montá-la, dera-lhe um pontapé no traseiro - tinha razões de sobra para acreditar que era e estava infeliz. Então bebeu, dissolvia assim a infelicidade como se dissolvesse um torrão de pedra que se alojara no peito. Desta vez bebeu sozinho, mais uma vez, sozinho, que não tinha mais amigos que os voláteis companheiros de bebedeira, e enfrascou-se numa tasca sórdida junto ao porto. Quando amanheceu, descobriu-se igualmente sozinho, mas à deriva em alto-mar, num pequeno barco à vela. Não se via nada senão água, e mais nenhum som do que o murmúrio das ondas, e o das adriças a flagelar brandamente o mastro. Começava a entrar em pânico quando descobriu aos seus pés uma pequena geleira de cor azul. Levantou a tampa com ânsias, mas lá dentro encontrou apenas covetes de gelo e uma garrafa de água.
Levantou os olhos para o céu e lamentou-se como Job: "Meu Deus! Meu Deus! Não gostas mesmo de mim!".

Da auto-suficiência

[Na natureza do orgulho
nada se pede,
nada se cria
tudo se transtorna]

O professor Correia, ou sotôr, na boca dos discentes, possuía uma cultura variada e volumosa. Depois de muito ver mundo e correr seca e meca para encontrar os lugares e as pessoas que já conhecia em texto de letra, converteu-se num crítico atento e severo de tudo o que o rodeava. Uma gralha num jornal ou num livro não passava incólume, e sentia-se na obrigação de escrever aos editores ou autores para que fosse corrigida, ou evitada numa próxima edição, e reservava os mesmos mimos às citações falsas ou deturpadas, as inexactidões dos factos tratados ou o mau português de letreiros comerciais como os vendessse casa ou procoro novo dono.

Não seria de estranhar que, passando umas férias repousadas na Beira Alta, a adrenalina tivesse incendiado o seu intelecto ao contemplar um escandaloso letreiro de informação turística: Dólman da Palha - a 3 quilómetros. Dólman? Que absurdo! Dólmen! Dólmen! Monumento megalítico, dólmen ou anta. Isto não vai ficar assim, resmungou para os seus botões. Tirou uma fotografia ao letreiro e foi à procura do dólmen, três quilómetros em terreno pedregoso a redigir mentalmente os termos e as frases do que seria um artigo de jornal ou, ainda melhor, uma exposição enérgica ao IPPAR.

Exmos Senhores...saudações cordiais...dirijo-me a vossas excelências para vos denunciar um caso de imprópria e absurda referenciação das nossas riquezas arqueológicas e patrimoniais...

Pré-escreveu tudo o que iria escrever no teclado do seu portátil, e até se imaginou a rubricar o exemplar impresso. Três quilómetros? Já os devia ter percorrido. Parou no cimo de um montinho e olhou em redor, e descobriu-o, ao dólman - um espantalho numa pequena seara de milho vestido com umas calças velhas e um casaco justo e curto, o próprio dólman. Tinha sido enchido com palha, e uma pena de pomba na cabeça evocava a pluma no chapéu dos hussardos. Sentou-se no pequeno monte a descansar, e tirou uma foto ao espantalho, pelo pitoresco da imagem, enquanto o seu espírito premia o delete na carta.

Repousado o corpo e sentindo mais tolerância pelo universo, encetou o caminho de volta, deixando para trás o monte onde descansara, monte que, aliás, não era bem um monte, mas uma colina artificial, uma mamoa, que cobria a câmara e o corredor de um dólmen megalítico.

Pontuação mínima

Os dois não se conheciam pessoalmente, e marcaram encontro num ponto da cidade. Como um deles faltasse, o outro só encontrou reticências.

Quase oitenta anos, e tinha o corpo feito num oito. Uma bacia fracturada por duas ocasiões e a coluna vertebral afeiçoada em feitio de meia-lua como se alguém lhe tivesse dado uma marretada com força nas costelas do lado direito. Deslocava-se numa cadeira de rodas, mas por vezes, com grande esforço e urros de dor, conseguia aguentar-se num par de canadianas, com as quais se arrastava pela aldeia onde morava, para ver os amigos. Um sobrinho seu, que fora em tempos chofer de praça, levava-o duas vezes por mês a um endireita na zona de Minde, que o punha a calores no aparelho de infra-vermelhos, e depois lhe dava uns puxões às pernas e violentas pancadas na bacia, que o faziam sentir um pouco melhor nas horas seguintes. No dia seguinte estava na mesma, mas com ganas de voltar ao tratamento benfazejo.
Nas suas viagens a Minde para não-endireitar os ossos, passava por muitos lugares e lugarejos, e a maior satisfação que tinha era cruzar-se com algum cortejo fúnebre. Pedia logo ao sobrinho para parar o carro, e fazia corpo com as pessoas que acompanhavam o morto ao cemitério. Ficava lá até ao fim, assistia ao pranto, à oração, à descida do féretro e as despedidas na despedida. Quando voltava para o carro, cheio de energia e quase correndo apoiado nas canadianas, o sobrinho já sabia o que ele ia dizer:
- Se calhar até era novo, e mais direito que o meu cajado, mas também este foi primeiro que eu.

