INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página
Não conseguia ficar um pouco mais na cama, sem que ele o acordasse, o seu amor. Ele, sobre os lençóis, ele, impaciente, na casa-de-banho, na sala, na cozinha, acarinhando e fazendo carinhos, sempre insaciável e exigindo toda a atenção do mundo. Por vezes, saturava-a que ele fosse tão possessivo, insistente, mas, por outro lado, a sua vida seria de um vazio atroz, se ele não existisse. As coisas são mesmo assim, o que conta não são os surtos de afecto ou euforia de que todos são capazes, mas suster esse afecto sob a erosão, cuidar dele com entrega e sem afectação, numa espécie de micro-heroísmo diante do fogo inimigo. E o seu amor tornara-se tão inerente à sua vida, que lhe custava a sua ausência durante as horas intermináveis de trabalho no escritório, quando a nostalgia que sentia era agravada pelo seu retrato no tampo da secretária. Na pausa para o almoço, sentia vontade de o ver, nem que fosse por alguns minutos, mas continha-se porque não podia dar-se ao luxo de se desgastar numa maratona de sucessivos transportes públicos. E a tarde passava-se, leve, porque possuía o doce encanto de se apoucar até á hora do regresso a casa, o seu momento sublime do dia. Regressar, já de sorriso nos lábios, ver o seu amor à espera no jardim, latindo alegremente quando ela entrava ao portão e lhe acariciava a nuca e as orelhas compridas. "Estou aqui, meu chato, estou aqui!", dizia-lhe, carinhosamente, como se cantasse.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...