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Valbom

No final de Junho de 1993, os dois irmãos Morais, estão de volta à liberdade. Sete anos na cadeia por um assalto que correu mal. Tinham entrado numa vivenda a julgar que os donos estavam no Algarve, mas apareceu-lhes a família inteira aos gritos na sala. Desataram aos tiros, e a única coisa que conseguiram com isso, foi cravar duas balas no abdómen da filha do casal. Agora, respiram de novo o ar da liberdade, que para eles tem tanto valor como o bocejo dum canguru no outro lado do planeta. Voltam à terrinha, uma aldeia chamada Valbom que cresceu como um fungo em volta da estrada nacional. Alguns amigos mostram-se felizes de os ver, umas palmadas nas costas, umas taças de vinho bebidas no café do lugarejo, e os dois pensam no que fazer à vida. Reocupam a casa da família e, para desagrado seu, têm de trabalhar um pouco para reerguer o telhado de alpendre, que ruíra como uma aba de chapéu descaído. Uma tia oferece-se para lhes limpar a casa, por bondade. Mete mãos à obra com a ajuda duma comadre, e reviram a casa toda. Detergente e lixívia com fartura, levam os cortinados para lavar e coser e deitam para o lixo os dois colchões infestados de pulgas, prometendo a tia que lhes havia de arranjar outros. Os dois comem em casa de familiares, e dormem nos assentos do velho Ford Cortina encalhado ao lado da casa, todo enferrujado e sem ar nos pneus. Uns dias depois, estão reinstalados na casa, com o mínimo de conforto a que estavam habituados. Só o autoclismo não funciona, e têm de despejar água com um balde para empurrar o mijo e a merda. Os dois conversam no alpendre sobre o que iriam fazer. Nenhum dos dois pensa em trabalhar, e o dinheiro não caía do céu. Desta vez, temos de ter mais cuidado! - Murmura um dos irmãos.


Augusto Azevedo também vive em Valbom e tem mais vinte anos que os irmãos Morais, que ainda são seus parentes afastados. Durante quase toda a sua vida fora forneiro numa fábrica de faianças de Alcobaça, e por volta do ano em que nasceram os Morais, o dono da fábrica promoveu-o. Precisava de alguém na rua para contactar os clientes mas, sobretudo, para os chatear cordialmente até eles liquidarem as facturas atrasadas, porque havia cada vez mais dinheiro empatado na rua, que precisava para pagar aos empregados e comprar matéria-prima. Azevedo tinha o perfil ideal. Era extrovertido e simpático, com o bom-senso suficiente para levar as coisas a bem e conseguir resultados sem alimentar antipatias. Em Valbom, também era uma pessoa muito estimada. Construíra um primeiro andar sobre a sua vivenda, para alojar o filho quando este se casou, e a sua casa era a melhor da terra, e a única com uma piscina grande. Já tinha uma neta, com a qual passeava ao Domingo, todo derretido. Quando chega a Valbom, vindo da fábrica ou da volta, não prescinde de parar religiosamente no café local, para beber um café ou um copo e trocar alguns dedos de conversa com o proprietário e os amigos. Ás vezes, chega já com a noite adiantada, mas pára lá na mesma. Nunca deixa a sua maleta de trabalho no carro, transporta-a na mão, fechada e com uma correntinha niquelada a prendê-la à pulseira de couro no braço esquerdo. Transporta facturas e recibos, mas também cheques e, ocasionalmente, algum dinheiro em notas. Pousa a mala no balcão ou em cima da mesa, e habituou-se de tal forma a tê-la presa ao pulso que quase nem dá por ela.
Os irmãos Morais começaram a tê-lo debaixo d'olho. Tinham retomado os seus trabalhos nocturnos, desapareciam durante duas ou três noites, e depois regressavam à sua mesa habitual no café, cheios de dinheiro, a beber cerveja e a comer uns petiscos. Tentavam trabalhar longe para não atrair suspeitas, mas a maleta do Azevedo parecia túrgida de promessas, era tentadora. Sabia-se lá quanto dinheiro não estava guardado ali dentro. Uma noite, saíram do café e seguiram o Azevedo. Ao contrário do que deve ser feito por alguém que transporta valores ou representa dinheiro, o Azevedo tinha sempre a mesma rotina, todos os dias. O carro ficava junto ao café e percorria as mesmas ruas até casa porque, de manhã, iria percorrê-las em sentido inverso, tomar o pequeno-almoço no café, e arrancar. A meio caminho entre o café e a casa dele, havia uma obra abandonada. Era ali que tinha de ser dado o golpe, concordaram os dois irmãos, não havia casas do outro lado, apenas o muro duma propriedade, e a obra não tinha taipais, era toda aberta. Um dos irmãos ficou encarregue de arranjar um corta-rebites para cortar a corrente e quando o conseguiu, depositou-o na obra, em pé, encostado à face interna dum dos pilares da fachada. O cenário estava preparado. Continuaram a ir ao café, como todas as noites, espreitando e avaliando o Azevedo. Uma noite, o Azevedo vem invulgarmente exuberante, cumprimenta todos em voz alta e percorre as mesas, apertando efusivamente a mão aos presentes. Senta-se ao balcão a conversar, cheio de sorrisos. Os irmãos entreolham-se e miram a maleta do Azevedo, parecia invulgarmente cheia. Um deles levanta-se, a pretexto de ir buscar o jornal A Bola, e tenta escutar a conversa.
- Minha neta...dinheiro que pague...amanhã vai ser um dia especial - e um gesto enfático, umas pequenas palmadas no bojo da maleta, seguido de uma frase incendiária - hoje é que trago aqui um verdadeiro tesouro...
Largou o jornal e deu um toque no cotovelo do irmão. Saíram logo do café e em passos apressados, subiram a rua até à obra. Apagaram os cigarros e emboscaram-se no escuro a cochichar, agitados. Passaram-se parcos minutos, que lhes pareceram horas, até ouvirem os passos do Azevedo no empedrado da rua. Distinguiram a sua silhueta característica, com a maleta acorrentada ao pulso. Esperaram até ele chegar diante da obra e saltaram-lhe ao caminho, agarraram-no pelos dois, tapando-lhe a boca e golpeando-lhe nas costas e na cabeça para vencer a sua resistência. Enquanto um o imobilizava, já deitado no chão, o irmão, foi à procura do corta-rebites, mas não estava onde o tinha deixado. Rogou pragas a quem o tinha tirado. O Azevedo esperneava e sacudia-se, tentando libertar-se, e o irmão via-se em apuros para o segurar. Dirigiu a este um aviso para lhe largar a cabeça, e quando o Azevedo começou a gritar, ergueu nos ares um pedregulho que estava encostado a uma betoneira, e esmagou-lhe o crânio como se fosse uma melancia. Repetiu o golpe, para ter a certeza de que o calava. O irmão puxou de uma navalha de ponta-e-mola e, em rápidas surtidas, cortou a pulseira de couro para libertar a maleta. Os dois correram pelas ruas sombrias, e só se detiveram dentro de casa. Correram as cortinas, fecharam a porta da rua à chave e acenderam a luz. A fechadura foi forçada com a mesma navalha, e abriram-na. Os olhos, os dedos ansiosos e pintalgados de sangue, esmiuçaram o conteúdo, papéis e mais papéis, nada mais do que papéis e, no fundo, um saco com um embrulho. Já desesperados, rasgaram o papel de embrulho, revelando à luz ocre do candeeiro, uma boneca Barbie na sua caixinha florida.

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