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Dia(brá)rio

A mulher levantou-se às sete da manhã, não se levantou à primeira, só desligou o despertador ao fim de uns segundos de cacofonia, e contou até dez para se sentar na cama de um salto, demorou-se um pouco na casa-de-banho, porque o dia não lhe corria bem se não conseguisse evacuar pela manhã, ficava com a sensação de entupida por dentro e a mínima coisa era suficiente para ela explodir. Um banho rápido e desceu à cozinha, fez o almoço com o rádio a tocar baixinho, depois, acordou as filhas e vestiu-as com um pouco de impaciência efervescida pela marcha dos ponteiros do relógio. Com a panela em cima do fogão a arrefecer, meteu as duas filhas no carro e foi levá-las ao infantário, sentadas em dois assentos próprios no banco de trás. Ao seu lado, no lugar do pendura, colocou um sacalhão com casacos delas de Inverno, que queria deixar na lavandaria.
Ainda tinha quase uma hora até entrar ao trabalho, ainda podia ir ao hipermercado porque tinha muita coisa que precisava comprar, detergente de máquina, papel de cozinha, gel de duche...desde que não fosse comida ou produtos de frio, podia ficar tudo na bagageira até à tardinha.
Carregou um pouco no acelerador. Sentia-se cansada, eram sempre as mesmas ruas, todos os dias, os ângulos das esquinas obtusas de sempre, as rotundas parvas, as pessoas com ar de mortalmente enfastiadas, e as buzinadelas catárticas. Parou no estacionamento do hipermercado com um chiar de travões. Fez as compras num ápice e acondicionou-as na bagageira do carro, com gestos metódicos. Quando fechou a tampa da bagageira, reparou num detalhe diferente, um balão solto a esvoaçar entre os prédios, era um daqueles balões modernos, metalizados, com a forma duma flor. Distinguia-se o fio pendurado, como um cabelo em torvelinho. Devia estar cheio com hélio, ia baixando devagarinho e quando parecia que ia tocar o solo, um sopro de brisa fazia-o erguer-se de novo nos ares. Era bonito, uma flor nos céus, aureolada pelo sol, e fê-la sentir uma espécie de doçura, como quando ouvia uma música ou um poema que a comovia. Quando entrou no carro, sabia que tinha de capturar aquele balão, e nem olhou para o relógio, desligara-se de tudo o mais. Meteu-se na estrada, e perseguiu as evoluções da flor no céu, escolhia as ruas que tomavam o mesmo sentido que ela, optando por estacionar o carro em cima dum passeio, sempre que a perdia de vista.
Em altos e baixos, o balão sobrevoou uma rotunda, e viu-o flertar com os gradeamentos das varandas dum prédio, pairar uns instantes sobre as piscinas municipais, depois, inflectiu a marcha junto ao quartel dos Bombeiros e começou a perder altura sobre umas vivendas à beira da estrada, mesmo ao pé dela. Encostou o carro e correu. O balão caíra no jardim duma das casas, uma vivenda de dois pisos de cor amarelo-torrado, com sebes em volta e as agulhas de dois ciprestes a ladear a casa. Tocou à campainha do portão, e apareceu-lhe um velhote de roupão. Explicou-lhe, com voz agitada, que o balão das filhas caíra no seu jardim e pediu-lhe se o podia ir buscar. Ele concordou e ela irrompeu por ali adentro, sob os latidos de um cão peludo preso a uma trapeira. Procurou o balão, e descobriu-o no meio duma piscina rectangular, agitava-se sob a brisa, mas o cordão embebido em água impedia-o de alçar voo outra vez. Mas ela não teve a clareza de espírito para perceber isso, e descalçando rapidamente os sapatos, atirou-se vestida à piscina, abraçando o balão e trazendo-o de volta para a margem, com uma expressão de triunfo. O velhote estava pasmado, mas ela não queria saber, mesmo ensopada dos pés à cabeça. Agradeceu e voltou ao carro, com o balão numa mão e os sapatos na outra. Com a porta do carro aberta, hesitou, não podia por o balão lá atrás porque ia molhar os assentos das miúdas, e também não era prático pô-lo em cima do saco com casacos porque iria dançar dum lado para o outro, podia pô-lo aos pés do banco do pendura mas tinha de tirar primeiro o saco, também queria tirar as meias e o casaco e, e, na esquina da porta ou nalguma aresta viva da carroçaria, o balão arrebentou nas suas mãos.
Sentou-se ao volante, e chorou como se lhe tivesse morrido um parente.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...