Encantamentos

Habituara-se a não ter ninguém na sua vida, e tudo acontecia como um castigo de mitologia grega, um caminho de lado nenhum para lado algum em companhia de ninguém, mas ele até não desgostava, assim ninguém o aborrecia ou irritava, a não ser a curiosidade mórbida dalgumas pessoas, que farejavam a sua vida como perdigueiros de peçonha. Mas, como toda a refeição e todo o gozo, também se cansou da sua vida ordeira e limpa, estava empanturrado de marasmo e solidão e já não aguentava mais; e a sua atenção virou-se para a mulher que fazia limpezas no prédio, não era muito velha e até era bem parecida, cheia de carnes como ele gostava, sabia dela que era viúva há alguns anos e que vivia numa quintinha nos arredores da cidade. Solidão e desejo reprimido se associaram, e roubou-lhe o telemóvel que ela largara na portaria enquanto lavava os degraus das escadas. Naquela noite, atou o telemóvel a um sapo preto com duas fitinhas, e meteu-os dentro duma panela. O texto do feitiço de amarramento, dizia que ele tinha de enterrar a panela numa encruzilhada, mas isso era difícil, vivendo numa cidade de ruas alcatroadas, e por recurso, escondeu-o na cave do prédio, que era quase a mesma coisa. Confiante no poder do feitiço, ficou à espera que a mulher viesse bater à sua porta, fervendo de desejo e paixão.
Na portaria, ela procurou sem êxito o telemóvel perdido e, com o telefone da portaria, ligou para o seu próprio número. Na cave, soou o telemóvel, ressoando na panela com a tampa entreaberta. Seguindo o apelo repetido do toque, descobriu a panela, destapou-a e viu o telemóvel atado ao sapo, que coaxava com aflição. Ela coaxou em resposta e saltou lá para dentro.

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