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Da parábola

Não existe semelhante coisa, uma recordação, uma recordação não é um indivíduo, um ser diferenciado, uma recordação é uma molécula num farrapo de neblina, mas é frágil como um indivíduo ou uma criatura, borboleta de asas de seda que pode ser esmagada por um pé, desfeita entre dois dedos de criança como um grumo de farinha.

Contradigo-me.

Uma recordação não é, mas facilmente deixa de ser.

Vou imaginar que é, um ser, a tal borboleta, num prado entre centenas, milhares, de borboletas, quase nem damos por ela, foi um momento, efémero, talvez da infância, dos mundos amplos e das feridas profundas, ou da adolescência de gaguejos de vida e sonhos roubados, apenas uma borboleta, quase definitivamente esquecida, oculta, pousada no cálice de uma flor.

No outro lado do mundo, o homem que é essa e essas borboletas, vive a sua vida clara, confiante e consciente, cheio de força, determinado nos actos e nas opiniões, turgindo os dias com a sua voz e o seu pensamento.

No prado, a borboleta levanta voo, ganhando altura no espelho dos céus, que, de súbito, adquire a sua cor e a sua forma.

No outro lado do mundo, o céu turva-se, e o homem que foi essa borboleta entra em colapso, soçobra sobre si mesmo no olho da tempestade.

Já não decide, condena, opina. O seu mundo é uma cadeira de asilo que hospeda a sua paralisia.

A borboleta revê-se no brilho baço das suas pupilas, e humedece as patas na saliva que lhe escorre do canto dos lábios.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...