Ir a uma florista, era uma daquelas coisas que só fazia quando era mesmo preciso, porque detestava a enxurrada de estímulos sensoriais em que era mergulhado, com a exuberância de vasos e arranjos e a confusão de cores e cheiros, do mesmo modo que detestaria se lhe servissem um coquetel com os vinte melhores vinhos do mundo, ou uma execução simultânea de todas as obras de Bach que amava. Os arranjos artísticos de flores, achava-os comuns e monótonos, talvez por influência de se passear pela net e ver páginas insípidas decoradas com fotos insípidas de lindas flores.
Entrou um pouco contrariado na primeira florista que encontrou, com extremo cuidado para não danificar as plantas e arranjos semeados pelo chão, próximos aos pés. Tem uma cliente á frente dele e espera, civilizadamente, estuda um calendário dos meses do ano com fotos de Anne Geddes, e recenseia os feriados dos meses mais próximos. A conversa entre a florista e a cliente estava animada - «As pessoas não esperam nada da vida, não têm ideais nem esperança. Mas eu acho que vou chegar à Terra Prometida», frisa a florista num tom musical, e continua, como se saboreasse as suas próprias palavras - «Eu, nós todos, vamos chegar à Terra Prometida! Foi-nos prometida e tudo fizemos para a merecer!». A cliente segura-lhe com afecto uma das mãos, fazendo-a interromper o arranjo de flores, as duas mulheres estão quase a ter um orgasmo místico, e entre elas, olham-no, sondando a sua expressão. «Huum! - pensa ele - Há menos feriados pela frente do que aquilo que eu pensava!».

- Já alguém lhe falou na Terra Prometida?
A pergunta foi-lhe dirigida pela florista, e hesitou por um momento se iria responder ou fugir, mas decidiu que não tinha de fazer nenhuma das coisas.
- Desculpe-me, mas só queria um ramo de rosas para oferecer a uma pessoa amiga, com um daquelas etiquetas de Parabéns, era só isso que eu procurava.
- Mas não me pode responder? Eu e esta minha irmã somos crentes e praticantes, e trabalhamos para entrar com os nossos irmãos na Terra Prometida, e vai haver muita luz e muita música, e seremos escoltadas por mansos leões e tigres, e Cristo vai pegar-nos ao colo para atravessarmos o fosso de víboras.
- O ramo de rosas pode ser até cinquenta euros, ou um arranjo, se me aconselhar algum...
- Eu sabia que as pessoas têm medo da luz - opinou a cliente, indignada - mas o senhor exagera. O que custa ao senhor, responder a uma pergunta simples desta nossa irmã?
- Ele está no seu direito - intercedeu a florista, recuperando o seu tino de empresária - não está aqui para responder a perguntas e não temos o direito de as fazer. O senhor falou num ramo de cinquenta euros?
- Sim, aproximadamente.

- Nós iniciamos agora uma promoção - explicou - quando a encomenda é superior a quarenta euros, como é o seu caso, nós passamos um talão de desconto, que pode ser deduzido na próxima vez que cá vier.
- Parece-me uma boa iniciativa!
- E pode dar-lhe jeito, nunca se sabe quando vai precisar de um outro ramo, ou de uma coroa de flores...

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