Fado

Inspirado por um verso de Ricardo Reis, achou chegada a altura de construir o seu próprio Fado, erguê-lo acima de si como um vértice sob a lua.
Ergueu andaimes, elevou paredes, forçou harmonias.
Quando o seu Fado ruiu, repetiu-se a confusão de Babel na desordem dos seus membros dispersos.


(...)
Como acima dos deuses o Destino
É calmo e inexorável,
Acima de nós-mesmos construamos
Um fado voluntário
Que quando nos oprima nós sejamos
Esse que nos oprime,
E quando entremos pela noite dentro
Por nosso pé entremos
(Ricardo Reis, "Da Nossa Semelhança")

Parte de leão

Todos os dias chegava a casa à mesma hora, aquela em que o autocarro 35 o trazia do trabalho e o deixava na paragem situada a apenas cinco metros da porta do lar. Mas hoje, veio no 35 umas horas mais cedo, porque fora sumariamente despedido. Quando saiu do autocarro, não teve coragem de ir logo para casa e explicar o infortúnio à mulher e aos filhos, em vez disso, escondeu-se num café próximo, onde pediu um brandy para ganhar coragem. Já ia no terceiro brandy, sem efeitos visíveis na sua vontade, quando entrou o Alves, um amigo e colega dos tempos da escola. Este notou logo que algo se passava, vendo-o macambúzio e a emborcar brandys numa mesa sombria de canto.
- O que é que se passa contigo? Alguma desgraça?
- Fui despedido - informou, com uma lágrima a perlar-se no canto do olho - deram-me um par de patins e puseram-me a correr.
- Ah, isso! - Suspirou o Alves, e sentou-se à sua beira com um ar de mistério - vou-te contar uma coisa que talvez te possa ajudar, aqui há uns anos estive numa situação parecida, estava endividado e sentado num gabinete a tentar negociar a dívida com uma instituição de crédito, o fulano com que eu falava dizia-me que uma dívida que se deixa crescer é como um balde de cimento fresco onde nós enfiamos os pés, ficamos sem poder andar e a nossa vida paralisa. Nisso, lembrei-me e repeti ao fulano aquela frase do Galileu - e pur se muove, e no entanto ela move-se. Para meu espanto, o fulano ficou muito pálido, e não só cancelou o meu processo de dívida como me disponibilizou uma grande soma de dinheiro para futuros investimentos ou aplicações. Esta história repetiu-se em outras situações de aflição, e em cada uma delas eu repetia e pur se muove, e todos os obstáculos se evaporavam e as pessoas desunhavam-se para me ajudar. Racionalizando a coisa, cheguei à conclusão que a frase do Galileu é a senha dos membros dalguma sociedade secreta que está disseminada por todos os países e sectores de actividade, ela abre portas como uma gazua mágica, basta repetires a frase e todos os teus problemas deixam de existir. Nunca aprofundei, porque também não me convinha fazer perguntas, qual era a natureza e finalidade dessa sociedade secreta, mas podes crer que é um organismo-sombra com um poder impressionante. Experimenta, e depois diz-me alguma coisa.
Agradeceu ao Alves, pagou-lhe um brandy e saiu do café. Será que o Alves estava certo? Já não o via há uns cinco anos e podia não estar a bater bem da bola, mas, por outro lado, não custava nada experimentar. Apanhou o 19 para o trabalho, e na portaria da fábrica, pediu para falar com o gerente. Esperou três horas numa sala com sofás, mas foi atendido. O gerente recebeu-o à porta e apertou-lhe a mão, torcendo o nariz ao seu bafo alcoólico. A gaguejar, proferiu: e pur si muove. O homem ficou branco como a cal, deu ordens para ele se sentar à secretária e informou-o que daria ordens à secretária e aos seus assessores para que o preparassem para exercer o cargo de gerente da fábrica.
Naquela tarde, não regressou a casa no 35, veio no carro da firma, trazendo no bolso do casaco um caixa de charutos cubanos. Sentia-se em beleza, e o resto da semana, além de passar por uma preparação intensiva para gerente de empresa, empregou o seu tempo a solucionar outros problemas comezinhos, fez extinguir a hipoteca da casa, arranjou um carro novo, oferecido, e começou a ver catálogos de lanchas e pequenos iates, porque já estava farto de ir à pesca ao fim-de-semana com uma cana e um balde.
O mundo movia-se, e ele não queria ficar para trás. Acumulou prémios literários por romances que não tinha escrito, distinções científicas por descobertas que não existiam, e títulos de doutor Honoris Causa das universidades mais prestigiadas do mundo. Mas não estava satisfeito, achava que o presidente da república lhe podia conseguir um título qualquer de comendador que o prestigiasse ainda mais e, por bitola suprema, como católico professo e praticante, fez planos para uma viagem ao Vaticano, porque se achava merecedor de uma distinção às mãos do Papa, algo do tipo de Conselheiro para a Praxis Católica.
Estabeleceu os contactos com o Vaticano, não se esquecendo de mencionar a sua divisa mágica, e fez as malas. Na manhã em que devia dirigir-se ao aeroporto para a viagem, acordou muito cedo, madrugada ainda, por efeito da ansiedade que sentia. Não era todos os dias que um tipo é fotografado e filmado a ser recebido pelo Papa. Já vestido e pronto três horas antes do previsto, foi tomar o pequeno-almoço ao café onde encontrara o Alves e, à saída, viu um engraxador de sapatos no passeio, era mesmo do que precisava. Sentou-se no banco e o homenzinho humilde e sujo engraxou-lhe os sapatos, com esmero e aplicação, até ficarem a brilhar. Satisfeito, quis pagar-lhe, mas descobriu que gastara no café os últimos trocos que possuía, e sacou do porta-moedas a frase mágica:
