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A mostrar mensagens de Outubro, 2008

(a insularidade é um estado de espírito)

Era um cientista, e estava em férias, mas um cientista nunca tem férias, seria como pedir a um bibliófilo que mantivesse os olhos fechados numa viagem no tempo até à biblioteca de Pérgamo ou Alexandria. Tudo à volta deste homem eram pretextos, estímulos, desafios -objectos e seres mesquinhos, como uma folha de árvore, uma formiga, um cristal de gelo, ou um punhado de areia, eram o suficiente para o arrancarem da inércia, fazendo-o vogar pelos domínios do conhecimento. Rain or shine, ele analisava, observava, registava, e se estava fora da sua formação ou da sua experiência, era bem capaz de enviar um mail ou a uma carta a um investigador x, ou ao professor y, à procura de respostas. A mulher censurava-lhe a obsessão, não sem deixar transparecer uma terna admiração por ela, e habituara-se aos seus devaneios e silêncios pensativos. Quando encontraram o tronco de árvore na areia da praia, ele isolou-se de imediato na sua atenta curiosidade. Enquanto a mulher se sentava no tronco caído, e…

Ode Triunfal

À melindrosa luz do monitor do pêcê, tenho fome e escrevo. Escrevo, com a água a escorrer-me na boca, faminta de todas as gulodices do mundo. Ó bolachas! Marias, Charmants, Torrrradas - Ó delícias, rectangulares, redondas, e redundantes, rolando num r-r-r-r de roedor! Je vous salue, Marie! Je vous salue, Belgiens! Sigo o vosso voo, Joaninhas graciosas, adejando aos cálices de flores rosa-Hookie, deitem para fora as vossas Línguas pardas, Gatos de confeitaria, falem-me de Montezuma e de Malinche, suas perdições achocolatadas Reconciliem-me com os Clássicos, bolachinhas de Manteiga Com Tolstoi, Unamuno, e José Rodrigues dos Santos, Mais não digo (Não falo da Maria Choc, que era uma stripper com varizes e rugas e buço, nem da Tucha, que era nome de revista porno, a incinerar as minhas teen-fantasy's) E por aqui me fico Vou comer bolachas, é claro! (Guardo-te algumas, Álvaro, para tasquinhares enquanto te revolves, na tua alter-tumba).

Salesman

- Você, como chefe de compras da sucursal, podia dar-nos uma oportunidade. Ia ser muito rentável para si! -... - Se quiser, combinamos um almoço no melhor restaurante da cidade, e ultimamos pormenores. - Se calhar, vocês pensam que eu me vendo por pouco... - Dois almoços? - Está bem!

O homem é, naturalmente, bom a enganar (-se)

Isto não tem nada a ver, mas lembrei-me, na arquitectura funerária da China Antiga, escavavam-se pirâmides invertidas, que surgem hoje diante dos olhos de um observador como se uma pirâmide metálica maciça tivesse caído dos céus com o vértice para baixo e tivesse imprimido essa forma caprichosa no solo macio, nessa cova piramidal no solo, talhavam degraus (o caminho da descida) e ornamentavam esse caminho com imagens e pinturas alusivas à vida atribulada no mundo inferior, se a China estivesse perto de Florença, acho que Dante iria gostar de fazer aí turismo, e sentir-se-ia como se estivesse em casa, tantas são as analogias com os mundos sobrepostos das suas visões do Além, mas o que eu queria era falar do poder, queria falar, por catarse, do poder, estou em crer que o poder podia ser representado por uma dupla pirâmide com as bases coladas, os que estão nas rédeas do poder político e económico não estão no topo da pirâmide superior, são a pirâmide superior, todos os outros, os median…

A borboleta de Chuang-Tsé

Trabalhei no turno da noite, mantive-me desperto e activo enquanto os outros dormiam e sonhavam. Quando trocávamos de papéis, assaltou-me a dúvida, razoável, se era eu que procurava o sono, ou se seriam os outros que o tinham iniciado.
Há muito tempo que não te vejo, nostalgia, uma necessidade serena de te ter ao meu lado, desapareceste e é estranho ter de lidar com a ausência de ti, o que me dói mais, é não poder procurar-te de alma aberta, espontaneamente, com a naturalidade de dois amigos que se encontram por acaso num passeio de uma rua e se abraçam, felizes por se verem, mas não é assim tão simples, a nossa amizade gerou para si regras absurdas e artifícios miseráveis que nos empobreceram, tornando impensáveis um gesto, um telefonema, uma palavra. A única coisa que construímos juntos, de um e de outro lado, foi a cortina de silêncio na qual a nossa amizade ficou emparedada.

