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Um futuro melhor

Encostou a porta da pequena cabana para se vestir. Por preciosismo, porque não havia mais ninguém num raio de dezenas de quilómetros. Vestiu o uniforme, calçou as botas e colocou o capacete. Destravou a espingarda e iniciou a ronda. Percorreu o caminho serpenteante que ondulava pelos morros da ilha. Não era uma ilha grande, de encher o olho. Alguns montes pretensiosos e um acastelado de rochedos na orla sul, hostis como uma coroa de espinhos. Num labor de séculos, as chuvadas iam aplanando os montes mais expostos, dissolvendo a terra que corria para a borda do mar, onde as ondas a comiam. Junto aos rochedos haviam erguido um baluarte no século de setecentos, e um portinho diminuto onde atracava a barcaça do continente com os víveres. A sua casa estava erguida no pátio da fortaleza, protegida do vento incessante pelas muralhas de pedra cariada. Durante os largos meses que durava a sua comissão, não fazia mais nada do que as suas duas rondas diárias, e um pouco de pesca à tardinha, sentado na cantaria do portinho com a arma ao alcance do braço. Também recebia todos os dias do continente a comunicação via rádio, na qual fazia o relatório depois das sacramentais senha e contra-senha, terminada a qual, como num erupção de lealdade, se punha a fazer a manutenção das armas e a conferência do modesto paiol. O resto parecia-lhe fútil, desenvolver uma horta como alguns dos seus predecessores o haviam feito, ou procurar reparar algum pano de muralha da fortaleza com os materiais que lhe enviavam na barcaça. Era tudo passageiro, a comissão, o dever, a porcaria de vida que ali levava. Não negava que a tutela da ilha lhe dava um certo prazer, como se lhe pertencesse. Tinha pena que só a conseguisse descobrir no mapa pelas coordenadas, seria mais animador se ela fosse grande como Cuba ou Madagáscar. Aí, ele seria um reizinho, com o seu castelo e o seu porto de mar, a escrever cartas sonantes à noiva distante. Mas tinha noção de que a ilha era importante, porque se situava mesmo no limite das águas territoriais, uma escala preciosa entre a ilha e o continente, por onde sulcavam embarcações não autorizadas que ele detectava com os seus binóculos. Tinha de ser minucioso, porque às vezes quase nem se viam. Botes de pesca, e barcaças de rio, aos sacalões nas ondas revoltas, sempre cheias de gente, esperançosa e angustiada, que tentava sair clandestinamente da ilha grande. A única coisa que fazia era esperar, porque não valia a pena disparar de longe ao acaso. Era comum tentarem entrar no portinho da ilha, onde ele se posicionava, emboscado num ponto alto. Aí, a sua função era clara, e abatia-os um a um, sempre a começar pelo que conduzia o barco, quase sempre, o único que vinha armado. Alguns minutos de tiroteio tenaz eram o suficiente para reprimir aquela fuga. Continuava emboscado até estar seguro de que não havia perigo lá em baixo, e só então descia ao cais e atirava os corpos à agua, onde os tubarões se encarregavam do resto. Assim, não gastava balas com os moribundos. Com uma vara com um gancho na ponta, puxava a pequena embarcação até á goela do portinho, onde o refluxo das ondas a levava para o largo; e retirava do cais um ou outro objecto ou peça de roupa que ficara para trás para os atirar para o meio das rochas. Nunca revistava os corpos, talvez por pudor, porque lhe pareciam nus, assim, sem vida, sobre as pedras. Conhecera um camarada em Arroyo que se gabava de o fazer quando estava na ilha, e lhe mostrara dois dentes de ouro e uma pulseirinha de prata com um anjinho, que haviam sobrevivido desse saque de misérias. A única coisa que fizera para além dos seus deveres militares, fora enterrar dois corpos na ilha a pedido do piloto da barcaça, enterrara-os fundo, junto ao forte, na ala norte das muralhas, a mais abrigada dos ventos. Eram para adubar a terra, havia-lhe explicado o piloto, porque eram ali que os sentinelas, por tradição, cultivavam as suas espécies hortícolas.

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