- E pur se muove!
Nenhuma reacção, o engraxador retirou da maleta uma pequena lata de graxa.
- E pur se muove! - repetiu.
O engraxador levantou-se, era mais alto do que parecia. A sua mão listada de graxa estendeu-lhe a lata de graxa.
- São para si! - disse secamente.
- O que tem lá dentro? Moedas de ouro? Diamantes?
- Cápsulas de cianeto. Despeça-se dos seus e tome uma ou mais, que o resultado é o mesmo. Eu sou o Grão-Mestre da Ordem, e o senhor tem abusado da minha divisa pessoal, e não posso permiti-lo. Outros o fizeram, mas ficaram saciados, mas o senhor é diferente, quer este mundo e o outro e nada lhe basta.
- E se eu me recusar, ou obrigá-lo a si a engolir uma coisa dessas?
- Não ia muito longe, trezentas, trinta mil, trezentas mil pessoas se levantariam para o matar, e não tinha buraco nenhum onde se pudesse esconder. Estamos em todo o lado, até dentro da sua família.
Abateu-se sobre o banco, o rosto entre as mãos, em desespero.
- E porque é que é engraxador? Podia ser papa ou imperador, dono de multinacional, prémio Nobel, sei lá...
- As riquezas e as vidas terminam, extinguem-se, e, no entanto, a Deusa move-se!
Não gostava e mantinha uma certa suspeita no que concerne a campainhas de porta com um óculo de câmara. Mas, neste caso, aceitava-se, tratando-se de um consultório médico. Tocou à campainha e, alguns segundos depois, a porta abriu-se - talvez o estivessem estado a estudar, ou a tentar ler a sua aura para aquilatar a sua potencial periculosidade.
- Senhor Miranda, não é verdade?
- Sim, todos os dias.
- Entre e instale-se, por favor, as consultas estão um pouco atrasadas e é natural que tenha de ter um pouco de paciência.
- Não faz mal - ouviu-se dizer, por artificial educação. Não só fazia mal, como não gostava nada de esperar. Até nascera prematuro, devido a isso.
Sentou-se pesadamente num sofá. A sala de espera era modernaça, um candeeiro de pé todo torcido num delírio de design, um balcão que parecia saído de um episódio do Star Trek, e um enorme painel fotográfico na parede maior, retratando um grupo de pessoas felizes a correr num relvado sob a chuva dos repuxos.
Aguentou uns bons dez minutos a desempenhar gestos mínimos e corriqueiros, tornar paralelo o ângulo de um cinzeiro quadrado com a esquina da mesinha de vidro, olhou o relógio umas duas vezes (mais, podia parecer que se sentia impaciente), tentou ainda, ler ao longe os cabeçalhos dos folhetos publicitários em exposição no balcão e, sobretudo, fez tudo para procurar não fixar o aparelho nos dentes da recepcionista - não que o impressionasse, mas ficaria constrangido se ela imaginasse que isso lhe fazia alguma diferença.
Esgotados os gestos de que se conseguia lembrar, e incapaz de assumir a vivacidade de uma ameba, virou-se para o cesto de revistas do consultório.
Estava organizado, grosso modo, de forma estratigráfica, as pessoas remexiam com mãos indóceis na primeira ou segunda publicação, que espiavam no período de tempo em que os mantinham à espera, depois colocavam outra vez lá, os números trocados cronologicamente, mas fiéis ao depósito em função do ano e, por vezes, até, do mês em que lá tinham sido disponibilizados pela primeira vez.
Como não saía nenhum paciente do consultório do seu médico, atacou o cesto de revistas, mas de uma forma original. Retirou para cima do sofá, por ordem, as publicações mais recentes: uma revista cor-de-rosa de há dois meses e uma outra revista, de reportagens, saída no primeiro trimestre do ano que findava. Despistada a curiosidade da recepcionista, avançou mais fundo, e empilhou em cima do sofá, por ordem inversa, as revistas entesouradas nos últimos seis anos. Espiou uma, e deu mais um salto no tempo. Como a consulta demorasse, deliciou-se com uma história desenhada por Arturo Moreno na revista O Mosquito, uma leitura rápida, a contra-relógio, agora que estava a gostar de desarquivar aquelas revistas velhas, e tão rapidamente como isso, tirou mais umas quantas revistas, atravessando anos, décadas, e começou a ler o index de um número da revista A Águia, à procura de um artigo que fosse de Teixeira de Pascoaes.
- Senhor Miranda, o doutor vai recebê-lo.
Caraças, logo agora!
- Um minuto, é só arrumar as revistas - anunciou, quase suplicando por mais uns segundos.
Consumiu aquele minuto a dar uma vista de olhos no primeiro parágrafo de um panfleto anti-monárquico do ano de 1870, que repousava sob a A Águia, e logo, um pouco contrariado, levantou-se, deixando as revistas por arrumar. Seguiu a recepcionista, que o confiou a uma enfermeira, quem, por sua vez, o introduziu no consultório, anunciando alto o seu nome.
O doutor cumprimentou-o, fez-lhe algumas perguntas de rotina, e colocou à sua frente um vidro de pó medicinal com tampa esférica e rótulo emoldurado escrito a caneta.
- Vai tomar uma colher pequena deste fármaco, todos os dias, à hora da novena. E agora, vamos proceder à purga. Enfermeira, traga as sanguessugas, por favor!

