INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página
- Tu és tudo para mim - disse, em desespero - és a minha Clave de Sol e era contigo que todas as músicas começavam em mim. O que é que eu faço agora?
- Shhhiiiuuu!
Os seus olhos eram duas janelas estreitas que cumpriam o seu fim prático e intrínseco e não possuía um pingo de imaginação ou fantasia, e a namorada arreliava-se com isso. Um dos seus passatempos de tardes de Domingo era ficarem deitados na colina por detrás da Quinta, a conversar, e logo ela começava: aquela nuvem faz-me lembrar um camelo...uma baleia...a corcova do camelo...da velha...um púcaro...um anúcaro...a açucena, ou uma cena assim. E a ti? Perguntava ela, com esperança de uma resposta inédita. Uma nuvem, respondia ele, incapaz de inventar ou mentir, uma nuvem...uma nuvem...uma nuvem. Com o tempo, ela acabou por desistir.
Uns anos mais tarde, os dois viajavam de avião, e ela, olhando pelo vidro, lembrou-se daquele jogo primaveril.
- Estamos sobre as nuvens. Nenhuma delas te sugere uma forma qualquer, um objecto ou um animal?
Ele hesitou.
- Bem, assim, todas juntas, fazem lembrar um mar de...nuvens.
Princípio de decepção, mas então, ele continuou:
- Bem, aquela ali à frente, até faz lembrar um castelo...
- Aleluia! - exclamou ela - até que enfim que tu vês algo mais do que simples nuv...
Não acabou a frase, porque o avião colidiu com as muralhas da fortaleza.

Zen-à-Vista

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
– Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan.
– A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra – responde Marco – mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta:
– Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde:
– Sem pedras não há arco.
(Italo Calvino, "As Cidades Invisíveis")

Da parábola

Não existe semelhante coisa, uma recordação, uma recordação não é um indivíduo, um ser diferenciado, uma recordação é uma molécula num farrapo de neblina, mas é frágil como um indivíduo ou uma criatura, borboleta de asas de seda que pode ser esmagada por um pé, desfeita entre dois dedos de criança como um grumo de farinha.

Contradigo-me.

Uma recordação não é, mas facilmente deixa de ser.

Vou imaginar que é, um ser, a tal borboleta, num prado entre centenas, milhares, de borboletas, quase nem damos por ela, foi um momento, efémero, talvez da infância, dos mundos amplos e das feridas profundas, ou da adolescência de gaguejos de vida e sonhos roubados, apenas uma borboleta, quase definitivamente esquecida, oculta, pousada no cálice de uma flor.

No outro lado do mundo, o homem que é essa e essas borboletas, vive a sua vida clara, confiante e consciente, cheio de força, determinado nos actos e nas opiniões, turgindo os dias com a sua voz e o seu pensamento.

No prado, a borboleta levanta voo, ganhando altura no espelho dos céus, que, de súbito, adquire a sua cor e a sua forma.

No outro lado do mundo, o céu turva-se, e o homem que foi essa borboleta entra em colapso, soçobra sobre si mesmo no olho da tempestade.

Já não decide, condena, opina. O seu mundo é uma cadeira de asilo que hospeda a sua paralisia.

A borboleta revê-se no brilho baço das suas pupilas, e humedece as patas na saliva que lhe escorre do canto dos lábios.
Estou cansado, o cansaço é como um casaco que pomos pelas costas e não conseguimos tirar, pesa como ó'raio e ficamos enlatados dentro dele, a suar como porcos, pergunto-me como é que cheguei aqui, e ainda não estou suficientemente cansado que não consigo procurar uma resposta, mas as respostas não vêm à superfície, porque ainda não morreram e só emergirão quando se tornarem um corpo inchado e podre, o que descubro são mais e mais perguntas, e acusações de silêncio nos olhos dos outros. Há quanto tempo é que estou cansado? Quando é que fiquei neste torpor comatoso? Pergunto-me. Porque é que ficaste diferente? Porque é que tornaste um estorvo e um incómodo como um dor menstrual ou uma comichão na palma do pé? Ignoro as perguntas, calo as vozes, as interrogações são uma larva que rói uma folha caída num pomar ao longe. Mas não cessam, não há silêncio, roem e rufam. Foi desde que descobriste que não havia mais nada senão acordar e andar por aí até adormecer outra vez? Foi desde a cama de hospital, quando o gesso te pesava e passavas as noites em branco a pensar nas coisas até elas ficarem vazias e desaparecerem no ar como um arroto? Estou cansado, caramba, não posso estar cansado? Foi de tudo isso e não foi ao mesmo tempo, não quero escrever nenhum tratado sobre o cansaço, não saberia o que fazer com isso. Estou só cansado, deixem-me ficar. Tens filhos e pesssoas que te amam! Isso não te interessa? Deixem-me ficar, calem-se! O cansaço pesa, cada vez mais. (Não sabia que os comprimidos levavam tanto tempo a fazer efeito).

- O que é isto?
- Notas, dinheiro, pilim. Quero pagar a minha conta!
- Mas as notas estão cheias de tinta violeta, e estão coladas umas às outras...
- Amigo, sou um artista, um esteta. Se tenho de rebaixar-me a usar dinheiro em todos os dias da minha vida, então, que o dinheiro pareça uma hemorragia de cor, uma erupção de Pop Art, um detalhe dos quadros de El Greco!
- Não sei, isto parece-me antes aquele dinheiro das caixas Multibanco, que são pintadas quando as tentam arrancar do sítio. Acho que devia avisar a polícia...
- Não, por favor, não há necessidade! Já notei que o senhor é um tosco sem sensibilidade artística, um Procusto do quotidiano, medíocre e obstinado. Se o senhor prefere, pago em moedas, sem tinta. Quanto é que custava mesmo a bifana?