prosa quebrada

É tão fácil acreditar quando olho para ti, o Sol inunda-te de luz enquanto brincas no relvado, como se não houvesse mais nada para além de nós, tu nada sabes sobre o que é ter problemas e sentir-se nauseado, simplesmente, por estar vivo e respirar, sofrer a angústia que nos gangrena por termos a noção de que tivemos a vida nas mãos e a deixamos malbaratar-se e fugir-nos; não sabes o que é ter de estar sempre a pensar no que tem de se fazer a seguir e o que iremos sacrificar se nos esquecermos de alguma coisa, por pequena que seja, preferia, mandar tudo para o ar, recuperar do passado a minha fisga e a bola de futebol, e brincar contigo no relvado, correr e rir sem ideias nem calendários, reavendo essa majestade sem cedências nem compromissos que dá às crianças, sem que o procurem, o porte altivo de um rei.

Notas de trabalho de um ghostwriter

2 de Abril Recebi o mail de ALB, solicitando-me que escreva o seu novo romance. Um segundo mail descrimina o enredo, que é, sumariamente este: um médico em Angola, durante a guerra colonial, sonha criar um hospital moderno e bem apetrechado no meio da savana, o Cubata Lounge, mas é ostracizado pela comunidade branca, que boicota o seu trabalho e o obriga a regressar à metrópole, onde retoma o seu sonho, erguendo do nada um hospital no interior transmontano, onde é ostracizado por todas as comunidades - situação agravada por um trauma de guerra que o faz dar tiros para o ar com a sua G3 em noite de S. João, e por uma paixão tensa e violenta por uma enfermeira com predilecções sado-masoquistas. Orçamento médio. Já escolhi os nomes para as personagens e fiz pesquisa sobre os lugares onde a trama se desenrolará. A encomenda não deve apresentar dificuldades, conheço sobejamente o estilo de ALB, e já é a terceira obra que me encomenda.

7 de Julho ML assinou o contrato para a redacção dos seus…

Divenire

[Mais uma tradução de um texto meu, obra do meu amigo italiano, Stefano Valente. Obrigado!]

Num outro plano

O mundo está cheio de espíritos simples que se reputam de tolos, a quem não se dá o devido valor, e que, para seu infortúnio, acabam num Lar qualquer, depois de morrer ou desistir deles, quem os protege e alimenta. A dona Suca era uma dessas pessoas bondosas, que tomou à sua guarda o neto, que o próprio filho queria pôr numa instituição. O neto parecia e era uma pessoa normal, só que, desde miúdo, mostrara ser a criatura mais desprendida do mundo, passava horas a olhar uma espiga de erva a ondular na brisa ou à espera que caísse uma folha duma oliveira, com ele dávamo-nos conta de que o tempo não tinha medida, e os fenómenos não precisavam de leis, porque já existiam antes de nos pormos a pensar sobre eles. Discorria e cogitava sobre qualquer assunto, mas acabou por desistir da escola, por problemas de adaptação mas também por a avó achar que a escola só iria amputar o seu espírito livre. Como a dona Suca e o neto viviam numa casa velha numa rua estreita que convergia para a marginal,…
- ALL RISE!!
O mendigo ergueu o olhar perplexo, para o técnico que acabara de entrar no gabinete.
- Desculpe-me - pediu o técnico - lembro-me sempre destas tiradas holiúdescas quando vejo alguém sentado. O senhor é mendigo e, segundo me informaram, vinha indagar se havia alguma solução para si neste programa de novas oportunidades?
- Sim, senhor doutor. Ser mendigo já não dá, as pessoas não dão esmola e chegam a assaltar-me, e agora vem o frio e a chuva e não se está bem em lugar algum.
- Concordo consigo, e a polícia também não ajuda, não é? Vejamos... tenho vários cursos a iniciar-se, alguns ainda com vagas - programação, contabilidade, telemarketing, cunnilingus tântrico, jardinagem...
- Eu não queria cursos, doutor, apenas uma ocupação mais rentável, a minha cabeça já não dá para marranços ou copianços e eu queria apenas o que vocês publicitam: uma nova oportunidade.
- De acordo, cavalheiro, estamos aqui para isto. Tem alguma experiência profissional, além da de crava-esmolas?
- Não dout…