Nove da noite. Talvez não venham, pensou, talvez não venham aqui, a este quarto de pensão minúsculo e triste. Iria à sua procura, era o melhor, vestiu-se e agasalhou-se, e no bolso interior do casaco que o agasalhava arrumou um bloco de notas, uma caneta e um gravador de voz. Quando saiu á porta da pensão, encolheu-se com o vento agreste que soprava da baía. Com uma noite destas, não devem andar por aí. Caminhou pelas ruas, estudando os transeuntes para verificar se não era nenhuma delas. Desanimava. Deteve-se no miradouro, de onde avistava toda a vila e as águas escuras da baía, sentou-se num banco ao pé do antigo colégio, e ficou à espera. Um homem sentado sozinho num banco no escuro inquieta as pessoas. Dois namorados que ali arrimaram, não demoraram a procurar outro pouso na certeza de que ele seria algum tarado à coca, pouco depois foi abordado por uma mulher que lhe perguntou com uma pronúncia eslava se ele não precisava de companhia. Recusou, estava à espera, estava à espera, repetiu ao polícia que o entrevistou a seguir. À espera de quê? Perguntou novamente o polícia. Da namorada? Da droga? Estou á espera das palavras, respondeu envergonhado, não vieram ter comigo e saí à sua procura. Das palavras! O polícia desistiu do inquérito, os tontinhos deprimiam-no. E ele continuou à espera das palavras, que nunca chegaram, sentado no regaço frio do vento. A sede e a fome desalojaram-no dali. Parou num café da marginal para comer uma tosta e um sumo, e regressou por ruas mal iluminadas, ao quarto da pensão. Deitou-se vestido em cima da cama, tapando-se com uma dobra do lençol, os olhos fixos na janela iluminada pela luz amarela do candeeiro de rua. De manhã, tinha de arrumar o quarto, tomar um banho e fazer a barba. Talvez viessem de manhã, as palavras, tinha de estar irrepreensível para as receber.