The Shining

EM EXIBIÇÃO

Roda

Geraldo estava casado há uma data de anos, mas mantinha uma vida pessoal com uma independência folgada, continuava a sair com os seus amigos de sempre, em noitadas de copos e bares de strip, com uma ou outra aventura pelo meio. Estava com os amigos, e a mulher confiava. Geraldo e a sua trupe, acabaram por entrar num esquema de swing que se formara na cidade, fazendo rodar entre eles, aleatoriamente, uma galeria de mulheres belas e disponíveis. Os encontros às cegas eram marcados para bares, apartamentos das ditas, ou quartos de motel. As ninfas, por vezes, repetiam-se, mas havia uma renovação constante, recém-chegadas à cidade, e diferentes mulheres que entravam no jogo à procura de novas experiências, atraídas pelas conversas de amigas ou aliciadas por engates de ocasião.
Geraldo já se mantinha no jogo há cinco anos quando, uma noite, respondendo a uma dessas marcações, deu de caras num quarto de hotel, com a própria esposa, bem maquilhada, saia curta e justa, blusa decotada, sapatos de cunha. Não houve - não podia haver - acusações nem recriminações, estavam no mesmo barco e na mesma onda. Tiveram o melhor sexo de quinze anos de intimidade.

Subtileza

Referir alguém que se detesta como uma pessoa singular, pleno de idiotissincrasias.

Prato do dia

O snack-bar estava cheio como um ovo. Estela e o marido conseguiram dois bancos no balcão corrido na parede, onde as pessoas comiam em dois tempos depois de serem atendidos. Chamaram um empregado, agitando uma nota de dez euros como uma promessa de gorjeta, e este aproximou-se logo deles, ignorando outros apelos e assobios.
-O que está a sair? - perguntou Estela.
- Temos grelhados, cozido, bitoque, mas está tudo um pouco demorado, o mais rápido é o prato do dia, Garanfana refogada com arroz.
Os dois olharam-se, hesitando.
- Tínhamos um pouco de pressa, mas Garanfana...é de confiança?
- Da máxima confiança, as garanfanas são criadas aqui mesmo, nas traseiras da casa, podem ir espreitá-las, se quiserem. Dez minutos e trago-vos tudo, e como são pessoas simpáticas, vão receber tratamento preferencial.
- De acordo, traga-nos uma dose de Garanfana e um jarro de vinho tinto.
O empregado apressou-se a atender ao pedido, e, quando se viram a sós, Estela confidenciou:
-Não estou muito convencida com a Garanfana, vou aos lavabos e aproveito para ir espreitar a criação nas traseiras.
- Força!
Rumou à casa-de-banho onde lavou as mãos e refrescou-se, passando as mãos húmidas pela nuca e parte superior dos seios. Enxugou-se, e procurou as garanfanas. Tomou sentido às traseiras do estabelecimento, entrando num corredor enevoado de vapor-de-água, que servia a cozinha e desembocava, ao fundo, numa porta com janelinha de rede. Abriu-a para um pátio cercado de muros altos de reboco grosseiro. A criação de garanfanas fazia-se num recinto vedado com rede, protegido do sol por telhas compridas de fibrocimento assentes numa estrutura de vigas de madeira. Aproximou-se da rede, as garanfanas deram pela sua presença, e uma delas aproximou-se do verso da rede, olhando-a com aqueles olhos grandes e brilhantes, as pernas esticadas e os membros superiores erguidos num gesto de súplica. Percebeu porquê, ao ver a mulher entroncada que surgiu atrás de si com um facalhão e um alguidar de folha. Abriu a porta do recinto e agarrou pelo pescoço a primeira garanfana que lhe surgiu ao alcance da mão, arrastando-a para o exterior, sem se demover com os seus gritos guturais, quase humanos, ou com a coreografia inteligente das outras garanfanas, que se ajoelharam em fila junto à rede a pedir clemência. Um golpe de cutelo no pescoço, separou quase completamente a cabeça do corpo da garanfana, que ficou a espirrar sangue durante um bom bocado para dentro do alguidar. Um segundo golpe cortou o resto do osso do pescoço e, em gestos rápidos, a mulher despejou o sangue do alguidar na lama, meteu lá dentro a cabeça da garanfana e arrastou o corpo pesado, ainda palpitante, para a cozinha.
Estela limpou uma gota de suor na testa e voltou ao snack-bar. O marido notou a sua palidez e ficou alarmado.
- Viste alguma coisa estranha?
- Não, simplesmente, nunca tinha assistido a uma matança de garanfana, é assim uma coisa um bocado crua. Mas fiquei desiludida.
- Porquê?
- Como a garanfana era com arroz, tinha esperança de que fosse de cabidela, mas não, deitam fora o sangue e não o aproveitam no refogado.
- Não me digas, que desperdício! Acho que o nosso amigo pode dizer adeus à gorjeta.

Não conseguia ficar um pouco mais na cama, sem que ele o acordasse, o seu amor. Ele, sobre os lençóis, ele, impaciente, na casa-de-banho, na sala, na cozinha, acarinhando e fazendo carinhos, sempre insaciável e exigindo toda a atenção do mundo. Por vezes, saturava-a que ele fosse tão possessivo, insistente, mas, por outro lado, a sua vida seria de um vazio atroz, se ele não existisse. As coisas são mesmo assim, o que conta não são os surtos de afecto ou euforia de que todos são capazes, mas suster esse afecto sob a erosão, cuidar dele com entrega e sem afectação, numa espécie de micro-heroísmo diante do fogo inimigo. E o seu amor tornara-se tão inerente à sua vida, que lhe custava a sua ausência durante as horas intermináveis de trabalho no escritório, quando a nostalgia que sentia era agravada pelo seu retrato no tampo da secretária. Na pausa para o almoço, sentia vontade de o ver, nem que fosse por alguns minutos, mas continha-se porque não podia dar-se ao luxo de se desgastar numa maratona de sucessivos transportes públicos. E a tarde passava-se, leve, porque possuía o doce encanto de se apoucar até á hora do regresso a casa, o seu momento sublime do dia. Regressar, já de sorriso nos lábios, ver o seu amor à espera no jardim, latindo alegremente quando ela entrava ao portão e lhe acariciava a nuca e as orelhas compridas. "Estou aqui, meu chato, estou aqui!", dizia-lhe, carinhosamente, como se cantasse.