Cerdas aceradas

Como ainda morasse na casa da mãe, não queria que a mãe ouvisse pitada da sua vida íntima, uma vez que a entrada para o seu quarto era porta com porta com a da mãe, separadas por um corredor estreito. Tenta amortecer os ruídos produzidos pelas molas do colchão, o ranger da madeira, o ruído causado pelo atrito dos encaixes metálicos da base. Por fim, decide que, a ter sexo, teria de ser no chão, em cima do tapete. A primeira vez que o faz, esvazia-se a boneca insuflável.

Pão-nosso-de-cada-dia

Quando deixei de estudar, não que estudasse muito, os meus pais arranjaram-me um emprego na pequena padaria da terra. A princípio, não gostei, porque era de noite, e sentia-me um desterrado no trabalho, às horas em que os meus amigos passeavam e se divertiam, mas a pouco e pouco, ganhei gosto pelo que fazia. O trabalho não matava ninguém, e havia sempre uma ou duas pausas, enquanto as massas levedavam, que dava para descansarmos, espojados em cima dos sacos de farinha, a conversar sobre o que calhava. E depois havia os petiscos, pão com chouriço, broa de milho com sardinha, com bacon, com torresmos. Aquilo saía do forno do pão a frigir com os molhos do que metíamos lá dentro, e já nós, com as mãos escaldadiças, partíamos em nacos e comíamos com vontade, a queimar os lábios mas a saber que nem ginjas. Por vezes, também acompanhávamos os petiscos com uma bebida, uma garrafa de vinho do Porto ou de ginja, que se mantinha escondida por trás das paletes com farinha, e da qual se bebia por …

Marmúrio

Quando alguém ganha, como um prurido irritante, o desejo de algo que não sabe como obter, é natural e saudável que faça figura de parvo. Foi o que aconteceu ao imaturo Neves, flutuando numa idade incerta entre o pico da adolescência e a idade adulta. Todo o tempo que lhe sobejava de trabalho duro nas obras, empregava-o sabiamente a frequentar lugares frequentados por mulheres - bares, bailes, festas, aniversários - e a tentar converter-se, aos seus olhos, num objecto de desejo. Pelo menos, esforçava-se, abdicara das suas roupas genuínas de metaleiro convicto, em favor de umas roupas de betinho, com sapatos bem engraxados e cabelo cortado curto em estilo clássico. Também passara a barbear-se todos os dias, cortando pela raiz qualquer pêlo solitário que se atrevesse a romper na cara. O único resíduo que se permitira do tempo em que as suas hormonas não o tiranizavam, fora uma insígnia de pano dos Iron Maiden, cosidos pela mãe ao bolso das calças. Vestido assim, e compondo a personagem f…

Domingo

Imagem
de Edward Hopper

- Sabes, sei que tenho aparecido pouco, mas estou ali ao lado, a escalar outra montanha diferente desta...
- Mas, como é possível? Consegues dividir-te em dois, e escalar duas montanhas ao mesmo tempo?
- Não me expliquei, não sei se é outra montanha, ou outra vertente desta, ou este mesmo caminho que agora sigo, mas do lado de dentro, no verso ou negativo deste.
- Se isso é uma coisa zen, é melhor explicares-me, sílaba por sílaba, a minha imaginação esgotou-se há muito tempo, a assistir à retórica dos políticos.
- Não é zen, não tenho aparecido, prontos! Passa-me mais grampos, por favor!
- Para esta ou para a outra montanha? É que, se for para a outra, não os posso desperdiçar, e esta nossa montanha ainda não tem o topo à vista.
- Está bem, esquece!
- Porquê? Vais por dentro?
- Não, porra, vou apanhar o elevador panorâmico!

Fórmula exorcista dos vanguardistas:

VAI-TE, RETRO!!

