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Prato do dia

O snack-bar estava cheio como um ovo. Estela e o marido conseguiram dois bancos no balcão corrido na parede, onde as pessoas comiam em dois tempos depois de serem atendidos. Chamaram um empregado, agitando uma nota de dez euros como uma promessa de gorjeta, e este aproximou-se logo deles, ignorando outros apelos e assobios.
-O que está a sair? - perguntou Estela.
- Temos grelhados, cozido, bitoque, mas está tudo um pouco demorado, o mais rápido é o prato do dia, Garanfana refogada com arroz.
Os dois olharam-se, hesitando.
- Tínhamos um pouco de pressa, mas Garanfana...é de confiança?
- Da máxima confiança, as garanfanas são criadas aqui mesmo, nas traseiras da casa, podem ir espreitá-las, se quiserem. Dez minutos e trago-vos tudo, e como são pessoas simpáticas, vão receber tratamento preferencial.
- De acordo, traga-nos uma dose de Garanfana e um jarro de vinho tinto.
O empregado apressou-se a atender ao pedido, e, quando se viram a sós, Estela confidenciou:
-Não estou muito convencida com a Garanfana, vou aos lavabos e aproveito para ir espreitar a criação nas traseiras.
- Força!
Rumou à casa-de-banho onde lavou as mãos e refrescou-se, passando as mãos húmidas pela nuca e parte superior dos seios. Enxugou-se, e procurou as garanfanas. Tomou sentido às traseiras do estabelecimento, entrando num corredor enevoado de vapor-de-água, que servia a cozinha e desembocava, ao fundo, numa porta com janelinha de rede. Abriu-a para um pátio cercado de muros altos de reboco grosseiro. A criação de garanfanas fazia-se num recinto vedado com rede, protegido do sol por telhas compridas de fibrocimento assentes numa estrutura de vigas de madeira. Aproximou-se da rede, as garanfanas deram pela sua presença, e uma delas aproximou-se do verso da rede, olhando-a com aqueles olhos grandes e brilhantes, as pernas esticadas e os membros superiores erguidos num gesto de súplica. Percebeu porquê, ao ver a mulher entroncada que surgiu atrás de si com um facalhão e um alguidar de folha. Abriu a porta do recinto e agarrou pelo pescoço a primeira garanfana que lhe surgiu ao alcance da mão, arrastando-a para o exterior, sem se demover com os seus gritos guturais, quase humanos, ou com a coreografia inteligente das outras garanfanas, que se ajoelharam em fila junto à rede a pedir clemência. Um golpe de cutelo no pescoço, separou quase completamente a cabeça do corpo da garanfana, que ficou a espirrar sangue durante um bom bocado para dentro do alguidar. Um segundo golpe cortou o resto do osso do pescoço e, em gestos rápidos, a mulher despejou o sangue do alguidar na lama, meteu lá dentro a cabeça da garanfana e arrastou o corpo pesado, ainda palpitante, para a cozinha.
Estela limpou uma gota de suor na testa e voltou ao snack-bar. O marido notou a sua palidez e ficou alarmado.
- Viste alguma coisa estranha?
- Não, simplesmente, nunca tinha assistido a uma matança de garanfana, é assim uma coisa um bocado crua. Mas fiquei desiludida.
- Porquê?
- Como a garanfana era com arroz, tinha esperança de que fosse de cabidela, mas não, deitam fora o sangue e não o aproveitam no refogado.
- Não me digas, que desperdício! Acho que o nosso amigo pode dizer adeus à gorjeta.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...