Os seus olhos eram duas janelas estreitas que cumpriam o seu fim prático e intrínseco e não possuía um pingo de imaginação ou fantasia, e a namorada arreliava-se com isso. Um dos seus passatempos de tardes de Domingo era ficarem deitados na colina por detrás da Quinta, a conversar, e logo ela começava: aquela nuvem faz-me lembrar um camelo...uma baleia...a corcova do camelo...da velha...um púcaro...um anúcaro...a açucena, ou uma cena assim. E a ti? Perguntava ela, com esperança de uma resposta inédita. Uma nuvem, respondia ele, incapaz de inventar ou mentir, uma nuvem...uma nuvem...uma nuvem. Com o tempo, ela acabou por desistir.
Uns anos mais tarde, os dois viajavam de avião, e ela, olhando pelo vidro, lembrou-se daquele jogo primaveril.
- Estamos sobre as nuvens. Nenhuma delas te sugere uma forma qualquer, um objecto ou um animal?
Ele hesitou.
- Bem, assim, todas juntas, fazem lembrar um mar de...nuvens.
Princípio de decepção, mas então, ele continuou:
- Bem, aquela ali à frente, até faz lembrar um castelo...
- Aleluia! - exclamou ela - até que enfim que tu vês algo mais do que simples nuv...
Não acabou a frase, porque o avião colidiu com as muralhas da fortaleza.

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