- Então, estás aqui? - É verdade, tem de ser, a gente precisa e lá tem de vir. - E para os teus lados, tudo a correr bem? - Dois motoristas de camião, três uniformes, um homem que eu não sei o que estava a fazer no meio da rua, e uma mulher, a mulher foi por engano, tinha o cabelo curto, parecia mesmo um bivaque. - Pois, a minha manhã também foi parecida. E cá estamos outra vez. Nem estávamos aqui se não viéssemos ao mesmo. Onde estás agora? - Na catedral, na torre danificada pelas bombas. E tu, ainda preferes cisternas? - Sim, é como a catedral, ninguém espera que nada de mal venha dali. - As pessoas são mesmo simples. Bem, lá temos de ir, levo balas Slim, tem mais poder de penetração, há alguns alvos com colete. - Sim, também tenho encontrado, é preferível apontar sempre para a cabeça, para não haver ripostação. Ali não há metal, só se for um dente de ouro. - Pois é, vamos à vida que a morte é certa. - Tens razão, temos de a levar à frente, como aqueles escaravelhos que fazem rolar uma bola d…

(a lei de Murphy aplicada aos antiquários)

Se, numa loja de antiguidades, encontrar exposta uma peça excepcional, muito superior a tudo o que a rodeia, não vale a pena perguntar o preço porque, de certeza, essa peça «não é para venda».

Força de intervenção

Já eram dez da noite, quando todos se reuniram no gabinete do editor. O Abel vinha cheio de olheiras porque havia adormecido a ver televisão e o Chaves, do Departamento Gráfico, fora transplantado duma festa e ainda trazia na cabeça um chapéu de cone com fitinhas, e segurava uma garrafa de champanhe rearrolhada. Todos estavam curiosos para conhecer as causas daquele reunião. O editor, vendo que já estavam todos reunidos, foi breve e devastador:
- Morreu esta noite o Jonas Capião, vulgo Jónatas, o nosso autor mais lucrativo.
A notícia caiu como uma bomba, pulverizando figurativamente os corpos e os espíritos por tudo quanto era sítio. O pó em que se convertera o Chaves estava ensopado em champanhe.
Morrera o Jónatas, o laureado poeta e romancista Jónatas, o mimado arrebanha-prémios!
- Tinhamos uma parceria com Jónatas e vamos mantê-la com o colégio dos seus herdeiros e familiares. Hoje temos muito trabalho pela frente, e vocês ficam a partir deste momento divididos em três equipas, que vão…

Mono-diálogos

- A casa está quase toda limpa, menino, quer que escalde a botija de água quente para a noite?
- Não, Rosa, eu mesmo faço isso.
A velha senhora continuou a limpar o pó do escritório, olhando-o de soslaio enquanto ele debitava palavras num ecrã branco. Estava sempre desconfiada.
- Sabe que eu fui sempre amiga dos seus paizinhos, enquanto foram vivos.
- ...
- Eles iriam ficar muito tristes lá em cima se aquilo que o menino escreve tivesse asneiras ou não respeitasse os dez mandamentos. O menino não ia fazer uma coisa dessas, pois não?
- Não, Rosa, se eles treslessem o que estou a escrever, ficariam muito contentes e orgulhosos!
- Ah, ainda bem, menino, nem sabe como isso me deixa satisfeita.
Ela continuou a limpar e ele procurou retomar a escrita, sem êxito.
Pegou num livro da estante e saiu. O apartamento onde morava situava-se no penúltimo andar de um prédio de planta irregular encravado entre duas ruas, que terminava a nascente num ângulo de quarenta e cinco graus, o que deixava à sua mercê u…
Sentia-se infeliz, ou, pelo menos, gostava de acreditar que sim. A mulher expulsara-o de casa e o patrão que, por acaso, andava a montá-la, dera-lhe um pontapé no traseiro - tinha razões de sobra para acreditar que era e estava infeliz. Então bebeu, dissolvia assim a infelicidade como se dissolvesse um torrão de pedra que se alojara no peito. Desta vez bebeu sozinho, mais uma vez, sozinho, que não tinha mais amigos que os voláteis companheiros de bebedeira, e enfrascou-se numa tasca sórdida junto ao porto. Quando amanheceu, descobriu-se igualmente sozinho, mas à deriva em alto-mar, num pequeno barco à vela. Não se via nada senão água, e mais nenhum som do que o murmúrio das ondas, e o das adriças a flagelar brandamente o mastro. Começava a entrar em pânico quando descobriu aos seus pés uma pequena geleira de cor azul. Levantou a tampa com ânsias, mas lá dentro encontrou apenas covetes de gelo e uma garrafa de água. Levantou os olhos para o céu e lamentou-se como Job: "Meu Deus! M…

