Estou cansado, o cansaço é como um casaco que pomos pelas costas e não conseguimos tirar, pesa como ó'raio e ficamos enlatados dentro dele, a suar como porcos, pergunto-me como é que cheguei aqui, e ainda não estou suficientemente cansado que não consigo procurar uma resposta, mas as respostas não vêm à superfície, porque ainda não morreram e só emergirão quando se tornarem um corpo inchado e podre, o que descubro são mais e mais perguntas, e acusações de silêncio nos olhos dos outros. Há quanto tempo é que estou cansado? Quando é que fiquei neste torpor comatoso? Pergunto-me. Porque é que ficaste diferente? Porque é que tornaste um estorvo e um incómodo como um dor menstrual ou uma comichão na palma do pé? Ignoro as perguntas, calo as vozes, as interrogações são uma larva que rói uma folha caída num pomar ao longe. Mas não cessam, não há silêncio, roem e rufam. Foi desde que descobriste que não havia mais nada senão acordar e andar por aí até adormecer outra vez? Foi desde a cama de hospital, quando o gesso te pesava e passavas as noites em branco a pensar nas coisas até elas ficarem vazias e desaparecerem no ar como um arroto? Estou cansado, caramba, não posso estar cansado? Foi de tudo isso e não foi ao mesmo tempo, não quero escrever nenhum tratado sobre o cansaço, não saberia o que fazer com isso. Estou só cansado, deixem-me ficar. Tens filhos e pesssoas que te amam! Isso não te interessa? Deixem-me ficar, calem-se! O cansaço pesa, cada vez mais. (Não sabia que os comprimidos levavam tanto tempo a fazer efeito).

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