Por amor

Quando a camioneta chegou à cidade, ainda tinha setenta e cinco minutos até à hora de bulir. Fica um pouco na Garagem a aspirar o fumo das camionetas e dos cigarros. Os cigarros sabem-lhe mal, comprou um pacote ao Teixeira porque estava a metade do preço, era de contrabando, dizia o colega, se o era, não sabia, mas sabiam mal, deviam ter apanhado água, cheiravam a mofo e a palha podre. A Dora também lá estava, a fazer tempo para ir para a Escola, muito loura e vestida de branco, parecia uma noiva em casamento de bairro social. Mas a Dora não lhe dava bola, tinha a varejar à sua volta os tinhosos atléticos de ténis de marca e camisolas de equipas da NBA. Despede-se dela com dois beijinhos, como se os dois tivessem alguma coisa marcada para mais tarde, e anda pelas ruas ao calhas, com o saco do almoço a tiracolo. Está ensonado e pára no café ao pé da loja, já lá está o Bijeu, o seu colega polivalente. É um castiço, vai sempre ali para o mata-bicho, palavra que adoptou dos retornados, e o seu mata-bicho é mesmo terminal - dois copos de aguardente seguidos. O mata-bicho não fica por ali, depois da aguardente, come uma cebola como se fosse uma maçã, e fica com um hálito incendiário para o resto do dia.
Bebe um café, mal tirado e cheio de borras, apetecia-lhe comer algum bolo, mas sabe que não tem muito dinheiro, e fica à conversa com dois clientes até a loja abrir. Ainda a bocejar, apresenta-se ao chefe. Vais para o armazém, ordena ele, arrumar a tinta. Aquiesce, reduzido à sua insignificância, mas satisfeito interiormente. Ali podia estar sossegado, a trabalhar a prestações o resto do dia. Dentro do armazém, no outro lado da rua, consegue controlar a loja e antecipar a chegada do chefe ou dalgum dos patrões. É uma casa velha com um corredor com tulhas e estantes a unir duas divisões para arrumos. Com as luvas calçadas, vai desarrumando e arrumando baldes de tinta até lhe arranjarem outra tarefa. Os caixeiros da loja pactuam no jogo
- O teu chefe já cá veio hoje?.
- Ontem - responde - é melhor não venderes corrente zincada de um oitavo a três quartos, o gajo deve ter lá mijado ontem
- Porra, era mesmo essa que o cliente queria. Vou dizer ao tipo que só temos em ferro ferrugento, se ele quiser, encantado da vida. Obrigado, puto!.
O chefe está velho e já não aguenta o mijo, quando lhe dá vontade, é onde calha. Quase à hora de almoço, o Arlindo vem á sua procura.
- Sabes, pá, a minha mãe diz que já não me dá mais mesada, porque agora trabalho aqui e não devia precisar que me sustentassem! Quero que me arranjes um coelho para lhe pregar um susto, para ela ver como elas mordem.
Ele concorda, e promete que lhe embrulha um coelho para ele levar para casa. Na divisão do fundo, é onde andam os coelhos, ratazanas enormes como coelhos, que vêm pelos esgotos do restaurante ao lado, para roer o sebo em barra, mas abocanham engodos de carne com veneno e bucham e estrebucham até morrer no meio do sebo e das latas de creolina. Um dos seus trabalhos como aprendiz, é enfiá-las numa caixa de cartão e juntá-la ao lixo do contentor. Galga à prateleira do sebo e lá está uma, estendida de lado como se estivesse a apanhar sol na praia. Coisa nojenta. Menos mal, não tresanda. Com um pau, puxa a bicha até à boca da caixa de cartão, até ouvir o baque surdo do corpo no fundo da caixa. Cruza as abas da caixa e deposita-a ao pé da porta, mas já lá está o Arlindo, pediu para sair mais cedo porque quer chegar a casa antes da mãe e atar a ratazana com um cordão ao fecho do portão da garagem, é daqueles com automatismo, que se levantam, explica o Arlindo, ela fica no carro à espera que o portão abra todo e, quando isso acontece, tem este coelho pendurado diante dos olhos - «A cabra hoje nem almoça» - casquina o Arlindo, sumindo no passeio com a caixa debaixo do braço. Ficou à porta a contemplar a rua, descuidado, quando é surpreendido pelo patrão, que o olha de alto a baixo, como a um mendigo à porta do castelo, o seu olhar endurece e as asas das narinas agitam-se, sorvendo e expelindo ar com força.
