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Uma vez por mês, quando o tempo estava bom, faziam uma limpeza geral à casa, abriam-se as janelas todas, punha-se a assoalhar cá fora os tapetes e cobertas de sofá, e fazia-se uma limpeza a fundo. Foi numa dessas limpezas gerais que descobriram o fungo, chamaram-lhe fungo porque não sabiam que nome lhe dar, tinha um aspecto baço e gelatinoso e revestia um canto das águas furtadas como uma teia de aranha congelada. Tentaram removê-lo, mas não o conseguiram, era rijo como os cornos e não se partia nem a golpe de picadeira. Não adiantou nada usarem produtos químicos em cima, amónia ou lixívia, porque permanecia inalterável. Foi alguma coisa que tu trouxeste na sola dos sapatos, disse a dona da casa ao marido, a quem recriminava constantemente por nunca descalçar as botas sujas quando entrava em casa, quer viesse da horta ou tivesse acabado de chegar da caça.
Mas eram as águas-furtadas e tinham lá muito espaço, não fazia mossa. No mês seguinte, o fungo tinha aumentado e revestia quase todo o chão e os dois primeiros degraus da escada. Parecia um ringue de patinagem no gelo. Repararam que às vezes parecia mudar de cor, como uma coisa viva, e começaram a preocupar-se. Consultaram várias pessoas e entidades, que não deram importância alguma ao fenómeno, mas um cunhado dele, que trabalhava nos Serviços Municipalizados, declarou que a origem daquilo eram os índices de humidade da casa, e vendeu-lhes um desumidificador industrial, uma máquina impressionante que ainda rugiu e trepidou durante uma semana ao lado da coisa, antes desta a envolver como um glaciar paciente.
Quando chegou ao quarto do casal, estes desistiram de dormir ali, e montaram uma tenda de campismo no relvado da casa. Começaram a procurar casa, e colocaram uma tabuleta na entrada para vender aquela. A mulher, que sempre fora a mais pragmática dos dois, disse com entusiasmo ao marido que podiam dizer a quem a viesse ver, que não havia casa mais prática de limpar, que se punha toda num brinco apenas com uma esfregona e meio balde de água, como quem puxa o lustro a um espelho.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...