Da auto-suficiência

[Na natureza do orgulho nada se pede, nada se cria tudo se transtorna]

O professor Correia, ou sotôr, na boca dos discentes, possuía uma cultura variada e volumosa. Depois de muito ver mundo e correr seca e meca para encontrar os lugares e as pessoas que já conhecia em texto de letra, converteu-se num crítico atento e severo de tudo o que o rodeava. Uma gralha num jornal ou num livro não passava incólume, e sentia-se na obrigação de escrever aos editores ou autores para que fosse corrigida, ou evitada numa próxima edição, e reservava os mesmos mimos às citações falsas ou deturpadas, as inexactidões dos factos tratados ou o mau português de letreiros comerciais como os vendessse casa ou procoro novo dono.
Não seria de estranhar que, passando umas férias repousadas na Beira Alta, a adrenalina tivesse incendiado o seu intelecto ao contemplar um escandaloso letreiro de informação turística: Dólman da Palha - a 3 quilómetros. Dólman? Que absurdo! Dólmen! Dólmen! Monumento megalítico, dólmen ou anta. Isto não vai ficar assim, resmungou para os seus botões. Tiro…

Pontuação mínima

Os dois não se conheciam pessoalmente, e marcaram encontro num ponto da cidade. Como um deles faltasse, o outro só encontrou reticências.

Quase oitenta anos, e tinha o corpo feito num oito. Uma bacia fracturada por duas ocasiões e a coluna vertebral afeiçoada em feitio de meia-lua como se alguém lhe tivesse dado uma marretada com força nas costelas do lado direito. Deslocava-se numa cadeira de rodas, mas por vezes, com grande esforço e urros de dor, conseguia aguentar-se num par de canadianas, com as quais se arrastava pela aldeia onde morava, para ver os amigos. Um sobrinho seu, que fora em tempos chofer de praça, levava-o duas vezes por mês a um endireita na zona de Minde, que o punha a calores no aparelho de infra-vermelhos, e depois lhe dava uns puxões às pernas e violentas pancadas na bacia, que o faziam sentir um pouco melhor nas horas seguintes. No dia seguinte estava na mesma, mas com ganas de voltar ao tratamento benfazejo.
Nas suas viagens a Minde para não-endireitar os ossos, passava por muitos lugares e lugarejos, e a maior satisfação que tinha era cruzar-se com algum cortejo fúnebre. Pedia logo ao sobrinho p…

Fado

Inspirado por um verso de Ricardo Reis, achou chegada a altura de construir o seu próprio Fado, erguê-lo acima de si como um vértice sob a lua. Ergueu andaimes, elevou paredes, forçou harmonias. Quando o seu Fado ruiu, repetiu-se a confusão de Babel na desordem dos seus membros dispersos.

(...) Como acima dos deuses o Destino É calmo e inexorável, Acima de nós-mesmos construamos Um fado voluntário Que quando nos oprima nós sejamos Esse que nos oprime, E quando entremos pela noite dentro Por nosso pé entremos (Ricardo Reis, "Da Nossa Semelhança")