Legenda, a gosto


Derrame

Sentia um apetite tão voraz pelo conhecimento, que fez rebentar a banda gástrica que tinha em volta do cérebro.

Pícaro

Durante a noite, voava, colhendo sonhos nas suas redes.
No reinado do Sol, reparava as redes e a cera que unia as asas.

- Não sirvo para nada...não sei o que fazer à vida...
- Não podes desanimar, tens de ser esperto e aproveitar ao máximo o que a vida te dá!
- É mesmo! - exclamou, como se estivesse diante duma revelação - um conselho sábio, esse. Obrigado! Muito obrigado mesmo!
Despediu-se do amigo, e foi procurar emprego como saco de boxe.

Marcas

Manhã, muito cedo, acordou. Abriu o estore por reflexo - estava acordado, tinha de haver luz. Quando chegou à cozinha, sentiu que lhe faltava algo, mas não era fome, comera a meio da noite, enquanto o sono não chegava. Faltava algo. Ergueu o rosto, não havia sons, até susteve a respiração para se certificar de que não havia mais sons na casa, e então mergulhou novamente no corredor escuro. Três portas para além da porta do seu quarto, deteve-se. A porta estava só no trinco, que rodou silenciosamente, até ela se abrir. Escutou novamente, não havia ruídos, apenas uma respiração suave e compassada. Entrou, fazendo dos pés, nuvens, e sentou-se no cadeirão junto à janela. A mulher dormia, o lençol enrolado preso sob o ombro direito como uma toga romana, entrevia a redondez interior do seio direito e todo o seio esquerdo, pequeno mas perfeito, tinha o rosto de perfil, virado para um dos lados, aquele em que um livro de páginas abertas estava pousado na beira da cama. Os seus cabelos entufavam-se sobre o pescoço, fazendo-a parecer a mulher de antigamente, aquela mulher por quem se mantivera apaixonado durante anos e anos. Como era possível que pudessem viver assim, em quartos separados dentro da mesma casa? Como se lhe quisesse responder, ela arqueou tenuamente o corpo e mexeu a cabeça, fazendo os cabelos deslizarem para cima do lençol. Surgiu à vista a cicatriz, que lhe tolheu o estômago só de a ver, uma cicatriz grande e funda no pescoço. Desviou os olhos para os seus pés, que assomavam sob o lençol, junto a si. Não era capaz de olhar para a cicatriz, com a agravante de haver muita luz no quarto, linhas de pontos de luz originados pelo estore mal fechado. Com os olhos fechados, levantou-se e fechou completamente o estore, mergulhando o quarto na escuridão, e despiu o robe chinês. Não iria beijar a cicatriz, tocá-la, vê-la sequer. Como das outras vezes, na escuridão do leito, deitou-se junto dela, e começou a semear beijos e carícias até ela despertar e corresponder aos seus mimos.

Suspeita


Há um Céu de almas, para os que se consideram inefáveis, de substância distinta da que constitui o Universo, e um céu de Espírito, para todos nós, seres biológicos que pensam e sonham e sofrem, um céu que não está num mundo à parte, desconhecido dos físicos, mas que é o próprio mundo, as suas pedras e as suas árvores, as suas formigas e as suas auroras boreais.



No céu do Espírito, o que fomos, criamos, ou inventamos, continua um pouco por toda a parte, como pedras, árvores, formigas, auroras, mas também como ideias, versos, delírios, memórias, terrores. Vistos de fora tornamo-nos fantasmas, vozes ou aparições, vistos de dentro, continuamos nós, no tecido das coisas vivas e dos fenómenos sub-atómicos, mas mantendo alguma unidade enquanto seres e enquanto consciência.



No céu do Espírito, não há polaridades, não existe História nem passado, não existe um corte entre o próprio e a alteridade, o criador e o criado, tudo está unido pelos seus limites, como um universo de sinapses que interagem entre si.



No céu do Espírito, Homero e Ulisses possuem a mesma natureza e conversam entre si, como poderiam conversar com Dante ou Virgílio, ou assistir à chegada a Ítaca de um outro aedo, cego como Homero, que os avista com a sua visão liberta, e se apresenta com euforia, ainda com os pés no convés do barco: "Soy Borges!".


A voz era insistente e não a largava - "Alice, vai arear as pratas!", "Alice, apanha as folhas do jardim", "Alice, ajuda-me a virar a tua avó na cama, borrou-se toda e temos de a limpar".
Alice refugiou-se no quarto, fugindo à voz da mãe. O Espelho estava a um canto do quarto, velado por uma manta. Chegou-se ao pé dele e destapou-o. Na semi-obscuridade do quarto, a face do espelho brilhava como um reflexo lunar. Tinha saudades! Afagou a sua superfície e as letras victorianas que decoravam a moldura em madeira.
- "Alice! Vem depressa, e traz uma pá do lixo, que isto está cheio de cócó!".
Alice encheu-se de coragem, e lançou-se sobre o espelho, mas tudo o que conseguiu foi dar uma violenta cabeçada no vidro. Caída no chão, a esfregar a testa dorida, ouviu uma voz anasalada de coelho que lhe chegava do outro lado.
- O seu nome e/ou a sua senha, estão incorrectos. Digite-os outra vez e tente novamente.