- Não tem que fazer? - troveja, e ele gagueja em resposta, que está a arrumar a tinta, e a loja a fechar, azar do caraças - «À tarde, vai aprender ao balcão!» - ordena.
Aquiesce, não pode fazer mais nada, acabou-se a vida boa. Vai almoçar, mas quase não consegue tragar nada, tem o estômago embrulhado. Trabalhar ao balcão, atender pessoas, que raio de sorte, pensa consigo, e pensa muito até à hora de entrar ao serviço, tanto que até lhe dói a cachimónia. O patrão está à sua espera na porta da loja, e encaminha-o para o balcão. Os caixeiros veteranos acolhem-no e toda a santa tarde fazem dele, moço de recados, vai aviar quilos de massa de vidro e ocre e corrente, e a mandos, vai ao café buscar uma bifana, ao quiosque comprar o Record, à Foto Paris levantar um rolo. Na primeira vez que há um cliente isolado ao balcão, um deles empurra-o para o balcão.
- O que deseja? - pergunta, a medo.
- Parafusos auto-roscantes para fixar um perfil com meia polegada - pede o cliente, ele olha em volta em busca de ajuda - Não sabe o que são? Auto-roscantes? Parafusos picha-de-porco? Hei, pessoal, o balcão não é sítio para desmamar crianças, mandem-no para a tropa! - Grita à sua frente o cliente, com a boca desdentada.
Ele encolhe-se e enrosca-se, com todos os olhares fixos nele, e o encarregado manda-o chamar. Interrompe a conferência de guias de remessa e estuda-o como se o visse pela primeira vez, os óculos muito graduados apoiados na ponta do nariz.
- Meu rapaz - discursa, muito calmo - são precisos anos de rodagem para uma pessoa se tornar um caixeiro mais-ou-menos, e nem todos nascem para isto, o comércio não é uma profissão, é um sacerdócio como a medicina ou o ensino, não tenhas pressa e acabas por descobrir se nasceste para isto ou se estavas melhor a polir esquinas na aldeia de onde vieste - Baixou a voz, em confidência e adiantou - Também é verdade que há aqui tipos que eram capazes de ser caixeiros durante cem anos, e não melhorarem em nada. Percebeste, rapaz?
- Sim, senhor!
- De hoje em diante, cumpres tarefas para os teus amos e senhores, e só encostas o umbigo a um balcão se eu te der ordens!
- Sim, senhor!
- Agora vai ter com o senhor Eduardo, e vê se ele tem trabalhos para ti!
- Sim, senhor, obrigado, senhor!
Procurou o senhor Eduardo, ainda nervoso e com as orelhas quentes.
- O senhor encarregado mandou-me ter consigo.
O senhor Eduardo sorri, francamente divertido.
- Se queres ganhar uns cobres, vieste ter com a pessoa certa, sobretudo se aprenderes coisas simples, como fixar um varão de cortinado ou substituir umas dobradiças ou um puxador de porta. Quando os nossos clientes mais leais pedem, nós mandamos os marçanos executar essas tarefas, se for na hora de trabalho, paga o patrão, se for depois, paga-te Deus e tu afias o dente com as gorjetas...ora deixa cá ver, instalar resguardo de polibã, não, é muito complexo para ti, envernizar cadeira...humm, não sei...
Tocou o telefone, o senhor Eduardo atende, devia ser fêmea, já lhe tinham dito, sempre que fala com uma dona, o senhor Eduardo coça as costas da mão na pêra à Robin dos Bosques.
- Não me diga...logo a senhora precisa de alguém para instalar o abajur que nos comprou...pois...esta juventude...não...não...tenho a pessoa indicada para si, estava no armazém e agora está na loja, ainda hoje chegou e já levou uma tareia verbal dum cliente, mas recomendo-o vivamente...além do mais, é o único que temos disponível...sim...fechamos às seis e ele fica á sua disposição...não, não tem de agradecer, é sempre um prazer poder ser-lhe útil.
Pousa o telefone.
- Ás seis horas, uma senhora espera-te à porta da loja. A que horas tens camioneta para a terrinha.