Parte de leão

Todos os dias chegava a casa à mesma hora, aquela em que o autocarro 35 o trazia do trabalho e o deixava na paragem situada a apenas cinco metros da porta do lar. Mas hoje, veio no 35 umas horas mais cedo, porque fora sumariamente despedido. Quando saiu do autocarro, não teve coragem de ir logo para casa e explicar o infortúnio à mulher e aos filhos, em vez disso, escondeu-se num café próximo, onde pediu um brandy para ganhar coragem. Já ia no terceiro brandy, sem efeitos visíveis na sua vontade, quando entrou o Alves, um amigo e colega dos tempos da escola. Este notou logo que algo se passava, vendo-o macambúzio e a emborcar brandys numa mesa sombria de canto. - O que é que se passa contigo? Alguma desgraça? - Fui despedido - informou, com uma lágrima a perlar-se no canto do olho - deram-me um par de patins e puseram-me a correr. - Ah, isso! - Suspirou o Alves, e sentou-se à sua beira com um ar de mistério - vou-te contar uma coisa que talvez te possa ajudar, aqui há uns anos estive num…
Não gostava e mantinha uma certa suspeita no que concerne a campainhas de porta com um óculo de câmara. Mas, neste caso, aceitava-se, tratando-se de um consultório médico. Tocou à campainha e, alguns segundos depois, a porta abriu-se - talvez o estivessem estado a estudar, ou a tentar ler a sua aura para aquilatar a sua potencial periculosidade.
- Senhor Miranda, não é verdade?
- Sim, todos os dias.
- Entre e instale-se, por favor, as consultas estão um pouco atrasadas e é natural que tenha de ter um pouco de paciência.
- Não faz mal - ouviu-se dizer, por artificial educação. Não só fazia mal, como não gostava nada de esperar. Até nascera prematuro, devido a isso.
Sentou-se pesadamente num sofá. A sala de espera era modernaça, um candeeiro de pé todo torcido num delírio de design, um balcão que parecia saído de um episódio do Star Trek, e um enorme painel fotográfico na parede maior, retratando um grupo de pessoas felizes a correr num relvado sob a chuva dos repuxos.
Aguentou uns bons dez m…
Nove da noite. Talvez não venham, pensou,talvez não venham aqui, a este quarto de pensão minúsculo e triste. Iria à sua procura, era o melhor, vestiu-se e agasalhou-se, e no bolso interior do casaco que o agasalhava arrumou um bloco de notas, uma caneta e um gravador de voz. Quando saiu á porta da pensão, encolheu-se com o vento agreste que soprava da baía. Com uma noite destas, não devem andar por aí. Caminhou pelas ruas, estudando os transeuntes para verificar se não era nenhuma delas. Desanimava. Deteve-se no miradouro, de onde avistava toda a vila e as águas escuras da baía, sentou-se num banco ao pé do antigo colégio, e ficou à espera. Um homem sentado sozinho num banco no escuro inquieta as pessoas. Dois namorados que ali arrimaram, não demoraram a procurar outro pouso na certeza de que ele seria algum tarado à coca, pouco depois foi abordado por uma mulher que lhe perguntou com uma pronúncia eslava se ele não precisava de companhia. Recusou, estava à espera, estava à espera, re…

Por amor

Quando a camioneta chegou à cidade, ainda tinha setenta e cinco minutos até à hora de bulir. Fica um pouco na Garagem a aspirar o fumo das camionetas e dos cigarros. Os cigarros sabem-lhe mal, comprou um pacote ao Teixeira porque estava a metade do preço, era de contrabando, dizia o colega, se o era, não sabia, mas sabiam mal, deviam ter apanhado água, cheiravam a mofo e a palha podre. A Dora também lá estava, a fazer tempo para ir para a Escola, muito loura e vestida de branco, parecia uma noiva em casamento de bairro social. Mas a Dora não lhe dava bola, tinha a varejar à sua volta os tinhosos atléticos de ténis de marca e camisolas de equipas da NBA. Despede-se dela com dois beijinhos, como se os dois tivessem alguma coisa marcada para mais tarde, e anda pelas ruas ao calhas, com o saco do almoço a tiracolo. Está ensonado e pára no café ao pé da loja, já lá está o Bijeu, o seu colega polivalente. É um castiço, vai sempre ali para o mata-bicho, palavra que adoptou dos retornados, e …

Correio normal

Há coisa de um ano, enviei um mail (identificado) a um contacto blogoesférico, no estilo de uma pequena carta, manuscrita por alguém da sua terra natal. Era uma brincadeira postal e hoje, depois de ter recebido uma carta inesperada, de um amigo que já não vejo há mais de dez anos, decidi recuperar esse mail e postá-lo aqui. Se o destinatário do mail/carta o topar, espero que não, estou certo de que não levará a mal. Rezava assim:

Como estás? Sei que não te escrevo há algum tempo, mas tem sido apenas por preguiça.Comecemos pelas (poucas) notícias, lembras-te da minha tia Adília? A do rabo-de-cavalo? O mês passado ela acordou com a certeza de que era uma pomba, daquelas sujas, que debicam migalhas na sombra das estátuas. Eu e o teu primo Jorge tentamos convencê-la do contrário. Ele colocou-lhe um espelho largo à frente e ela só fez foi bater as asas, os braços, digo. Eu, trouxe-lhe uma cassete VHS do casamento da Armanda e do Luís e fi-la ver um pedaço no qual ela cantava a Guantanamera …