Devir

Por castigo dos deuses pela sua crueldade, o rei Tântalo, o cinzento e duro Tântalo, foi condenado, para toda a eternidade, a passar fome e sede num vale cheio de água e frutos, a água sumia-se por buracos na terra, e os frutos fugiam do alcance da sua mão.
Cansado, muito cansado do suplício, elevou a sua súplica, das profundezas do Tártaro às moradas dos Olímpicos.
-Pai, meu Pai, livra-me deste castigo, se puder ser, impôe-me outro, em que não tenha de passar fome nem sede.
E das alturas divinas, caiu o rochedo de Sísifo, mesmo em cima do seu crânio.
- Para onde vais tu, Judas, com essa corda enrolada em volta do ombro?
- Vou à procura de uma árvore, porque deram-me esta corda para me enforcar, disseram-me que era isso que eu tinha de fazer. E não penses que não me está a custar, logo agora que eu tinha conseguido pôr algum dinheiro de parte...
- Muito dinheiro?
- Trinta dinheiros, aliás, vinte e nove, porque uma moeda eu vou levar na boca, para pagar ao guardião da Porta.
- E não tens destino para as vinte e nove moedas que sobram?
- Não, não me lembro de nada.
- Se não te ocorre nada, não queres contribuir para a festa de fim-de-ano dos Bombeiros?

Evento rosa

Apadrinhado pela DC Comics, realizou-se o casamento entre dois dos seus super-heróis, o Homem-Elástico e a Mulher-Insuflável. Colheres de cabo boleado foram os únicos talheres presentes na boda, onde os convidados foram proibidos de fumar ou foguear a menos de cinco metros da noiva.

Manhã

No meio da escuridão do Cinema, o rapaz entediava-se, um filme independente americano, que cantava a revolução e o inconformismo. Olhou em volta, três filas do cinema preenchidas com os seus colegas de escola e respectivos mestres. Porcaria de filme. Levantou-se da cadeira e saiu da sala de cinema, com o bilhete rasgado seguro entre o polegar e o indicador. Cá fora, a noite estava amena, com um pouco de cacimba no ar. Na rua quase não havia carros. Tirou uma choínga do bolso e meteu-a na boca depois de retirar o papel. Caminhou ao acaso pelas ruas e chegou às margens do rio Zambeze, no cais onde varavam barcos de pesca, e onde, em tempos, acostava o batelão nos seus dias de glória, depois de cruzar o rio carregado de carros e pessoas, isto, antes de ser construída a ponte, e os batelões serem relegados ao desprezo como mastodontes em extinção. Ainda se lembrava de andar neles, e de uma vez, o motor do batelão avariar e serem levados na correnteza rio abaixo até encalharem num banco de areia no meio do rio. Estiveram ali horas, até os resgatarem a todos em barcos dos fuzas.
Sentou-se no muro junto ao cais, as pessoas gostavam de passear até ali. Havia candeeiros de luz no meio das árvores, e vendedores ambulantes que estendiam uma manta no chão e expunham roupas e colares, cocos, bananas e garrafas de Pombe. Nessa noite, também lá parara um vendedor de gelados e não foi capaz de resistir, deitou fora a choínga e comprou um cone com duas bolas de gelado. Deliciando-se com o gelado, procurou o rio que corria sob o luar, uma correnteza negra com laivos de prata. Evitou os grupinhos de conhecidos que tagarelavam e riam, e as aves solitárias que pareciam estudar os restantes, já no fim do cais, havia mais um troço de muro quebrado, onde apodrecia um tronco que ali fora deixado pelas cheias e, para além dele, mais uma rampa para barcos. Decidiu que iria até lá, para se sentar junto á água e acabar de comer o gelado. Quando lá chegou, notou que estava ocupada, e o que viu, mergulhou-o em confusão. Um homem e uma mulher deitados no fim da rampa, ele, encravado entre as suas pernas, movendo-se com uma cadência rítmica. Ao luar, viu os seios dela, enormes, e as pernas nuas com as saias repuxadas em volta da cintura. A princípio julgou que ela estava a bater-lhe porque ela gemia de dor, depois, achou que não, não eram de dor os seus gemidos e gritos abafados, parecia estar a gostar. Sentou-se no muro e ficou a olhá-los e a comer o gelado, até os movimentos deles cessarem e ficarem deitados um sobre o outro a arfar como cães com sede.
Com medo de ser descoberto, voltou ao Cinema S. Jorge. Quando se sentou no seu lugar, o filme estava na cena final, o herói tinha sido morto e cremado e os amigos repartem entre eles as cinzas, sentados a uma mesa numa cave, ouve-se então música, que vem do andar de cima, e os amigos largam as cinzas para se juntarem à festa, a música persiste durante as legendas do final, como a angústia dentro do rapaz, uma sensação álgida e quente que lhe invadia o ventre e as coxas, agora que descobrira uma música nova que incorporara o murmúrio do Zambeze.

