Manhã

No meio da escuridão do Cinema, o rapaz entediava-se, um filme independente americano, que cantava a revolução e o inconformismo. Olhou em volta, três filas do cinema preenchidas com os seus colegas de escola e respectivos mestres. Porcaria de filme. Levantou-se da cadeira e saiu da sala de cinema, com o bilhete rasgado seguro entre o polegar e o indicador. Cá fora, a noite estava amena, com um pouco de cacimba no ar. Na rua quase não havia carros. Tirou uma choínga do bolso e meteu-a na boca depois de retirar o papel. Caminhou ao acaso pelas ruas e chegou às margens do rio Zambeze, no cais onde varavam barcos de pesca, e onde, em tempos, acostava o batelão nos seus dias de glória, depois de cruzar o rio carregado de carros e pessoas, isto, antes de ser construída a ponte, e os batelões serem relegados ao desprezo como mastodontes em extinção. Ainda se lembrava de andar neles, e de uma vez, o motor do batelão avariar e serem levados na correnteza rio abaixo até encalharem num banco de areia no meio do rio. Estiveram ali horas, até os resgatarem a todos em barcos dos fuzas.
Sentou-se no muro junto ao cais, as pessoas gostavam de passear até ali. Havia candeeiros de luz no meio das árvores, e vendedores ambulantes que estendiam uma manta no chão e expunham roupas e colares, cocos, bananas e garrafas de Pombe. Nessa noite, também lá parara um vendedor de gelados e não foi capaz de resistir, deitou fora a choínga e comprou um cone com duas bolas de gelado. Deliciando-se com o gelado, procurou o rio que corria sob o luar, uma correnteza negra com laivos de prata. Evitou os grupinhos de conhecidos que tagarelavam e riam, e as aves solitárias que pareciam estudar os restantes, já no fim do cais, havia mais um troço de muro quebrado, onde apodrecia um tronco que ali fora deixado pelas cheias e, para além dele, mais uma rampa para barcos. Decidiu que iria até lá, para se sentar junto á água e acabar de comer o gelado. Quando lá chegou, notou que estava ocupada, e o que viu, mergulhou-o em confusão. Um homem e uma mulher deitados no fim da rampa, ele, encravado entre as suas pernas, movendo-se com uma cadência rítmica. Ao luar, viu os seios dela, enormes, e as pernas nuas com as saias repuxadas em volta da cintura. A princípio julgou que ela estava a bater-lhe porque ela gemia de dor, depois, achou que não, não eram de dor os seus gemidos e gritos abafados, parecia estar a gostar. Sentou-se no muro e ficou a olhá-los e a comer o gelado, até os movimentos deles cessarem e ficarem deitados um sobre o outro a arfar como cães com sede.
Com medo de ser descoberto, voltou ao Cinema S. Jorge. Quando se sentou no seu lugar, o filme estava na cena final, o herói tinha sido morto e cremado e os amigos repartem entre eles as cinzas, sentados a uma mesa numa cave, ouve-se então música, que vem do andar de cima, e os amigos largam as cinzas para se juntarem à festa, a música persiste durante as legendas do final, como a angústia dentro do rapaz, uma sensação álgida e quente que lhe invadia o ventre e as coxas, agora que descobrira uma música nova que incorporara o murmúrio do Zambeze.

{Choínga: Chewing-Gum; Pombe: bebida alcoólica}

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