Suspeita


Há um Céu de almas, para os que se consideram inefáveis, de substância distinta da que constitui o Universo, e um céu de Espírito, para todos nós, seres biológicos que pensam e sonham e sofrem, um céu que não está num mundo à parte, desconhecido dos físicos, mas que é o próprio mundo, as suas pedras e as suas árvores, as suas formigas e as suas auroras boreais.



No céu do Espírito, o que fomos, criamos, ou inventamos, continua um pouco por toda a parte, como pedras, árvores, formigas, auroras, mas também como ideias, versos, delírios, memórias, terrores. Vistos de fora tornamo-nos fantasmas, vozes ou aparições, vistos de dentro, continuamos nós, no tecido das coisas vivas e dos fenómenos sub-atómicos, mas mantendo alguma unidade enquanto seres e enquanto consciência.



No céu do Espírito, não há polaridades, não existe História nem passado, não existe um corte entre o próprio e a alteridade, o criador e o criado, tudo está unido pelos seus limites, como um universo de sinapses que interagem entre si.



No céu do Espírito, Homero e Ulisses possuem a mesma natureza e conversam entre si, como poderiam conversar com Dante ou Virgílio, ou assistir à chegada a Ítaca de um outro aedo, cego como Homero, que os avista com a sua visão liberta, e se apresenta com euforia, ainda com os pés no convés do barco: "Soy Borges!".


2 comentários:

  1. maria.c20:29:00

    No céu do Espirito somos distintos e no entanto todos reais.E depois, pó e cinzas.

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  2. Usando Pessoa, "cadáver adiado que procria"...e imagina

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