{Choínga: Chewing-Gum; Pombe: bebida alcoólica}

Encantamentos

Habituara-se a não ter ninguém na sua vida, e tudo acontecia como um castigo de mitologia grega, um caminho de lado nenhum para lado algum em companhia de ninguém, mas ele até não desgostava, assim ninguém o aborrecia ou irritava, a não ser a curiosidade mórbida dalgumas pessoas, que farejavam a sua vida como perdigueiros de peçonha. Mas, como toda a refeição e todo o gozo, também se cansou da sua vida ordeira e limpa, estava empanturrado de marasmo e solidão e já não aguentava mais; e a sua atenção virou-se para a mulher que fazia limpezas no prédio, não era muito velha e até era bem parecida, cheia de carnes como ele gostava, sabia dela que era viúva há alguns anos e que vivia numa quintinha nos arredores da cidade. Solidão e desejo reprimido se associaram, e roubou-lhe o telemóvel que ela largara na portaria enquanto lavava os degraus das escadas. Naquela noite, atou o telemóvel a um sapo preto com duas fitinhas, e meteu-os dentro duma panela. O texto do feitiço de amarramento, dizia que ele tinha de enterrar a panela numa encruzilhada, mas isso era difícil, vivendo numa cidade de ruas alcatroadas, e por recurso, escondeu-o na cave do prédio, que era quase a mesma coisa. Confiante no poder do feitiço, ficou à espera que a mulher viesse bater à sua porta, fervendo de desejo e paixão.
Na portaria, ela procurou sem êxito o telemóvel perdido e, com o telefone da portaria, ligou para o seu próprio número. Na cave, soou o telemóvel, ressoando na panela com a tampa entreaberta. Seguindo o apelo repetido do toque, descobriu a panela, destapou-a e viu o telemóvel atado ao sapo, que coaxava com aflição. Ela coaxou em resposta e saltou lá para dentro.

O Raposo foi preso. Raios'parta o Raposo! Nunca tivera jeito para a coisa, suava em bica quando devia mostrar serenidade e optimismo. Viram logo que o tipo tinha qualquer coisa a esconder, e até nem era muito, uma vintena de pequenos pacotes de material escondidos na roupa e no ânus.
Tinha de dar o próximo passo, e depressa, se não a engrenagem emperrava.
Ligou para a namorada e combinou um jantar íntimo, e preparou-o com tudo o que ela tinha direito. Encontraram-se no seu restaurante preferido, com a mesa já reservada para eles, decorada com um bouquet de rosas vermelhas, e um candelabro de velas ao centro. Comeram num ambiente romântico, conversa íntima e sonhadora, as mãos acariciando-se, beijadas melosamente. Quando pediu o champanhe, o violinista estacionou ao seu lado, tocando com alma.
Serviu-lhe uma taça de champanhe e tirou do bolso do casaco uma caixinha revestida a veludo, ela abriu-a, comovida, admirando o anel no seu interior.
- Não sei como dizer isto... - começou ele.
- Eu facilito-te as coisas, amor, queres que me case contigo, não é?
- Não, precisava que fosses o meu pombo-correio.

Um futuro melhor

Encostou a porta da pequena cabana para se vestir. Por preciosismo, porque não havia mais ninguém num raio de dezenas de quilómetros. Vestiu o uniforme, calçou as botas e colocou o capacete. Destravou a espingarda e iniciou a ronda. Percorreu o caminho serpenteante que ondulava pelos morros da ilha. Não era uma ilha grande, de encher o olho. Alguns montes pretensiosos e um acastelado de rochedos na orla sul, hostis como uma coroa de espinhos. Num labor de séculos, as chuvadas iam aplanando os montes mais expostos, dissolvendo a terra que corria para a borda do mar, onde as ondas a comiam. Junto aos rochedos haviam erguido um baluarte no século de setecentos, e um portinho diminuto onde atracava a barcaça do continente com os víveres. A sua casa estava erguida no pátio da fortaleza, protegida do vento incessante pelas muralhas de pedra cariada. Durante os largos meses que durava a sua comissão, não fazia mais nada do que as suas duas rondas diárias, e um pouco de pesca à tardinha, sentado na cantaria do portinho com a arma ao alcance do braço. Também recebia todos os dias do continente a comunicação via rádio, na qual fazia o relatório depois das sacramentais senha e contra-senha, terminada a qual, como num erupção de lealdade, se punha a fazer a manutenção das armas e a conferência do modesto paiol. O resto parecia-lhe fútil, desenvolver uma horta como alguns dos seus predecessores o haviam feito, ou procurar reparar algum pano de muralha da fortaleza com os materiais que lhe enviavam na barcaça. Era tudo passageiro, a comissão, o dever, a porcaria de vida que ali levava. Não negava que a tutela da ilha lhe dava um certo prazer, como se lhe pertencesse. Tinha pena que só a conseguisse descobrir no mapa pelas coordenadas, seria mais animador se ela fosse grande como Cuba ou Madagáscar. Aí, ele seria um reizinho, com o seu castelo e o seu porto de mar, a escrever cartas sonantes à noiva distante. Mas tinha noção de que a ilha era importante, porque se situava mesmo no limite das águas territoriais, uma escala preciosa entre a ilha e o continente, por onde sulcavam embarcações não autorizadas que ele detectava com os seus binóculos. Tinha de ser minucioso, porque às vezes quase nem se viam. Botes de pesca, e barcaças de rio, aos sacalões nas ondas revoltas, sempre cheias de gente, esperançosa e angustiada, que tentava sair clandestinamente da ilha grande. A única coisa que fazia era esperar, porque não valia a pena disparar de longe ao acaso. Era comum tentarem entrar no portinho da ilha, onde ele se posicionava, emboscado num ponto alto. Aí, a sua função era clara, e abatia-os um a um, sempre a começar pelo que conduzia o barco, quase sempre, o único que vinha armado. Alguns minutos de tiroteio tenaz eram o suficiente para reprimir aquela fuga. Continuava emboscado até estar seguro de que não havia perigo lá em baixo, e só então descia ao cais e atirava os corpos à agua, onde os tubarões se encarregavam do resto. Assim, não gastava balas com os moribundos. Com uma vara com um gancho na ponta, puxava a pequena embarcação até á goela do portinho, onde o refluxo das ondas a levava para o largo; e retirava do cais um ou outro objecto ou peça de roupa que ficara para trás para os atirar para o meio das rochas. Nunca revistava os corpos, talvez por pudor, porque lhe pareciam nus, assim, sem vida, sobre as pedras. Conhecera um camarada em Arroyo que se gabava de o fazer quando estava na ilha, e lhe mostrara dois dentes de ouro e uma pulseirinha de prata com um anjinho, que haviam sobrevivido desse saque de misérias. A única coisa que fizera para além dos seus deveres militares, fora enterrar dois corpos na ilha a pedido do piloto da barcaça, enterrara-os fundo, junto ao forte, na ala norte das muralhas, a mais abrigada dos ventos. Eram para adubar a terra, havia-lhe explicado o piloto, porque eram ali que os sentinelas, por tradição, cultivavam as suas espécies hortícolas.