- A última é às oito e meia, mas esperava ir na das sete, que é quando vai a Dora, uma amiga.
- Fica combinado, seis horas, montas o abajur e a dona do abajur, e ainda recebes uma gorjeta.
Riram-se os dois, um riso tácito, a soar a falso. Ele não queria horas extras e o senhor Eduardo devia ter aquela mulher na mira, tinha-as a quase todas, pelo menos, gabava-se disso, as mulheres do planeta inteiro eram como árvores marcadas da floresta de Sherwood.
Passou o resto da tarde a desempenhar pequenas tarefas sujas a mando dos seus mestres, contrariado e desgostoso da vida e, ás seis horas, mal saiu á porta da loja, viu logo quem era a mulher. Jovem ainda, trinta e pouco, quarenta, vestia-se bem, como uma senhora da sociedade, gostou da sua saia justa e do modo espontâneo como lhe estendeu a mão para o cumprimentar. Seguiu-a até ao carro, escurecia, ela abriu-lhe a bagageira para ele depositar a pequena mala de ferramentas da loja, e quando se sentou ao seu lado, já ela pusera o carro a trabalhar. Parecia impaciente, conduziu o carro, velozmente mas com segurança, pelas ruas da cidade, ele encontrou encanto em admirar o correr dos néons pelos seus joelhos descobertos e pelo recorte do peito. Menos de um quarto de hora depois, já tinham abandonado o emaranhado de prédios indistintos e moviam-se nas ruas ordenadas de um bairro residencial com jardins de árvores e gradeamentos altos.
- É aqui! - exclamou a cliente, estacionando o carro diante duma vivenda.
Retirou a mala de ferramentas e seguiu-a pelo portão do jardim, impaciente para se ver livre daquilo, talvez ainda desse para ir na camioneta das sete e tentar sentar-se ao lado da Dora de cabelos dourados...
- Bebe alguma coisa? Uma cerveja ou um chá para os nervos?
Recusou, agradecendo, e lembrou-se, não lhe ocorreu porquê, do mata-bicho do Biseu. Ela abriu a porta da frente, rodando com força a chave da fechadura de trancas, e chegou-se para o lado. Quando entrou, o Biseu, a Dora e a camioneta das sete, voaram para o espaço. No hall de entrada só havia uma cadeira, e o Arlindo estava sentado nela, amarrado ao espaldar, e com a ratazana morta cingida ao peito por um lenço ou xaile. Arlindo olhava o tecto e baixou o olhar para ele, tinha os olhos arroxeados pelo choro. Aparvalhado, olhou repetidamente para um e para outro, e só então estabeleceu a ligação entre os dois.
A cliente colocou-se por trás da cadeira onde estava o filho e arrastou-a um pouco para o lado. Depois desapareceu por uma porta e voltou com um banco metálico e um abajur com motivos florais. Arlindo voltara a fixar o olhar no tecto sem dizer palavra, as lágrimas corriam-lhe pla cara.
- Eu própria punha o abajur, mas dá-me tonturas estar em cima de um banco.
Acendeu a luz do candeeiro do móvel da entrada e desligou a do tecto. Ele subiu para o banco, desenroscou a lâmpada quente com a ajuda de um lenço, fixou o abajur com a porca inferior, e recolocou a lâmpada. Ela acendeu a luz com um gritinho de puro deleite, e deu-lhe um abraço de fugida quando ele voltou á terra.
- Estou-lhe muito agradecida. Não quer mesmo beber nada, ou comer? Tenho aí muita comida, o meu filho não comeu nada de jeito, já não está habituado a que lhe dê o almoço á boca.
Recusou uma vez mais, evitando olhar para o colega. Aquilo parecia uma armadilha, e se não tivesse cuidado, aquela doida ainda os matava aos dois.
- Se me pudesse deixar na cidade, eu tentava apanhar a camioneta das sete.
- Com certeza, vamos lá. Vê se descansas, meu filho, a mãe não demora, está bem?
A cliente acompanhou-o ao portão, abriu-o e afastou-se de novo para o lado para lhe dar passagem. Quando ele se viu no passeio, ela fechou o portão com estrondo nas suas costas, deixando-o sozinho, debaixo do halo do candeeiro da rua. Quando se refez do inesperado da situação, iniciou o regresso á cidade.
«Que gand'a porra! - exclamou - nem ás oito e meia lá estou».

