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Quando ele era pequeno, era mesmo pequeno, tinha em média dois palmos a menos de altura do que os meninos da sua idade, e os outros, maiores em altura, não deixavam de lhe recordar esse facto, e atribuíam-lhe alcunhas, todas as que a sua imaginação conseguia requisitar ao compêndio de crueldade infantil. O que lhe custava mais eram as maldades. A entrada da Escola Primária era feita por um pequeno portão de ferro no centro de dois muros convergentes. Quando ele se dirigia para o portão, aquelas harpias em corpo de menino, esperavam-no, sentados no alto do muro e arremessavam-lhe caracóis - caracol, era uma das suas alcunhas mais populares - que explodiam em cima dele enquanto corria para o interior da escola para minimizar os estragos. Na hora do recreio, ele voltava furtivamente àquele sítio, porque lhe fazia impressão os caracóis ainda vivos, parcialmente esmagados num borrão de baba. Com um pedaço de cana que mantinha a um canto do portão, removia-os com cuidado para a palma da sua mão, enfarinhados em terra, e depositava-os no meio dos arbustos, na esperança de os ajudar a sobreviver.

Muitos anos mais tarde, continuava a ser uma pessoa de baixa estatura, mas sem que isso originasse um halo maldito em sua volta. A tortura psicológica dos seus tempos de criança, havia-se esbatido numa torrente de vivências e memórias, e já não lhe dava importância alguma. Numa noitada com os amigos numa ronda de copos e bares de strip-tease, viu-se à porta da sua casa às cinco da manhã, e não lhe apeteceu entrar. Pegou no carro e conduziu ao acaso, até se achar na marginal de S. Martinho do Porto. Saiu e caminhou um pouco. Apesar do álcool e da agitação da últimas horas, sentia-se vazio, nunca se sentira tão vazio. Enfastiou-se de ouvir o mar e de tentar fixar as embarcações de pesca ancoradas no negrume. Continuou a caminhar, encostou-se ao tapume de uma obra para puxar de um cigarro, e ouviu sons no interior do prédio em construção. Havia uma nesga na rede de malha de aço que o cercava. Entrou também. O prédio estava apenas alçado, havia poucas paredes de tijolo, apenas a estrutura, as placas e escadas e ferros armados. Encontrou a origem dos sons, um grupo pequeno de pessoas, sentado a um canto do rés-do-chão, próximas umas das outras, entregues ao vício em torno de uma colher aquecida. Encolheu os ombros e, como não tivessem dado por si, dirigiu-se às escadas e começou a subir os degraus. Foi subindo sempre até não haver mais degraus, foi até uma ponta do terraço e sentou-se na berma. Devia estar a uns sete andares de altura, a marginal era um rio de luz e a Baía escura pareceu-lhe um lago cheio de petróleo. Subira por subir, sem nenhuma ideia clara a empurrá-lo, mas ali, com os pés varejando no vazio, ocorreu-lhe que podia saltar, um impulso para a frente, uma pequena aplicação de força e tudo acabava. Quando começou a sentir o torpor e a sensualidade daquela ideia, uma recordação emergiu e estracinhou-a, a de um menino pequeno que se condoía dos caracóis, aqueles seres minúsculos eram arremessados com força e, no entanto, sobreviviam, agonizavam, mas estavam vivos. A morte não o assustava, aquilo sim, era assustador, cair e não morrer, estropiado e partido. Levantou-se e começou a descer os degraus. Era irónico, mas os miúdos beras da sua infância tinham-lhe salvo a vida.

Dicionário

                O “seu” dicionário não tinha muitas palavras, e entre estas, havia muitas quase virginais, intocadas, outras devassadas e p...