Não era muito dado a estatísticas, mas cinco ciclones de grau 3 nos últimos sete anos, era obra, até dava medo de sair à rua, seria mais prudente tornar-se eremita num lugar ameno e distante. Não, isso seria de uma pasmaceira monstruosa, gostava da excitação e da tempestade, de deixar-se levar e enfrentar a turbulência sem saber como sairia dela. Este último, o ciclone Isabel, deixara o apartamento num caos. Isabel esquecera coisas suas nos roupeiros e no armário do W.C., e, em compensação, levara outras que lhe pertenciam, discos e livros, uma mala de viagem castanha, a gata persa por quem se afeiçoara. Tinha de ir á casa da mãe para falar com ela, para tentar separar as águas e minimizar os estragos. Mas aí havia Marta, a irmã, que ao olhar para ele, lhe lembrava uma foto de satélite de nuvens escuras de tempestade.


A saga continua

Indiana Jones, reprimindo um achaque de dor ciática, cruza a ponte de cordas sobre o abismo, a beldade loura ao seu lado carrega o ídolo olmeca em jade. Quando pisa terra firme, deita por terra a sua companheira para a proteger das balas que silvam à volta, roda sobre os calcanhares e desembainha o punhal de lâmina larga, mesmo a tempo de deflectir uma bala que se dirigia ao seu peito. Sem demoras, corta as cordas que seguram a ponte, precipitando no abismo a turba ululante que os perseguia.
-Indiana!
- Sim?
- Cortaste a ponte de corda, mas estamos no meio dum rochedo nu, não há aqui nada!
- Não te preocupes, deve estar a chegar o helicóptero do Estúdio, pedi que me trouxessem os remédios para a tensão.

Dia(brá)rio

A mulher levantou-se às sete da manhã, não se levantou à primeira, só desligou o despertador ao fim de uns segundos de cacofonia, e contou até dez para se sentar na cama de um salto, demorou-se um pouco na casa-de-banho, porque o dia não lhe corria bem se não conseguisse evacuar pela manhã, ficava com a sensação de entupida por dentro e a mínima coisa era suficiente para ela explodir. Um banho rápido e desceu à cozinha, fez o almoço com o rádio a tocar baixinho, depois, acordou as filhas e vestiu-as com um pouco de impaciência efervescida pela marcha dos ponteiros do relógio. Com a panela em cima do fogão a arrefecer, meteu as duas filhas no carro e foi levá-las ao infantário, sentadas em dois assentos próprios no banco de trás. Ao seu lado, no lugar do pendura, colocou um sacalhão com casacos delas de Inverno, que queria deixar na lavandaria.
Ainda tinha quase uma hora até entrar ao trabalho, ainda podia ir ao hipermercado porque tinha muita coisa que precisava comprar, detergente de máquina, papel de cozinha, gel de duche...desde que não fosse comida ou produtos de frio, podia ficar tudo na bagageira até à tardinha.
Carregou um pouco no acelerador. Sentia-se cansada, eram sempre as mesmas ruas, todos os dias, os ângulos das esquinas obtusas de sempre, as rotundas parvas, as pessoas com ar de mortalmente enfastiadas, e as buzinadelas catárticas. Parou no estacionamento do hipermercado com um chiar de travões. Fez as compras num ápice e acondicionou-as na bagageira do carro, com gestos metódicos. Quando fechou a tampa da bagageira, reparou num detalhe diferente, um balão solto a esvoaçar entre os prédios, era um daqueles balões modernos, metalizados, com a forma duma flor. Distinguia-se o fio pendurado, como um cabelo em torvelinho. Devia estar cheio com hélio, ia baixando devagarinho e quando parecia que ia tocar o solo, um sopro de brisa fazia-o erguer-se de novo nos ares. Era bonito, uma flor nos céus, aureolada pelo sol, e fê-la sentir uma espécie de doçura, como quando ouvia uma música ou um poema que a comovia. Quando entrou no carro, sabia que tinha de capturar aquele balão, e nem olhou para o relógio, desligara-se de tudo o mais. Meteu-se na estrada, e perseguiu as evoluções da flor no céu, escolhia as ruas que tomavam o mesmo sentido que ela, optando por estacionar o carro em cima dum passeio, sempre que a perdia de vista.
Em altos e baixos, o balão sobrevoou uma rotunda, e viu-o flertar com os gradeamentos das varandas dum prédio, pairar uns instantes sobre as piscinas municipais, depois, inflectiu a marcha junto ao quartel dos Bombeiros e começou a perder altura sobre umas vivendas à beira da estrada, mesmo ao pé dela. Encostou o carro e correu. O balão caíra no jardim duma das casas, uma vivenda de dois pisos de cor amarelo-torrado, com sebes em volta e as agulhas de dois ciprestes a ladear a casa. Tocou à campainha do portão, e apareceu-lhe um velhote de roupão. Explicou-lhe, com voz agitada, que o balão das filhas caíra no seu jardim e pediu-lhe se o podia ir buscar. Ele concordou e ela irrompeu por ali adentro, sob os latidos de um cão peludo preso a uma trapeira. Procurou o balão, e descobriu-o no meio duma piscina rectangular, agitava-se sob a brisa, mas o cordão embebido em água impedia-o de alçar voo outra vez. Mas ela não teve a clareza de espírito para perceber isso, e descalçando rapidamente os sapatos, atirou-se vestida à piscina, abraçando o balão e trazendo-o de volta para a margem, com uma expressão de triunfo. O velhote estava pasmado, mas ela não queria saber, mesmo ensopada dos pés à cabeça. Agradeceu e voltou ao carro, com o balão numa mão e os sapatos na outra. Com a porta do carro aberta, hesitou, não podia por o balão lá atrás porque ia molhar os assentos das miúdas, e também não era prático pô-lo em cima do saco com casacos porque iria dançar dum lado para o outro, podia pô-lo aos pés do banco do pendura mas tinha de tirar primeiro o saco, também queria tirar as meias e o casaco e, e, na esquina da porta ou nalguma aresta viva da carroçaria, o balão arrebentou nas suas mãos.
Sentou-se ao volante, e chorou como se lhe tivesse morrido um parente.