Correio normal

Há coisa de um ano, enviei um mail (identificado) a um contacto blogoesférico, no estilo de uma pequena carta, manuscrita por alguém da sua terra natal. Era uma brincadeira postal e hoje, depois de ter recebido uma carta inesperada, de um amigo que já não vejo há mais de dez anos, decidi recuperar esse mail e postá-lo aqui. Se o destinatário do mail/carta o topar, espero que não, estou certo de que não levará a mal. Rezava assim:

Como estás? Sei que não te escrevo há algum tempo, mas tem sido apenas por preguiça.Comecemos pelas (poucas) notícias, lembras-te da minha tia Adília? A do rabo-de-cavalo? O mês passado ela acordou com a certeza de que era uma pomba, daquelas sujas, que debicam migalhas na sombra das estátuas. Eu e o teu primo Jorge tentamos convencê-la do contrário. Ele colocou-lhe um espelho largo à frente e ela só fez foi bater as asas, os braços, digo. Eu, trouxe-lhe uma cassete VHS do casamento da Armanda e do Luís e fi-la ver um pedaço no qual ela cantava a Guantanamera depois de uns copos de champanhe e dançava o que supunha ser uma valsa ao som de uma canção pimba cantada por alguém com um nome como MárciaMariaCristina ou ElisângelaArminda; mas também isso não deu resultado, ela tentou valsar diante do televisor com as asas a bater e a obsessão manteve-se. Eu e o Jorge optamos pela solução radical: levamo-la ao terraço e instamos: "Voe!" Ela atirou-se no vazio e aterrou como uma pedra no monte de saibro que tem diante da casa. A mania passou-lhe mas, diga-se, não me surpreenderia muito se ela saísse a voar sobre as casas do nosso bairro, rindo-se ou arrulhando de alegria ante o nosso pasmo. As mulheres têm coisas...passamos uma vida inteira a julgar que as conhecemos mas é apenas vaidade, é como julgar conhecer os abismos do Oceano só por lhes admirar a superfície iluminada. Alguém disse (e nomearia, se me lembrasse quem) que as mulheres são ilhas no coração solitário dos homens, e não posso estar mais de acordo, as mulheres deixam os homens perplexos e assustados, e eles inventam Padrões de Descobrimento como sexo forte, possuir, comer, só para disfarçar a sua atrapalhação e o facto delas permanecerem ilhas onde eles não conseguem mais do que dar um ou dois passitos na areia da praia. Sigam as notícias, ou antes, a ausência delas. Não existem notícias. Acho que ao contrário da Adília, ninguém mais mudou. Tenho andado pelas ruas e tudo me parece igual, as pessoas andam e pensam da mesma forma, sem desvios nem demências transformadoras, enfeitam-se com rugas, pregas de gordura ou sinais de calvície, mas não abandonam os papéis para os quais se julgam talhados - ser o sustento da família, criar um filho o melhor que se consegue, fazer contas ao dinheiro e à falta dele para passar umas curtas férias ou visitar a família que estuda ou trabalha longe, levar o filho à catequese ou ensiná-lo a fugir dela, sentir o coração pungido com as desgraças e as matanças que passam nos noticiários da televisão, sempre quando a comida está na mesa e a família se junta á volta. Como exemplo dou-te este: o Matias, o carteiro que já era carteiro quando eras pequena, reformou-se entretanto, mas ficou tão enredado nos seus hábitos de trinta e cinco anos de trabalho que continua a dar a volta pelo bairro como sempre fez, pedalando a sua bicicleta e chegando-se a todas as caixas de correio para lhes fazer uma festa na tampa como se tivesse acabado de colocar correio nelas. Por vezes, estou cá fora, no jardim ou à volta do carro e, quando o vejo passar, esqueço-me que ele está reformado e vou até ao portão para ver que carta me chegou. Mas, como sabes também, não me costuma chegar muitas cartas, a família que tenho está por perto, pelo menos, em ruas próximas, e os meus amigos, o tempo dispersou-os como semente estéreis de uma planta, poupam no papel e na caneta e desbaratam a amizade no casual abraço ou aperto de mão que procura dissimular que já não temos nada em comum. Esta carta já vai longa, espero que estejas bem, e que continues com esse sorriso luminoso que todos aqui te conhecemos. Quando voltares, passa lá à mercearia para te cumprimentarmos, e prometo que te deixo levar uma mão-cheia de rebuçados do frasco de vidro, como quando eras mais nova. Um abraço grande, deste teu conterrâneo.

Adenda: depois de escrever este mail, procurei a frase que citava, e descobri que era uma falsa citação, porque reformulara uma passagem, muito mais expressiva, escrita por Clara Ferreira Alves:
«(...) escuto alguém, entre pausas e arrebatamentos, falar do amor e da morte, e das ilhas que são as mulheres no tempo curto dos homens».

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...