capicuaucipac
(palavra capicua)

Soito Interrompido

Relação sexual interrompida, no meio do mato.

Primeiro entre iguais

O convite era formal e inesperado: uma recepção num palacete de Cascais, assim, simplesmente, convidavam-no para uma festa em que iria estar presente a nata da sociedade portuguesa, pessoas que irrompiam semanalmente nas revistas cor-de-rosa e nos programas televisivos afins, com nomes excêntricos e pronúncias e expressões idiomáticas de um outro planeta.
Ficou estarrecido, interrogando-se da razão do convite. Afinal, ele era apenas um obscuro professor que, por acidente de percurso, aparecia nos emissões televisivas da Universidade Aberta a falar de literatura. Lá nas cúpulas rosas do país, alguém se devia ter deleitado com as suas aulas e achado que ele seria útil para elevar o nível cultural do evento. Se era por uma finalidade nobre, não podia recusar.
Já a malhar a frio, avaliou mentalmente a natureza da festa. Era tudo gente de sangue azul e a nadar em dinheiro. Não devia haver ali subprodutos rançosos do marketing, salvados de casamentos e divórcios estranhíssimos, ou sobreviventes deformados de reality shows caducos. Não em Portugal, terra de gente simples e autêntica como ouro de lei, que abomina as aparências e o botox com o mesmo empenho com que o Vaticano condena o preservativo.
Decidido a aproveitar o convite, meteu-se no carro e foi fazer compras ao lugar mais selecto do centro do país, a Feira de Santana, onde podia comprar roupa de marca de origem francesa e italiana.
A escolha foi elementar e rápida - um fato Jorge Armandi, uma camisa Tifosi Denen, sapatos Bumaranga, e para o toque final de classe, uns óculos escuros RayBau.
Ao provar a roupa em casa, sentiu finalmente que estava preparado para a festa, e intimamente era capaz de desafiar quem quer que fosse a distingui-lo dos outros convidados. Na sua vaidadezinha doméstica diante do espelho do roupeiro, deu consigo a pensar que devia estudar a sua origem genealógica. Quem sabe se...

Sheol

"Estás linda, como sempre!".

"Que exagero, eu sou uma sombra daquilo que fui, como podes dizer isso com essa emoção?".

"Porque é verdadeiro, e eu também sou uma sombra daquilo que fui um dia e, ainda assim, continuas a reconhecer-me, e só nos sentimos bem um com o outro".

Ela acenou afirmativamente, e poderia dizer-se que estava a chorar, se as suas lágrimas se pudessem ver. Abraçou-o, as suas silhuetas difusas fundiram-se, duas figuras com a mesma estatura tremeluzindo sob a luz ígnea do entardecer. Deram as mãos e afastaram-se juntos, as suas sombras sempre se haviam casado bem e podiam ser entrevistas a espaços, soltas dos seus corpos, aqui novamente visíveis num rectângulo de luz entre duas ruas, logo fundindo-se com a sombra dos prédios, para logo emergirem novamente, onde quer que a luz permitia que fossem avistadas.

Civilidade

Atirou a pequena pasta para cima da cama, e preparou-se para a reunião. Vestiu primeiro uns jeans com uma camisola interior porque iria ter calor. Em seguida calçou umas botas de cano alto, com chapas curvas de aço cosidas em volta para proteger os pés e uma parte das pernas. Para cima, vestiu um colete Kevlar que apertava nas costas, com um prolongamento que abotoava entre as coxas, para lhe proteger as partes íntimas. Como remate, encasquetou na cabeça um capacete de guarda-redes de hóquei e calçou duas luvas grossas de falcoeiro. Com dificuldade, pegou na pasta caída em cima da cama e caminhou com passos tolhidos até ao salão da Associação Recreativa. Quando entrou, ninguém se mostrou surpreendido com a sua indumentária, nem ele se admirou com o que o esperava - uma assembleia de rostos façanhudos, homens e mulheres de diversas idades, mas todos armados com varapaus e pistolas.
"Meus caros concidadãos! - discursou - terminado o semestre em que fui o responsável pelo condomínio do prédio, aqui estou perante vós, para apresentar o relatório de contas...".

Obrar

Três porquinhos irmãos decidiram tentar o déménagement, e saíram da casa da sua mãe para construir as sua próprias casas. O primeiro construiu-a em palha, porque era o que estava à mão, uma vez que habitavam junto ao Mar da Palha, o segundo em madeira, ao lado duma torre de vigia de incêndios, para não acabar chamuscado; finalmente, o terceiro porquinho optou por uma casa moderna em tijolo e cimento, com alicerces em ferro reforçado. Como não percebia nada do assunto, confiou a obra a um empreiteiro local, a quem teve de pagar antecipadamente para que obra se inicasse.
Quando todas as casas estavam construídas e os porquinhos brincavam pelo eucaliptal numa grande porcaria, ouviram ao longe o uivo do lobo mau e correram a refugiar-se nas suas casas. O lobo chegou à casa de palha e bateu á porta, e como ninguém a abrisse, mandou dois sopros e a casa foi pelos ares, e este porquinho correu a refugiar-se na cabana de madeira. Aqui, o lobo bateu ainda com mais força na porta, e com dois sopros, fê-la ruir, e logo os dois porquinhos correram a esconder-se na casa de tijolo do irmão sensato. Nesta, o lobo mau deu três murros na porta, e não precisou de gastar o fôlego, porque a casa desmanchou-se como um castelo de cartas, soterrando os três porquinhos.
O porquinho sensato não podia saber que as paredes estavam apenas encostadas umas às outras porque o empreiteiro gastara o dinheiro para os varões de ferro numa mota-de-água.

Sonhos

O homenzarrão e o cavalo enfezado ajudavam-se na lida dos campos. Puxava, puxavam, charrua, carregava, carregavam, feno e centeio. Ninguém percebia, que o que unia aqueles dois seres, era a simpatia que sentiam por se verem reflectidos um no outro. O cavalo era pequeno demais para ser um cavalo de corrida, sua persistente fantasia; e o homem enorme, em sua fantasia irmanada, era grande demais para ser jóquei.

Inocência

"Se quiseres, podes chorar no meu ombro!"- ofereceu a gazela, ao crocodilo esfomeado.

Frustração cósmica

Foi abduzido por extraterrestres, levaram-no da sua própria casa como um espécime para lhe fazerem testes e exames, mas devolveram-no de imediato, por não o considerarem um digno representante da raça humana.

Ir a uma florista, era uma daquelas coisas que só fazia quando era mesmo preciso, porque detestava a enxurrada de estímulos sensoriais em que era mergulhado, com a exuberância de vasos e arranjos e a confusão de cores e cheiros, do mesmo modo que detestaria se lhe servissem um coquetel com os vinte melhores vinhos do mundo, ou uma execução simultânea de todas as obras de Bach que amava. Os arranjos artísticos de flores, achava-os comuns e monótonos, talvez por influência de se passear pela net e ver páginas insípidas decoradas com fotos insípidas de lindas flores.
Entrou um pouco contrariado na primeira florista que encontrou, com extremo cuidado para não danificar as plantas e arranjos semeados pelo chão, próximos aos pés. Tem uma cliente á frente dele e espera, civilizadamente, estuda um calendário dos meses do ano com fotos de Anne Geddes, e recenseia os feriados dos meses mais próximos. A conversa entre a florista e a cliente estava animada - «As pessoas não esperam nada da vida, não têm ideais nem esperança. Mas eu acho que vou chegar à Terra Prometida», frisa a florista num tom musical, e continua, como se saboreasse as suas próprias palavras - «Eu, nós todos, vamos chegar à Terra Prometida! Foi-nos prometida e tudo fizemos para a merecer!». A cliente segura-lhe com afecto uma das mãos, fazendo-a interromper o arranjo de flores, as duas mulheres estão quase a ter um orgasmo místico, e entre elas, olham-no, sondando a sua expressão. «Huum! - pensa ele - Há menos feriados pela frente do que aquilo que eu pensava!».

- Já alguém lhe falou na Terra Prometida?
A pergunta foi-lhe dirigida pela florista, e hesitou por um momento se iria responder ou fugir, mas decidiu que não tinha de fazer nenhuma das coisas.
- Desculpe-me, mas só queria um ramo de rosas para oferecer a uma pessoa amiga, com um daquelas etiquetas de Parabéns, era só isso que eu procurava.
- Mas não me pode responder? Eu e esta minha irmã somos crentes e praticantes, e trabalhamos para entrar com os nossos irmãos na Terra Prometida, e vai haver muita luz e muita música, e seremos escoltadas por mansos leões e tigres, e Cristo vai pegar-nos ao colo para atravessarmos o fosso de víboras.
- O ramo de rosas pode ser até cinquenta euros, ou um arranjo, se me aconselhar algum...
- Eu sabia que as pessoas têm medo da luz - opinou a cliente, indignada - mas o senhor exagera. O que custa ao senhor, responder a uma pergunta simples desta nossa irmã?
- Ele está no seu direito - intercedeu a florista, recuperando o seu tino de empresária - não está aqui para responder a perguntas e não temos o direito de as fazer. O senhor falou num ramo de cinquenta euros?
- Sim, aproximadamente.

- Nós iniciamos agora uma promoção - explicou - quando a encomenda é superior a quarenta euros, como é o seu caso, nós passamos um talão de desconto, que pode ser deduzido na próxima vez que cá vier.
- Parece-me uma boa iniciativa!
- E pode dar-lhe jeito, nunca se sabe quando vai precisar de um outro ramo, ou de uma coroa de flores...

Traduzione

Por iniciativa de Stefano Valente, um texto meu pode ser lido, em italiano, no seu weblog: Narcolessia delle Giraffe.

Stefano Valente é romancista, poeta, ilustrador e tradutor, e as várias facetas do seu trabalho podem ser apreciadas no seu
site.

Só me resta agradecer a Stefano Valente (para mim, foi como receber uma prenda de Natal, uns meses antes ;).
Obrigado!

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...